quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Sobre o Grito

Outro dia dei carona a uma estudante de pós-graduação da Letras e me espantei porque ela não sabia quem foi Jorge Andrade. Ainda disse para se justificar: "nós não sabemos muito de literatura brasileira". Esse nós, em teoria, eram os alunos de Letras na FFLCH, e se não sabiam muito do assunto era porque talvez o "nós" jogasse culpa aos professores.

Realmente, não há o que comentar numa ocasião dessas.

Talvez seja um acaso, mas li "A moratória" com 17 anos, porque era sugerido para o vestibular. Pelo título achei que seria chatíssimo, foi uma surpresa descobrir que não.

"O grito" é de 75, e aproveita temas e idéias da obra teatral de Jorge Andrade. A novela não foi bem recebida pela crítica da época. Isso foi uma frustração a mais para ele, que encarava seu trabalho na TV com a mesma seriedade com que levava a vida, em geral. Segundo a pesquisadora Maria da Glória Bordini, Erico Verissimo morreu em 28 de novembro de 1975 depois de assistir à novela. Ele conversara com Jorge Andrade ao telefone, durante o jantar, incentivando o escritor a seguir adiante, apesar das críticas que vinha sofrendo. Assistiu a novela às 22h e teve um infarte.

Sei que não existe uma relação necessária, mas de todo modo é comovente.

Segue um trecho de crítica do Jornal do Brasil, de abril de 76, escrita por Paulo Maia:

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"O Grito é a prova, talvez definitiva, de que Jorge Andrade, o respeitado dramaturgo, não é feliz na telenovela porque, infelizmente, não fala a linguagem da televisão, não aprendeu aquilo que, no jargão poderíamos chamar de televisês.

Ao 'enobrecer' sua programação novelesca com nomes como Jorge Andrade ou Dias Gomes (o celebrado autor de O Pagador de Promessas), a televisão está usando essa confusão de rótulo com o produto e se favorecendo com ela. Não será a participação de nomes ilustres em autorias de textos que tornará verdadeiro o princípio, segundo o qual 'telenovela é cultura'. Esse conceito pode ser entendido de diversas formas, mas com a intenção com que é emitido se assemelha ao ridículo em que cai a TV Cultura, Canal 2, de São Paulo, que, para justificar sua programação esportiva, obriga os narradores a gritarem, em vez de 'gol', 'esporte é cultura'.

Nesse conto de se vender gato por lebre, o consumidor deve estar atento, provando o produto e não se deixando envolver pelo rótulo. Não é à toa o fato de, no momento, as novelas de melhores resultados estéticos e de público, e de menos atritos com o veículo, serem feitas/escritas não por dois respeitáveis teatrólogos, mas por duas experimentadas domadoras do veículo-tevê, as Sras Ivani Ribeiro e Janete Clair. 'A Viagem' e 'Pecado Capital' não se realizam por suas extremas qualidades ou por suas profundas mensagens culturais, mas, sobretudo, pela extrema sinceridade com que falam a língua do gênero dentro da linguagem do veículo."

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Love's melody

Comecei minha pesquisa sobre as telenovelas da década de 70 por motivos literários, digamos assim. De todos os gêneros "audiovisuais" (essa palavra horrível que hoje usam para falar de cinema e TV), a telenovela é um dos poucos casos, no Brasil, em que o escritor foi realmente um "autor". No cinema, como dizem pessoas mais experientes que eu, o roteirista é o secretário ou o psicanalista do diretor.


Foi meu amigo Júlio quem falou, pela primeira vez, da trilha sonora de "O grito". Havia sido relançada ou algo assim, e ele iria procurar. Depois uma colega na ECA, que realmente assistiu a novela (eu era recém-nascida), comentou que deveria ter o LP na casa da mãe dela.

Eu sabia, porque está nos livros, que a venda das trilhas sonoras tinha sido um grande negócio para a Globo e seus executivos, e que isso fazia parte do imaginário de quem assistia as novelas. Mas foi só quando resolvi de fato procurar a trilha, pelo eMule, que lembrei que eu mesma, adolescente, ouvi muitas trilhas dos anos 80, e isso havia me marcado.

Teve uma novela ambientada nos anos 50 - "Bambolê", acho - que junto com "Anos dourados" gerou um fascínio pelo rockabilly em mim e minhas amigas, onda que durou uns dois ou três anos.

Também lembro vagamente de uma música da Tracy Chapman, "Baby can I hold you", que parecia tão comovente...

Estive mergulhada na cultura de massa na adolescência, depois construí uma barreira quando entrei na faculdade e descobri o mundo maravilhoso da intelectualidade uspiana. Não gosto do culto nostálgico pelas porcarias da infância de cada um, mas talvez eu tenha exagerado: agora estou adorando a trilha internacional de "Espelho Mágico", de 1977.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Tempo esmagado

Desde a primeira versão do livro, havia uma distância entre Paula e Denise quando adultas. Paula casava, tinha filhos e acabava sufocada nisso, o que em teoria seria o resultado de seus sonhos românticos de adolescente.

Na semana passada, me pareceu que isso estava muito antigo, não combinava com a Paula descrita no início do livro. Pra que apagar bruscamente as vontades que ela sentia quando mais nova? Sim, o casamento e os filhos... mas mesmo que isso esmague o tempo de uma mulher, não esmaga suas vontades.

Então reescrevi assim:

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Primeira versão:

"Hoje moramos em cidades diferentes. Faz tempo que não a vejo - tenho seu telefone na agenda e muitas vezes penso em telefonar, mas não tenho coragem de ligar durante o dia sem um motivo preciso. Ela tem filhos pequenos e sei que atrapalho quando ligo à tarde. São três meninos homens, ela não tem empregada, está sempre ocupada com a bagunça da casa. Às vezes lembro de seu rosto cansado entre os meninos correndo no jardim, num fim-de-semana quando a visitei, dois anos atrás."

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Versão atual:

"Paula casou mais cedo. Formou-se em pedagogia mas nunca trabalhou; engravidou sem planejar no último ano da faculdade, gostava muito do namorado e resolveram casar. Depois quiseram ter o segundo filho logo, para "resolver de vez o assunto", mas nasceram gêmeos e o assunto não se resolveu tão facilmente. Escolheram gastar mais com escolas melhores, por isso não têm empregada, Paula cuida de tudo sozinha. Os três meninos têm uma energia assustadora, nenhum dos avós se arrisca a ficar com eles no fim-de-semana, o marido tem medo de levá-los passear sem ela por perto. Todos sempre prometem ajudar "quando eles ficarem maiorzinhos". Às vezes ela consegue distribuí-los entre as mães dos colegas de escola, e me liga orgulhosa: "consegui despachar os três". Nesses momentos conversamos.

As conversas são muito parecidas. Paula sempre repete as mesmas coisas respirando fundo, entre pausas. Diz que quer muito voltar a trabalhar, que não deveria ter casado tão cedo, que ela não tinha idéia do era uma criança. Que foi boazinha demais no começo, eles não aprenderam a respeitá-la, agora precisa sempre gritar senão "comem macarrão na minha cabeça", é a expressão que usa. "Aproveite seu marido enquanto você não tem filhos", me diz sempre."

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Eu e meu pai

Fotos assim de frente me deixam envergonhada, as bochechas gordinhas quando sorrio.

Mas estou com meu pai, por isso feliz.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Consagração e camiseta

No domingo fomos ao mirante de Dom Bosco e ao Vale do Amanhecer. Eu disse ao meu pai: "passeios suspeitos para um ateu."

O Vale é calmo e desperta um surpreendente respeito, depois do choque diante das roupas coloridas. Assistimas à consagração do por-do-sol, comprei uma camiseta e voltamos para casa.




terça-feira, 21 de outubro de 2008

Os preparatorianos

Continuando sobre o assunto das "gerações mortas".

Ouvi o nome Mário Chamie pela primeira vez na ECA. Ele é pai de uma ex-aluna, agora cineasta, Lina Chamie. Gosto muito da Lina então, por associação, eu tinha inclinação a simpatizar com ele. Mas na época (2001), não eram muito claras para mim certas rixas acadêmicas e literárias. Gostei da entrevista, ou pelo menos de partes, e mandei um e-mail a meus amigos comentando.

Era uma lista que mantive por alguns anos: amigos, professores, conhecidos. Pessoas para quem eu mandava textos e idéias. Bem, um desses professores me respondeu simplesmente: "não perca tempo com quem não vale a pena".

Foi então que comecei a perceber as divisões antes insuspeitas.

Hoje percebo melhor a provocação que existe no trecho abaixo. Mas, sinceramente, deixando de lado as questões de direita x esquerda, progressitas x conservadores... tem alguma verdade no que está dito aí.

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Estado - Depois do anos 70, a poesia brasileira, a dos anos 80 e 90, inventou um novo dizer ou recaiu na mesmice multiplicada de que você fala?

Chamie - De certo modo, os poetas de 80/90 (surgidos no período ou remanescentes dos anos 60) estão para as vanguardas e a poesia marginal assim como a geração de 45 esteve para o modernismo. Tomada ainda por resquícios livrescos, a produção desses poetas retraiu-se a nichos universitários, antologias, coletâneas, coleções ou corporações autopromocionais. Curiosamente, o aumento de suas publicações e a ampliação de seus nichos somam menos as diferenças e multiplicam mais as igualdades.

Não se destaca nessa produção nenhuma personalidade criadora, marcante e original. Para se ter idéia disso, basta recorrer às suas coletâneas ou antologias. A leitura de uma valeria pela leitura de todas. Por exemplo, a coletânea Artes e Ofícios da Poesia (SMC/Artes e Ofícios editora, 1991), organizada por Augusto Massi. Ler os depoimentos e poemas, ali presentes, revela os ofícios e artes de uma poesia que tapa os ouvidos para fugir da própria voz. Os poetas que lá estão, em sua maioria, primam pela paráfrase, citação, cópia, transcrição e rasura de discursos alheios já consagrados. De Sebastião Uchoa Leite, passando pelo epígono da poesia práxis, Armando Freitas Filho, até José Paulo Paes ou Francisco Alvim, o diapasão parece ser um só: andam muito à sombra de autores ou tendências que veneram, nutrindo-se de seus resíduos e suas migalhas. Mal comparando, lembram células sem DNA próprio. São, por isso, criativamente desimportantes, apesar de bem cultivados em seus ofícios e artes. Mário de Andrade os chamaria de "preparatorianos", ou seja, de ótimos e aplicados aprendizes. Outros preparatorianos, da estimável estirpe de Nelson Ascher, Carlito Azevedo ou Arnaldo Antunes, caso fizessem parte da coletânea acima, com certeza se irmanariam na multiplicação dos pães e peixes da igualdade. A desimportância criativa, porém, não anula a importância histórica dos preparatorianos: a de manterem a poesia em promissor e superável compasso de espera.

domingo, 19 de outubro de 2008

Geração morta

Alguns anos atrás tentei escrever um "manifesto" porque eu precisava muito de "um grupo". Um professor meu, editor há muitos anos, respondeu: "você não precisa de um grupo"; deixo a interpretação disso em aberto.

Estou me lembrando disso há alguns dias. Seguem uns trechos. Está no meu site antigo; chamam-se "Manifesto" e "Mais coisas manifestadas.

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Uma idéia que me intriga há algum tempo são as "gerações mortas" - vários grupos de pessoas interessantes que de repente morrem, cada uma por seu motivo, e o que elas faziam pára de ser feito. Idéias normalmente acabam por desgaste ou desinteresse - no caso dessas gerações, acabam por morte. Isso é uma especulação minha de que, se os donos das idéias continuassem vivos, iriam insistir até que as idéias pegassem. Como morrem prematuramente, as idéias se perdem pelo mundo como crianças órfãs.

Uma dessas gerações mortas, que me interessa especialmente, é a poesia marginal da década de 70. Para as pessoas que viveram essa época, pode parecer estranho o que estou falando. Mas aviso, eu que nasci em 74: quem nasce agora não fica sabendo dessa gente. Não constam das apostilas de literatura, não constam dos artigos de jornais, não constam de novas edições. Simplesmente não constam. Estão mortos. De vez em quando se descobre algum em algum sebo. Mas pra isso vai muita sorte e disposição aleatória.

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Estado - Você vê relação direta entre o sistema do regime militar de 64 e o aparecimento da chamada poesia marginal dos anos 70?

Chamie - Sem dúvida. A poesia dos anos 70 assumiu a sua marginalidade frente a tudo o que lembrasse poder ou sistema político e literário. Razão pela qual os poetas marginais não constituíram um movimento, não se organizaram em grupo homogêneo, nem lançaram qualquer manifesto programático. Despolitizados, Literatura e Estado, para eles, eram faces da mesma moeda, cunhada pelo mito da norma e do controle. Mais: Literatura e Estado, a seu ver, se contrapunham à vida cotidiana e anônima das sensações e emoções individuais. Se a poesia anterior se exilava no corpo social (para combatê-lo ou não), a poesia da década de 70 procurou exilar-se no corpo físico das pessoas e do próprio poeta para, numa réplica negativa do corpo social, romper seus limites. A experiência corpórea desse rompimento incluía a droga, o sexo e outros avatares da contracultura. Assim, bem ou mal, a poesia da década de 70 'cenarizou' o embate da vida contra a letra, o que o bom humor do poeta Cacaso soube resumir neste seu poemeto: "Poesia/ eu não te escrevo/ eu te/ vivo/ e viva nós!"

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É uma pena que eu não saiba escrever um manifesto, ou alguma coisa assim. É pena também que eu não tenha um grupo, e se descubro um livro ou fato interessante na quinta-feira à tarde, posso revirar mentalmente minha lista de conhecidos, como já fiz algumas vezes, e não encontro ninguém receptivo pra quem possa dizer "Veja, este fato é interessante", e isso vá resultar em algo.

Tenho vários amigos que me escutam, mas escutam na paciência que consegui merecer deles, com minha alegria eventual; escutam como respeitando minha personalidade e minha idiossincrasia.

Mas não é isso que eu quero.

Não sou idiossincrática.

As coisas que falo, mesmo que pareçam tolas, detalhadas exageradamente e irrefletidas, são mais pensadas do que parecem, e às vezes até minha verborragia inconseqüente é calculada.

Pois eu gostaria que se escrevesse melhor.

Eu gostaria que as pessoas fizessem coisas mais interessantes com suas vidas, e escrevessem e publicassem coisas mais interessantes.

(continua)

sábado, 18 de outubro de 2008

Galinha kasher

Depois dos conflitos da primeira noite, estou simpatizando com as galinhas.

São mais pacíficas que cachorros: ficam ciscando pelo quintal, os pintinhos correndo atrás, o galo pescoçando. Meu pai precisa matar os machos regularmente, quando crescem, porque o equilíbrio natural só funciona com um galo por quintal.

Fiquei no sofá, de manhã, assistindo Wandi Doradiotto num daqueles shows diurnos do Sesc, um samba simpático sobre um operário feliz da vida porque namora a mulher do patrão. Então tentei me imaginar criando galinhas e tendo que matá-las para evitar a superpopulação. Se o ato violento é um complemento indispensável daquela paisagem pacífica no quintal, como matá-las e evitar para si mesmo a imagem de violência? Tendo uma pia especial para isso? Lavando direitinho, tratando a galinha com carinho na hora do abate?

Então entendi o sentido da comida kasher. Deve ter sido estranho, para essas pessoas que queriam acreditar em ética, justiça e bondade, reconhecer que precisamos matar os outros para sobreviver.

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Relendo o texto, me pareceu uma metáfora da situação em Israel. Realmente, não foi minha intenção.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Nené - letra e tradução

Ecco sto pensando a te
Nené la mia
Capire no
Né dire so
Per me che sia
Forse ti confondo il viso
Creatura mia
Mi passi e vai
Poi torna ancora
Poi non ci sei
Piccina mia
Bambina mia
Noi fra di noi
Non fummo mai
Per sempre
Stati veri e sinceri
Bello è stato invece e vero
Il gesto che fu mio
Che fu tuo
Fra di noi
Così cammino nella vita anche con te
Ci accompagniamo e come in mezzo al mare
Tu diventi un'isola Nené
E si ammonticchiano le storie sulla via
E tutti insieme sono la memoria mia
Come siamo noi
A me sembra così
A me sembra così
Forse è anche nostalgia
Ma che dolce sia
Che scenda in fondo al cuore mio
Circondi il mondo
E insieme a te respiri
Un'altra volta ancora
Ci ritroviamo fra di noi
Fra di noi
Fra di noi
Così cammino nella vita anche con te
Ci accompagniamo e come in mezzo al mare
Tu diventi un'isola Nené
E si ammonticchiano le storie sulla via
E tutte insieme sono la memoria mia
A me sembra così

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Ó, estou pensando em você
Nené, minha garota
Entender não
Nem dizer eu sei
Por mim, que seja
Talvez eu confunda teu rosto
Criatura minha
Você passa e vai
Depois ainda volta
Depois não está aqui
Pequena minha
Menina minha
Nós entre nós
Não fomos nunca
para sempre
verdadeiros e sinceros
Mas foi bonito, e verdadeiro
o gesto - que foi meu
que foi teu
de nós dois
Assim caminho na vida também com você
Nos acompanhamos e como em meio ao mar
Você se torna uma ilha, Nené
E vão se amontoando as histórias no caminho
E todas juntas são a minha memória
Como somos nós
É o que me parece
Talvez seja também saudade
Mas que seja
que desça fundo no meu coração
circule o mundo
e respire junto a você
Ainda uma vez
Nos encontramos, nós dois
Nós dois

Ascendente em câncer

Em Brasília, lendo o romance do Contardo Calligaris, assistindo várias palestras sobre história do cinema, conversando com gente demais. Quando estudava astrologia, li que "pessoas com ascendente em câncer precisam de sua casa como proteção às agressões do mundo externo".

Estranho é que mesmo coisas suaves parecem agressivas, simplesmente por que não estou em casa.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Algum barulho

Estou em Brasília para um congresso de estudos de cinema, meu pai foi me buscar no aeroporto. Antes de dormir ele avisou: "Se você ouvir algum barulho, são os galos no quintal."

Algum barulho? Durante a noite, parecia que os galos e galinhas estavam dentro do quarto, uma sinfonia de aves alimentícias ao pé do meu ouvido.

domingo, 12 de outubro de 2008

Ler em voz alta

Tentei organizar mais um vídeo. A gravação e a edição são primárias. Eu simplesmente queria ler em voz alta. Espero que faça sentido para mais alguém.

video

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Em terapia

Na próxima terça-feira vou a Brasília, depois minha terapeuta tem um compromisso. Para repor as sessões, fui três vezes à terapia nesta semana.

Num momento, tive a impressão de que ela ficou com os olhos vermelhos.

Se fosse verdade, seria bonito. Mas tive vergonha de olhar diretamente por isso não sei.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Sistema nervoso

Hoje vou à Cobasi vacinar as cachorrinhas. Eu estava esperando minha veterinária de sempre voltar das férias, mas ontem a Lolita tremeu um pouco e fiquei com pânico de Sinomose.

Devia ser o frio. Ela estava meio adormecida e levantou trêmula quando cheguei em casa. Mas a imagem me fez lembrar de minha primeira cachorrinha, Belle, que morreu dessa doença antes de completar um ano. O vírus ataca o sistema nervoso e o bichinho começa a tremer, é uma doença forte, poucos sobrevivem.

Na época, dois ou três cachorros morreram assim na casa do meu pai. Até percebermos que a vacina nacional não era boa.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Um modo mais digno

Na prova que passei aos meus alunos na semana passada, pedi que adaptassem o conto "Alguma coisa que não precisa de coisa alguma", de Miranda July. É a história de duas adolescentes que decidem morar juntas e tentam encontram uma senhora rica que as sustente.

Quando me formei, eu tinha essa idéia: pedir a um banqueiro uma mesada de R$ 1.000 para que eu pudesse escrever e não precisasse trabalhar. Sem a contrapartida das garotas do conto; era tão pouco dinheiro para alguém tão rico, um mecenato inofensivo.

Hoje, corrigindo as provas dos alunos, de repente percebi como era uma fantasia adolescente. A dificuldade de aceitar o trabalho, a responsabilidade pela própria vida. Um último desejo de continuar na infância recebendo tudo do mundo.

Na época eu pensava que a "arte" justificava meu desejo de não trabalhar.

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“Tinha que haver um modo mais digno de viver. Precisávamos de tempo para refletir sobre nós mesmas, para desenvolver uma teoria sobre quem éramos e dizer isso com música.

Com esse objetivo em mente, Pip veio com um novo plano. Partimos para ele com determinação; por três semanas seguidas escrevemos e reescrevemos e ressubmetemos nosso anúncio ao jornal local. Finalmente, o Portland Weekly aceitou; não soava mais como prostituição evidente e mesmo assim, para o leitor certo, não pareceria ser outra coisa. Nosso público-alvo eram mulheres ricas que gostassem de mulheres. Isso existe? Também aceitaríamos uma mulher sem muitos recursos que tivesse economizado seu dinheiro.

O anúncio saiu por um mês, e nossa secretária eletrônica transbordou de interesse. Todos os dias descartávamos centenas de homens para encontrar aquela senhora especial que pagaria nosso aluguel. Ela estava demorando a aparecer. Talvez ela nem mesmo lesse aquela seção do jornal semanal grátis.”

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Trecho do conto “Alguma coisa que não precisa de coisa alguma”, do livro “É claro que você sabe do que estou falando”, de Miranda July (Agir, 2007)

sábado, 4 de outubro de 2008

Não assistam a isso

Alguns anos atrás, quando comprei o primeiro computador com leitor de CD (e não apenas disquete), vi um jogo para crianças:"Estúdio da Barbie - Faça seu próprio filme" ou algo assim. Era uma versão simplificada do programa Director, com imagens pré-selecionadas da Barbie em vários ambientes. As crianças podiam montar filminhos usando aquele material.

Eu já tinha uns 25 anos mas fiquei imaginando como acharia aquilo maravilhoso se tivesse 10 (não pela Barbie, naturalmente. Nunca tive nem quis ter nenhuma). Tentei usar o Director meio toscamente nessa época, mas era um tanto complicado para minha pouca paciência informática, não-hacker nem nerd.

Ontem ouvi meus alunos falando de um programa que já vem incluído no novo Windows, o Movie Maker. Então hoje resolvi fazer o teste: será que é mesmo tão simples que eu possa aprender em 1 minuto? Realmente, é.

Então me cresceu uma vontade de fazer uns filmezinhos...

Não assistam ao que segue abaixo. Foi o que fiz em 1 minuto.

video

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Senhor de seu harém

O jardim está sendo destruído, porque uma das meninas tem personalidade de filhote selvagem. Eu a chamo Uxa, porque lembra vagamente a cachorrinha que tive na adolescência. O cabrito a chama Uísque, porque parece uma "uisque" siberiana.

A magrela veio com o nome "Lorinha". Para ficar mais fácil, grito "Lolita" no jardim. Dentro de casa, o cabrito a chama de Formiga.

Joaquim anda desconfiado pelos cantos. Mas ele ainda é o rei dos nomes. Joca, Chewbacca e/ou Chuba. Não é mais o dono do pedaço (afinal chegaram as fêmeas), mas é o senhor de seu harém.




quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Pacote de Sucrilhos

Eu e meu amigo Carlos fomos selecionados num edital de desenvolvimento de roteiros de longa-metragem. Isso significa que, se não houver nenhum pepino burocrático, a partir de novembro ficaremos 6 meses desenvolvendo esse projeto.

Estou pensando em como me organizar, porque planejava recomeçar o livro "Limas da Pérsia" nesses meses. Talvez coloque um pouco por dia no blog - nem que seja uma frase - para manter a disciplina e não interromper o pensamento. Seriam frases sem explicação: para compreender, seria preciso acompanhar a sequência. Vamos ver. Tive várias idéias sobre a personagem, por isso não quero parar.

Quanto ao "Afeto", já tem tantos pedaços nesse blog que talvez as pessoas nem precisem ler o livro... o mosaico mental vai ficar mais interessante, preenchido na mente nebulosa de cada um. Depois de imaginar seu livro ideal, quem ler o texto real vai pensar: "ah, é só isso?"

Bem, segue mais um trecho:

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"Tinham acabado as aulas de natação. No horário de educação física, os meninos ficavam com Jorge na quadra de cima e as meninas desciam com a Carmen. Em vez de nos acostumarmos com ela, seus cabelos curtos e seu braço atrofiado, começou a circular a história de que era lésbica.


Às vezes Jorge deixava os meninos jogando sozinhos e vinha ver nossa aula. Parava ao lado de Carmen, trocavam algumas palavras observando nosso jogo. “Olha essa mão mole!”, ele gritava. “Força nessa bola!”. Estavam sempre dizendo para fazermos mais força.

Um dia Jorge gritou: “Quem acertar três saques vai ganhar um prêmio!”. As meninas queriam saber o que era, mas ele mandou a gente jogar. No final da aula se aproximou da quadra com o braço atrás das costas, escondendo algo. Estava sorrindo (sempre sorrindo), quando mostrou uma caneca de plástico com a foto dos Menudos. Não era um prêmio muito especial, a caneca vinha de brinde no pacote de Sucrilhos, eu já tinha visto no supermercado. Mas as meninas correram para cima dele, que esticou os braços e segurou a caneca bem alto. Várias meninas - Cíntia, suas amigas e as outras - começaram a pular à sua volta, puxando seu braço e tentando alcançar a caneca. Ele ria, ria, ria cada vez mais."