segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O universo é cheio de amor

"- Eu gosto muito de você, Melissa.
- Mas você me ama?

Era difícil responder a uma pergunta tão direta. Em dez meses de convivência, eu sentia muito carinho por alguns detalhes que não imaginara a princípio, e me irritava com outros que no início simpatizara. Talvez a saída mais fácil fosse mentir parcialmente e dizer que sim, eu a amava. Mas eu não tinha a personalidade entusiasta das pessoas que conseguem exagerar o que sentem.

- Eu gosto de ter você aqui. Quando me separei, eu estava preparada para meses de tristeza e solidão, e você foi uma surpresa boa.
- Só isso.
- Isso é muita coisa.
- Mas não dá pra construir uma vida sobre isso.
- Uma vida é tempo demais. Eu imaginei uma vida com Agnes e durou oito anos. Vamos deixar as coisas acontecerem.
- É meio vago.
- Mas você me ama?

Melissa não respondeu imediatamente. A hesitação poderia ter significados diferentes, mas eu não precisava de declarações e nem queria tanta responsabilidade.  

- Fique comigo, Melissa. Organize sua vida. Depois a gente pensa no resto.

Ela ficou pensativa e foi para o quarto. Depois voltou para a sala e disse com voz mais leve:

- Você tem razão. Depois a gente pensa nisso.

Alguns dias depois, a mãe de Melissa veio a São Paulo para consultas médicas sobre suas dores de coluna. Melissa a acompanhou no exame de ressonância. Num fim de tarde, veio ao apartamento buscar roupas.

- Meu pai também está vindo, vão passar o fim de semana no apartamento da prima da minha mãe. Vou ficar uns dias com eles.
- Sua mãe está bem?
- Sim, está tudo bem. Eles querem ir ao teatro, fazer passeios de família.
- Tá bom - eu disse. - Quando você volta?
- Terça ou quarta, assim que eles voltarem para Santa Bárbara.

Era sexta-feira. Aproveitei o sábado livre para visitar meus pais em Osasco e na tarde de domingo Patrícia me telefonou, avisando que Heloísa estava organizando um jantar naquela noite.

- Melissa vem com os pais para comemorar o fim da faculdade. Você quer vir?
- Por quê?
- Você ajudou muito nisso.
- Deveria ser Melissa a me convidar.
- Eu falei com ela. Está tudo certo.
- Deixa quieto, Patrícia. Não sou muito apaixonada por jantares de família.

Minha relação com Melissa estava diferente naqueles dias. Não percebi nela nenhum sinal de mal estar mas a sinceridade recente me deixara mais alerta. Na manhã de segunda-feira depois do jantar de que não participei, Melissa me ligou entusiasmada. Havia recebido uma mensagem de Laura, perguntando se ela estava interessada em trabalhar como atendente na Escola de Psicanálise.

- É para ficar na recepção, mas depois de três meses posso fazer o curso de formação com bolsa integral.

Melissa havia dito algumas vezes que a psicanálise, para ela, era o único interesse da psicologia. Ela nunca estaria preparada para lidar com doentes e psicóticos graves. Gostava das neuroses ordinárias: "A vida normal é uma perturbação", dizia. "Tudo seria simples mas não é."

Pelo telefone, ela disse que ficaria com os pais até a hora do almoço, pois os dois haviam decidido voltar para Santa Bárbara naquele dia mesmo, e à noite queria me encontrar.

- Vamos comemorar, vai ser meu primeiro emprego de verdade!

Mais tarde, enquanto eu ainda estava na Escola da Fonte, ela ligou novamente desmarcando o horário que havíamos combinado.

- Falei no telefone com a Laura, ela sugeriu um café para conversarmos sobre o trabalho. Marquei com ela às sete na faculdade.
- Posso te encontrar depois.
- Legal. Não sei quanto vai durar, eu ligo quando estiver livre.

Cheguei em casa, tomei banho, às nove da noite Melissa ainda não tinha telefonado. Eram quase dez quando ligou para o meu celular.

- Desculpa, ainda estou aqui na faculdade. Laura começou a mostrar alguns textos que eu poderia ler, depois chegaram alguns outros professores e combinaram de jantar. Ela me convidou para ir junto e não podia dizer não, são professores muito legais, eu só vim aqui no banheiro pra ligar e te avisar. Desculpa.
- Tudo bem, Melissa. Você vem dormir em casa?
- Claro, vou sim. Acho que não deve demorar muito aqui.

Fui para o quarto às onze e meia e Melissa ainda não chegara. Li durante algum tempo e dormi sem notícias. No dia seguinte vi uma mensagem no celular, enviada depois da meia noite, dizendo que uma professora ofereceu carona até perto da casa da prima onde seus pais ficaram hospedados, e ela resolveu dormir lá, pois ainda estava com a chave e tinha esquecido algumas roupas. Quando cheguei na Escola da Fonte, às nove horas, recebi outra mensagem de Melissa:

"Quero muito falar com você. Posso te encontrar no almoço?"

Respondi que sim, e marcamos ao meio dia. A hora chegou e Melissa não apareceu. Almocei sozinha e quando sentei novamente para trabalhar, às duas da tarde, meu celular tocou.

- Desculpe, eu me atrasei, aconteceu uma confusão, eu perdi minha carteira ou roubaram, estou no Largo de Pinheiros e não tenho nenhum dinheiro, acho que eu vou na delegacia, eu não sei o que aconteceu.

Sua voz estava agitada, eu tentei ajudar.

- Você está com a chave da minha casa?
- Não, eu perdi tudo, não tenho nada comigo.
- Você não esqueceu na casa onde estava?
- Não, saí de manhã com a carteira, peguei o ônibus até Pinheiros, depois sumiu.
- Quer que eu vá te buscar?
- Não, deixa, eu pego um ônibus e peço para descer pela frente. Eu te encontro aí na Escola.

Trabalhei até as seis horas da tarde e Melissa não chegou. Tentei ligar duas vezes mas seu celular estava fora de área. Depois, no começo da noite, ela mandou várias mensagens seguidas, com poucos segundos de intervalo:

"Tá tudo certo. Desculpe te preocupar."
"Eu sou confusa mas o universo me ajuda. Desculpa mesmo. Te amo."
"Desculpa dizer tantas desculpas."
"Te amo muito. Antes não percebia quanto era verdade. Agora percebo."
"A vida é linda. Nós vamos ser muito felizes."
"O universo é cheio de amor."

Não tentei ligar depois das mensagens. Estava sem paciência para imaginar o motivo de tanta efusão. Nas peripécias de minha vida afetiva ao longo dos anos, eu aprendera por amostragem que declarações súbitas de amor frequentemente são mau sinal. Para evitar fantasias paranoicas, eu confiava no método científico e só tirava conclusões a partir de resultados comprovados, mas minha boa vontade tinha acabado naquele dia e resolvi esperar as explicações quando Melissa aparecesse.  

Melissa ficou um dia inteiro sem dar notícias. Na quarta-feira, quando voltei do trabalho, ela estava no apartamento, sentada no colchão da sala com a TV desligada. Ao me ver ela sorriu sem efusão, tinha a expressão cansada. Disse que trouxera um pouco de comida e jantamos à mesa, mas ela falou pouco. Contou que a vaga de emprego ainda era uma possibilidade, mas Laura achou melhor esperar até janeiro. No fim da noite perguntei se havia algum problema. Ela estava deitada na cama, um pouco encolhida.

- Não é nada - respondeu.

Ela não falou muito sobre a carteira perdida ou as declarações de amor. A única referência ao assunto foi uma frase curta:

- Desculpe a confusão dos últimos dias.

Durante o resto da semana, Melissa esteve calma e dócil, porém quieta. Lavou roupas, limpava toda a louça na pia. No sábado pela manhã demorou a levantar. Preparei a mesa e o café e a chamei. Ela não quis sair da cama.

- Você está bem? Está resfriada?
- Não é nada - ela disse.

Fui ao supermercado pela manhã, e depois do almoço começamos a assistir um filme. Ela disse que estava cansada e foi para o quarto dormir. Ficou na cama a tarde inteira e no começo da noite, quando saí do banho, ouvi o barulho da televisão. Melissa estava deitada no colchão da sala, abraçada às pernas. Quando se virou para mim, fiquei impressionada com seu olhar abatido.

- Eu não estou muito bem."

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Conjunções

Acontecimentos que parecem muito antigos: uma aluna pergunta se é verdade que não devemos começar frases com "mas" ou "nem". Pego a gramática de Celso Cunha & Lindley Cintra na estante, para argumentar com respaldo. 

O livro diz que sim, podemos fazer isso para dar ênfase (efeito de alta intensidade afetiva, com valor próximo ao da interjeição) ou ressaltar a mudança de assunto, retificar uma informação, etc.

Exemplos:

- "Eram mãos nuas, quietas, essas mãos; serenas, modestas e avessas a qualquer exibicionismo. Mas não acanhadas, isso nunca" (M.J. de Carvalho, "Paisagem sem barcos", sem data).

- "Mas os dias foram passando." (José Lins do Rego, "Usina", 1956)

- "Nem que a matassem, confessava." (A. Ribeiro, "O malhadinhas", 1958)

Conforme "A nova gramática do português contemporâneo", de Cunha & Cintra, 2007.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014