segunda-feira, 25 de março de 2013

A natureza exata dos problemas


"Mandei uma mensagem de texto para o médico que eu consultara três anos antes. Escrevi brevemente que era uma urgência para uma amiga, ele respondeu cerca de duas horas depois, oferecendo um horário na manhã do dia seguinte. Melissa continuava na cama quando cheguei. Olhou para mim sem expressão e permaneceu deitada de lado, os braços fechados. Respondeu pouco e não insisti. Pedi que tomasse um banho, forcei para que se levantasse. Coloquei-a debaixo do chuveiro e depois de um tempo a água continuava ligada, sem sinal de movimento. Voltei ao banheiro e ela continuava parada sob a água.

- Você se lavou?

Ela não respondeu. Tirei minhas roupas e entrei no box, lavei seu rosto, axilas e a região entre as pernas. Entreguei a toalha e esperei até que se enxugasse. Ela não quis comer, insisti que tomasse um copo de leite e escovasse os dentes. Ela aceitava as ordens com reação lenta. Fiquei na cama ao seu lado, lendo, até a hora de dormir.

De manhã, para ir ao psiquiatra, algumas vezes precisei forçar seus passos. Apoiada em meu braço, ela caminhava com extrema lentidão. Na sala de espera ficou sentada com a cabeça parcialmente caída. Entrou sozinha na sala de consulta, e depois de quinze minutos o médico abriu a porta e me chamou. Pediu que eu completasse algumas informações, pois ela quase não falava. Eu não sabia muito. Não conhecia a natureza exata dos problemas tivera anteriormente, nem o nome dos remédios que tomara. Resumi os meses anteriores. No início do ano, quando começamos a conviver, ela estava desanimada mas não parecia doente. Depois mostrou energia, estudou concentrada por alguns meses. E então, de um dia para o outro, apagou. O médico aproximou a caneta do bloco de notas, e perguntou se ela conhecia alguns remédios. Efexxor, ela negou. Lamotrigina sim, Depakote também, Rivotril, Frontal, Seroquel, sim. Depois da lista inicial, Melissa falou um pouco mais. Disse quanto tempo tomou cada comprimido, em que período, quais permanceram e quais foram temporários. Saímos do consultório com receitas para três remédios, uma folha resumindo a progressão da dosagem para sete dias, e o retorno marcado para a semana seguinte."

sexta-feira, 22 de março de 2013

Sem pausa entre os goles

"Na sexta-feira à noite, quando voltei do trabalho, uma semana depois de receber os textos, Melissa disse que ia embora.

- O semestre está acabando. Já tenho nota suficiente para passar. Não quero te incomodar.

Sobre a mesa da sala havia duas mochilas cheias, uma pilha de livros e folhas fotocopiadas, seu material da faculdade.

- Se não for muito trabalho, - ela disse - entregue os papéis para reciclar. Não preciso mais.

Ela não tinha muitas roupas, nas mochilas estaria provavelmente tudo o que era seu.
- O que é isso, Melissa? Não entendo.
- Não tenho mais nada para fazer nessa cidade. Vou ficar um tempo na casa dos meus pais.

Eu conhecia a reação física imediata de levar um fora, o coração palpitar. Esperei um instante para continuar com calma. Ela estava sentada no colchão, as pernas dobradas, as costas apoiadas na parede. Sentei na cadeira ao lado da mesa.

- Você não me incomoda. Eu gosto de você aqui.
- Mas para quê? Daqui a um tempo parece que estamos casadas, e isso nem aconteceu.
- Preciso trocar de camisa. - eu disse - Me espera.

Era outubro, dias quentes fora de hora. Eu não gostava de sentir a pele suada, depois de quarenta minutos dirigindo meu carro sem ar condicionado. No banheiro, enquanto lavava o rosto e o pescoço, me ocorreu que eu deveria falar dos papéis. Vesti uma camiseta limpa, voltei para a sala e ela agora estava em pé, à janela.

- Eu li o que você escreveu. Demorei porque era muita coisa.
- O que você achou?
- Não sei bem o que dizer.
- Está bem escrito?
- Sim, bem escrito. Quero beber alguma coisa. Você quer?
- Não tem nada em casa.
- Vou buscar no mercado. Não quero tomar cerveja.
- Está bem.

Peguei novamente o carro, pensando no que combinaria com aquela temperatura. Peguei limão, vodka e uma garrafa de Cointreau para adoçar um pouco. E um saco de gelo, pois talvez não houvesse na geladeira. Quando voltei para o apartamento, Melissa estava no banho. Misturei a bebida em uma jarra e levei para a sala com dois copos grandes.

- Então você quer ir embora - falei, deixando a jarra e os copos sobre a mesa.
- Não quero. Mas é melhor.
- Queria te perguntar muitas coisas, mas não sei como começar.
- Sobre?
- O que você escreveu é verdade? Aquilo aconteceu?
- Sim. Tudo aconteceu. - ela se aproximou da mesa. - Posso beber?

Toquei seu pescoço e a beijei. Ela recebeu o beijo, mas sua mão continuou estendida sobre o copo.

- Você se apaixonou por uma professora? - perguntei.
- Não era minha professora. Era coordenadora de um grupo de estudos em que consegui uma bolsa.
- Isso atrapalhou o seu curso?
- Não por causa dela, por minha causa.
- Por que você não me contou?
- Você já leu, não tem mais nada pra contar.

Ela havia bebido metade de um copo, sem pausa entre os goles. Eu me aproximei novamente, ela recuou e seu corpo encostou na parede. Eu não queria avançar muito, mas fiquei excitada e pressionei meu quadril ao dela, abri sua calça e a toquei e penetrei. Ela gozou rápido e permaneci algum tempo ainda prendendo seus braços contra a parede, colada a seu rosto.

- Você não vai embora - eu disse.
Ela bebeu mais e fomos para o quarto. Tiramos a roupa antes de deitar na cama."

segunda-feira, 18 de março de 2013

Doenças transmissíveis


"Nos momentos de maior abatimento, ao longo dos anos, Melissa escrevera páginas soltas que ainda guardava em seu antigo quarto na casa dos pais. Depois de contar isso com pausas e olhares esquivos, disse que a única coisa que realmente desejou foi escrever, porém sentia-se incapaz. Pedi que me mostrasse os textos. Num domingo foi à casa dos pais e buscou. Eram páginas avulsas, impressas em fonte pequena, algumas cheias, outras apenas com poucas linhas. Pareciam anotações de diário mas não havia ordem nem datas. Às vezes comentavam fatos passados, sem explicar por que ou quando ela anotara as lembranças. Ao me entregar os papéis, Melissa pediu apenas que eu não lesse em sua presença. Na primeira noite, levantei da cama quando ela adormeceu, e li algumas páginas, sozinha na sala. Tive medo que ela acordasse e me encontrasse ali, e pegasse os papéis de volta, por eu não cumprir o combinado. Mas não conseguia parar de ler, compadecida pela leitura, envergonhada com a insuficiência dos julgamentos que tivera a seu respeito.

Levei os papéis de Melissa para o trabalho. Passei alguns dias entre eles, na hora do almoço, relendo passagens, tentando ordenar as páginas num sentido cronológico,  fazendo esforço para enxergar o panorama. Houve mais silêncio entre nós naqueles dias. Ela não perguntou se eu lia, nem eu falei, sem prometer minha opinião a respeito. Mas eu imaginava que ela queria saber. Que esperava algo por ter me mostrado. Era excessivamente íntimo para que o gesto, a entrega dos textos, esvaísse em acanhamento. Eu sentia o dever de uma resposta sensível, que adiei por medo de errar, lendo e relendo até que pudesse dizer algo honesto.  

Entre todos os textos, minha curiosidade mais forte era entender "algo" que ela escreveu sobre uma pessoa "em posição estável". Havia repetidas referências a uma mulher "pra quem se pede uma caneta". Alguém que falou "da filha que não pode ter" e subiu com Melissa a um terraço onde algo aconteceu. Eram as únicas cinco folhas grampeadas juntas: dois poemas, um comentário sobre a tentativa de descrever "sentimentos presos no passado", e uma narrativa, talvez um conto, sem final ou título, o único conjunto que ultrapassava uma página.

O conto dizia:

"Eu não poderia dizer o nome dela. Não se lavou no banheiro antes de ir embora porque era evidente que não estava orgulhosa. Eu tentava me apegar à minha postura de estudante e encarar a situação sem a ousadia que sentia. Não era exatamente possível, com ela. Ela perguntou sobre meus parceiros recentes e não deixou que eu encostasse minhas partes úmidas nas suas, por causa das doenças transmissíveis, ela disse. Era casada havia oito anos e não traía nunca. Eu não poderia dizer o mesmo com todas as palavras, mas na média talvez fosse verdade.

Antes de ir embora ela falou alguma coisa que não escutei. Havia imaginado tantas vezes seu corpo num quarto e a tristeza não deveria ser a conclusão daquilo. Depois que ela saiu, tive vontade de ir ao banheiro. Ao sentar no vaso senti o cheiro entre minhas pernas e tive ódio dessa impossibilidade que eu era obrigada a aceitar. Tomei banho, peguei o elevador e fui comprar um maço de cigarros que não tinha porque não fumo. 

Nas semanas seguintes apenas nos cumprimentamos rapidamente na faculdade. Quando eu passava em frente à sua sala, ela não me olhava. Eu olhava. Não conseguia me desligar da imagem de seu rosto enquanto eu estava por cima dela. Houve uma manhã em que saí da sala antes da aula terminar. Quase não havia alunos no pátio. Senti a lembrança repentina do sol forte, que me ofuscava os olhos, a calçada de paralelepípedos, a feira de artesanato no centro de minha cidade. Eu deveria ter onze ou doze anos. Meu pai me chamara para passear sozinha com ele. Nós andávamos pela feira em silêncio e ele me perguntou várias vezes se eu queria comprar algo. Eu não sabia escolher, não estava acostumada com a pergunta. No fundo da praça, ao lado da igreja matriz, sentamos numa lanchonete e ele perguntou se eu queria refrigerante. Lembro com detalhes da garrafa verde e do rótulo no vidro. Também lembro que o pai não me olhava, diretamente, quando falou que minha mãe estava doente e precisava ser internada."


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(os parágrafos do conto são uma adaptação à personagem Melissa do antigo primeiro capítulo de "O afeto", substituído no livro e não publicado) 
 

terça-feira, 12 de março de 2013

"Se um dia", penso

Passagens do diário de Melissa, adaptando trechos antigos deste blog:


"Em novembro de 2001, Só conseguia escrever títulos. Tive muita dificuldade para lidar com a melancolia e a tristeza e o sentimento de abandono e os intervalos de euforia. No começo de 2002 fui a um psiquiatra pela primeira vez. Em agosto desse ano, tomei os primeiros comprimidos. Esse foram os títulos que escrevi em 2001:

- Os loucos são loucos, as mulheres são sempre servis
- Carreirista, filha da puta, e doce, e sincera
- Cuidadosamente evitando o suicídio
- Destruindo os bens da família
- Um queijo no lugar do coração"

"Minha avó faleceu hoje. Não era minha avó preferida (quando eu era pequena). Estava sempre trabalhando e não mimava as crianças. Há algum tempo entendi que mimar nem sempre é o mais importante. A mãe da minha mãe nos mimava muito e isso não ajudou. A avó paterna, agora falecida, provavelmente teria sido uma mãe melhor para nós duas. Entre as poucas coisas que dizia, lembro que repetisse muito: "Mentsh trakht un Got lakht". Somente crescida pedi para meu pai traduzir. O home planeja e deus ri."

"Lendo o estranho romance modernista sobre a Segunda Guerra, do amigo de Cesare Pavese. Os diálogos cheios de repetições são bastante enigmáticos para mim. As idéias repetidas insistentemente e a certeza se dilui enquanto os personagens tentam confirmar. Num encontro, Ene 2 e Lorena se conhecem apenas pelos codinomes, na resistência italiana:

- Eu não quero possuí-la.
- E quem lhe pede para me possuir?
- O que farei para possuí-la, Lorena?
- Não me possua.
- O que lhe daria, Lorena? O que poderia lhe dar?
- Não me possua se não tem vontade de me possuir.
- Não tenho nada para lhe dar, Lorena.
- Por que diz essas coisas? Não diria essas coisas se fosse você.
- Que coisa diria, Lorena?
- Não diria nada. Possuiria você e nada mais.
- Ficaria contente se possuísse você e nada mais, Lorena?
- Ficaria contente.

Um pouco perdida na leitura desse romance estranho, fiquei surpresa ao descobrir a posição em que ele coloca o complemento "ele disse". Muitas vezes ele interrompe as frases quando não há pausa vocal.

- "Mas eu", disse Berta, "não tenho casa".
- "Aquilo pelo qual", o velho disse, "morreram".
- "Posso lhe perguntar", disse-lhe o velho, "por que chora?".
- "Digo que não sabemos", disse o motorista, "o que vamos encontrar".

Reação minha:
- "Se um dia eu", penso, "pudesse escrever assim."


segunda-feira, 4 de março de 2013

Distinção de salivas


"Passei no supermercado para comprar uma garrafa de vinho, antes de voltar para casa naquele dia. Não queria encontrar Melissa, sentia raiva enquanto escolhia a garrafa, queria voltar para o apartamento vazio somente para mim. O celular tocou e era ela:

- Fiz a matrícula, estou feliz. Nunca imaginei que a faculdade um dia pudesse me deixar feliz.
- Parabéns, linda. Você merece.

Não era ironia. Eu estava comovida com sua alegria infantil por voltar a estudar.

Levei o vinho e naquela noite não ligamos a televisão. Bebemos no colchão da sala, conversando sobre nossas respectivas juventudes. Contei minhas histórias preferidas sobre mulheres loucas e encontros desastrados, ela também contou algumas de sua curta carreira, que afinal não era tão breve assim. Ela agora classificava as aventuras aos dezessete anos como as primeiras experiências de sua história lésbica, que começava a organizar. A certo ponto da noite chegamos a Agnes. Resumi os eventos principais, mas uma frase puxava a outra, e quando percebi já falava demais, confessando detalhes, desabafando com amargura as piores cenas.

- Desculpe - eu disse. - Não queria falar tudo isso.
- Não tem problema. Eu não me incomodo, pode falar.

Em instantes eu chorava, perdia o encadeamento, senti vergonha e virei o rosto para ela não ver. Melissa segurou minha mão e me abraçou. Deitei em seu colo e solucei de dor por um tempo que não pude medir. Eu tentava me acalmar e não podia, apertando suas pernas em desespero, mal conseguindo respirar. Era tão difícil. Eu precisava tanto de ajuda.

- Está tudo bem - ela dizia, acariciando meu cabelo. - Está tudo bem.

Ela se estendeu ao meu lado e continuou me abraçando até eu me acalmar. Eu virei para olhar seu rosto, e nos beijamos, eu me aderi à textura da sua língua com tanta proximidade que não havia mais distinção de salivas, senti diretamente a união com seu corpo. Eu só queria abraçá-la e não tinha forças para mais nada, ela continuou agindo e me fodendo com um braço enquanto prendia meu tronco com o outro. Chupava forte meu pescoço. Minha pele, mesmo morena, ficou marcada no dia seguinte."

domingo, 3 de março de 2013

Fase de contemplação


"A primeira convivência com Melissa me fazia recuperar princípios antigos de aproximação gradual. Eu acreditava no equilíbrio entre ser espontânea e prudente. O entusiasmo novo despertava impulsos seguidos de entrar em contato, muitas vezes ao dia, mas eu ouvira em algum lugar, havia muito tempo, que relações lentas a se estabelecer demoram mais para acabar. Acreditei nisso e passei a me controlar. Impulsos são impulsos, e eu não exagerava a importância do que era irracional.

Melissa morava, naquele período, em um quarto emprestado por um amigo envolvido em projetos de teatro. Ele conduzia oficinas para estudantes em dois centros culturais, em bairros de periferia. Tinha alguns horários de aula durante a semana, e no restante do tempo trabalhava em casa. Melissa dormia num colchão de visitas instalado no escritório dele, e desmontava a cama de manhã. Não ficava no apartamento de dia para não atrapalhar. Contribuia com as contas conforme podia, os pais não a sustentavam mais desde que abandonara a faculdade havia seis meses. Arrastara o curso durante quatro anos sem se formar, com desânimo crescente, e o interrompeu sem novos planos, sem mesmo clareza do que queria fazer.

- Você deve ter uma ideia vaga. Não consigo acreditar que não.

Ela ficou em silêncio, tentou dizer algo e desistiu. Depois organizou alguma história:

- Meus pais insistiram para que eu estudasse direito. Eles acreditam em emprego público. Mas não sei se tenho outra vocação. Nunca consegui dizer é isso que eu quero, por favor me deixem em paz.
- Alguma coisa você deve querer. Ninguém não quer nada.
- Eu acho que... eu acho que seria melhor terminar logo o curso e ter um diploma por pior que seja. Pelo menos fica resolvido.
- Parece razoável.
- Mas eles não vão mais pagar. Meu pai disse que fizeram a parte deles, se desperdicei é problema meu.
- Isso parece razoável também.

Ela dormiu no meu apartamento naquela noite, e ficou nos dias seguintes. Eu gostava da sua presença e não evitei a aproximação, que partia dela e não de mim. Chegou a me ocorrer que talvez ficasse dependente, mas a possibilidade não me assustou. Ela parecia frágil. Depois de um mês, no café da manhã de um domingo, perguntei se queria trazer suas coisas definitivamente. O amigo emprestava o quarto, e eu poderia dividir o meu. Não era uma definição de compromisso, eu disse. Ela estaria livre para desistir se quisesse.

- Mas te peço uma coisa - acrescentei. - Não fique largada sem fazer nada. Você precisa ultrapassar a fase de contemplação.

Um dia, no trabalho, falei do caso com Patrícia. Contei como conheci Melissa, o reencontro no sítio de São Lourenço, a situação atual dela. Patrícia estivera com ela em alguns encontros de família, mas não conhecia os detalhes. Nem mesmo sabia da fase de drogas e da internação do ex-namorado. Ela comentou com Heloísa, e marcamos um almoço para conversar. Heloísa me falou o que sabia da infância de Melissa. Tinha sido próxima de sua mãe quando eram jovens, mas perdeu o contato quando esta casou. Soube que a prima esteve deprimida por alguns períodos, Melissa ficava com a avó nas fases delicadas da mãe, que vivia muito sozinha, nunca trabalhou, sentia-se às vezes incapaz de criar a filha.  

- Ela está morando com você? - Heloísa perguntou.
- Sim - eu disse. - Por enquanto, provisoriamente.
- Que bom.
- Eu insisti que ela precisa se reorganizar. Fazer alguma coisa, terminar a faculdade.
- Se precisar, nós ajudamos.

Melissa foi à secretaria do departamento verificar sua condição curricular. Faltava cumprir uma dúzia de disciplinas, ela poderia terminar em um semestre, se concentrasse as aulas em todas as manhãs e algumas noites. Heloísa me telefonou para saber como andavam as coisas, e expliquei. Alguns dias depois, Patrícia me chamou para outra conversa. Ela e Heloísa se ofereciam para pagar as mensalidades, caso Melissa se comprometesse a terminar o curso no prazo.

Senti o peso da responsabilidade no dia em que Melissa foi à minha escola, com os documentos organizados, buscar com Patrícia o cheque para pagar a rematrícula na faculdade. Eu não poderia desistir, por seis meses. Não poderia expulsar de minha casa a filha da prima da mulher da minha chefe. Meu apartamento novo, minha liberdade recente e a sensação de juventude que os acompanhavam, foram esquecidos diante da nova circunstância: um novo compromisso, em que eu era provedora e responsável. Tive nostalgia de Agnes e seu apartamento quitado, disponível para ela sem dívidas, seu emprego estável com aposentadoria integral, suas reservas divididas entre bancos diferentes para não ficar desguarnecida mesmo se um deles falisse. Tive saudades de ser a mais nova, a mais pobre, amparada pelo amor de uma mulher que só me exigia atenção e bravura. Pois atenção e bravura nasciam gratuitamente do meu caráter, e não me custavam quarenta horas de trabalho semanal.

Passei no supermercado para comprar uma garrafa de vinho, antes de voltar para casa naquele dia."