sábado, 24 de novembro de 2012

Flash em português

Conversando uso muito as palavras "flash" e "flashback". A lembrança involuntária me interessa, nos livros de Philip Dick, na "Psicopatologia da vida cotidiana", nas substâncias alucinógenas.

Mas como escrever "flash" num livro escrito em português? Não vejo sentido, hoje, na mistura de palavras estrangeiras em estilo modernista. O uso de palavras americanas é comum no cotidiano, e seria preciso inventar algum filtro que justificasse essas palavras em estilo literário. Esses filtros não combinam comigo. Gosto de escrever de modo purista, com linguagem precisa e gramatical. Não é o purismo pelo português; é simplesmente um purismo.

Existem traduções em português para "flash": lampejo, faísca. Mas "lampejo" é antigo e lusitano demais. E "faísca" me remete a fogueiras e festas juninas.

Escrevi assim:

"Isso durou muito tempo, e no outro dia, com dor de cabeça, alguns fragmentos da noite surgiam repentinamente em minha memória, misturados a sensações antigas do início de nossa relação."




sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Casamento aberto


Decidimos tentar um casamento aberto depois de meses de crise, longas conversas em que ouvi suas angústias quando se sentia atraída por outras pessoas, mas tinha medo de me magoar, causar uma ruptura que talvez não pudéssemos superar. "Você conheceu muitas mulheres", dizia. "Eu só conheço você". Ela falava de sua timidez na juventude, o desejo tímido por uma amiga na faculdade, a vergonha de não saber o que fazer, não distinguir o que a outra sentia, medo de se arriscar e ser rejeitada, perder a amiga, criar constrangimento. Depois o alívio de conhecer o primeiro marido, alguém que conseguiu amar com carinho, só carinho, sem paixão, e ela demorou a perceber que poderia ficar velha e conhecer apenas isso, e queria mais, um pouco mais, ao menos uma vez na vida.

- Agnes, nós já tivemos essa conversa um milhão de vezes. Não posso resolver isso por você.

Na primeiras vezes eu disse: "Não sou sua dona. Se é tão importante pra você, faça o que quer fazer. Mas não diga nada, prefiro não saber." A conversa se estendia pela noite, ela falava e chorava e eu tentava me manter acordada, e quando ficava exaurida dizia: "Agnes, por favor, preciso dormir." No dia seguinte ela acordava alegre e o assunto desaparecia. No início de 2003 (morávamos juntas havia cinco anos e quatro meses), o assunto apareceu com mais frequência, a cada duas ou três semanas. Até que eu disse: "Não aguento mais discutir isso. Só me responda: você quer continuar casada ou quer se separar?" Ela foi puxando argumentos sobre as dificuldades de um divórcio, o medo de ficar sozinha, os hábitos e o bom equilíbrio que tínhamos nos assuntos domésticos, ela tinha quarenta e quatro anos e não quatorze.

- Agnes, só responda: você quer continuar comigo?
- A gente ainda não tentou tudo.
- Então acaba a fidelidade, tá? Você pode sair com quem quiser. Você pode me ligar às cinco da tarde e dizer: não vou jantar em casa, vou sair, volto tarde. Não vou pedir detalhes nem fazer drama. É a sua vida, você decide.
- Você vai fazer o mesmo?
- Não tenho nenhum plano. Mas, em teoria, eu posso fazer o mesmo.

Ela pensou alguns instantes, e concordou.

Voltei a treinar judô. Encontrei uma academia que seguia o mesmo método de meu primeiro professor, em Osasco. Não era longe do apartamento. No fim de semana, com pouco trânsito, eu chegava de carro em quinze minutos. Formamos um grupo avançado no sábado, das oito às onze, com compromisso mútuo de não faltar. Eu acordava, comia algo leve e ia treinar. Uma das mulheres do treino era linda, negra, vinte e seis anos. Filha de pais Hare Krishna, foi professora de capoeira e agora experimentava artes marciais. Às vezes conversávamos depois da aula. Vinte minutos, vinte e cinco, quarenta, eu conversava o quanto ela quisesse conversar. Era simpática e sorridente mas casada, com marido, uma miragem no deserto, a gatinha que tem pinta de ser gay mas não é.

Os hábitos de Agnes não mudaram em nossos primeiros meses de relação aberta. Ela não saía sozinha à noite, não sumia por longos períodos sem dar notícia. Continuava indo para o trabalho e voltando nas mesmas horas, fazendo ioga nas segundas, quartas e sextas às sete da manhã, visitando a mãe a cada três ou quatro semanas. Se ficou algo distante, um pouco mais fria, foi sutil. Eu percebi coisas pequenas: ia ao supermercado sem me chamar, não me perguntava antes de cozinhar, comprava roupas sozinha. Em junho começou a planejar a viagem ao Canadá, para visitar Bruno, e disse que preferia ir sozinha. Eu me cadastrei num site de encontros e olhava os perfis de mulheres para relaxar.

Num sábado de manhã, em outubro, algumas semanas depois de voltar da viagem, Agnes disse:
- Olha, eu não vou jantar com você hoje, tá? Vou sair com outra pessoa.
- Que pessoa é essa?
- É uma mulher que conheci na semana passada. A gente marcou de sair.

Ela estava na varanda, tomando um pouco do sol que batia ali entre as nove e as dez e meia. A vizinha apareceu na varanda ao lado, colocou para secar dois pares de tênis lavados. Cumprimentamos a vizinha, sorrimos até ela sair.

- Tá bom. Você vai sair. Tudo bem.

Nos pactos de longo prazo, não se pode ignorar as normas vigentes, ainda que estejam inativas desde quando promulgadas.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Paul Auster, Sunset Park

"Sunset Park", romance de Paul Auster lançado em 2010 (tradução brasileira de Rubens Figueiredo, 2012), é o livro que eu precisava ler. Talvez Auster, agora velho, seja o escritor que me faltava pra substituir a lembrança de Peter Handke em "Bem aventurada infelicidade" (Wunschloses Ungluck).

Nunca li "Trilogia de Nova York", talvez tenha tentado tarde demais (depois de certa estrada, perdi a paciência para alguns recursos de estilo).

Auster velho escreve melhor. E "Sunset Park" me faz perceber como é rasa a divisão da narrativa entre "cena" e "exposição", cena e digressão, ou coisa que o valha. Ele quase não compõe cenas. Ao mesmo tempo, não se afasta da cena, a narração é restrita ao contexto de cada situação. E como é elegante ao escrever em terceira pessoa. Elegante como um relatório. "Já faz quase um ano que ele tira fotografias de coisas abandonadas". Pronto, o livro começa. Sem efeitos sensoriais, sem adjetivos pomposos ou irônicos em lista de três (ah, porque os escritores raramente se contentam com um adjetivo apenas).

Substantivos e adjetivos retumbantes, somente quando convêm ao personagem (às vezes ironicamente, às vezes de modo emotivo). Assim, Bing Nathan é apresentado. "Ele é o guerreiro da revolta, o campeão do descontentamento, o militante do desmascaramento da vida contemporânea, que sonha em construir uma realidade nova das ruínas de um mundo falido".

Admiro a simplicidade com que resume alguns diálogos em parágrafos narrativos. E como consegue indicar "lembra", "relembra", "pensa", sem parecer que injeta frases a seringa no cérebro dos personagens.

Ótima tradução, provavelmente (não li o original). O livro necessário para me aliviar da opressão de escrever em forma de cenas, porque não sou suficientemente filósofa para escrever digressões, e não conseguia visualizar opções intermediárias. Agora eu entendo: parágrafos longos; economia de aspectos visuais (somente detalhes; pinceladas); diálogos importantes alinhados em pontuação normal, sem aspas, ao longo do parágrafo; alternância sem hierarquia de falas, pensamentos, lembranças, imagens da cena. Sem hierarquia mas sem confusão, situando o que precisa ser situado, sem cacoete. Pode-se dizer "lembra", quando necessário, se a informação for objetiva e evitar a sensação de texto-enigma (decifra-me pois sou refinado).

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Set piece

Desde o curso de datilografia, aos 16 anos, escrevo na diagramação que chamavam "bloco compacto". Espaço duplo entre parágrafos, sem recuo na primeira linha.

Os livros não são formatados assim, mas acho bonito na folha impressa e na tela do computador.

Agora, no curso de Minal Hajratwala, gostei do termo "set piece" (que ela aprendeu de um professor, Sam Freedman). Refere-se aos vários conjuntos de parágrafos, num capítulo, separados por espaços duplos. Na falta de tradução precisa, uso um outro termo que ela sugeriu: "blocos".

Na diagramação "bloco compacto" é difícil marcar os blocos, porque já há espaços duplos entre os parágrafos simples. Essa questão simples foi um problema grande para organizar as pausas no meu livro anterior.

Então agora começo a escrever na diagramação tradicional, com recuo na primeira linha, sem espaço entre os parágrafos.




quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Agnes


"Como é mesmo que casamentos acabam? Quando é que percebemos?

O casamento é um conto-de-fadas, uma fantasia que inventamos em nossos impulsos infantis, mesmo quando universitariamente nos consideramos distantes de carruagens de abóbora, maçãs envenenadas e princesas adormecidas por cem anos numa torre. Um casamento é uma história, e uma história só existe quando fatos e coisas avulsas são costuradas por um sentido. Em algum momento acreditamos que aquela pessoa é parte da nossa vida; que está inserida como um enxerto no tronco de nossa existência; e fazemos sacrifícios e nos modificamos e nos dispomos a ser o que é possível naquele casal. É impalpável: não está nas coisas, embora haja coisas envolvidas. Existe apenas no personagem que você decide encarnar, a metade daquele casal.

Que lembranças eu tenho de Agnes, dezesseis anos atrás? Estudávamos francês no sábado de manhã. Sua pele branca e fina, levemente enrugada, não como rugas de uma pessoa, mas um papel crepon levemente amassado. Sua elegância. Um corpo tão equilibrado que justificava a existência das calças semi-bag."