quarta-feira, 26 de junho de 2013

Máxima do dia

Talvez as pessoas sensatas recomendem silêncio e concentração para escrever. Mas quando você tem o compromisso de escrever tantos dias por semana, e está morrendo de preguiça, deixar o facebook ligado é um truque pra distrair e continuar escrevendo entre amigos para não sofrer tanto.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Paridade e amor

"Melissa começou a trabalhar no Instituto de Psicanálise em maio de 2006, apenas cinco meses após sua crise de depressão. Ela já parecia estável. Fisicamente mais ativa, movimentava-se com mais rapidez, falava ao telefone e saía de casa normalmente. Em relação ao período que eu a conhecera, havia somente uma diferença de tom. Ela estava mais introspectiva, sorria pouco e não brincava ao conversar. Seu horário no trabalho começava às dez da manhã. Ela voltou a acordar cedo, um pouco depois de mim. Enquanto eu tomava café na sala, ouvia ela levantar e ir no banheiro. Lavava o rosto, prendia o cabelo, e depois, enquanto eu me vestia no quarto, ela seguia para a sala. Eu beijava sua testa ao sair, enquanto ela comia uma fatia de pão.

Ela tinha poucas roupas neutras para ficar na recepção. Suas malhas eram geralmente vermelhas, roxas, com estampas de música alternativa. Nas primeiras semanas usou minhas camisas, depois telefonou para a mãe, pedindo algum dinheiro para comprar novas. A mãe ficou feliz em saber que ela tinha um emprego. Já sabia da formatura através de Heloísa, e não reclamou por Melissa não ter contado pessoalmente. "Ficamos felizes, filha. Venha almoçar quando puder", foi o que disse, segundo Melissa. Depois do trabalho, que terminava às quatro da tarde, Melissa ficava algumas horas na biblioteca do Instituto. Preparava-se para e entrevista de seleção do curso de formação.

Um dia, falando de seus planos, ela mencionou o nome de sua chefe.

- A Laura sugeriu alguns livros de Melanie Klein. Ela acha que é um bom caminho.
- Laura?
- Ela coordena o instituto. Você sabe. Minha antiga professora.
- Aquela?
- Sim.
- Você não tinha me contado.
- Desculpe. Fiquei com medo de dizer.

Eu senti ciúmes, mas Melissa respondeu que eu não precisava me preocupar. Passados sete anos, a professora parecia subitamente velha. Mudara muito, aos cinquenta anos, deixara de pintar os cabelos, tinha o ar cansado.

- Ela sente culpa do que aconteceu. Só conversa comigo na sala de atendimento, com a porta aberta. Excessivamente maternal.
- Ela pode te prejudicar de novo?
- Espero que não.

Quando fiquei sozinha, procurei na internet os professores do instituto, e encontrei o sobrenome de Laura. Busquei mais e encontrei alguns retratos, bem compostos, que ilustravam sua biografia nas editoras em que publicou. Uma mulher bonita, de olhos claros e feições clássicas. Nas fotos mais antigas, em que aparecia aos quarenta anos, era linda. Eu imaginara uma mulher convencional com cabelos descoloridos e blusas de rayon. Diante de sua imagem imprevista, a paixão de Melissa se tornou diferente, não uma projeção de suas memórias maternais, mas um amor justificável pela beleza da fonte. Como Agnes, Laura era o tipo raro de mulher que se ama em qualquer idade. Visualizei Melissa diante dela, aos vinte anos, num quarto de hotel, podia imaginar aquela Laura nua, e foi estranho perceber que na mesma situação eu também me apaixonaria. Melissa amava alguém que eu mesma amaria. Sendo assim, era possível o amor entre nós? Não estávamos confundindo paridade com amor? Eu me identificava com Patrícia, e poderia amar Heloísa. Mas nunca amaria Patrícia. Até aquele momento, Melissa estava em um circuito paralelo em que eu tentava estabelecer relações diferentes. Mas talvez, se atenuadas as neblinas de sua depressão e juventude, surgisse uma outra mulher, a quem eu não poderia amar."

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Em outra condição

"Minha mãe se espantava com "minhas certezas", como ela dizia. Comparava minha vida à dela, quando eu estudava, repetia: "Com dezessete anos conheci seu pai. Com dezoito casei." Ficou ansiosa na época do meu vestibular. Verificava se eu estava estudando, no dia do exame fomos juntas, ela me esperou no portão. Ligou o rádio cedo no dia do resultado. Quando o locutor começou a transmitir a lista, em ordem alfabética, ela fechou os olhos e fez orações em silêncio. Desde os trinta anos ela frequentava círculos de oração e grupos de louvor. Foi a primeira a ouvir meu nome entre os aprovados. Chamou meu pai, contraiu os lábios e chorou, segurando minha mão. Em março, aos dezoito anos, comecei a frequentar a universidade. Estudava de manhã e ficava toda a tarde na biblioteca. O pai me proibiu de ajudá-lo em casa: "Pra serrar madeira, já basta eu". A mãe concordava: era minha chance. Na universidade a comida era barata, havia livros e computador. Ela só queria, por medo da violência, que voltasse antes de anoitecer.

A universidade me separou definitivamente do mundo de meus pais. Na noite de abertura do curso, o auditório estava cheio e sentei na primeira fileira, quase de cara com a mesa de professores que conversavam baixo enquanto os microfones estavam desligados. Um dos professores, o mais magro, o rosto quadrado e cabelo claro, olhava papéis cheios de anotações. Não foi o primeiro a falar. Quando chegou a sua vez leu, com sotaque estrangeiro carregado. Se eu não estivesse tão perto provavelmente não entenderia, mesmo à pouca distância sua voz baixa era quase incompreensível. Porque a idéia era difícil de entender: "Se não fizéssemos uma escolha para a vida toda, era melhor não começar". A vida toda. Que escolha duraria até o fim? O que incluiria toda nossa vida, desde agora? A imposição de um destino significava talvez uma escolha dele, assumida à nossa frente em forma de conselho. Porque não seria um conselho aplicável, enfim, à nossa turma de quarenta e cinco alunos. Quem precisava de um destino? Quem iria realmente fazer uma escolha? Meu pai fez uma escrivaninha ampla para o meu quarto, alguns meses depois que passei no vestibular. Quando a instalou, ele disse: "Aproveite os seus estudos e deixe o resto para trás."

Em algum momento os professores passaram a ser minha referência mais importante. Aquele professor, logo descobri, ensinava física teórica. Ouvi seus comentários sobre os erros de meu primeiro trabalho com vontade de chorar. Não sabia responder às perguntas e tentei explicar meu raciocínio incompleto. Ele apenas me perguntou: "Mas você quer aprender?" Eu tinha medo de dizer sim e não conseguir corresponder. Falei das minhas dificuldades por causa da formação incompleta na escola pública, e ele disse sério e sem agressão: "Seria melhor ter nascido em outra condição, mas isso não se pode escolher".

O professor morava perto do campus, numa casa pequena e sem jardim. Nunca soube dirigir. Uma vez peguei o ônibus em frente à faculdade e ele estava sentado ao fundo, lendo. O ônibus estava vazio mas não tive coragem de cumprimentá-lo. Quando jovem foi professor de crianças na escola primária, depois se desiludiu: "Ensinar é tarefa para alguém melhor do que eu". Continuou sua atividade sozinho como pesquisador, e se esforçava para orientar alguns alunos por ano. Nas aulas falava pouco, demonstrava os princípios e números em palavras insuficientes. Nas orientações era gentil e sem alterar a voz exigia mais esforço. Fui sua assistente durante dois anos até me formar, o primeiro trabalho que consegui. Nós resolvíamos problemas de pós-graduação toda semana, eu entregava minhas soluções manuscritas. Havia computadores na faculdade mas naquele ano eu não entendia seu uso como essencial.

Imagino o frágil limite entre minha pobreza inicial, e a pobreza de outros cuja vida apenas piorou. O povo miserável, a pobre gente, plebe ignara, massa sebenta. O que existe naqueles que sobrevivem, e o faltou nos que ficaram de fora? Depois de um tempo na Escola da Fonte, participei de um projeto educativo na periferia de Osasco. Eu não tinha trinta anos, não sabia mais do que a faculdade e o medo da pobreza me houvessem ensinado. Foi difícil rever as paredes vazias, as cadeiras de plástico cinza, o desleixo burocrático do edifício da escola pública. Eu conhecia tudo e a memória me atrapalhava. Não queria desiludir os garotos, mas havia crescido perto demais desse buraco; sabia quanto esforço racional e emocional era necessário para escapar dali. Eles sabiam tão pouco.

Dizem que existe uma "culpa da sobrevivência" nas pessoas que perdem alguém próximo. Uma defesa contra o acaso. O conforto do controle. O tempo passa e a pessoa realimenta a dor num círculo vicioso, esquecer seria uma traição ao passado. Como posso ser feliz, depois de ter sofrido? Como substituir-se por alguém feliz? Esquecer a memória dolorida que você amava e protegia, decidir que ela não existe mais, abandonar as fantasias de sofrimento, decapitá-las, empurrá-las de um precipício, assassiná-las com frieza sem consequências legais ou morais. Abandonar o passado num deserto sem água ou comida, e determinar que aquele tempo acabou.

No início eu era duas pessoas diferentes, ao manejar minha vida profissional e sentimental. No primeiro caso era decidida, indiferente às dificuldades, esquecia o que ficava para trás. Mas quando namorava era melosa, coração mole, ficava comovida com as carências e confusões das mulheres que amava.  Assim foi até Bebel, que considerei o fundo do poço. Eu não tinha força para seguir em frente com uma criança chorando no colo. Atualizei minhas prioridades, e me disciplinei para ignorar as mulheres frágeis por mais que me comovessem, e admirar as que se sustentavam sobre as duas pernas. Foram descartadas as irresponsáveis, preguiçosas e infantis. Levantei um muro contra a nação das mulheres mimadas, para resistir à admiração que sentia por elas. Elas que choram até conseguir o que querem. Elas que acreditam que estão sempre certas. Elas que não têm medo de ferir os outros e só se importam com as próprias vidas.

Mas, apesar da decisão, as mulheres que amei depois eram próximas a Bebel na essência, apenas frágeis num grau menor, no limite em que eu pudesse me considerar perseverante em minha própria resolução. Eu amava as mulheres inseguras e feridas, seus olhares carentes por uma mágoa que não podiam esquecer. E, com Melissa, eu amava uma mulher doente, embora com o tempo eu tenha percebido que ela era diferente das outras. Melissa não gostava de exibir sua doença. Ela escondia o rosto quando sentia a pressão de chorar, e só olhava para mim quando podia sustentar uma aparência controlada. Falava de seu tratamento, mas nunca de suas perdas irreparáveis. Uma vez disse: "A doença não faz parte de mim. É um parasita, eu sou outra pessoa." Diante de sua passividade minha atração crescia, mas ela me recusava quando estava muito frágil. Queria carinho, nos momentos de fraqueza, não sexo. Só transava quando conseguia competir com forças iguais."

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O cogumelo é calmo & a natureza insegura

Início do livro revisado:

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"A cidade é grande e existem momentos em que você quer apenas conhecer alguém novo, cuja idade, origem, história e relações sejam totalmente diferentes dos seus. Começar em branco, como em outro país.

Existem muitos caminhos para conhecer pessoas pela internet. Algum tempo depois dos meus trinta anos, eu experimentava as possibilidades de abertura e não tinha expectativas precisas. Achar alguma garota simpática, sair, paquerar um pouco, transar, e depois eventualmente dar um sumiço. Nada que exigisse muita energia. Criei um email alternativo, usando o nome de um grupo lésbico-feminista da década de 1960, e me inscrevi num site de encontros. O site mandava sugestões de perfis com as características que eu tinha selecionado, e também permitia navegação aleatória, em fotos que apareciam no canto da tela, como em lojas virtuais: "quem olhou este perfil também se interessou por estes aqui". Meu perfil dizia: "Tenho 32 anos, casada com uma mulher, em relacionamento aberto. Gosto de natureza, acordo cedo e pratico artes marciais. Gostaria de encontrar uma amiga solteira para sair de vez em quando."

Olhava os anúncios meia hora por dia, na hora do almoço geralmente, raramente em casa nem perto de Agnes. Era como esperar estrelas cadentes: muito tempo olhando para nada, imaginando que algo aparecesse de surpresa. Entre dezenas de perfis, muitas frases feitas e fotos mal enquadradas. Eu navegava despreocupada, olhando as roupas, a decoração dos cômodos que apareciam ao fundo, os rostos parcialmente escondidos por óculos escuros, procurando sinais de inteligência e sensibilidade. Às vezes arriscava um contato cauteloso com perfis de informações insuficientes (o excesso de banalidade nunca era desmentido; a brevidade podia indicar elegância).

Eu relembrava minhas técnicas de solteira, e aos poucos me adaptava ao ambiente virtual.

Agnes resolveu tirar férias sozinha. Ela não precisava seguir o calendário escolar, como eu, e considerou que um tempo distante seria bom para nós. Foi passar quinze dias no Canadá, onde Bruno estava estudando. Nas noites vazias, sem ninguém em casa, eu tinha vontade de sair. Mas não queria sair com amigos. Queria aproveitar os dias livres e conhecer alguma mulher. Sozinha no apartamento, olhava o site com mais atenção. Entre os perfis sugeridos vi a foto de uma garota de sorriso doce, não especialmente bonita, mas aceitável para uma foto. Pessoalmente poderia ser melhor ou pior, era impossível saber. Além da foto, informações básicas: mulher, 25 anos, terceiro grau incompleto, signo câncer. A frase de descrição dizia: "o cogumelo é calmo & a natureza insegura". Mandei minha mensagem padrão de contato, e fui dormir.

No dia seguinte, na hora do almoço, olhei os emails no escritório. Não havia resposta, e a foto tinha sido retirada do perfil. Relendo mais atenta, percebi que a frase de descrição poderia ser uma citação: o cogumelo calmo, a natureza insegura. Pesquisei na internet e encontrei o poema original de um escritor paulista. Fiquei arrependida pela mensagem padrão. Mandei um outro recado mais delicado, completando o poema: "sementes & raízes / onde as ilhas erguem suas brasas".

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Swamp é Grassado

Entre tanta bobagem que se escreve sobre falta de roteiristas na TV, imagino como os produtores lidariam com os adolescentes hoje. 

Esse é um cartum de humor. Se entendo corretamente, a postagem é irônica: ri-se por descordar de gente que publica piadas assim na internet.

A graça está em criticar no mau gosto das expressões usadas. Zuera, ta esaltado, etc. Também se considera tristemente engraçado que tantas pessoas curtam e comentem um cartum ruim, inclusive crianças de "6 a 10 anos".

Swamp Booger é um personagem de internet, baseado num animal imaginário, junção de partes de vários bichos, aparentemente uma lenda urbana americana.



sexta-feira, 7 de junho de 2013

Dezessete grandes declarações

Em 2012 fiz o exercício das "Grandes declarações", na oficina "Blueprint your book" de Minal Hajratwala. A ideia era escrever dezessete frases grandiosas sobre temas do livro em desenvolvimento. Não era necessário concordar com as frases. Poderiam ser princípios relacionados aos personagens.

Esta foi a minha lista:

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"Algumas pessoas agem como crianças mimadas. Elas choram até conseguir o que querem. Elas não têm medo de ferir o sentimento dos outros. Elas não acreditam que têm a responsabilidade se importar com os outros tanto quanto se importam consigo mesmas. Elas só cuidam da própria vida. Elas acreditam que os outros fazem o mesmo, e nunca imaginam que estão erradas a não ser que alguém grite."

"Algumas mulheres agem como velhas mães submissas. Elas acreditam que não precisam de nada e podem sobreviver com muito pouco para si mesmas. Elas só querem ajudar. Elas precisam ajudar, do contrário não sabem o que fazer com as próprias vidas. Elas se emocionam com as vítimas. Elas nunca suspeitam que certas pessoas agem como vítimas porque acham que merecem mais e nunca estão satisfeitas."

"Algumas pessoas acreditam que são generosas e não percebem seus impulsos egoístas."

"As pessoas egoístas às vezes são generosas. As pessoas generosas às vezes são egoístas."

"Não existe amor puro. O amor é uma média aproximada de todos os tipos de sentimento."

"Viramos mulheres observando o que existe em torno de nós, mas as circunstâncias são acidentais."

"Tiramos conclusões sobre os outros em eventos causais. Depois acreditamos nisso e nos surpreendemos quando as pessoas agem diferente."

"Construímos fantasias e depois nos esforçamos para serem verdade. Quando acontece, não parece mais tão bom. Então queremos outra coisa e tentamos. Perdemos o que havia, e a nova coisa que temos agora fica menos importante. Sentimos saudades de antes, que fica melhor agora do quando existia."

"Há sempre raiva contra quem está no comando."

"A depressão parece um sentimento único quando você está mergulhado nela. Parece tão intimamente ligada à nossa própria história. Então você vai a um médico e ele descreve os sintomas como se descrevesse uma gripe ou uma intoxicação alimentar. É uma doença como outras, acontece com todo mundo. Então você toma remédios e não é mais sua própria história, é uma doença. Você age como doente e esquece sua história. Depois você sente saudades da sua história e imagina se curar-se é melhor que ser único."

"A indecisão pode durar muito. Você pode reclamar por anos e anos e ninguém acredita que um dia você fará algo para mudar. Então um dia a oportunidade aparece e você faz."

"Um momento feliz apaga magicamente muitas dúvidas crônicas."

"Fatos são mais importantes que frases. Se você sabe disso, avalia as pessoas de outro modo. Ajuda a detectar mentiras."

"Se você tenta duas ou três vezes e não consegue, melhor esquecer."

"Psicoterapia faz você pensar demais na própria infância. Se chegou ao fundo, dê-se por satisfeito e pare de cutucar. Traumas infantis não explicam todos os problemas de um adulto."

"A vida é melhor nas histórias. Nós lemos e acreditamos que nossa vida deveria ser assim. Mas não é."

"As pessoas  nas histórias deveriam ser originais."

"Lembramos mais das coisas que aconteceram sem se esperar."

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A história de Fernanda

Lendo as anotações de Melissa, comecei a pensar sobre minha própria vida. Ela era a primeira mulher mais jovem que eu namorava e achei que significava algo. Meu pai era quase dez anos mais velho que minha mãe. Começaram a namorar quando ela tinha dezessete anos. Ele trabalhava desde muito jovem, primeiro numa madeireira em sua cidade, depois numa fábrica de móveis, a convite de um amigo que se instalara em Osasco. Saiu da fábrica alguns anos depois de casado, quando minha mãe ficou doente ao perder o primeiro bebê. Instalou sua oficina de marcenaria no fundo da casa, para estar perto durante o dia e ajudar. Na época época eles não usavam a palavra depressão, eles diziam que minha mãe tinha uma "doença nervosa". Chorava muito, deixava o serviço de casa, não saía. Minha mãe era muito dependente do meu pai. Não fazia compras, não pagava contas, tinha medo de lidar com dinheiro. Quando engravidou novamente, imaginava com angústia que poderia abortar novamente. Não saía do meu lado quando eu era bebê, acordava à noite assustada com a ideia que eu tivesse morrido. Minha infância foi acompanhada por esse cuidado excessivo até os nove ou dez anos. Depois briguei muito para escapar de sua vigília, ficar na rua de bicicleta e jogar bola entre as crianças. Sua fragilidade excessiva me incomodava, e eu queria crescer e ser como meu pai.

Minhas primeiras namoradas foram mais velhas, mas eu não queria proteção. Queria estar perto de gente adulta em que eu pudesse me espelhar e imitar. Eu acreditava que era igual a elas, recusava ajuda e assumia responsabilidades. Mostrava sempre que era firme e podia aguentar. Na Escola trabalhava com vontade, tinha as contas na memória e assumi dois cargos melhores em poucos anos. Queria ser adulta e rapidamente consegui.