quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Janeiro

Estou de férias até dia 20... talvez não escreva nada.

Para desejar um bom ano novo a todos, um poema de Cacaso:

Ré menor

Fazendo versinho,
querendo carinho.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Thalita Rebouças

Li uma matéria hoje no Estado de São Paulo sobre o aumento das vendas de livros infanto-juvenis. O texto falava de uma nova autora brasileira que tem feito muito sucesso entre meninas de 10 a 15 anos - Thalita Rebouças.

Me pareceu, pelos títulos mencionados, que "O fogão explodiu" está meio distante desses livros. Talvez a narração esteja ficando sintética demais - irônica demais? E, por mais que eu tente tornar a trama leve, a situação não é tão leve assim.

Enfim, paciência. Cada um escreve o que escreve.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Diálogos

Alguns livros sobre cinema e teatro sugerem recursos para compor diálogos mais ágeis. Não concordo com todos eles. Me incomoda, por exemplo, a sugestão de que os personagem tenham um vocabulário adequado à sua origem geográfica e social. Acho naturalista demais. Para mim os diálogos são arbitrários, não gosto de fingir realismo.

Mas gosto de colecionar frases. Encaixo expressões que já ouvi em algum personagem, com as palavras entre aspas. É quase uma documentação. O livro "Léxico Familiar", de Natalia Ginzburg, é assim organizado a partir de frases que sua família usou durante décadas. Ela registra a variação dos assuntos, das preocupações, as tensões de seus pais e irmãos através de palavras colecionadas. É lindo.

Voltando aos livros e suas dicas. Algumas me agradam. Por exemplo, evitar que as perguntas sejam respondidas diretamente. Sempre tento responder uma pergunta com outra pergunta, ou com um assunto diferente do anterior.

Também gosto das repetições, mas odeio interjeições. Evito sujar o texto. Uso apenas algum "ah" de vez em quando, com ponto final. Reticências me incomodam.

E abomino pontos de exclamação. Me preocupo bastante com a sujeira gráfica. Às vezes reescrevo uma frase somente para que tenha menos palavras e a linha fique mais limpa. Tenho cortado até vírgulas. Em vários momentos decido que a frase está boa apenas por sua aparência na tela.

- - -

Este é um diálogo que escrevi na semana passada:

"- Você está com pressa?
- Estou. Na verdade, não.
- Vamos tomar um refrigerante?
- Não tenho dinheiro.
- Você não estuda no Colégio Marista?
- O que tem isso a ver?
- Achei que você era rica.
- Rico não anda a pé.
- Pobre não estuda em colégio particular.
- Quem disse?"

- - -

Muitas vezes escrevo bastante tecnicamente. Não considero a trama nem os personagens como ponto de partida. Penso primeiro no ritmo, depois encontro uma idéia para causar esse efeito.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Desistir da fluência

Digitei a versão mais longa do fragmento de Ana Cristina César que comentei no dia 10 de dezembro.

Troquei algumas palavras... tomei essa liberdade porque não é um poema acabado.

O texto não é tão bom quanto seus poemas publicados em vida, mas eu realmente admiro o modo como ela escreve.


Fragmento (1)

vasculho uma bolsa velha como quem revira um túmulo.
e na curta efusão de palavras (no medo que
disseste, na aventura tímida de registrar a indevida fenda)
tanto posso achar o ardil
como a essência, como o botão de plástico. Persigo
então a descoberta
desistir da fluência
de todos os truques
da bruta castidade que me aflige

escrevo a covardia com saudade
(me reconheciam em versos naquele tempo)
porque talvez qualquer coisa tua me lembre
a mãe que era difícil percorrer
naquele tempo

compreendo também por que acredito, preservo, imito
as mesmas formas da pureza recusada:
nela reside a dúvida
a pele que faço

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Tutoria

Alguns anos atrás estive muito interessada na idéia de tutoria. Algumas universidades americanas oferecem esse acompanhamento para escritores iniciantes. Não é um curso, mas um trabalho de leitura e comentários feito por escritores mais experientes. Faz parte da pós-graduação de alguns cursos de crianção literária.

Isso me interessava muito porque escrever sempre foi difícil para mim. Eu queria aprender, de alguma maneira, e não sabia como. Talvez eu tenha errado a escolha no vestibular, quando decidi não fazer Letras. Aos dezessete anos, achei que era um curso de formação de professores e, como não queria ser professora, desisti. Não sei se fiz certo.

Estudar Letras é diferente de fazer uma graduação em Criação Literária. Os cursos de criação são mais generosos com quem está começando... o professor não compara um aluno com um escritor clássico. O aluno é orientado em seu próprio estágio de amadurecimento, e talvez se estimule uma certa cegueira, para que ele próprio não se compare tanto.

Quando a gente é novo, as referências muito sistematizadas podem atrapalhar. O excesso de leituras também, eu acredito. É bom ter liberdade para ler e escolher intuitivamente aquilo que parece importante.

Hoje a história literária me interessa muito. Às vezes sinto que estou recuperando o curso de Letras que não fiz. Aos trinta anos já não corro o risco de ser esmagada pela história, ao menos espero.

No meu site antigo, eu oferecia minha tutoria se alguém quisesse... era um pouco de pretensão, talvez, porque eu tinha vinte e cinco anos. Mas era uma tentativa de diálogo, também.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Acontecimentos patéticos

Escrevo meio forçada, porque seria bom terminar o livro infanto-juvenil em janeiro e mandar para o concurso da editora SM. Mas o ano está acabando, eu preferia descansar um pouco e ficar lendo no sofá.

Perdi o interesse em comentar a revisão desse livro, porque a linguagem é simples e não tenho grandes dilemas ao escrever.

O trabalho mais interessante foi a mudança de tom em relação à versão anterior. No primeiro manuscrito havia muitos personagens e tramas secundárias. Era uma gente solitária e suas vidas bastante tristes.

Joguei fora esse primeiro texto e aproveitei só duas páginas. Mudei o foco da narração, que agora vem da adolescente órfã, inteligente e um pouco abismada com a situação da família depois que a mãe morreu. Ela conta a história com bastante leveza, como se mal pudesse acreditar nos contratempos domésticos causados pelo declínio financeiro do pai. Gosto desse contraste entre ironia e acontecimentos patéticos.

Muitas vezes tenho o impulso de colocar na história todo o sofrimento pessoal que me fez considerar aquilo importante para ser escrito. Depois de um tempo, talvez justamente por escrever e relativizar as situações, o sofrimento vai embora. Então releio o texto e vejo que aquilo também é engraçado, apesar de trágico.

Já fiz a mudança de tom em três histórias. É um trabalho que me alivia muito.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Página 222

Estou emocionada com o fim de "Homens e não", de Elio Vittorini.

Li o texto devagar, algumas páginas por dia. Embora trate da resistência italiana durante a segunda guerra mundial, o livro se aproxima do personagem principal de maneira bastante simbólica. Também narra algumas cenas violentas em ritmo poético, e não parece um livro de ação, a princípio.

Mas ao final a narração fica bastante objetiva. A trama vai se afunilando, desenhando a morte de quase todos os personagens. Na página 222, percebi que o protagonista também iria morrer. Não consegui interromper a leitura das próximas páginas, assombrada com este jeito de escrever, construindo o suspense da morte junto a uma discussão quase existencial sobre as escolhas do protagonista.

Há três escritores italianos desse período que me assombram absolutamente: Elio Vittorini, Cesare Pavese e Natalia Ginzburg.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Não me risque nada

Terminei de ler "Até segunda ordem não me risque nada", um ensaio de Flora Süssekind sobre os cadernos e rascunhos de Ana Cristina Cesar.

Gosto muito de Ana C... sua morte é uma tristeza, seus poemas parecem incompletos pela interrupção prematura, é uma pena.

O ensaio é bonito mas fica cansativo em alguns momentos pelo tom de relatório. Acho que poderia se concentrar em menos poemas e comentar mais detalhadamente cada um. De todo modo o texto tem um momento lindo, apresentando seis versões de um mesmo poema em que Ana C. vai cortando as palavras, deixando o poema cada vez menor e mais delicado.

O último fragmento diz apenas:

aventura
bruta
(em versos)

- - -

Me parece comovente.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Adentrar e refletir

Quando era mais nova, eu achava difícil revisar. Não tinha uma idéia clara do que fazer: corrigia problemas gramaticais, checava erros de digitação... mudava algumas palavras intuitivamente. Mas tinha grande dificuldade na escolha do vocabulário. Não queria usar palavras pretensamente literárias como "adentrar", "avistar" ou "refletir". Ao mesmo tempo, não encontrava termos de uso cotidiano que tivessem estilo - que parecessem naturais, mas criassem efeito no texto.

Aos poucos fui descobrindo uns truques e o principal deles foi transformar meu vocabulário passivo em vocabulário ativo, como dizia minha professora de alemão.

Por exemplo, num parágrafo que reescrevi hoje:

"Às vezes passo a roupa para ajudar, mas fico brava porque o pai e Gabriel não fazem nada. A mãe dizia que a mulher não deve ser explorada pelos homens. Eu não sou explorada, mas a casa fica sempre suja."

Quem narra é Raquel, garota de 15 anos que perdeu a mãe faz pouco tempo. O grande problema da história é o apartamento que está caindo aos pedaços desde que a mãe morreu. Apesar da situação triste, Raquel vai contando o que acontece com algum humor, pois é um livro juvenil.

Eu queria criar um efeito irônico no final do parágrafo, entre a exploração feminina e a sujeira da casa, mas achei que isso não estava muito claro. "Brava" é uma palavra fraca para essa situação. Raquel poderia ficar brava, nervosa, revoltada, irritada... vários adjetivos caberiam ali, mas nenhum me parecia dar o sentido de contrariedade com algum grau de elegância.

Então lembrei de "indignada". A noção de "dignidade" não estava nas outras palavras. E me pareceu que essa demanda ficaria discretamente cômica numa garota de 15 anos que mora numa casa suja, com o fogão quebrado e todas as contas atrasadas.
Finalmente, a frase ficou assim:

"Às vezes passo a roupa para ajudar, meio indignada porque o pai e Gabriel não fazem nada. A mãe dizia que as mulheres não devem ser exploradas pelos homens. Mas quando não sou explorada, a casa fica sempre suja."

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Hierarquia narrativa

Hoje volto ao texto "O fogão explodiu", depois de 3 semanas atrapalhadas por feriados e faculdade.

Durante essas semanas, reli "Minha vida", de Tchekhov, que li pela primeira vez há mais de 10 anos.

Fiquei impressionada porque a construção da narrativa é muito próxima ao que estou tentando fazer em "Limas da Pérsia". Desde a cena inicial, o narrador vai apresentando as acontecimentos linearmente, a partir de seu ponto de vista. Pensamentos e sensações aparecem na mesma hierarquia narrativa que as cenas com outros personagens... ou seja, quase não há diferença de estilo e ênfase entre a narração de informações objetivas e subjetivas, mesmo quando estas são absolutamente profundas. Também não há muito espaço para digressões explicativas: elas aparecem brevemente quando são necessárias.

Sei que é a forma narrativa mais simples que existe, mas estou achando muito difícil fazer o simples.

Fiquei realmente surpresa ao perceber que estou tentando fazer, agora, o mesmo que se fez neste livro que me marcou tanto na faculdade.