quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Montanhas ao fundo

"Fomos de carro buscar as coisas de Melissa no apartamento de seu amigo. Ela já tinha levado quase todas as roupas, aos poucos. Faltavam uma caixa de livros, um micro-ondas e uma pequena televisão de tubo. A TV estava num canto, desligada da tomada, sobre a caixa de livros. Melissa perguntou se o amigo queria ficar com ela, mas ele não quis, não assistia nunca televisão. Atrás de uma estante baixa havia também um quadro apoiado no chão. Era uma paisagem rural pintada sobre veludo escuro, um lago no centro, araucárias ao longo das margens, uma cabana à direita e montanhas ao fundo. A lua amarela entre nuvens douradas refletia luz sobre o lago. Melissa explicou seu afeto por esse gênero de pintura popular, de mau gosto segundo o senso comum, comovente para ela. "Não pela ingenuidade", ela disse. "Realmente gosto. Me sinto em paz vendo a garça voando entre as árvores." Desde criança ela via, quando viajava de carro com os pais, a barraca de um velho que vendia suas pinturas na beira da estrada.

- Eu comprei num feriado de Natal, no primeiro verão depois que entrei na faculdade. Quis trazer para São Paulo uma lembrança de casa.

Limpei uma coluna do armário para Melissa colocar suas coisas, que antes estavam espalhadas pelo guarda-roupa, misturadas às minhas. Ela tirou os livros da caixa, eram alguns volumes de psicologia, um livro de poesia e uns poucos romances.

- Posso pendurar o quadro em algum lugar? - ela perguntou.

Concordei, mas ela ficou insegura.

- Você acha muito feio? Quer que eu deixe no corredor, pra não aparecer demais?
- Pendure onde você quiser - eu disse. - Pode ficar na sala, não tenha medo. Entendo o que você vê nele."



"Vocês se reproduziram demais."

Cena de Sérgio Bianchi - um grito no Viaduto do Chá: "Quero ficar completamente sozinho, saco. Vocês se reproduziram demais, tem muita gente. Não me interessa mais, não transo mais. Tem muita gente. Cara, vocês se reproduziram realmente demais. Não me interessa mais."

Aos 8min deste vídeo. Assisti há quase vinte anos e nunca esqueci.