sexta-feira, 30 de agosto de 2013

"Uma Longa Jornada" de Nicholas Sparks

Cada vez me interessa mais a técnica do best-seller narrativo romântico para adultos. Num primeiro olhar, parece tudo formulaico e repetido. Mas como dizia JCB sobre as telenovelas, "É fácil de entender, e difícil de fazer."

Sobre Nicholas Sparks:

"Ele brinca quando é questionado sobre o segredo para escrever um best-seller. "É só escrever um livro que muitas pessoas queiram ler", diverte-se. "Isso é sério. Ninguém fez nada como Tolkien (autor de "Senhor dos Anéis) até a chegada de J.K. Rowling (autora de "Harry Potter). Você tem que criar algo novo ou escrever algo que já exista, mas de uma maneira nova", diz.

Escrever, porém, não está entre os maiores prazeres do autor. Ele diz que sofre e que pode demorar até seis meses para começar um novo livro. "Uma das coisas mais difíceis é provocar uma emoção genuína no leitor. Você tem que fazer isso de um jeito original, com contexto e na voz dos personagens". Ele conta que chega a ler 100 livros por ano e garante que essa é a única maneira de se escrever bem.

Tudo o que o cerca pode virar uma história, ela só precisa parecer real. "A voz do personagem tem que soar verdadeira e sólida. Se é verdadeiro para o personagem, é verdadeira para o leitor". O autor, no entanto, só senta na frente do computador depois de definidos o começo, o final e algumas características dos protagonistas, como idade e estado civil. Os demais detalhes são criados ao longo do processo."

http://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2013/08/30/autor-de-diario-de-uma-paixao-conheceu-esposa-no-spring-break.htm

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Textos reciclados

Ao final de "O mundo inimigo", de Luiz Ruffato, há uma página explicando quais contos anteriormente publicados foram aproveitados e adaptados ao romance.

Eu me perguntei os motivos dessa explicação. Um senso de honestidade, ou o medo de que reconhecessem alguma passagem, e ficasse no ar a sensação incômoda de repetição, desconfiança de autoplágio ou preguiça?

Creio que Clarah Averbuck ou alguém como ela teve problemas assim.

Eu gosto de reaproveitar textos antigos nos romances. Tenho dois motivos:

- Artigos de revista ou textos de blogs são temporários. Seu tempo passa rápido. No romance, eles ganham uma espécie de vida eterna, situações naquele universo autossuficiente.

- Ao escrever um romance, há o perigo do encadeamento mecânico. Você segue uma lógica narrativa e começa a se repetir. Reler anotações antigas traz flash avulsos para arejar isso.

Um texto antigo, adaptado, raramente fica igual. Às vezes sobrevive apenas uma linha, uma figura de linguagem, uma ideia.

Como neste parágrafo, em que reciclei um artigo escrito para o blog "Vadio amor":

"Aos dezesseis anos acreditava no amor livre. Era anarquista pelo convívio com os skatistas de Osasco, e entre muitas conversas sobre as soluções para os erros do mundo eu defendia que a monogamia era fruto da propriedade privada capitalista, e o amor deveria ser dividido como as terras cultiváveis e os meios de produção. O ciúme era equivalente ao monopólio e a exigência de fidelidade era como a exploração da classe trabalhadora. Nessa época era virgem e nunca tinha namorado. Passados vinte anos, o amor livre continuava uma especulação teórica. Eu havia conhecido ou ouvido histórias de traidores compulsivos, solteiros convictos, swingers, infidelidade consentida, casais que não transam, casais com anexos eventuais, pessoas que desistem de relações românticas para frequentar prostitutas. Mas o amor livre civilizado, declarado e consentido, esse ainda era potencialmente uma lenda urbana."




quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Romance em primeira pessoa

Escrever um romance em primeira pessoa é muito difícil. Principais dificuldades de técnica narrativa, na minha experiência:

a) criar eventos interessantes para manter a agilidade do enredo, nos limites das ações cotidianas (lembro vagamente que Marguerite Duras escreveu: "É muito fácil escrever um romance com uma guerra, um divórcio, e uma viagem internacional");

b) alternar com equilíbrio ações da protagonista, suas reflexões, ações dos outros personagens, e sua subjetividade;

c) transmitir a vitalidade dos outros personagens, mantendo o ponto de vista do narrador (se ele não esteve no passado e na vida cotidiano dos outros, é difícil criar, sem repetição dos mesmos recursos de diálogo, situações em que isso possa ser narrado).

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Suporte material

"Em outra noite caminhávamos pela rua Augusta, meu ponto preferido da noite gay, os quarteirões raros de São Paulo em que se pode caminhar pelas calçadas trocando de bares, entre as pessoas. Melissa contou que frequentara muito a rua, alguns anos antes, quando ainda havia prostitutas e alguns bares universitários.

- Vim de Santa Bárbara do Oeste com dezessete anos, para a faculdade de psicologia. Depois de uns meses desandei. Muita maconha, botecos, não ia pra aula. E daí conheci o Guilherme. A gente passava a noite pela Augusta, tipo herdeiros dos anos 60.

Eu sabia pouco de sua vida afetiva e pedi que contasse mais.

- Guilherme morava sozinho no apartamento dos pais. Estavam fora da cidade, indo de veleiro para o Caribe, num ano sabático. O pai era empresário da área de energéticos,
- Ele estudava?
- Não. Começou filosofia mas trancou. Desenhava, ficava lendo e falando o dia inteiro de contracultura. Uma noite começou a berrar na janela que o Sérgio Sampaio era o gênio incompreendido da cultura brasileira. O zelador chamou os bombeiros e três PMs entraram no apartamento, levaram ele para o pronto-socorro psiquiátrico da Santa Casa. Eu nem sabia pra quem telefonar. Enquanto ele estava sedado apareceu uma tia, que me tratou como uma adolescente maconheira e irresponsável.
- E você não era?
- Eu achava que nosso amor era eterno. Que nosso encontro era uma força do destino.
- O que aconteceu com ele?
- Os pais combinaram com a tia por telefone. Ela achou uma clínica para dependentes químicos em Atibaia, e ele se internou. Ele ria. Dizia que cumpria seus deveres para manter a mesada. Eu ia para Atibaia no dia de visita. Demorava algum tempo entre metrô e dois ônibus. Achava que ele era um cara incrível e injustiçado pela família capitalista. Quando ele voltou para o apartamento, conheceu uma japonesa e me deu um pé na bunda.
- Que bonito.
- Depois disso, pelo menos, voltei a acordar cedo.

Melissa morava, naquele período, no quarto emprestado por um amigo que conduzia oficinas de teatro em bairros de periferia. Ele tinha alguns horários de aula durante a semana e no restante do tempo trabalhava em casa. Melissa dormia num colchão de visitas no escritório dele, desmontava a cama de manhã e saía do apartamento para não atrapalhar. Passava o dia em bibliotecas, parques, assistia filmes gratuitos em centros culturais. Arrastara o curso de psicologia durante quatro anos sem se formar, com desânimo crescente, e o interrompeu sem novos planos, sem mesmo clareza do que queria fazer. Contribuía com as contas do amigo conforme podia, os pais não a sustentavam desde que abandonara a faculdade. Tanta soltura era uma surpresa para mim. Embora racionalmente eu considerasse imatura e até algo ingênua, eu não conseguia recriminar totalmente aquela vida transitória. Entendia seu prazer e considerava um pouco triste que, infelizmente, era uma opção inviável. Ao mesmo tempo, não poderia deixar de ser prudente, minha consciência se baseava em princípios adquiridos de aproximação gradual.

- Você não tem medo de viver assim?

Ela ficou tentou dizer algo e desistiu. Depois organizou alguma história:

- Embora eu lembre o que aconteceu, não sei bem como cheguei a esse ponto. Quando comecei a fazer terapia, eu tive medo. Achei que era apenas uma paciente, não tinha estrutura para ajudar ninguém, nunca poderia ser psicóloga.
- As pessoas crescem.
- Mas eu poderia crescer tanto?
- Todo mundo cresce.
- Eu achava que não.
- Então agora você está solta no mundo sem plano de futuro? Não acredito totalmente. Você deve ter uma ideia vaga. Ninguém não quer nada.
- Não sei bem o que posso fazer sem a ajuda dos meus pais. Minha mãe leu num livro que os pais devem retirar seu suporte material, e manter apenas o apoio emocional, para que os filhos enfrentem a vida adulta. Ela diz que dói no coração, mas não pode me dar dinheiro pelo meu próprio bem.

Sem que planejássemos, Melissa dormiu no meu apartamento várias noites seguidas. A cada dia, enquanto eu estava no trabalho, combinávamos por telefone de nos encontrar. E depois de namorar, já tarde e cansadas, ela perguntava se podia ficar, ou eu dizia sem que perguntasse, nós dormíamos e ela ficava. Eu gostava da sua presença mas a possibilidade de dependência me assustava às vezes. Creio que o mesmo ocorria a ela, pois um dia disse:

- Eu queria que você soubesse que venho aqui porque gosto de você. Não é porque minha vida está um caos ou eu precise de ajuda. Eu gosto de você, e gostaria se as condições fossem outras.
- Fique tranquila. Eu sei disso.

Eu sabia mas só parcialmente. Não acreditava no amor puro, não seria possível ignorar o fluxo oscilante de ideias na minha cabeça e duvidava que fosse diferente com outras pessoas. Gostava dela, mas às vezes achava seu rosto quadrado demais, gostava que fosse frágil, mas tinha medo que ultrapassasse o limite e exigisse uma energia que eu não estava disposta a dar. Se o amor é uma média aproximada de sentimentos desparceirados, eu não tinha certeza se a média era positiva no caso dela. Deixava os dias correrem com essa indefinição latente, porque não tinha um motivo para ultrapassar o ponto da indecisão."