quarta-feira, 29 de março de 2017

Meditação infantil

Até os trinta e oito anos eu era a filha mais velha que fazia tudo certo, e Pablo era o caçula folgado. Eu trabalhei desde a faculdade, fui morar sozinha assim que me formei, casei aos vinte e seis anos com um jovem e promissor cirurgião vascular. Pablo teve dezenas de namoradas dos dezoito aos trinta anos, às vezes duas ou três ao mesmo tempo, e minha mãe mantinha uma caderneta para não confundir os nomes quando elas apareciam (apenas a oficial de cada vez). Quando terminou o curso de direito, Pablo passou três anos morando com minha mãe sem trabalhar, apenas estudando (mais ou menos) para os concursos públicos. E quando finalmente assumiu uma vaga de Procurador estadual, e se estabilizou com Crystal, sua namorada mais paciente (os pais budistas a levavam a aulinhas de meditação desde criança), Pablo ainda ficou dez anos morando em seu quarto confortável no conjunto Kowarick. Crystal não imaginava que as aulinhas de meditação infantil seriam tão necessárias em seu eterno namoro com Pablo. Nesses dez anos ela passou de aluna de psicologia, insegura com a profissão, a chefe de Recursos Humanos da própria faculdade em que se formou. A ideia de se casar estava praticamente enterrada, e mesmo Pablo já estava na berlinda, quando Crystal engravidou sem planejar, e Pablo finalmente se mexeu. Ele comprou um apartamento a seiscentos metros do Kowarick (tinha um bom dinheiro guardado, pois além de folgado era pão-duro), e quatro meses depois se casaram. Era 2012, justamente quando eu estava me divorciando.

terça-feira, 21 de março de 2017

Torta de palmito em família

Meu sobrinho Juan quase se chamou Pietro. Quando Crystal, minha ex-cunhada, estava grávida, ela queria um nome curto, simples e diferente. Um nome que mostrasse como seu filho era único; alegre (para dar leveza à sua infância) e digno (para ele ser respeitado quando adulto). Que fosse fácil de entender sem soletrar. Pietro, para ela, tinha todas essas qualidades, além de ser clássico e romântico. Mas meu irmão Pablo considerou ridícula essa combinação, pai e filho brasileiros com esses nomes, Pablo e Pietro. As mesmas iniciais, a mesma pretensão estrangeira equivocada.

Nossos nomes foram escolhidos em homenagem a cantores latino-americanos que meus pais admiravam: Pablo Milanés e Violeta Parra. Meus pais foram jovens nos anos 1960 e se emocionavam com canções de protesto. Crystal e meu irmão tiveram algumas discussões sobre o nome nos almoços de domingo, até que eu sugeri Juan, o que resolveu o problema. Eles ainda pareceriam uma dupla latina, mas eram ao menos iniciais diferentes. E eu sabia (por isso a sugestão) que Pablo respeitava muitíssimo Juan Riquelme, que eliminara o Palmeiras duas vezes na copa Libertadores da América em 2000 e 2001, e fazia parte da equipe do Boca Juniors em 2012, perdendo para o Corinthians na histórica final, a primeira taça Libertadores conquistada pelo Timão.

Depois de comer torta de palmito e beber um chá gelado que minha mãe fazia (com mate, laranja, cravo e canela – ela se recusava a servir refrigerante), eu, Pablo e Juan ficamos estirados no sofá da sala assistindo “Hora da aventura”, o desenho animado favorito de Juan. Era um domingo quente de abril, o clima na sala estava agradável. Da janela víamos as árvores do jardim do condomínio, a luz do sol bonita e morna, que não batia diretamente na tela da TV. Era o cenário escolhido minuciosamente pela minha mãe, no quarto andar porque era possível ver as árvores sem perder a luz externa.

Ela e meu pai compraram o apartamento no Kowarick quando eu tinha dois anos e Pablo era recém-nascido. Ela sonhava com este condomínio desde a adolescência; era onde morava a colega de colégio que mais admirava. Amamentando, alguns dias depois de voltar da maternidade com Pablo, ela decidiu que precisava de um apartamento com três quartos, agora que tinha dois filhos, um menino e uma menina. Segundo meu pai conta, ele foi sozinho em suas folgas nos fins de semana visitar todas as unidades à venda, nas oito torres do condomínio, depois voltava e respondia ao questionário minucioso de minha mãe. Finalmente ela foi visitar as três unidades que passaram em seu critério inicial, ainda antes de completar um mês da cesárea. Escolheu o apartamento 44 do edifício Opala porque os dígitos somavam 8, responsabilidade e prosperidade segundo a numerologia. Ela achou importante ter um espírito pragmático em nosso apartamento, para equilibrar a sensibilidade coletiva do condomínio, cujo número da portaria somava 6, liberdade e criatividade. Apenas ressentia que o nome Opala lembrasse uma marca de carro, o que era contra suas convicções anticonsumo. Embora a origem do nome, como nos outros prédios do conjunto, fosse uma pedra preciosa brasileira: Ágata, Angelita, Coral, Granada, Lazuli, Onix, Opala, Rubi.

Juan estava meio inquieto porque não podia jogar seu nintendo portátil. Desde as três da tarde, quando ele e Pablo chegaram no apartamento da minha mãe, ele ouviu conversas por noventa minutos (durante a torta com chá gelado), e só pode encostar num botão de liga/desliga depois que os três adultos saíram da mesa. Dona Glaucia não permitia TV ligada nas refeições, e nenhum jogo eletrônico nunca (também não gostava que nós a chamássemos de “Dona”).

Depois de comermos, ajudei minha mãe a colocar a louça na máquina (apesar da educação feminista, Pablo nunca se oferecia voluntariamente e desistimos de insistir). Quando voltei para a sala, Juan estava afundado no sofá com a expressão mais insatisfeita do mundo, e Pablo cochilava. Sentei na outra ponta do sofá e cutuquei o braço de Juan quando ele não estava olhando. Na primeira vez ele riu. Voltamos a assistir o desenho e o cutuquei mais algumas vezes. Em algumas tentativas ele me flagrou antes do movimento. Eu recolhia o braço e disfarçava, olhando para o teto e fingindo assoviar. Na quarta ou quinta vez, ele reclamou: “Pára, tia! Que chato!”. Eu ri e ele não gostou. Parei com a brincadeira, embora eu gostasse muito de cutucá-lo.

terça-feira, 14 de março de 2017

Estágio

Vaga de estágio em produtora de cinema, no bairro Vila Beatriz/Alto de Pinheiros (SP).

Para alunos de 2. ou 3. ano de curso de RTV, Cinema ou Audiovisual.

Desejável fluência em alguma língua estrangeira.

Horários e remuneração a combinar.

Enviar currículo e um texto de apresentação, explicando em 20 linhas "Minha opinião sobre o Cinema Brasileiro". Contato: afcinema@uol.com.br

segunda-feira, 13 de março de 2017

A viúva Simões, Éramos Seis e Pagu

Nos últimos meses li algumas escritoras brasileiras mais antigas, seguindo uma ordem cronológica: “A viúva Simões” (1897), de Julia Lopes de Almeida; "Parque industrial" (1933), de Patrícia Galvão (Pagu); "Éramos seis" (1943), de Maria José Dupré. De Pagu também li os textos selecionados em “Pagu: Vida-obra” (org. Augusto de Campos).

Enquanto seguia as leituras, li uma entrevista com a crítica literária Leyla Perrone-Moisés publicada pela FSP (Maurício Meireles, 12/02/17). Explicando sua opinião sobre estudos dedicados ao “lugar da fala”, ela respondeu: “Certa vez, encontrei uma pesquisadora que estudava mulheres escritoras do século 19 no Brasil. Perguntei se havia muitas e se eram boas. Ela disse: "Se são poucas e não são boas, é porque os homens não as deixaram desenvolver seus talentos". (…) Não temos grandes escritoras brasileiras nesse período, precisamos reconhecer".

Complemento com minha opinião:

- “A viúva Simões” não é pior que “Lucíola” (1862), de José de Alencar. Pensando na década de 1890, é certamente pior que “Quincas Borba” e “O cortiço”. Mas, dadas as circunstâncias (segundo a cronologia do google, é seu primeiro romance), não me pareceu tão ruim. Tem bons detalhes no início. Numa cena, a mãe abre a carteira numa loja, para tirar algumas notas de dinheiro e pagar uma compra. Fico pensando no aspecto descritivo desta cena. Em “Memórias Póstumas” o dinheiro aparece com várias funções temáticas, mas pouco como registro.

- Sobre Pagu: Minha admiração precisaria de muitas outras linhas.

- “Éramos seis”, para mim, é um livro muito difícil de suportar. Admiro muitíssimo a narração, mas toda aquela desgraça realista me assusta, e preciso de coragem para abrir o volume e ler algumas páginas (suporto poucas de cada vez).

- Sobre as personagens: eu odeio a viúva Simões e Dona Lola (a mãe de “Éramos seis”). Odeio que tenham existido. Dona Lola, aquela mamãe “com o avental todo sujo de ovo”. A viúva Simões, uma projeção fantasiosa de toda culpa da sexualidade, conformada ao final do romance porque a filha ficou “idiota”, mas felizmente não morreu, depois de uma febre cerebral.

Odeio essas duas personagens, mas tento encarnar o sofisma que impressiona as pessoas do futuro (que rejeitam a escória de uma outra época) no filme “La Jetée”, de Chris Marker: “Já que a humanidade sobreviveu, ela não pode negar a seu próprio passado os meios de sobreviver.”

Ou então o conhecido poema de Brecht, “Aos que vão nascer”: “Vocês, que emergirão do dilúvio em que nos afundamos, pensem – quando falarem de nossas fraquezas – também nos tempos negros de que escaparam”.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Um sábado

Dia 12 de abril era um sábado. Alguns anos antes, era a data em que eu comemorava meu aniversário de casamento. Mas não lembrei. Acordei às nove da manhã e fiz minha xícara de café preto, esquentei um pão francês e preparei um ovo frito. Gosto de comer ovo frito com pimenta do reino no café da manhã, aprendi com meu pai. Comi assistindo à reprise do jornal da manhã, depois liguei o computador. Desde que me divorciei, há três anos, voltei a jogar videogames. Sempre que consigo, passo os fins de semana sozinha aproveitando minhas coisas preferidas. Videogame, histórias em quadrinhos, cerveja e sorvete.

Minha quitinete tem uma cama de solteiro e uma mesa pequena onde uso o computador. Tenho apenas uma estante de livros, com cinco prateleiras pequenas. Só guardo os poucos livros que despertam meu afeto mais sincero. Duas prateleiras têm apenas quadrinhos, o tipo mais específico que me interessa, histórias realistas e cotidianas em que nada grave acontece.

Foi aos poucos que percebi que gosto de ficar sozinha. Meu temperamento natural é dócil. Cresci num condomínio cheio de crianças, no sábado eu brincava o dia inteiro até as últimas crianças serem forçadas a voltar pra casa de noite. Na época em que meus pais eram casados, eles gostavam que ficássemos fora brincando, enquanto descansavam no apartamento silencioso. Quando casei eu pensava em ter filhos, não era um plano cuidadoso mas eu gostava de crianças e imaginava que um dia isso aconteceria.

Acho que foi uma perna quebrada que mudou tudo isso.

Meu pai me ensinou a fazer ovo frito depois que ele e minha mãe se divorciaram. Por um tempo ele morou numa quitinete. Eu e meu irmão passávamos os fins de semana com ele, que estendia colchonetes pelo chão, o cômodo parecia uma barraca de acampamento, os colchonetes entre as paredes cheias de prateleiras com livros sobre modelismo e marcenaria. No canto havia uma pia com suas poucas louças, e um fogareiro de uma boca. Ele acordava de manhã e ia comprar pão na lanchonete de baixo. Depois nos acordava, montava uma mesa dobrável, e fritava oito ovos no fogareiro, cada um de nós comia dois ou três. Ele moía pimenta do reino no seu ovo, eu achava forte mas admirava e aprendi a gostar.

Enquanto esteve casado com minha mãe, meu pai passava a madrugada trancado no quartinho da lavanderia, lendo ou montando modelos de madeira. Não havia mais lugar na casa para as miniaturas de trens, castelos, esqueletos de dinossauros. Ele continuava montando, dava os modelos prontos para alguma criança do condomínio. Ficava escondido no quartinho para que a luz não acordasse minha mãe, que tinha sono leve.

Para mim essas noites solitárias eram uma esquisitice, um sinal simpático e inofensivo de que meu pai não era muito normal.

No sábado de manhã, quando sento em frente ao computador para jogar videogame, apoio os pés sobre um banquinho de madeira. Na perna direita ainda tenho uma cicatriz quase invisível do machucado na aula de rapel, aos vinte e sete anos, quando quebrei a tíbia ao escorregar de um pedregulho, na descida da cachoeira onde fizemos o treinamento.

Minha perna quebrada não era grave, mas a recuperação da fratura foi lenta. Quando estava quase boa senti novamente dor, e o exame de ultrassom mostrou um coágulo. Passei alguns meses tomando anticoagulante, até o médico garantir que estava tudo certo e eu não corria mais nenhum risco de embolia.

No computador, comecei um novo jogo, chamado “City of Fools”. Não tem tradução em português, mas poderia ser Cidade Maluca. Eu começo o jogo num vagão de trem. Quando desço na estação, um funcionário desanimado me diz que metade dos negócios da cidade estão fechados, porque o prefeito roubou o caixa da prefeitura e fugiu para sua mansão numa ilha. Eu sigo um mapa que encontro no meu bolso. Quando chego numa casa pequena com um jardim bonito, encontro minha avó velhinha chorando. Seu gatinho de estimação costumava dormir no barco do prefeito, ancorado no cais da cidade. Quando o prefeito fugiu, levou sem querer o gato junto.

O jogo é simples mas não tem nenhuma pista muito clara. Eu preciso visitar todas as casas da cidade para descobrir o que fazer. Depois de jogar uns quarenta minutos, sinto vontade de fazer xixi. Café é diurético. Eu bebo uma xícara cheia de manhã.

Sempre gostei de acordar com calma pela manhã. Na escola, sempre que possível, estudei à tarde. Gosto de fazer tudo aos poucos e devagar. Na primeira vez que fui numa feira de imóveis com Ricardo, meu ex-marido, fiquei paralisada na entrada do pavilhão do Anhembi. Procurávamos um apartamento, planejávamos nos casar. Naquela época ele era carinhoso e comentou: “Sei que você prefere coisas pequenas. Mas coragem. Vamos conseguir um bom negócio.”

Ricardo se espantava com o tamanho da minha xícara de café. Ele tinha uma energia natural. De manhã tomava suco de laranja e poderia correr dez quilômetros. Ele se sentiu meio culpado quando quebrei a perna. Era sempre ele quem sugeria os passeios de aventura. Eu acompanhava, os lugares eram lindos, o clima esportivo me divertia, mas eu mesma, por minha própria escolha, nunca tentaria descer de rapel de uma cachoeira num alto de um pedregulho.

Quando me recuperei da fratura e do coágulo, eu estava mais magra e desanimada. Ricardo sugeriu, amoroso, que tentássemos ter um filho. Parecia uma ótima ideia. Um bebê para amarmos no nosso apartamento novo que foi um ótimo negócio. Uma criança frágil para eu cuidar, uma desculpa excelente para fugir do rapel e dos pedregulhos.

Passei quase dois anos tentando e nada aconteceu. Ricardo acompanhou minha angústia. Tentando ajudar, ele marcou uma consulta numa clínica de fertilidade. Fomos à primeira consulta juntos e a médica me passou uma série de pedidos de exame.

Nessa época nós morávamos em Perdizes. Para ir à clínica, na rua Itapeva, eu cortava caminho pela rua Fernando de Albuquerque. Entrava na Peixoto Gomide e passava na esquina da Herculano de Freitas, onde ficava a quitinete em que meu pai morou.

O divórcio dos meus pais mudou os humores no apartamento em que cresci, no conjunto Kowarick, na Aclimação. Minha mãe passou alguns anos estressada e ansiosa. Eu e meu irmão brigávamos por qualquer iogurte ou mudança no canal de TV.

Mas eu tinha ótimas memórias da quitinete na rua Herculano de Freitas.

Meu pai comprou um Atari para nós. Nos fins de semana passeávamos durante o dia, no museu do Ipiranga, no Zoológico, no Simba Safari. À noite na quitinete jogávamos videogame. Eu era ótima em Pitfall, controlando um homenzinho que corria longamente por uma floresta, pendurava-se em cipós, saltava sobre cabeças de jacarés para atravessar lagoas, pulava escorpiões nas cavernas até encontrar um saco de dinheiro.

Aos meus trinta anos, enquanto eu tentava engravidar, meu pai já tinha se aposentado. Ele se mudou para Valença, na Bahia, onde montou uma oficina de móveis para lanchas e veleiros. Minha mãe alugava dois quartos para estudantes estrangeiros, e passava os fins de semana em Santos com seu namorado, vice-campeão estadual sênior de triatlo.

No jogo “Cidade Maluca”, eu entro no apartamento 82, da casa 17 da rua do Hamburguer. É uma casa velha de madeira, com uma bicicleta pendurada de ponta cabeça no balcão do primeiro andar. No aparamento, uma mulher cansada ao lado do carrinho de um bebê que chora sem parar. Ela me pergunta se sou a babá que ela pediu no anúncio. Diz que está sem energias, que já tentou de tudo e o bebê não para de chorar. No chão há alguns briquedos espalhados. Tento dar uma bola, um chocalho e um ursinho para o bebê. O choro continua. Ele quer alguma comida, mas nem eu nem a mãe sabemos o que é.

Dirigindo sozinha para a clínica de fertilização na rua Itapeva, levando uma pasta de exames dentro da bolsa, eu lembrei do homenzinho no Pitfall, perdurado nos cipós, saltando sobre escorpiões e crocodilos. Era eu pegando o carro para mostrar os exames à médica, para fazer uma inseminação, para ter um filho, para ter um marido feliz e com um filho que talvez também gostasse de rapel, e iria me levar novamente a uma cachoeira no alto de um pedregulho, onde eu poderia novamente escorregar, quebrar a perna e ter uma embolia por causa de um coágulo.


Sentada na minha quitinete no sábado de manhã, eu visitaria todas as casas da Cidade Maluca e enquanto minha perna descansava no banquinho. Eu achava meu pai esquisito porque ele passava madrugadas no quartinho da lavanderia montando miniaturas de veleiros de madeira. Mas entendo plenamente que passe sua aposentadoria em Valença na Bahia, medindo e cortando compensado naval para os armários embutidos dos barcos de outras pessoas. Nem todo mundo quer ter um barco e sair navegando. Algumas pessoas preferem cortar pedaços de madeira entre as paredes de um quartinho.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O mercadinho

Da minha janela, na Bela Vista, eu vejo o que foi o vale do córrego Saracura um século atrás. Hoje o vale é um mosaico de prédios subindo a encosta até o Parque Trianon. Eu moro na parte baixa, onde nasce o córrego, uma mina de água que brota nos fundos de um grande condomínio. A água passa por canos no muro e escorre sobre a calçada até as calhas de esgoto. O córrego segue canalizado até a praça 14 Bis e continua subterrâneo à avenida Nove de Julho até o centro da cidade. Na época do Império, a praça 14 Bis era um brejo cercado de bambuzais onde escravos fugidos se escondiam. A saracura é um pássaro de brejo, de canto estridente e repetitivo. Quando eu era criança e choramingava, minha mãe brincava: "Canta, minha saracura."


Na frente do meu prédio há cinco sobrados antigos. Num deles há um terreiro de candomblé, o pai de santo alto e gordo tem um jipe moderno. Ao lado há uma lojinha familiar de bolachas e salgadinhos, e um bar que serve apenas cerveja, aos mesmos frequentadores, meia dúzia de homens no fim da tarde em volta de duas mesas de plástico.

No único sobrado de dois andares mora uma mulher velha, magra, sempre fumando na soleira, em shorts justos de ginástica. De chinelos, camiseta velha, os cabelos mal pintados com longas raízes brancas, ela acompanha as pessoas que passam com um olhar meio debochado. Ao seu pé fica um cachorro velho, preso por uma coleira, que levanta o pescoço às vezes, mas não late. A mulher é provavelmente casada com um senhor que fica à janela o dia todo de cara fechada. De manhã cedo ele varre a calçada e deixa o monte num canto, esperando o lixeiro passar. Se alguma criança mexe, ele reclama.

Eu passo dias inteiros no apartamento. Saio apenas de manhã para caminhar, compro alguma comida na feira ou algum mercado, depois volto e fico o resto do dia no meu canto, os meus trinta metros quadrados. Meu único rendimento e trabalho fixo é numa escola de teatro na Lapa, terças e quintas das sete às dez da noite. Terça tenho aulas, quinta oriento os projetos dos alunos. É uma escola particular de formação de atores, fundada por uma atriz que faleceu em 1992.


Quando vou para a Lapa saio às três da tarde. Já há movimento nas ruas, mas os ônibus ainda não estão cheios demais. Saio do prédio e cumprimento com um aceno minha vizinha do sobrado em frente. Se o dono do bar estiver olhando, eu o cumprimento também. Sigo pela calçada à direita, passo por uma serralheria, um casarão reformado com quartos para alugar, e subo a rua Conselheiro Carrão. No caminho tem um mercadinho onde recarrego os créditos de meu cartão de ônibus. Às vezes a senhora do sobrado está ali, comprando cigarros, tomando café e conversando com a dona. Ela leva seu cachorro e o amarra na entrada, ao lado de uma cestas com bananas, tomates e cebolas para vender.


A dona do mercadinho é uma senhora baixa e gorda, sempre de vestido e meias de compressão. Fica no caixa e conversa aos gritos com a filha e a neta que moram no interior da casa. O mercadinho ocupa o espaço da antiga sala do sobrado. As casas dessa rua foram construídas oitenta anos atrás, não tinham garagem. Um dia fui carregar meu bilhete e a neta estava no caixa, uma menina magra de uns treze anos. Enquanto eu esperava, vi o cachorro da minha vizinha amarrado ao lado da cesta de tomates. Um mendigo chegou devagar e parou ao lado do cachorro. Olhou a menina no caixa, estendeu a mão e pediu alguma coisa, numa voz enrolada e incompreensível de gente já muito prejudicada. Era um mendigo velho, enrolado num cobertor sujo.


A menina e sua avó, no mercadinho, estão acostumadas com mendigos. Elas não podem dar muita coisa, senão aparecem muitos, a toda hora. Geralmente a dona oferece um copo descartável com água. Se pedem mais, ela diz: “Volta às sete.”. Essa é a hora em que o mercadinho fecha, todos os comerciantes do bairro fazem isso, dão alguma coisa no horário de fechar, quando não há mais risco de atrapalhar os clientes. Imagino que ela ofereça um pedaço de bolo ou algum dos salgados que ficaram expostos a tarde toda no balcão.


Enquanto eu esperava meu cartão de ônibus, a menina gritou para o fundo do mercadinho chamando a avó. Eu olhei o cachorro amarrado, velho e sujo, rosnando fraco para o mendigo. É errado julgar pelas aparências, mas olhando os dois tive eu preferi o mendigo, de rosto negro e sereno apesar dos olhos embaçados. Não simpatizo com cachorros de focinho amassado. A dona, minha vizinha, apareceu na esquina onde havia um boteco, trazendo uma sacola plástica com algumas latinhas de cerveja. Ela parou quando viu o mendigo junto à cesta de tomates. Ela provavelmente queria pegar seu cachorro e ir embora, mas o velho impedia. Sem outra opção de diálogo, ela deu uma lata de cerveja para o homem, fazendo um gesto irritado para ele ir.


O mendigo segurou a lata e continuou imóvel. Olhava a mulher e não reagia. A dona do mercadinho chegou e mandou a neta para dentro. O mendigo ficou um tempo parado com a lata na mão. Finalmente ele seguiu andando, segurando a lata fechada, como se mal soubesse o que era. Eu pensei por um instante que a cerveja iria esquentar, se ele a segurasse muito tempo na mão.


Eu ainda estava parada ao lado do caixa do mercadinho, agora com a avó, sem a neta. Expliquei que esperava meu cartão de ônibus. A dona carregou os créditos e o devolveu. A mulher do sobrado pegou seu cachorro e seguiu para casa.


Eu caminhei até a Rui Barbosa e esperei o 967A-10 Imirim, no ponto em frente ao Bradesco. O Imirim é meio demorado mas em teoria, se não atrasar, passa às três e quinze. Raramente eu consigo sentar, pois ele vem coletando passageiros desde a Vila Mariana. Geralmente consigo um canto perto da porta de saída. Um canto protegido para ficar em pé, fora da passagem, já é uma grande vantagem no ônibus. É o horário em que as faxineiras e empregadas domésticas voltam para casa, elas merecem sentar depois de um dia inteiro de trabalho. Eu não fico muito tempo nesse ônibus, preciso descer no centro e pegar outro, e fico mais tranquila perto da porta. Em uma noite de aula, recebo um pouco mais que uma diária de faxina. Não muito mais.


O Imirim passa pelo viaduto sobre a avenida Nove de Julho na altura da praça Roosevelt. Olhando a avenida pela janela do ônibus, entre os prédios escuros de fumaça, penso que um século atrás era possível chegar até a Lapa seguindo os rios. O córrego Saracura juntava-se ao ribeirão Anhangabaú (na atual praça da Bandeira), descia até Tamanduateí (no atual Mercado Municipal), e depois desaguava no rio Tietê, que hoje parece uma vala de esgoto.


No 967A-10 Imirim sigo até a avenida Duque de Caxias e desço para a São João, onde pego qualquer Terminal Lapa, todos eles percorrem o corredor da Francisco Matarazzo. Há muitas opções e posso escolher o mais vazio. Quando termina a Matarazzo, vejo os antigos galpões ao longo da rua Guaicurus. Estacionamentos, oficinas, lojas de motos e capacetes, um posto da prefeitura, uma boate. Algumas décadas atrás eram pequenas fábricas, vidraçarias, frigoríficos. Ainda antes, trens traziam cargas de café, olarias faziam tijolos com a argila das margens do rio. E duzentos anos atrás, quando não existia a estrada de ferro, tropas traziam cana de açúcar e cruzavam o rio Tietê pela ponte no sítio do Coronel Anastácio.


Minhas aulas começam às sete, mas chego às quatro e quinze. Tentei algumas vezes sair mais tarde mas os ônibus ficam tão cheios que é insuportável, humilhante e desesperador. No Terminal vejo as empregadas domésticas seguirem para outras filas, de onde saem outros ônibus para Pirituba, Perus, Brasilândia. Eu tomo um café com leite na lanchonete e sigo para a escola de teatro.


Nas quintas-feiras, nos horários de orientação, às vezes nenhum aluno aparece. Já fiquei lendo na sala dos professores até acabar meu horário e voltar para casa. Mas na quinta em que o mendigo ganhou uma latinha de cerveja, dois alunos vieram me mostrar um roteiro que escreveram para um curta-metragem que iriam gravar no mês seguinte. Na escola, a maioria dos alunos são adolescentes e jovens de classe média que moram nos bairros da região, a zona oeste da cidade. Curiosamente, sempre aparecem histórias sobre velhos solitários e isolados.


Aquele roteiro descrevia a vida de um velho que acordava todo dia no mesmo horário, olhava o relógio no criado mudo, vestia os mesmos chinelos, e sentava na mesma cadeira velha diante da TV desligada. Na tela apagada, ele via as lembranças de sua vida que passou. A mulher que ele amava e morreu, o filho que mudou de cidade, o campo de futebol de sua infância, onde depois construíram um prédio. A história terminava quando o velho deitava à noite para dormir, e antes de fechar os olhos via o relógio, que continuava parado no mesmo horário.


Estávamos na sala de orientação, uma pequena sala agradável com uma mesa oval e seis cadeiras. Os dois alunos, um rapaz e uma moça de vinte anos, eram bonitos e saudáveis. Tentei explicar por que não gosto de histórias nostálgicas sobre velhos sozinhos. Os velhos, os mendigos, não entendo por que os jovens os escolhem como objeto heróico de sua piedade. Quando parei no mercadinho para carregar meu cartão de ônibus, às três da tarde, eu gostaria de comprar latinhas de cerveja e voltar para casa, como minha vizinha. Talvez o mendigo tenha uma vida horrível, mas mesmo assim ele ganhou uma cerveja de presente. Em 1997, no meu primeiro emprego, eu trabalhava no sétimo andar de um edifício em frente à praça Dom José Gaspar. À tarde vários mendigos deitavam no gramado da biblioteca municipal e tomavam sol. Eu os via pela janela, apoiados nos braços, e tinha vontade de tomar sol também.

À noite volto para casa com o 875H Vila Mariana, pela avenida Paulista, até o segundo ponto depois do Trianon. Da Paulista desço a pé quinze minutos até meu prédio. São ruas mais limpas, com prédios mais novos; há uma academia, um centro espírita e uma creche. (Não faço esse caminho na ida para não subir a ladeira) Passando em frente a um predinho antigo, naquela noite ouvi de uma janela umas jovens bêbadas cantando alto “Heathcliff, it's me, I'm Cathy...”. Eu adorava essa música quando tinha vinte e dois anos.


Desci do elevador no meu andar e segui até minha porta, a última do corredor. Na escada, ao lado da minha janela da cozinha, tinha um casalzinho sentado namorando. Enquanto eu preparava dois ovos mexidos para jantar, ouvi a voz deles conversando baixo sobre todos os assuntos do mundo.


Comi sentada na minha cama de solteiro, assistindo televisão. No canal de programas antigos, vi a reprise de um episódio da Comédia da Vida Privada. Um nostálgico homem de 40 anos, em crise da meia-idade, tem um ataque cardíaco e no seu delírio se imagina nadando no fundo do mar, cada vez mais próximo do sentido da vida. E quando chega ao fundo do fundo, há apenas uma pedra pichada com a palavra "Fofinho".


Antes de dormir eu procuro cabelos brancos em frente ao espelho. Por enquanto, se eu arrancar alguns fios por semana, não preciso pintar. Tive sorte com meus cabelos, pelo menos nesse ponto. Às vezes arranco um fio branco com raiz escura, e por um instante sinto um alívio infantil, imaginando que existe alguma força mágica me protegendo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Pai Herói

Lição de escrita: 1) Nunca desperdice o potencial brega de uma história.

"Na casa onde cresci em Osasco, eu, minha mãe e meu pai passamos inúmeras noites assistindo a novela das oito. Quando eu tinha onze anos assistimos a “Pai Herói”. Para mim Toni Ramos e Elizabeth Savalla eram as pessoas mais lindas que existiam.
Minha mãe seguramente não imaginava que vinte e cinco anos depois, numa terça feira à noite, eu estaria sentada num confortável sofá americano, assistindo a um programa de culinária na TV a cabo, ao lado de uma mulher branca nascida na Aclimação, com quem eu vivia em união estável havia dez anos. A linda Agnes, a realização de meu sonho infantil, a minha Elizabeth Savalla."