terça-feira, 23 de maio de 2017

Ativadores de cachos importados

Eu queria passar a tarde sozinha e escrever alguma coisa no meu blog. Eu precisava parar de ir sempre em frente, e organizar o que tinha feito até agora.

Todas as anotações sobre a história dos negros paulistanos, que estudei no mestrado, as lembranças de meu pai, meu avô, minha bisavó.

Meus interesses banais por filmes ruins, livros esquisitos, quadrinhos alternativos e videogames de aventura que eu gostava desde criança.

Eu colecionava anotações descombinadas há tantos anos. Eu não me orgulhava da capacidade de ser rápida e variada como uma revista de fofocas. Talento que me ajudou como roteirista – escrever sobre qualquer assunto, para qualquer formato, por qualquer preço, sob encomenda de qualquer um.

O garçom trouxe meu filé com molho de pimenta verde, arroz e batatas assadas. Minha taça estava vazia. Eu pedi outra cerveja long-neck. Duas garrafinhas custavam mais que uma garrafa grande, no boteco em frente ao meu prédio. Mas eu não era um negro velho do bairro, que tomava cerveja numa mesinha de calçada desde o meio-dia, como meu avô fazia. Eu usava ativadores de cachos importados no cabelo. Cada frasco custava 8 vezes um prato feito nos botecos do meu bairro. Uma diária de faxina. Três horas de trabalho como professora.

Na rua começou uma aglomeração em torno de um grupo de homens e mulheres com camisetas do Brasil, megafones e cartazes escritos em cartolinas. Era um grupo pequeno e improvisado. Gritavam frases de efeito contra o Partido dos Trabalhadores e acusações com pouca lógica histórica: “Dilma, Maduro, Hugo e Fidel – Lixo do mundo”, “O povo é soberano – Intervenção militar não é crime, “Brasileiros tenham coragem – Intervenção militar já”, “País sem corrupção é país onde rico manda – Pois quem é rico não precisa roubar”.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Cronologia política 2016

A primeira parte de meu novo livro "Os dias de Violeta" (título provisório) se passa em 2016. Escolha meio desajeitada, pois foi um ano complicadíssimo. A protagonista mora perto da av. Paulista e atravessa grandes e pequenas manifestações em seu caminho para casa, ao longo do ano. Fora Dilma, contra o impeachment, a favor do impeachment, Fora Temer; fiz uma cronologia para me organizar. Coincidência curiosa: 23 de setembro de 2015 e 2016. Na primeira data, Alckmin anunciou projeto de reorganização das escolas públicas de SP. Na segunda, o governo Temer publicou medida provisória de reforma do ensino médio.

- 15 março 2015 – Manifestação Fora Dilma (1 milhão de pessoas na av. Paulista)

- 16 agosto 2015 - Manifestação Fora Dilma

- 23 setembro 2015 – Geraldo Alckmin ancuncia projeto de reorganizacão das escolas públicas. Seguem-se ocupações de resistência organizadas pelos estudantes.

- 3 novembro 2015 – Instaurado processo contra Cunha no Conselho de Ética da Câmara

- 2 dezembro 2015 – Cunha (presidente da Câmara) aceita pedido de impeachment (apresentado pelos advogados Helio Bicudo, Miguel Reale Jr e Janaina Paschoal)

- 4 dezembro 2015 – Geraldo Ackmin suspende projeto de reorganização de escolas públicas

- 13 dezembro 2015 – Manifestação pro-impeachment (30 mil pessoas)

- 16 dezembro 2015 – Manifestação contra o impeachment

- 3 março – Delcídio acerta acordo de delação premiada (cita Lula e Dilma)

- 4 março – Depoimento de Lula no aeroporto de Congonhas (condução coercitiva)

- 13 março – Grande manifestação Fora Dilma (3 milhões de pessoas; MBL e Vem Pra Rua)

- 16 março – Dilma nomeia Lula ministro da Casa Civil. Moro divulga gravação de conversa telefônica em que Dilma menciona termo de posso “em caso de necessidade”

- 17 março – Lula toma posse. Gilmar Mendes suspende nomeação, atendendo a liminar de PSDB e PPS

- 17 abril – Impeachment provisório aprovado em votação na Câmara

- 5 maio – STF afasta Eduardo Cunha de mandato e presidência da Câmara

- 12 maio – Dilma deixa palácio do Planalto e faz pronunciamento. Temer assume interinamente.

- 23 maio – Protesto Fora Temer, na av. Paulista até o centro de SP

- 10 junho – Manifestação na av. Paulista contra governo Temer (sexta-feira)

- 31 agosto – Impeachment aprovado em votação definitiva no Senado

- 12 setembro – Câmara aprova cassação de Eduardo Cunha

- 2 outubro – Eleições municipais. João Doria eleito em SP em primeiro turno

- 19 outubro – Eduardo Cunha preso pela PF

- Outubro – Estudantes ocupam escolas públicas contra proposta de reforma do ensino médio (publicada como medida provisória em 23 de setembro)

- 29 novembro – Queda de avião com time Chapecoense

- 4 dezembro – Manifestação na av. Paulista em defesa à Lava Jato (domingo)

- 13 dezembro – Senado aprova PEC sobre teto de gastos

- 19 dezembro – Janot envia ao STF acordos de delação premiada da Odebrecht

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Frango e feijão

"- Assim que der, vou esquecer meus filhos no shopping. - Flávia continuou - Um shopping rico, tipo o Cidade Jardim ou o Iguatemi JK. Eles vão ter uma vida melhor.

Ela terminou sua segunda taça de vinho:

- Eu devia ter estudado astrologia antes de engravidar. Um moleque de escorpião e uma pirralha de gêmeos. Ninguém merece isso.

- E como eles estão? - Roberta perguntou com toda ingenuidade do mundo - Faz quase dois anos. Devem estar enormes!

- Não o suficiente pra me ajudar a limpar a casa e lavar roupa. Como eu sinto saudade de ter uma empregada!

- E seu marido... como é o nome dele? - perguntei - Tudo bem com ele?

- Tudo bem. Se viver de bolsa de estudo for seu objetivo de vida.

- Mas ele fazia uma pesquisa muito interessante... o que era mesmo?

- Não era um centro de medicina? A dinâmica do sangue nos problemas cardíacos? - Roberta completou.

- É. É isso ainda. É uma coisa importante. Eu tenho que reconhecer que é importante - Flávia suspirou um pouco mais calma. - Mas ele poderia ser um pouquinho só mais ambicioso. Puxar só de leve o saco de alguém, pra conseguir uma vaga de professor. A vida lá é muito cara. Não aguento mais comer frango e feijão.

Ela se endireitou no sofá e comentou, divertida:

- Vocês sabiam que os sites lá publicam tabelas das proteínas mais baratas no mercado? Por exemplo: “compre o frango inteiro, pois o frango desossado é mais caro”! Um tempo atrás a carne de carneiro era mais barata – agora está tão cara quanto carne de boi. Eu passo a semana assando frangos, depois desfio os restinhos de carne entre os ossos das costas, pra fazer torta e usar os mínimos pedaços possíveis. Eu me sinto numa fazenda do século passado. - depois fez um gesto rápido com o braço, e se corrigiu – Sei que as pessoas passam fome no mundo e eu não posso reclamar. Mas quando eles crescerem, nunca mais quero ver um frango na vida.

O desabafo de Flávia era quase teatral, e reconheci sua vitalidade antiga. Desdenhava o marido e os filhos de modo direto e engraçado; estava com a paciência na lua, mas não ressentida, parecia se divertir com a própria desgraça. Também as roupas desbotadas agora mostravam uma elegância casual. A camiseta azul marinho combinava com seu tom de pele. Ela tinha ombros fortes e peito pequeno, um charme atlético e andrógino."
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quarta-feira, 29 de março de 2017

Meditação infantil

Até os trinta e oito anos eu era a filha mais velha que fazia tudo certo, e Pablo era o caçula folgado. Eu trabalhei desde a faculdade, fui morar sozinha assim que me formei, casei aos vinte e seis anos com um jovem e promissor cirurgião vascular. Pablo teve dezenas de namoradas dos dezoito aos trinta anos, às vezes duas ou três ao mesmo tempo, e minha mãe mantinha uma caderneta para não confundir os nomes quando elas apareciam (apenas a oficial de cada vez). Quando terminou o curso de direito, Pablo passou três anos morando com minha mãe sem trabalhar, apenas estudando (mais ou menos) para os concursos públicos. E quando finalmente assumiu uma vaga de Procurador estadual, e se estabilizou com Crystal, sua namorada mais paciente (os pais budistas a levavam a aulinhas de meditação desde criança), Pablo ainda ficou dez anos morando em seu quarto confortável no conjunto Kowarick. Crystal não imaginava que as aulinhas de meditação infantil seriam tão necessárias em seu eterno namoro com Pablo. Nesses dez anos ela passou de aluna de psicologia, insegura com a profissão, a chefe de Recursos Humanos da própria faculdade em que se formou. A ideia de se casar estava praticamente enterrada, e mesmo Pablo já estava na berlinda, quando Crystal engravidou sem planejar, e Pablo finalmente se mexeu. Ele comprou um apartamento a seiscentos metros do Kowarick (tinha um bom dinheiro guardado, pois além de folgado era pão-duro), e quatro meses depois se casaram. Era 2012, justamente quando eu estava me divorciando.

terça-feira, 21 de março de 2017

Torta de palmito em família

Meu sobrinho Juan quase se chamou Pietro. Quando Crystal, minha ex-cunhada, estava grávida, ela queria um nome curto, simples e diferente. Um nome que mostrasse como seu filho era único; alegre (para dar leveza à sua infância) e digno (para ele ser respeitado quando adulto). Que fosse fácil de entender sem soletrar. Pietro, para ela, tinha todas essas qualidades, além de ser clássico e romântico. Mas meu irmão Pablo considerou ridícula essa combinação, pai e filho brasileiros com esses nomes, Pablo e Pietro. As mesmas iniciais, a mesma pretensão estrangeira equivocada.

Nossos nomes foram escolhidos em homenagem a cantores latino-americanos que meus pais admiravam: Pablo Milanés e Violeta Parra. Meus pais foram jovens nos anos 1960 e se emocionavam com canções de protesto. Crystal e meu irmão tiveram algumas discussões sobre o nome nos almoços de domingo, até que eu sugeri Juan, o que resolveu o problema. Eles ainda pareceriam uma dupla latina, mas eram ao menos iniciais diferentes. E eu sabia (por isso a sugestão) que Pablo respeitava muitíssimo Juan Riquelme, que eliminara o Palmeiras duas vezes na copa Libertadores da América em 2000 e 2001, e fazia parte da equipe do Boca Juniors em 2012, perdendo para o Corinthians na histórica final, a primeira taça Libertadores conquistada pelo Timão.

Depois de comer torta de palmito e beber um chá gelado que minha mãe fazia (com mate, laranja, cravo e canela – ela se recusava a servir refrigerante), eu, Pablo e Juan ficamos estirados no sofá da sala assistindo “Hora da aventura”, o desenho animado favorito de Juan. Era um domingo quente de abril, o clima na sala estava agradável. Da janela víamos as árvores do jardim do condomínio, a luz do sol bonita e morna, que não batia diretamente na tela da TV. Era o cenário escolhido minuciosamente pela minha mãe, no quarto andar porque era possível ver as árvores sem perder a luz externa.

Ela e meu pai compraram o apartamento no Kowarick quando eu tinha dois anos e Pablo era recém-nascido. Ela sonhava com este condomínio desde a adolescência; era onde morava a colega de colégio que mais admirava. Amamentando, alguns dias depois de voltar da maternidade com Pablo, ela decidiu que precisava de um apartamento com três quartos, agora que tinha dois filhos, um menino e uma menina. Segundo meu pai conta, ele foi sozinho em suas folgas nos fins de semana visitar todas as unidades à venda, nas oito torres do condomínio, depois voltava e respondia ao questionário minucioso de minha mãe. Finalmente ela foi visitar as três unidades que passaram em seu critério inicial, ainda antes de completar um mês da cesárea. Escolheu o apartamento 44 do edifício Opala porque os dígitos somavam 8, responsabilidade e prosperidade segundo a numerologia. Ela achou importante ter um espírito pragmático em nosso apartamento, para equilibrar a sensibilidade coletiva do condomínio, cujo número da portaria somava 6, liberdade e criatividade. Apenas ressentia que o nome Opala lembrasse uma marca de carro, o que era contra suas convicções anticonsumo. Embora a origem do nome, como nos outros prédios do conjunto, fosse uma pedra preciosa brasileira: Ágata, Angelita, Coral, Granada, Lazuli, Onix, Opala, Rubi.

Juan estava meio inquieto porque não podia jogar seu nintendo portátil. Desde as três da tarde, quando ele e Pablo chegaram no apartamento da minha mãe, ele ouviu conversas por noventa minutos (durante a torta com chá gelado), e só pode encostar num botão de liga/desliga depois que os três adultos saíram da mesa. Dona Glaucia não permitia TV ligada nas refeições, e nenhum jogo eletrônico nunca (também não gostava que nós a chamássemos de “Dona”).

Depois de comermos, ajudei minha mãe a colocar a louça na máquina (apesar da educação feminista, Pablo nunca se oferecia voluntariamente e desistimos de insistir). Quando voltei para a sala, Juan estava afundado no sofá com a expressão mais insatisfeita do mundo, e Pablo cochilava. Sentei na outra ponta do sofá e cutuquei o braço de Juan quando ele não estava olhando. Na primeira vez ele riu. Voltamos a assistir o desenho e o cutuquei mais algumas vezes. Em algumas tentativas ele me flagrou antes do movimento. Eu recolhia o braço e disfarçava, olhando para o teto e fingindo assoviar. Na quarta ou quinta vez, ele reclamou: “Pára, tia! Que chato!”. Eu ri e ele não gostou. Parei com a brincadeira, embora eu gostasse muito de cutucá-lo.

terça-feira, 14 de março de 2017

Estágio

Vaga de estágio em produtora de cinema, no bairro Vila Beatriz/Alto de Pinheiros (SP).

Para alunos de 2. ou 3. ano de curso de RTV, Cinema ou Audiovisual.

Desejável fluência em alguma língua estrangeira.

Horários e remuneração a combinar.

Enviar currículo e um texto de apresentação, explicando em 20 linhas "Minha opinião sobre o Cinema Brasileiro". Contato: afcinema@uol.com.br

segunda-feira, 13 de março de 2017

A viúva Simões, Éramos Seis e Pagu

Nos últimos meses li algumas escritoras brasileiras mais antigas, seguindo uma ordem cronológica: “A viúva Simões” (1897), de Julia Lopes de Almeida; "Parque industrial" (1933), de Patrícia Galvão (Pagu); "Éramos seis" (1943), de Maria José Dupré. De Pagu também li os textos selecionados em “Pagu: Vida-obra” (org. Augusto de Campos).

Enquanto seguia as leituras, li uma entrevista com a crítica literária Leyla Perrone-Moisés publicada pela FSP (Maurício Meireles, 12/02/17). Explicando sua opinião sobre estudos dedicados ao “lugar da fala”, ela respondeu: “Certa vez, encontrei uma pesquisadora que estudava mulheres escritoras do século 19 no Brasil. Perguntei se havia muitas e se eram boas. Ela disse: "Se são poucas e não são boas, é porque os homens não as deixaram desenvolver seus talentos". (…) Não temos grandes escritoras brasileiras nesse período, precisamos reconhecer".

Complemento com minha opinião:

- “A viúva Simões” não é pior que “Lucíola” (1862), de José de Alencar. Pensando na década de 1890, é certamente pior que “Quincas Borba” e “O cortiço”. Mas, dadas as circunstâncias (segundo a cronologia do google, é seu primeiro romance), não me pareceu tão ruim. Tem bons detalhes no início. Numa cena, a mãe abre a carteira numa loja, para tirar algumas notas de dinheiro e pagar uma compra. Fico pensando no aspecto descritivo desta cena. Em “Memórias Póstumas” o dinheiro aparece com várias funções temáticas, mas pouco como registro.

- Sobre Pagu: Minha admiração precisaria de muitas outras linhas.

- “Éramos seis”, para mim, é um livro muito difícil de suportar. Admiro muitíssimo a narração, mas toda aquela desgraça realista me assusta, e preciso de coragem para abrir o volume e ler algumas páginas (suporto poucas de cada vez).

- Sobre as personagens: eu odeio a viúva Simões e Dona Lola (a mãe de “Éramos seis”). Odeio que tenham existido. Dona Lola, aquela mamãe “com o avental todo sujo de ovo”. A viúva Simões, uma projeção fantasiosa de toda culpa da sexualidade, conformada ao final do romance porque a filha ficou “idiota”, mas felizmente não morreu, depois de uma febre cerebral.

Odeio essas duas personagens, mas tento encarnar o sofisma que impressiona as pessoas do futuro (que rejeitam a escória de uma outra época) no filme “La Jetée”, de Chris Marker: “Já que a humanidade sobreviveu, ela não pode negar a seu próprio passado os meios de sobreviver.”

Ou então o conhecido poema de Brecht, “Aos que vão nascer”: “Vocês, que emergirão do dilúvio em que nos afundamos, pensem – quando falarem de nossas fraquezas – também nos tempos negros de que escaparam”.