sexta-feira, 29 de julho de 2011

Pedreiro elegante

Há muito tempo eu não ouvia uma cantada de pedreiro.

Domingo passado estava na praça, passeando com os cachorros, quando passaram dois legítimos: grandes, fortes, com as calças empoeiradas e chamuscadas de tinta branca (bem, talvez fossem pintores).

O Joaquim (cachorro) começou a latir. Os homens se assustaram, eu segurei a guia e disse:

- Ele está defendendo a dona.

O pedreiro-pintor:

- Tá certo ele. Eu também defenderia.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Listas

Julia Hansen colocou esta música no Facebook.

Bom início de segunda-feira.

Sempre gostei de canções com listas, e esta é especial. Um poema popular que me lembra They can't that away. Começa com objetos, cada um evocando um certo estado de espírito, e fecha as estrofes com um sentimento que evidencia e resume o significado da lista anterior.

"Eu tenho um quadro todo moderninho
Uma jaqueta tão surrada
Uma saudade permanente
A solidão maior do mundo."

Minha estrofe preferida, em They can't take that away, diz:

"The way you hold your knife
The way we danced till three
way way you've changed my life
They can't take that away from me."

Também, para quem se interessa por música italiana, há Qualcosa di lei:

"E' partita
con i suoi occhi e lascia la matita,
poco di rossetto,
un orologio rotto ed un fazzoletto.
Io credo che, in fondo in fondo,
son segni del suo dispetto,
dice: così sei tu , che non mi servi più."

Traduzindo:

"Ela foi embora
com seus olhos, e deixou o lápis
Um pouco de batom
um relógio quebrado e um lenço.
Creio que, no fundo
são sinais de seu despeito,
dizendo: assim é você, que não me serve mais."

Muito tempo atrás escrevi sobre isso; especialmente sobre Trocando em miúdos (outra lista).

Às vezes acho engraçado meu jeito antigo de escrever (tão direto na minha pretensão juvenil de saber de tudo):

"Eu mesma não sei se concordo com isso, acho que o problema não está nas mulheres nem no feminismo. E tampouco nos homens, mas sim nessa financeirização dos relacionamentos que já comentei acima. Se a questão não é mais amar ou não, o que pressupõe admiração, real ou idealizada, pelo outro, mas sim ter uma relação porque "um carinho às vezes cai bem", então me parece natural que as mulheres se atirem, porque elas são criadas pra resolver as coisas práticas - arrumar a casa, fazer supermercado e tal. Se no caso está faltando um homem, do mesmo modo que falta detergente ou adoçante, então é evidente que ela vá atrás de um com a mesma eficiência com que passaria no Pão de Açúcar 24 horas pra buscar um papel higiênico. Os homens, privados desse aprendizado por suas mães que faziam tudo por eles, ficam meio perdidos em tanta eficiência, não sabem direito como reagir."







sexta-feira, 22 de julho de 2011

Escola Pública, em O afeto

"Atrás do nosso prédio, depois do gramado dos fundos, ficava o muro da escola estadual. Ninguém mais do condomínio estudava ali, apenas Juliana e Aramis. Era um muro alto e, quando estávamos no jardim, não se via o outro lado. Só se ouvia o sinal, na hora da entrada, no intervalo, na saída. Era uma campainha alta que soava por todo o condomínio.

Da janela da despensa, por trás de uma árvore, eu podia ver o pátio. Tinha uma quadra com traves sem rede, uma tabela de basquete quebrada. Calçada de cimento, o prédio com pintura descascada e janelas basculantes. Alguns vidros estavam quebrados e sobravam lascas na esquadria de ferro.

Havia aulas à noite. O pátio ficava invisível e a luz marcava os alunos por trás das janelas. Na despensa, eu observava o interior das salas. As cadeiras eram voltadas na minha direção, eu via todos os corpos juntos, olhando um professor que eu não enxergava, escondido pela parede. Tinha medo mas não parava de olhar. Eles não eram crianças nem adultos. Teriam talvez quinze anos mas não os mesmos quinze anos dos alunos da minha escola. Eram velhos em outro sentido que eu não sabia identificar e me parecia perigoso."

O afeto: racismo e repressão sexual em Curitiba

* contribuindo com os Diários do Paulo

"Havia duas crianças negras no condomínio: Juliana e Aramis. Os meninos não gostavam de Aramis porque ele usava kichutes. Era um tênis barato e as crianças não gostavam de coisas baratas. Quando o provocavam, ele reagia com raiva e batia nos outros. Uma vez mordeu um menino e começaram a chamá-lo de Canibal.

(...)

Juliana nunca saía para brincar. Na janela da lavanderia aparecia pouco e rápido. Era magra: eu imaginava que fosse um ano mais velha, porque tinha seios pequenos. Usava os cabelos sempre presos num coque. Eu ouvia dizer que ela era filha só da mulher, não do Damasceno, mas não era claro pra mim como isso teria acontecido. Eu ainda não relacionava informações recentes sobre o ato sexual e a condição civil das pessoas. Identificava em teoria algumas etapas do processo, mas estava apegada a uma explicação que minha mãe dera quando eu era bem pequena. Havia perguntado se era possível ter filho antes de casar. Eu era criança, estava preocupada com a ordem das coisas: queria saber se uma ação precisava necessariamente vir antes da outra. Ela disse que não: não era possível ter filhos antes de casar. Sua resposta, a julgar por seu comportamento habitual, era de natureza mais preventiva que moral, mas eu não tinha como avaliar.


Sempre que descia ao jardim eu via as janelas do apartamento de Juliana, que ficavam ao nível do gramado. Durante o dia a luz do sol refletia nos vidros e eu não conseguia enxergar o que havia dentro. Apenas quando estava nublado eu via partes de uma estante escura, com fileiras de livros de capas vermelhas, todos do mesmo tom e altura. Eu olhava apenas um momento, esperando que nesse rápido olhar, que podia ser interpretado como casual, eu pudesse enxergar o que faziam. Depois sentia medo que percebessem e seguia em frente.

Às vezes cruzava Juliana na calçada do condomínio, quando voltávamos da escola. Via-a sempre quieta, de olhos baixos, carregando sua pasta. Nos cumprimentávamos com um aceno de cabeça mas nunca nos falávamos. Eu via seu jeito quieto e solitário mas não considerava que fossem atributos seus, da mesma maneira que reconhecia, em Paula, a timidez como uma qualidade. No caso de Juliana me parecia que seu comportamento tinha uma causa; ela não poderia agir de modo diferente, sendo quem era, sua família, sua diferença em relação ao condomínio. O silêncio parecia a única reação possível para ela, assim como, em Aramis, a violência era a única possibilidade diante da provocação dos outros. Eu nunca pensava em me aproximar; quando cruzava com ela, diante de seu silêncio, de seus olhos baixos e seu cabelo preso, minha reação habitual era sentir por um instante uma vergonha, a mesma vergonha que eu imaginava ser dela. Durante um momento me encontrava num vazio, frente àquele isolamento, sua pobreza. Depois que ela se afastava, eu ficava aliviada em ver o sentimento passar. Eu às vezes pensava nesses momentos que não éramos amigas só por causa das meninas do Colibri. Elas agiam assim, eu estava do lado delas, então fazia do mesmo modo - mas talvez, se morássemos sozinhas num lugar distante, se fôssemos apenas nós duas, eu gostaria de ser sua amiga. Eu até simpatizava com ela, pensava: se não conversávamos era por culpa dos outros, não por mim. A injustiça vinha de fora."

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Aos amigos que têm blogspot: tentei incluir os "botões de compartilhamento" mas não funcionou. Alguém já tentou?

domingo, 17 de julho de 2011

Um título e um verso

A propósito das palavras antiquadas

Destino: é o movimento indecifrável em que seguimos imersos.

Curitiba

Eu saí de Curitiba correndo, aos dezessete anos. Havia uma caretice na cidade que eu não suportava.

Talvez fosse apenas o ambiente dos colégios secundários, mas eu não poderia saber.

Mas, curiosamente e por acaso, encontrei recentemente blogs muito interessantes vindos de lá.

Há talvez na cidade uma característica que favorece o pensamento verdadeiro: por sermos reservados, modestos, conscientes de nossa pouca importância no cenário nacional, podemos observar as coisas de modo mais sereno.

Não temos um "caráter regional" a seguir, pois tal caráter não existe a não ser negativamente: a vergonha de aparecer, o hábito de nos escondermos, a segurança dentro de casa, quando ninguém nos nota.

Só compreendi o espírito curitibano quando conheci uma estudante polonesa, ao participar um curso rápido de alemão em Berlim.

Uma garota de vinte e cinco anos que - tendo a chance, por bolsa de estudos, de passar um mês numa das cidades mais interessantes do mundo - foi procurar uma igreja católica com padre polonês, para não deixar de assistir à missa no domingo.

Ao observar seu medo de enfrentar sozinha os caminhos, de ônibus, trem ou metrô, eu subitamente compreendi minha cidade. O temor profundo que a fé católica joga sobre os indivíduos. Ou, então, o medo individual de quem se abriga sob a igreja católica.

Graças ao destino, minha família tem origens italianas e espanholas. Se minha avó galega tinha os mesmos modos poloneses (o interior da Espanha se adaptaria bem ao leste europeu), deve ter sobrado em mim uma parcela mínima de sangue basco de meu bisavô perdido no espaço e no tempo.

E a Itália - bem - não haveria modo de listar em poucas palavras as virtudes relacionadas a esta península.

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Nós eramos migrantes em Curitiba, minha família materna e paterna.

Curitiba é um lugar agradável para viver. E só recentemente tenho notado que há no espírito da cidade algo tão bom quanto as calçadas limpas.

terça-feira, 12 de julho de 2011

42,96875

* texto revisado e conta corrigida

Instalei o Google Analytics há algum tempo, curiosa de saber quantas pessoas lêem este blog.

Apesar de muitos detalhes, o sistema não traz essa resposta. Posso estar errada quanto a isso, mas fuçei uns 5 minutos e não encontre a informação: consta o número de visitas, separadas por "novas" e "antigas". Nas antigas, há o número diário e o total mensal.

Mas quantas dessas visitas foram feitas pelo mesmo computador? O sistema poderia dizer, sem quebrar a privacidade de ninguém (acho). Era só informar os números: XXX acessos de visitantes antigos, originados em XXX computadores.

Tento fazer uma estimativa. No último mês, foram 375 acessos de visitantes antigos. Imagino que cerca de 90 sejam meus proprios acessos para manutenção. Sobram uns 285.

Imaginando que 40% acesse uma vez por semana, 30% duas vezes, e 30% três vezes, eu chegaria a quase 43 leitores, numa conta que exigiu todo meu talento lógico.

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4 leitores - 4 visitas mensais
3 leitores - 24 visitas mensais
3 leitores - 36 visitas mensais

ASSIM, 10 leitores fariam 64 visitas mensais.

ENTÃO, para o número total de leitores: 64x = 10*275 / x = 42,96875
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Estimativa otimista (acho). Quanto maior a porcentagem de leitores com acessos menos frequentes, maior seria o número de leitores individuais.

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Como dizia meu professor da sexta série: "É matemática básica, basiquíssima."

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Teresa Cristina

Catarata

O passado recente. A construção de uma história para uso próprio.

Estudar o passado é como escolher um terreno para nossas raízes pessoais.

No estudo há uma escolha. Uma busca por modelos – balizas. Em relação a esses modelos nos posicionamos e oscilamos, aceitamos e rejeitamos as lições que criamos, interpretando experiências anteriores a nós.

Nessa escolha, revelam-se os modelos que provavelmente absorvemos inconscientemente no início de nossas vidas, nos anos de formação. Modelos que estavam pairando à nossa volta – em nossos pais, em nossa escola, em nosso país, mundo e tempo.

Os modelos aglutinam nossas preocupações numa composição que parece oferecer um caminho. E nos angustiamos diante deles. A angústia de não querer seguir um modelo insistentemente sugerido por outros. A angústia de não encontrar um modelo próprio. A angústia de encontrá-lo e ser incapaz de segui-lo.

A década do nascimento é talvez o passado mais próximo que se possa estudar com distanciamento.

O passado próximo é a catarata, a queda d’água. O abismo em que se precipitou o rio dos que viveram antes de nós. A catarata que gerou as águas atormentadas de nossa existência.

O rio prossegue e nos esforçamos para não afundar. Agarramos os destroços, os pedaços de madeira do barco que se espatifou. Tentando sobreviver, nos agarramos aos tocos e nos alimentamos dos cadáveres. Catamos entre os mortos os restos menos podres. Arrancamos suas correntes e amuletos, que enrolamos em torno do pulso ou agarramos a punho fechado. Nossos santos, agora, nossas bóias.

sábado, 9 de julho de 2011

Paulo Coelho escreve mal

Voltando à minha tese de doutorado. Gosto de frases curtas, gostaria ainda mais de escrever por aforismos. Mas não quero forçar demais o estilo acadêmico.

Começo anotando as idéias principais, e deixo para depois o trabalho de engordar os parágrafos. O que não gosto, mas entendo a necessidade, parcialmente convencida.

Parágrafos gordos são para quem lê com preguiça. As idéias se apresentam aos poucos, em variações redundantes. A cada frase se repete o que foi dito antes, com novas palavras. Às vezes se abandona um detalhe, e acrescenta-se outro. O texto escorre. É como sagu: jogam-se as bolinhas de fécula seca e comprimida na água. Cozinha-se. Uma xícara vira uma panela.

Não vejo graça em ler para descansar. Descansar dá sono.

A frase bonita é um enigma: não é preciso explicar. Ler é deduzir.

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O que escrevi hoje:

"Esse é um trabalho sobre escritores. Os fatos e idéias estão organizados a partir desse ponto de vista.

Um escritor tem quatro problemas a resolver:

- escrever bem
- saber o que escrever
- ganhar dinheiro escrevendo
- encontrar pessoas interessadas no que ele escreve

O escritor ideal seria aquele com talento, visão de mundo, que vive do que ganha escrevendo para algum público.

Escritores reais lidam com esses problemas com diferentes graus de dedicação e sucesso. Quem deseja falar sobre um escritor precisa esclarecer sua opinião sobre cada um desses critérios.

Dizer “Paulo Coelho escreve mal”, sem explicar os critérios, é entrar num jogo em que concordará ou discordará quem já concordava ou discordava antes da frase ser emitida. A frase não diz nada, apenas acrescenta um novo degrau à repetição.

Uma frase mais honesta seria: “Paulo Coelho dá conselhos espirituais e isso não me interessa como visão de mundo.”

Outra frase possível: “Paulo Coelho escreve bem porque milhões de pessoas entendem, gostam e se interessam pelo que ele escreve.”

“Sabe o que escrever”. Novamente, é preciso explicar o critério. A originalidade é um critério interessante, pois tem sutilezas. Exemplo: um escritor de seriados policiais sabe que sua margem para originalidade é restrita. Um seriado policial não pode ser original a ponto de deixar de ser um seriado policial. Saber isso também é saber o que escrever.

“Ganha dinheiro escrevendo”. Valores de nosso mundo. Um escritor é “verdadeiro” se é público ou se vale dinheiro. Talvez ser público valha mais que dinheiro. Entre uma blogueira com 167 seguidores e uma jornalista que escreve biografia encomendadas para famílias ricas. A blogueira não ganha dinheiro mas tem admiradores fiéis. A jornalista ganha dinheiro com um livro que será distribuído entre familiares, que talvez nem o leiam. Quem é “mais” escritor?"

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Rodando mais que um bambolê

Na preguiça de escrever algo mais sofisticado, um pouco de nostalgia da nostalgia. A américa dos anos 50, na versão televisiva brasileira dos anos 80.

"Eu queimo o meu filme, eu enfio o pé na lama...
Eu sujo o meu nome e ainda pioro a minha fama."