terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Números

Aos jovens autores, números aproximados para imaginar a vida prática de um escritor. O cenário descreve a possível remuneração de um autor com alguns livros publicados, com resenhas positivas em jornais ou revistas literárias, e relações amistosas com promotores culturais na área de literatura. A lógica abaixo não se aplica a autores com propostas prioritariamente comerciais.  

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Tempo para escrever um romance de 150 páginas, a um ritmo de 10 linhas por hora: 450 horas. Custo profissional, baseado na remuneração média de um professor de faculdade privada (R$ 50 por hora-aula): R$ 27.000.

Cálculo do retorno monetário possível, em estimativa otimista. Direitos autorais da venda de 2.000 exemplares: R$ 8.000. Dez palestras em eventos, remuneradas a R$ 800 cada: R$ 8.000. Quinze artigos para a imprensa, remunerados a R$ 400: R$ 6.000. Duas participações como jurado em concurso da área cultural: R$ 10.000.

Tempo gasto nas atividades listadas no segundo parágrafo: 70 horas. Custo profissional dessas horas a remuneração média de um professor de faculdade privada: R$ 4.200. Retorno monetário líquido do livro: R$ 27.800.

Em cronograma mensal: 450 horas de escrita, divididas em semanas de 20 horas trabalhadas: 22,5 semanas, aproximadamente 5 meses.
Retorno monetário líquido dividido pelo tempo de trabalho: R$ 5.560 mensais.

Detalhes não incluídos no custo profissional: tempo de concepção, pesquisa e revisão. Busca de editoras. Espera entre escrita e publicação. Contatos com a imprensa e entrevistas de divulgação. Meses não remunerados até a escrita do próximo livro.

São bem vindas correções e cálculos adicionais ao que foi mencionado acima.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Dias de visita


"Joguei fora todos os acessórios quando saí do apartamento de Agnes. Não queria usá-los com outras pessoas para não embaralhar as lembranças. Pensava que, no futuro próximo, dificilmente gostaria de alguém na intensidade com que amei Agnes. Passaria talvez anos variando entre pessoas que despertariam meu interesse parcial, como nos primeiros tempos de solteira, gostando de uma mulher ou outra por metonímia: esta por um motivo, aquela por outro, cada uma com detalhes suficientes para motivar uma convivência transitória que, pela fragilidade dos componentes, desgastaria fatalmente, como eletrodomésticos de obsolescência programada.

Não esperava tão cedo a certeza que se instalou naquela noite com Melissa. Entre suas pernas, descansando o rosto em sua coxa, olhando ainda sua constituição genital harmoniosa e perfumada, algumas palavras se organizaram sozinhas e soaram independentes dentro de mim: "Eu passaria minha vida toda aqui." Curioso eu não ter sentido isso nas duas primeiras vezes em que transamos. Eu estava bêbada e foi bom, mas quando estou bêbada muitas coisas são boas. Ter pouca cerveja em casa é uma boa opção para avaliar claramente uma noite.

No encontro seguinte Melissa contou mais detalhes de sua vida afetiva. Ela viera de Santa Bárbara do Oeste para São Paulo aos dezessete anos para fazer faculdade. Passou um ano mais em noitadas do que nas aulas, experimentando entorpecentes, trasando aleatoriamente com garotos e garotas, algumas vezes com ambos ao mesmo tempo. Aos dezoito conheceu um certo Guilherme e se apaixonaram loucamente. Curtiam seus baratos caminhando pela rua Augusta de madrugada, acreditando serem herdeiros diretos da contracultura. Guilherme morava sozinho no apartamento deixado pelos pais, que faziam um período sabático num veleiro em direção ao Caribe. O pai era empresário da área de energéticos, e vendera uma das empresas para sustentar essa vida enquanto não mudasse de ideia. Depois de alguns meses Guilherme mergulhou realmente fundo no lance da contracultura, causou alguns contratempos e o zelador do prédio chamou os bombeiros, que o levaram para o pronto-socorro psiquiátrico da Santa Casa. Uma tia veio resgatá-lo, e os pais telefonaram de João Pessoa, na Paraíba, para avisar que cortariam a mesada caso ele não se tratasse. A tia fez contato com uma clínica para dependentes químicos em Atibaia, e Guilherme se internou voluntariamente. Segundo Melissa, ele ria da situação dizendo que conhecia os pais, era só cumprir o castigo mansamente que logo ficariam satisfeitos. Melissa pegava o ônibus para Atibaia nos dias de visita, aos sábados. A tia ligava aos domingos para perguntar se ele estava melhorando. Pessoalmente a mulher foi apenas uma vez, Melissa a encontrou já na clínica, e ficou sentida porque ela nem havia ligado para oferecer carona. De ônibus demorava duas horas, incluindo o tempo para chegar de metrô ao terminal rodoviário. O namoro acabou três meses depois de Guilherme voltar para seu apartamento, quando ele conheceu uma mestiça de mãe japonesa que cursava graduação em Moda."

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Sexploitation

Segundo a Wikipedia, filmes de sex-exploitation são produções independentes de baixo orçamento, que procurar atrair atenção ao exibir situações sexuais e nudez gratuita, sem cenas explícitas.

Técnica útil a escritores bem intencionados, em produção independente e com baixo orçamento pessoal.

"Ao longo da convivência com Agnes comprei muitos acessórios íntimos, que nunca havia experimentado com as namoradas anteriores. Com as primeiras mulheres, tocá-las por dentro já era um deslumbramento. Sentir sua contração de orgasmo pressionando meus dedos era extraordinário com qualquer uma, em qualquer ocasião. Quando imaginava o que um homem sentiria em sua prática específica, tinha quase certeza de que nada se compararia à percepção manual dos transtornos corporais de uma mulher gozando. As outras possibilidades variavam em eficácia: ser penetrada, fazer ou receber sexo oral, visitar os outros orifícios, tudo isso me interessava em graus diferentes conforme o humor e a mulher da situação. Mas com o tempo, depois de comprar o primeiro acessório, minha curiosidade cresceu progressivamente, talvez por causa da passividade de Agnes, suas exigências de sensações fortes, ou meu próprio amadurecimento. Experimentei diversos modelos de consolos e cintas, e com a prática cheguei a razoável habilidade."

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O cogumelo é calmo & a natureza insegura


"Sozinha no apartamento, liguei a internet para ver se encontrava alguma coisa. Entre os emails com sugestões do site de encontros vi a foto de uma garota de sorriso doce, não especialmente bonita, mas aceitável para uma foto. Pessoalmente poderia ser melhor ou pior, era impossível saber sem experimentar. Além da foto, informações básicas: mulher, 25 anos, terceiro grau incompleto, signo câncer, e a frase de descrição: "o cogumelo é calmo & a natureza insegura". Mandei minha mensagem padrão de contato, assisti a alguns vídeos eróticos, e fui dormir.

No dia seguinte, na hora do almoço, olhei os emails no escritório. Não havia resposta, e a foto tinha sido retirada do perfil. Relendo mais atenta, percebi que a frase de descrição era bonita e poderia ser uma citação: o cogumelo calmo, a natureza insegura. Pesquisei na internet e encontrei o poema original, de um escritor paulista. Isso me tocou, fiquei arrependida de ter mandado a mensagem de contato padrão. Pensei um pouco, e mandei um outro recado, mais delicado, completando outra parte do poema: "sementes & raízes / onde as ilhas erguem suas brasas".

No fim do dia, recebi uma resposta. "Vi seu perfil, você parece legal. Eu não sou lésbica, mas já saí com algumas garotas. Entrei nesse site apenas de brincadeira, tenho um pouco de vergonha. Desculpe, não sei bem se estou fazendo a coisa certa de te escrever, mas só queria dizer que você parece uma pessoa legal, pena que eu não sou lésbica".

(...)

Respondi para a moça que não era lésbica mas já tinha saído com algumas garotas: "Não tenha vergonha, escrever não machuca ninguém. Mando uma foto minha pra você ver que sou tranquila."

Escolhi uma foto inocente e simpática.

Depois de alguns emails descobri seu nome, Melissa. Ela explicou que era o nome de uma personagem do filme "O último por do sol", que seus pais assistiram no começo do namoro. Sua mãe guardou o nome e não pensou na sandália plástica. Era o nome grego para a abelha que faz mel. E também existia uma flor com esse nome.

Ficamos dois dias trocando mensagens sobre filmes estranhos e histórias engraçadas, ela era original e escrevia bem. Mas saía pela tangente quando eu sugeria um encontro real. Tinha vergonha de conhecer gente pela internet, repetia "preciso pensar" ou "deixa eu me acostumar". Então blefei sendo sincera: a sublimação é um perigo nos encontros pela internet, e eu queria amigas reais. Passei o número do meu celular, caso quisesse me encontrar. "Se quiser, me liga".

Fiquei três dias inteiros sem escrever nada. Na tarde do dia seguinte, recebi uma mensagem: "Oi. Aqui é a Melissa. Quer me ligar?".

Eu estava dirigindo. Quando o farol fechou, respondi por mensagem também: "Estou no carro voltando pra casa. Ligo em 30 minutos." No farol seguinte, salvei seu número na agenda. No terceiro farol, mudei de ideia, encostei o carro numa rua vazia e liguei.

- Oi, tudo bem?
- Que rápido!
- O trânsito tá parado.

Ela riu depois suspirou:
- Tá a fim de fazer alguma coisa?

Sua voz era rouca e infantil ao mesmo tempo.

- Você conhece a praça do Viaduto? Preciso levar o cachorro de uma amiga pra passear.

Ela me explicou o endereço, eu estava no caminho e fui direto. Era uma área em reforma, colada ao Viaduto Treze de Maio. Havia alguns galpões demolidos e um início de pista expressa em construção, mas a obra estava parada, talvez por algum tempo, pois o concreto já parecia sujo. A área estava cercada por um tela plástica alaranjada, presa em estacas temporárias meio pendidas. Melissa estava sozinha, sentada num pedaço de concreto, olhando o cachorro correr. Ela me percebeu ainda longe, era um pouco mais gordinha do que eu imaginava. Começamos a conversar, ela parecia insegura e algumas vezes, quando contou alguma coisa, perguntou se já havia me dito por email ou não. Disse que havia engordado no último ano porque fumava maconha demais e comia muito. Era mais bonita quando tinha 20 anos, e poderia me mostrar uma foto qualquer dia. O cachorro se chamava Malboro, era de uma vizinha do prédio que viajava muito e pedia favores. Ele tinha só três pernas, mas demorei a perceber porque corria muito rápido.

Eu já não tinha o corpo que tivera aos vinte anos, mas estava em forma, comparada a ela. Mas o peso combinava com seu corpo, parecia macia e agradável, não propriamente sexual mas atrativa, talvez justamente pela timidez.

O cachorro era atlético e latia muito quando a dona viajava. Melissa saía com ele quando não aguentava mais o latido, mas tinha dúvidas se não estava piorando, se o cachorro percebeu e agora latia mais para chamar sua atenção. A vizinha de cima viera reclamar da outra, que era uma irresponsável, que não deveria ter um animal se não queria cuidar, e iria registrar queixa com o síndico. Depois o assunto do cachorro acabou. Houve um silêncio, e Melissa nunca havia conhecido ninguém pela internet. Entrou no site de encontros numa madrugada sozinha, chapada, para ver o que havia lá. A fantasia de encontrar algo mágico no lugar menos provável. Ela não era lésbica. Ela me achava interessante e bonita, mas eu não deveria ter esperanças.

Ela tinha um baseado e logo levávamos Malboro para o apartamento. Iríamos apenas deixá-lo ali e sair para uma cerveja. Mas chapada eu não consegui resistir aos seus risinhos desajeitados e a aparente vontade de ser capturada, e logo via instantâneos da linha de seus pelos íntimos na barriga de pele desbotada, estendida no chão do apartamento pequeno, no fim da noite. Voltei para casa um tanto deslocada."  

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Nomes e datas

Antes eu considerava as biografias de personagem um recurso artificial e dispensável. Agora percebo que são necessárias, para uma narrativa com muitos personagens. Para evitar repetições, para aprimorar a ressonância das experiências, para distanciar de outros personagens de outras histórias que eu já tenha escrito.

Até mesmo para compor algumas linhas sobre a casa dos pais da narradora. Como é essa casa? Quando foi construída? Como se formou esse casal e em que circunstâncias se conheceram?

Ao fazer as contas das idades da protagonista, sua mãe, seu pai, seu avô materno, as datas vão se aproximando de anos marcantes nos acontecimentos históricos. É estranho pensar que pessoas estavam preocupadas com seus empregos, namoros e construção de uma casa para poder casar, entre o golpe militar e o AI-5.

Mas, organizando a narrativa, as contas retrospectivas levam a isso.

E não foi exatamente isso o que aconteceu?

Parágrafo:


"Osasco é agradável, dependendo do bairro, se você concentra sua vida ali. Até o colegial nunca senti falta de nada. Na média meus pais são estáveis e pacíficos, levaram a vida com razoável bom senso. Algumas oscilações e talvez pouca ambição, mas, sem enriquecer, também escaparam a maiores desgraças. Eu tinha ainda um quarto, quando precisava. Muitas vezes dormia lá, quando ia visitá-los e Agnes estava viajando. Geralmente visitávamos nossos pais no mesmo fim de semana, assim preservávamos nosso tempo juntas. Ela ia com Bruno ver a mãe no interior, eu passava sábado e domingo com meus pais. Era perto, em horário sem movimento, quarenta minutos dirigindo. A casa ficou mais bonita depois que meu pai parou de trabalhar. Ele diminuiu o tamanho da oficina e só fazia móveis pequenos e consertos para conhecidos. Usava seu tempo lixando as persianas e portas, trocando a tinta colorida por verniz, abriu janelas na sala e na área de serviço, fez um muro baixo para aplainar o terreno em declive no fundo."


Acontecimentos em ordem cronológica:


1913
Nasce Manuel, avô materno de Laura (narradora).

1929
Avô materno de Laura sai da Paraíba e chega a São Paulo para trabalhar como operário.
É inteligente, une-se aos imigrantes italianos politizados.

1932
Manuel casa-se com Libera, filha de operários italianos, seus colegas de trabalho.

1936
Nasce o pai de Laura, Erineu Fischer, em Santa Catarina.

1941
Nasce Santina, mãe de Laura.

1958
Erineu vai trabalhar em indústria metalúrgica em Osasco, por indicação de um amigo de Santa Catarina. Conhece Manuel, já com 45 anos, envolvido entre os sindicalistas.

1961
Erineu não gosta do trabalho na fábrica. Pede demissão e começa a trabalhar como marceneiro. Continua amigo de Manuel. Começa a namorar Santina.

1962-1965
Erineu trabalha e economiza. Compra um terreno, constrói sua casa.

1966
Erineu e Santina se casam.

1967-1970
Santina engravida algumas vezes mas as gestações não vingam.

Ela tem períodos de depressão, mas consegue se manter estável numa vida muita doméstica, bordando, cozinhando com capricho detalhista. Ela se conforma com a ideia de não ter filhos, embora triste e com alguma esperança em Deus de que um dia algo aconteça.

1971
Nasce Laura.