terça-feira, 23 de outubro de 2012

Camila Luiza, MDL


Depois de algumas semanas planejando o livro na oficina "Blueprint your book", volto aos meus capítulos diários. Como já me aconteceu outras vezes, o texto muito sério me dá bloqueio. Eu não estava enxergando bem a personagem antes chamada "Fernanda", então reescrevi o início deixando o encontro mais leve.

Vou escrever bastante, sem caprichar muito no estilo, para destravar. Deixo o refinamento para depois.

"Existem muitos caminhos para conhecer pessoas pela internet. Pouco antes de completar quarenta anos, eu estava curtindo minha vida de solteira e não ligava muito. Achar alguma garota simpática ou curiosa, sair, paquerar um pouco, transar, e depois eventualmente dar um sumiço. Nada que exigisse muita energia. Meu perfil dizia assim: "Sou organizada no trabalho e atrapalhada o resto do tempo. Tenho 37 anos e me separei recentemente. Gosto de cinema e música alternativa, mas não aguento baladas na madrugada, porque durmo cedo pra caminhar de manhã. Minhas amigas lésbicas estão todas casadas, por isso gostaria de encontrar uma amiga solteira para sair de vez em quando, paquerar e conversar."

Olhava os anúncios meia hora por dia, de manhã geralmente, raramente à noite. Era como caçar, eu prestava atenção para farejar um potencial objeto de interesse na imensidão de bobagens. Leitura rápida dos perfis, em navegação aleatória; sem priorizar fotos (pessoas bonitas frequentemente se escondem); protegendo-me da falsa esperança de boas surpresas a partir de um perfil medíocre. Se ao fim de meia hora não encontrava algo estimulante, arriscava um contato neutro em três ou quatro perfis de informações insuficientes (o excesso de banalidade nunca era desmentido; a brevidade podia indicar elegância).

Eu tinha técnicas.

Um dia estava com vontade de sair, liguei para alguns amigos mas ninguém estava livre. Na saída do trabalho fui ao cinema, liguei ainda para algumas pessoas, ninguém podia. Tomei uma cerveja sozinha antes do filme. O filme era chato, saí na metade e voltei pra casa ainda com vontade de me distrair.

Liguei a internet só pra ver se rolava alguma coisa. Abri meu email alternativo, que usava para o site de encontros. Usava o nome de um grupo lésbico-feminista de São Paulo na década de 1960, as.graciosas@mailmail.com. O site mandava sugestões de perfis com as características que eu tinha selecionado, e entre os emails vi a foto de uma garota com sorriso fofo, bochechas alegres. Talvez lindinha demais, eu pensei, podia ser uma foto falsa ou antiga. Senti uma empatia imediata, pensei em duas ou três frases para escrever, mas fiquei em dúvida, então salvei o perfil nos meus favoritos e deixei pra depois. Além da foto, a frase de descrição: "o cogumelo é calmo & a natureza insegura", e informações básicas: mulher, 25 anos, terceiro grau incompleto, signo câncer.

No outro dia de manhã, antes de ir para o trabalho, escrevi: "Olá, gostei da sua foto, você é uma graça. Quer conversar?"

No fim do dia, recebi uma resposta. "Acho que você se enganou. Meu perfil não tem foto."

Respondi: "Bem, eu vi uma foto sim. Se você apagou, foi tarde demais, porque eu já tinha visto." E terminei com um sorriso: ":)"

Recebi a resposta alguns dias depois. "Vi seu perfil, você parece legal. Eu não sou lésbica, mas já saí com algumas garotas. Entrei nesse site apenas de brincadeira, tenho um pouco de vergonha. Desculpe, não sei bem se estou fazendo a coisa certa de te escrever, mas só queria dizer que você parece uma pessoa legal, pena que eu não sou lésbica".  

Naquele dia, seu email competia com a longa apresentação de uma secretária de universidade privada, jovem e redonda, que nunca tinha saído com mulheres mas tinha muita curiosidade, e as cobranças de uma senhora casada a quem eu dissera não me interessar, e insistia num primeiro encontro alegando ser injusto que eu não me interessasse apenas baseada em uma foto e três emails.

Curiosamente, para muita gente na internet dizer "amiga" ou "amizade" é um eufemismo aceitável para sexo casual. Enquanto as palavras "sexo casual", ao contrário, assustam as mulheres, atraindo geralmente casais em busca de uma parceira para encontros a três.

Respondi: "Hahaha, não precisa ficar com medo, que não ataco ninguém que não queira. Fique sossegada, me escreva se quiser, ou deixa pra lá. Mando uma foto minha pra você ver que sou tranquila."

Escolhi uma foto bem inocente, simpatica e meio desajeitada.

Depois de alguns emails descobri seu nome, Camila Luiza. Ela disse que seu pai queria dar o nome da avó, Luiza. Mas a mãe achou que era muito sério e queria Camila. Então ficou os dois. Ela queria ser charmosa e misteriosa como Luiza, mas ninguém acreditava, e família e amigos a chamavam de Calu. No trabalho diziam Camila Pedro, que era o sobrenome do seu pai. Ela achava que os pais deliraram quando a batizaram com três nomes próprios.

Ficamos algumas semanas trocando mensagens, ela parecia engraçada e eu queria encontrá-la, mas ela repetia que não gostava de conhecer gente pela internet, preferia só trocar emails. Então blefei: não ia escrever mais. Queria amigas reais. Passei o número do meu celular, caso quisesse me encontrar. "Não vou mais escrever", eu disse duas vezes. "Se quiser, me liga".

Passaram alguns dias. Uma tarde, recebi uma mensagem: "Oi. Aqui é a Camila Luiza. Quer me ligar?" E tinha uma piscadinha: ";)"

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

The net and the air

Texto composto para a oficina "Blueprint your book", de Minal Hajratwala.


Persian Limes – Structure
Sabina Anzuategui


In my book, the underlying structure are the stages of love relationships. I don’t like stories with too professional plots, in which characters are established in the beginning, and what follows is logical or formulaic. Maybe it’s because I graduated in Film and Screenwriting, so I got a little tired of these well-done scripts. I like stories in which characters change their minds all the time, and are never sure of anything, always making plans that they never fulfill, thinking and trying to explain their own existence in a naive way. To avoid formulaic scenes, I prefer to write based on memories. I sit and try to remember people that I have met, and things they said, their dreams and problems. I choose what seems more meaningful to me, and compose my characters as a mosaic of memories from different people.

For years I’ve been planning to write a book about love. A book that would go some stages in a love story: why and when two people fall in love, and what happens next. To organize this book I thought about four chapters: first times together / the moment when love happens / the moments when passion fades into daily life / the moment when you have to decide if you quit or stay together.

But at the same time I want to talk about depression and the idea of suicide.

I have some ideas for these chapters, but it is only a beginning. For each chapter, I plan to do memory exercises, and compose some fragments. Then probably I will tie them together in the method Minal describes as “The net and the air”.