segunda-feira, 20 de maio de 2013

Tudo ia dar certo


Melissa escrevia em letra cursiva, com grandes espaços entre as linhas. Em algumas páginas, a caligrafia era pequena e angular, o traço frequentemente interrompido. Em outras as palavras seguiam amplas, arredondadas e contínuas. Eu entendia quase tudo. A pontuação era correta, traços separavam as mudanças de ideia. Muitos assuntos eu já ouvira em nossas conversas diárias. Mas, organizados em frases curtas, seu pensamento parecia mais seguro e definido. A maioria dos trechos contava lembranças sobre psicólogos e psiquiatras, detalhes de tratamento. Não havia quase nada sobre amores e família.

"Quando vim para São Paulo eu me perdi quanto a médicos. Em Santa Bárbara meu pai sabia tudo: seus amigos médicos eram suficientes para meus eventuais problemas. Mas longe de casa eu tinha um medo terrível do catálogo do plano de saúde. Passei dois anos perdida entre depressões e euforia. Quando não consegui mais aguentar, pedi a meu pai que descobrisse um psiquiatra em São Paulo. Estranho sentar na frente de um desconhecido e explicar suas angústias como se fossem uma irritação na garganta. Mas o psiquiatra tinha um olhar compreensivo e ao final concordou que meu sofrimento ultrapassava o nível aceitável de fantasia. Ele podia me receitar um remédio, se eu quisesse, e achava que psicanálise poderia ajudar. Fiquei um pouco decepcionada e ele percebeu:"

"- Você esperava que eu dissesse algo além disso?"

"Esperava, talvez. Mas ele não teve medo de reconhecer que o tratamento recomendado era bastante banal." 

"- Você tem medo de ser comum? - perguntou."

"Eu disse ao psiquiatra que não queria tomar remédios. Expliquei que meu pai já gastava muito com minha faculdade e aluguel e perguntei se ele conhecia algum instituto que oferecesse atendimento à comunidade. Ele recomendou uma escola de formação em psicanálise." 

"Passei por uma triagem e a atendente ficou comovida quando contei minha história chorando. Prometeu que tudo ia dar certo e durante quatro meses fui quatro vezes por semana ao ao consultório de uma psicóloga que tinha flores artificiais na sala de espera. Mas houve alguns conflitos quanto à precisão do vocabulário. Ela repetia o que eu havia dito com palavras diferentes, e mudava o sentido, ou ao menos o estilo." 

"- Não foi isso que eu disse - repeti muitas vezes." 

"Mas ela insistia que sua interpretação era correta." 

"- É a mesma coisa - dizia."
"- Não. Não é."

Melissa contou que seu pai era médico ortopedista em Santa Bárbara do Oeste. Eu quis saber mais detalhes sobre sua família. 

- Minha mãe é muito bonita. Sempre foi apaixonada pelo meu pai. Mas acho que esperava um grande príncipe, um herói aventureiro, e sofria demais para aceitar a vida comum. Falava sempre dos encantos de meu pai quando jovem: como era inteligente, educado e parecia um nobre. Ele continuava inteligente e educado, mas quando eu era criança isso não tinha mais graça pra ela. Parecia uma fraqueza. 

- Você escreveu que ela esteve internada.

- Algumas vezes. Ela tomava remédios durante o dia, quando eu estava na escola e meu pai trabalhando. Deixava bilhetes de despedida e tomava uma cartela de comprimidos. Nós a levávamos para o hospital e ela acordava no dia seguinte. Me abraçava, chorava, dizia que eu e o papai éramos tudo na vida dela. E depois voltava a suspirar pela casa. Eu passava a tarde fora com as minhas amigas, ficar com ela era um inferno. Não me deixava sozinha, no meu pé o dia inteiro querendo conversar, deitava na minha cama e abraçava meu travesseiro como se fosse minha amiguinha. 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Dispositivo de memória


"Melissa queria assistir ao serviço de sábado na sinagoga do centro israelita. Repetiu isso algumas vezes, sem planos precisos. Não gostava da cerimônia de sexta-feira à noite pois havia muitas famílias, gente que se conhecia e se cumprimentava, ela se sentia isolada. Seu pai era judeu de uma família sem interesses religiosos. A mãe católica sem acreditar. A religião não era questão para eles, mas Melissa sentia necessidade de resgatar raízes culturais, segundo me disse. O pai não falava do assunto, mas havia um sentimento judaico em seu modo de vida, algo que ela imaginava importante e queria entender. O serviço de sábado era mais longo, "mais técnico", ela dizia. A Torá era lida em ciclos de três anos, dividida em trechos semanais. Uma noite, enquanto eu dobrava roupas lavadas, ela perguntou se eu iria com ela. Queria ligar e informar meu nome para que a entrada fosse liberada, eu concordei. Ela mostrou as apostilas do curso de judaísmo que fizera alguns anos antes. Contou que muitas filhas mistas, ou netas de apenas um avô judeu, faziam a conversão quando adultas para "se integrar". O curso durava oito meses, duas aulas semanais até o batismo.

- Não eram aulas - ela disse. - O rabino entregou as apostilas e falava quando havia perguntas. Se ninguém perguntasse, ele ficava em silêncio. Era meio surdo, precisávamos perguntar em voz alta.  
- Você acredita em deus?
- No judaísmo não é preciso acreditar em deus. Meu pai diz que viver corretamente é mais importante que acreditar.
- Então pra que se converter?
- Na apostila tem uma definição do que significa acreditar em deus. São três itens: "acreditar que o ser humano não comanda a própria vida", "acreditar que a vida tem um sentido". Depois não lembro bem.

Ela procurou a página na apostila, mas não encontrou.

- Era "fazer o possível para construir o sentido", algo assim. Não lembro. Mas era aceitável.
- A vida tem um sentido?
- Pois é. Precisa de esforço para acreditar.

Melissa também fez planos de trabalho. Queria ser psicóloga, mas acreditava-se suscetível demais ao que ouvia, despreparada para lidar com adultos. Alguns anos antes, quando começou o terceiro ano da faculdade, fizera estágio numa instituição de apoio a pacientes com câncer. Fragilizava-se com o sofrimento dos pacientes e se sentia incapacitada para ajudar.

- Liguei para o centro de voluntariado. Vou fazer a oficina de preparação na semana que vem. Pensei em trabalhar com crianças ou deficientes. Se começar como voluntária, posso demonstrar alguma experiência depois.

Quando eu acordava de manhã, via sobre a mesa os papéis que Melissa deixara na noite anterior. Ela escrevia num caderno espiral, sem pauta, aberto ao lado de duas canetas, um dispositivo de memória e o computador portátil fechado. Os objetos ficavam alinhados à borda da mesa, com uma distância regular entre eles. Na primeira vez eu não soube se deveria ler ou não. Ela não dissera nada a esse respeito, mas a página aberta poderia indicar uma permissão. Tive medo que houvesse algo sobre mim. Em alguns momentos senti o impulso de perguntar e não perguntei. Como aconteceu com os primeiros textos, eu sentia um impedimento, um pudor de explicitar numa conversa o contato indireto. Eu queria ler em segredo, manter-me submissa a seu controle de mostrar sem aviso, forçar-me a aceitar o que quisesse, pois eu não podia contestar o que não estava explícito. Sem autorização para ler, eu não podia confessar a leitura. Sem confessar, eu não podia recusar."

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Abordagem e critérios


"Houve também um desacerto em nossas relações íntimas. Melissa deitava recolhida na cama, longe de mim, e se retraía quando eu me aproximava para tocá-la. Depois de algumas negativas, ao longo de poucas semanas, ela quis me explicar.

- Tenho medo do sexo como fazíamos antes. Não tenho energia para intensidade.
- O que você quer? Não quer nada?
- Algo muito delicado. Muito muito leve. Se eu tivesse certeza que não passaria de um limite...
- Que limite?
- Pouco. Quase nada.

Pedi que ela me ensinasse. Toquei seu corpo lentamente, avançando com cautela, devagar. Mantive os olhos abertos, examinando sua expressão. Ela segurava minha mão quando eu devia parar. Em alguns momentos disse: "Só mais um pouco." Depois ela me tocou da mesma maneira. Colocou um dedo, que movimentava levemente. Em seguida parou, beijou meu rosto sem me tocar com a língua, e se ajeitou para dormir. Para mim não bastou, mas me esforcei para respeitar e esperei que a fase passasse.

Eu tinha uma lista de doze livros de Sociologia para a prova de seleção do mestrado. Mesmo aceitando meu projeto, a orientadora explicou que era uma etapa regulamentar e minha matrícula dependia dessa aprovação. Explicou em linhas gerais a abordagem e os critérios do departamento, e tive dois meses para me preparar.

Melissa decidiu recomeçar o curso de judaísmo no centro israelita. Seu pai era judeu de uma família sem interesses religiosos. A mãe nasceu era católica sem acreditar. A religião nunca foi uma questão para eles, mas Melissa sentia necessidade de resgatar suas raízes culturais, segundo me disse. O pai não falava do assunto, mas havia um sentimento judaico em seu modo de vida, algo que ela imaginava importante e queria entender."

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Planejamento


Escrevo dois ou três capítulos sem pensar no conjunto do livro. Depois o rumo se perde. Faço um resumo (uma linha) dos capítulos já escritos, organizo as ideias para a sequência.

- - -

No apartamento novo, Fernanda estuda para seleção de mestrado, preparando-se para deixar a Escola da Fonte.

Melissa procura trabalho.

Questões sexuais entre elas. Melissa quer extrema delicadeza e lentidão.
- Do ponto de vista puramente sexual, seria bi, se não houvesse outras questões.
- Existe o sexo de comunhão. E o sexo de caça e presa.

Melissa volta pra curso de judaísmo (fase de encerrar o que antes deixou interrompido).
- Fez o curso de judaísmo, depois da internação de Guilherme e a morte da avó, para tentar resgatar as raízes mais seguras de seu pai.
- questão de deus / apostilas de judaísmo

Fernanda acompanha Melissa num sábado de manhã na sinagoga. Vê jovens evangélicas morenas, sozinhas.

Melissa volta a escrever, de noite, depois que Fernanda vai dormir.

Todo dia de manhã, antes de sair para o trabalho (Melissa ainda dorme), Fernanda lê o que ela escreveu na noite anterior.

Textos de Melissa:
- Algumas pessoas vivem na fantasia. Antes eu também vivia. Fiz um esforço para viver na vida real e agora isso me pesa.
- bula de remédio estabilizador
- A depressão por uma questão de delicadeza, por não descontar o peso no outro. Suportar o próprio sofrimento (difícil).
- Sobre Guilherme: "Eu havia me convencido que minha reação protetora e maternal não ajudava. O resultado era contrário: sua passividade se prolongava na proporção em que eu permanecia disponível ao seu lado. A dedicação aumentava apenas meu cansaço, eu havia prometido a mim mesma que não iria ceder. Ele deveria tomar o remédio. Por dois meses ouvi as mesmas frases enquanto ele desejasse falar, acreditando que era um momento especial em que descobríamos algum tipo de verdade, nos aproximávamos da essência, alcançando outro nível de percepção. Nada disso sobreviveu depois da crise. As frases sentidas, sempre as mesmas, me cansaram. O médico acreditou que ele estava doente, mas eu também já estivera doente e nunca atrapalhei o sono de ninguém que precisasse trabalhar no dia seguinte. A depressão é assustadora mas não impede ninguém de perceber que os outros também têm suas necessidades."

Nos textos, Melissa descreve seus hábitos: acordar, olhar notícias e anúncios de emprego, restringir fantasias e angústias, concentrar-se em coisas concretas.

Fernanda vai com Melissa p/ o interior, conhece os pais dela.

Mãe de Melissa gosta das notícias (fim da faculdade, curso de judaísmo), diz que o pai está feliz (depois de velho, questões de origem o comovem).

Melissa conta um pouco da vida dos pais.

Prima de Melissa (por parte de pai) oferece vaga de estágio (sinopses, etc, em agencia de assessoria de imprensa para empresas da área farmacêutica).

Melissa volta a receber mesada da mãe.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

A tristeza ensina


"Melissa voltava a falar com mais frequência, contava algumas sensações, ideias sobre sua depressão.

- Antes eu achava que a depressão trazia profundidade, era melhor que a alegria rasa. Mas a tristeza ensina? O sofrimento só prepara para outro sofrimento. Seria melhor não aprender. Pra que ficar preparado para sofrer?

Ela falava calma e sentada, às vezes no sofá, à mesa, enquanto tomávamos café ou eu organizava minhas coisas. Passamos alguns dias entre papéis e agendas. Ela procurava telefones antigos de amigas que talvez a pudessem ajudar. Pessoas boas e confiáveis, que tivesse deixado para trás sem motivo, desviada pelo fluxo dos dias. Eu relia minhas anotações e relatórios do estágio no Instituto de Astronomia. Fiquei surpresa com a complexidade dos assuntos que dominava então, auxiliando os professores e pesquisadores da pós-graduação. Eu não era um gênio da Física, como a maioria deles, mas admirava seu trabalho, era inteligente e organizada o suficiente para ser útil. Era a mais jovem no grupo de pesquisa, e mantinha em ordem todos os prazos, formulários e comprovantes de gastos dos financiamentos, numa vaga de estágio que poucos alunos aceitavam, por ser praticamente um secretariado, e não pesquisa. E pagava menos que um emprego regular como secretária. Mas eu ainda morava com meus pais que não cobravam nenhuma ajuda financeira, e estava feliz de conviver com meus professores originais. Permaneci no estágio durante três anos, e, no último semestre, meu orientador me ajudou a montar um projeto para pós-graduação. Ele queria que eu continuasse no grupo, confiava em mim. Mas eu saí: a sedução lésbica me atraiu para outros lugares.  

Era início de janeiro, os primeiros dias de 2006, quando vi um homem prendendo os arames de uma placa de "vende-se" na grade externa do meu prédio. Era um velho baixo, de cabelos brancos e roupas simples. Perguntei sobre o apartamento e o preço, ficava nos fundos, no segundo andar, ele vendia para morar com a filha mais velha no litoral. O preço estava um pouco abaixo do mercado, e perguntei o motivo. "A pintura está gasta", ele disse. "Os azulejos são velhos, eu não quero trocar." Pedi para ver o lugar e achei bem razoável: usado, mas claro, e limpo. Eu disse que me interessava e perguntei, com delicadeza, se ele reservaria algumas semanas para mim, até que organizasse meus papéis. Ele simpatizou comigo e disse que sim.

Em três meses, depois de algum trabalho para liberar o financiamento, recebi as chaves. Patrícia fez uma festa de despedida no feriado de Carnaval. Eu me informei sobre as possibilidades de pós-graduação nos departamentos de Educação e Ciências Humanas. Uma professora do departamento de Sociologia se interessou por minha experiência na Escola da Fonte, e acolheu meu projeto de pesquisa sobre os gastos das classes A e B na educação privada dos filhos. Havia algumas bolsas de estudo disponíveis para mestrado, se eu me comprometesse a dedicação integral. Era um grupo de pesquisa interdisciplinar e precisavam de alguém com habilidade em ciências exatas, para organizar as informações estatísticas.

Em outubro daquele ano, pedi demissão da Escola, e me organizei para viver com o valor da bolsa de estudo. Se ficasse difícil, eu poderia dar aulas particulares de Física.


Enquanto eu reorganizava minha vida profissional, Melissa voltou a escrever. Ela queria se estabilizar, apoiar-se atividades regulares que a deixassem em calma. Passou algumas semanas absorvida em suas lembranças, tentando estabelecer, entre tudo que fizera na vida, o que fora verdadeiro e sereno, em que ela pudesse confiar de modo permanente. Nos últimos meses em que trabalhei na Escola, eu voltava para o apartamento e a encontrava concentrada, em silêncio, pensando. Às vezes demorava alguns minutos para falar comigo, e então começava a explicar suas ideias em elaboração, em frases que se interrompiam quando ela se percebia excessivamente imprecisa. Desculpava-se pela raciocínio truncado, retomava o argumento em algum ponto anterior.

- Eu me perco na vida mental - ela dizia. - Preciso me concentrar no mundo físico."