sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Meu objetivo de vida

Reescrevo as primeiras cenas de Melissa, eliminando as anotações no diário. Agora ela conta sua história passada em diálogos. Os detalhes mudam, Melissa é mais inconsequente e feliz, no início da história.

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"Às vezes conversávamos sobre amor. Melissa contava do namoro de seus pais, dos sonhos de juventude de sua mãe.

- Guilherme dizia que eu era triste. Mas a vida é triste, não é? Minha mãe queria tanto que eu me apaixonasse. Ela imaginava esse rapaz que eu conheceria, que gostaria muito muito de mim, ela dizia. Que me trataria com muito cuidado e com muito carinho. Ela sempre repetia: "Como é bonito descobrir o amor juntos". Mas o tempo foi passando e isso não aconteceu.
- E você não queria se apaixonar? Sua mãe queria por você?
- É difícil querer o que alguém já quer. Quando conhecia alguém eu pensava: "Será que esse é o cara que vai me tratar bem como minha mãe quer?" Eu tinha medo de errar. E se eu não soubesse reconhecer o cara certo? E se ele estivesse na minha frente e eu não percebesse?
- Você herdou esse projeto.
- E você não?
- Meus pais se gostam, acho que são felizes. Mas o casamento não é um grande assunto para eles, minha mãe nunca se importou que eu tivesse um namorado. Ela não gosta muito de homens, no fundo. Diz que os homens dão amor mas também dão trabalho.    

Um dia, no trabalho, comentei a situação com Patrícia. Contei como conheci Melissa, o reencontro no sítio de São Lourenço, a condição atual dela, sem trabalhar nem estudar. Patrícia estivera com ela em alguns encontros de família, mas não conhecia os detalhes. Nem mesmo sabia da internação do ex-namorado e do abandono da faculdade.    

- Ela está morando com você? - perguntou.
- Praticamente. Metade das coisas dela está na minha casa. O resto está na casa de um amigo.
- E você gosta dela?
- Não sei, Patrícia. Não estou em condições de avaliar isso agora.
- Tome cuidado - ela disse. - Você precisa de uma namorada, não de uma filha adotiva.

Mas Melissa não se comportava como filha, seria mais o contrário. Ela se mostrava grata por meu acolhimento, sentia-se bem na minha casa e ajudava como podia. Quem estava muitas vezes cansada, precisando de apoio no fim do dia, era eu. Melissa me abraçava com carinho, eu descansava em seu colo e ficava algum tempo sem falar. Ela acariciava meu cabelo e perguntava do meu dia. Eu contava pouco do que sentia, as angústias e saudades de Agnes que não desapareciam, e para cobrir meu silêncio Melissa falava de suas aventuras e amores passados.

- No segundo ano da faculdade tive uma paixão por uma professora. Eu só falava dela entre meus amigos, virou uma investigação coletiva. Eles vinham me contar tudo o que viam: "Hoje eu vi a Laura na fila do café", "Hoje a Laura veio de echarpe verde". Um dia uma garota chegou animadíssima porque tinha descoberto que a Laura era casada com uma médica loira e morava em Higienópolis.

Sem mudar de tom, como se prosseguisse a brincadeira entre os amigos, ela avançava nos detalhes:

- Eu decidi que ia transar com ela de qualquer jeito, virou meu objetivo de vida. Fiquei muitos dias pensando em como podia conseguir isso, ela era muito concentrada nas aulas, intelectual de verdade, uma das poucas pessoas realmente inteligentes daquele lugar. Então eu achei que o melhor jeito era mostrar um super interesse pelas coisas que ela estudava, ser a melhor aluna, virar monitora, fazer iniciação científica, qualquer coisa que mostrasse que eu queria muito aprender tudo o que ela sabia.
- E funcionou?
- Mais ou menos. Ela realmente acreditou que eu era uma ótima aluna e super interessada. Uma vez ela ofereceu alguns livros emprestados e eu fui buscar na casa dela. Eu achei que era o grande momento, minha chance. Quando entrei eu fiquei olhando os mínimos movimentos dela, esperando uma brecha pra tomar a iniciativa. Mas ela foi super séria e só pegou os livros e me entregou. Na hora de sair eu criei coragem e segurei a mão dela, para dar o beijinho de despedida, e dei um selinho perto da boca.
- Ela retribuiu?
- Não. Ela fingiu que não aconteceu.
- Que adolescente.
- Ela?
- Não, você.
- Ah, claro. Eu tinha dezenove anos.
- E depois?
- Depois nada. Acabou o semestre e eu perdi a coragem de continuar. Fiquei com dó. Ela só falava dos trabalhos mas não me olhava direto, parecia com vergonha.

Melissa também acordava cedo, sempre alegre, fazia o café e servia a mesa para mim. Falava bastante como se fosse tudo engraçado:

- Hoje sonhei que precisava preparar várias jarras de suco e tigelas de sopa para servir a alguém. Depois eu tinha medo que minha casa fosse invadida, porque tinha um segredo que eu não conseguia lembrar. E depois eu estava dirigindo um carro antigo em alta velocidade, e batia de propósito contra um muro, e minha mãe descobria o segredo e eu virava um homem e começava a fugir.

Também contou que escrevia poesias, desde criança, datilografava em páginas soltas que ainda guardava em seu antigo quarto na casa dos pais. Num domingo foi à casa dos pais e buscou. Eram páginas avulsas, impressas em fonte pequena, algumas cheias, outras apenas com poucas linhas.

"Ainda sonho que um dia / ela encoste ao meu lado na festa / e diga que só pensa em mim / e na tarde que toquei sua mão / e não lembro o que aconteceu."

"Ando pela rotatória e vejo o ônibus / 537-T em direção a Polvilho. / Tudo o que desejo é ir para Polvilho / para a Terra de Polvilho."

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Criação literária

Queridos amigos e autores em formação: 

Em setembro, começarei algumas orientações particulares de criação literária. A proposta é acompanhar o autor iniciante durante a escrita de seu livro de prosa, auxiliando na estruturação geral da narrativa, redação dos capítulos, definição de estilo e outros aspectos criativos. 

O período de orientação pode durar de 2 a 6 meses, conforme a necessidade do autor. Nesse período, o objetivo é concluir a redação do original desejado, em sua primeira versão.


O trabalho se organiza assim: primeiro há uma conversa, para organizar os objetivos do autor. A partir disso, eu organizo um cronograma, prevendo o número de encontros e o conteúdo de cada etapa.

Os encontros podem ser semanais ou quinzenais. Na cidade de São Paulo, podem ser realizados pessoalmente. Em outros municípios ou estados, pela internet, via skype. 

Cada encontro de 1 hora teria o valor de R$ 70, incluindo as trocas de emails no processo. 

O email de contato é sabina.anz@gmail.com.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Richard Skinner, diretor da Faber Academy

Richard Skinner, diretor da Faber Academy, escola criada pela prestigiada editora britânica Faber and Faber, em Londres, é um dos convidados do Pauliceia Literária, festival que acontecerá de 19 a 22 de setembro na Associação dos Advogados de São Paulo.

O britânico coordenará, no dia 21, uma oficina literária chamada "Da Ideia à Criação do Romance". Serão três horas de atividades, em inglês.

Segundo ele:

"Bons romances não são escritos com a cabeça ou com o coração, mas sim com o estômago. Meu objetivo para este workshop é tentar mostrar que um romance será muito melhor se o autor seguir seus instintos viscerais."

"Cursos de escrita criativa não devem servir para dizer o que os estudantes devem pensar ou escrever, mas para ajudá-los a desenvolver suas próprias fontes de criação."

Em seu livro teórico "Fiction Writing" (Hale Books, Inglaterra), do qual foram pinçadas as dicas abaixo, Skinner diz que não é propriamente a escolha da "voz" literária o maior problema dos escritores iniciantes. O professor sustenta, por sinal, que "encontrar a própria voz" é um dos grandes mitos literários. A grande inimiga é a pressa.

"Quando um autor novo tem uma ideia, ele começa a escrever de modo afoito e perde o gás depois de 50 páginas. Uma das partes mais difíceis do processo de escrever é o de sustentar e desenvolver a história", diz à Folha.

DICAS DO PROF. SKINNER

1 - CTRL C + CTRL V
Pegue um livro que você admire e copie uma página. Observe o ritmo das frases. O que você nota nelas? Escreva usando os recursos

2 - BIG BROTHER
Vá a algum lugar cheio de gente, como uma estação de trem ou um café, e observe o que acontece no entorno. Observe as pessoas e tente criar pequenas histórias com o que vê

3 - 15 MINUTOS
Pense num amigo e escreva por 5 min. sobre ele. Depois pense no que fez no dia anterior e escreva por 5 min. Por fim, tente estabelecer um elo entre os textos, em 5 min.

4 - AÇÃO!
Um bom diálogo é uma impressão de como as pessoas realmente falam, não uma cópia. Restrinja os diálogos ao mínimo possível. Ações são sempre melhores do que diálogos

Fonte: "Fiction Writing - The Essential Guide to Writing a Novel", de Richard Skinner

SUGESTÕES DE LEITURA:

- 'A Arte do Romance', de Milan Kundera (ed. Companhia das Letras)
"O escritor tcheco descreve a arquitetura de seus romances e examina a história deste gênero, de Cervantes a Kafka."

- 'As Entrevistas da Paris Review, vol. 2', vários autores (ed. Companhia das Letras)
"Este volume inclui entrevistas longas com grandes escritores como Alice Munro, Gabriel García Márquez e Stephen King."


http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/09/1336315-professor-ingles-vem-ao-brasil-para-ensinar-autores-iniciantes-a-escrever-romances.shtml