Comprei um vaso novo para ressucitar uma samambaia.
Um vaso e fibra de coco.
Amanhã vou para Curitiba.
sexta-feira, 14 de março de 2008
quinta-feira, 13 de março de 2008
Frouxamente atados
Ontem foi minha primeira aula no doutorado. A disciplina se chama "A obra de Machado de Assis e sua recepção crítica". O professor, Helio Guimarães, explicou o método do curso e os romances que devemos ler durante o semestre: Ressurreição, A mão e a luva, Helena, Memórias Póstumas, Quincas Borba e Dom Casmurro.
Li "A mãe e a luva" há dois anos, quando estava muito deprimida e passava a tarde encolhida no sofá. Passada a depressão, tenho uma boa memória dessas horas de leitura em que me sentia quase outra pessoa, porque não escolhia os livros como escolhia antes, ia apenas procurando um depois do outro na estante do meu marido.
De todo o romance, só lembro de uma longa cena em que um rapaz observa a moça na casa vizinha:
"A primeira cousa que Estevão pode descobrir é que a vizinha era moça. Via-lhe o perfil, em cada aberta que deixavam as árvores, um perfil correto e puro, como de escultura antiga. Via-lhe a face cor de leite, sobre a qual se destacava a cor escura dos cabelos, não penteados de vez, mas frouxamente atados no alto da cabeça, com aquele desleixo matinal que faz mais belas as mulheres belas. O roupão - de musselina branca - finamente bordado, não deixava ver toda a graça do talhe, que devia ser e era elegante, dessa elegância que nasce com a critaura ou se apura com a educação, sem nada pedir, ou pedindo pouco à tesoura da costureira...
Estevão, da distância e na posição em que se achava, não podia ver todas estas minúcias que aqui lhes aponto, em desempenho deste meu dever de contador de histórias."
- - -
Acho importante esse último parágrafo. Mesmo que o estilo seja desajeitado, se relaciona com o que escrevi sobre "Homem Comum", de P. Roth.
Li "A mãe e a luva" há dois anos, quando estava muito deprimida e passava a tarde encolhida no sofá. Passada a depressão, tenho uma boa memória dessas horas de leitura em que me sentia quase outra pessoa, porque não escolhia os livros como escolhia antes, ia apenas procurando um depois do outro na estante do meu marido.
De todo o romance, só lembro de uma longa cena em que um rapaz observa a moça na casa vizinha:
"A primeira cousa que Estevão pode descobrir é que a vizinha era moça. Via-lhe o perfil, em cada aberta que deixavam as árvores, um perfil correto e puro, como de escultura antiga. Via-lhe a face cor de leite, sobre a qual se destacava a cor escura dos cabelos, não penteados de vez, mas frouxamente atados no alto da cabeça, com aquele desleixo matinal que faz mais belas as mulheres belas. O roupão - de musselina branca - finamente bordado, não deixava ver toda a graça do talhe, que devia ser e era elegante, dessa elegância que nasce com a critaura ou se apura com a educação, sem nada pedir, ou pedindo pouco à tesoura da costureira...
Estevão, da distância e na posição em que se achava, não podia ver todas estas minúcias que aqui lhes aponto, em desempenho deste meu dever de contador de histórias."
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Acho importante esse último parágrafo. Mesmo que o estilo seja desajeitado, se relaciona com o que escrevi sobre "Homem Comum", de P. Roth.
quarta-feira, 12 de março de 2008
Aquela que ouve tudo
Texto interessante do Marcelo Coelho na FSP de hoje. A versão abaixo foi um pouco editada no começo, o que contradiz o próprio artigo:
Os despertos e os ausentes
Talvez exista um bocado de verdade no que dizia uma grande educadora de outros tempos a respeito das virtudes da energia intelectual, da entrega e da atenção. Trata-se de Nadia Boulanger (1887-1979), talvez a mais importante professora de composição erudita do século 20... Seu ensino ("draconiano", como ela própria dizia) formou gerações de compositores e de intérpretes. Saiu agora em DVD um documentário já antigo, em preto-e-branco, feito por Bruno Monsaingeon quando "Mademoiselle", como a chamavam, completou 90 anos, durinha e lúcida como ela só.
Músicos de toda parte do mundo ainda faziam fila para assistir a suas aulas. Como selecioná-los? Sem dúvida, o talento natural era a primeira coisa a avaliar. Igualmente importante, contudo, era a capacidade de concentração.
Tudo se torna absolutamente inútil, diz Boulanger, quando de uma semana para a outra o aluno se esquece do que aprendeu... Ela conta o exemplo de Stravinsky, seu grande amigo: mesmo quando estava jogando cartas, ele se entregava completamente ao que fazia.
Nessa hora, o filme mostra uma foto de Stravinsky com o baralho na mão. O compositor russo, meio de perfil, grandes óculos de massa preta, raros cabelos grudados com fixador em volta da orelha, encara o jogo como se quisesse hipnotizar as próprias cartas. Sente-se que Stravinsky está integralmente ali. É ele mesmo, ele próprio, inteiro, quem vive aquele momento. Imagino que fosse assim o tempo todo.
Nesse sentido, Boulanger acaba usando um termo antiquado. Diz que a atenção é "um traço de caráter". Entende que um grande músico possa ter personalidade odiosa; "caráter", em seu vocabulário, não parece ter muito a ver com isso.
Fiquei pensando se o termo não significaria, antes de mais nada, uma capacidade de "estar presente", coisa que não se resume apenas ao aspecto moral. Sem dúvida, "ausentar-se" de uma situação difícil é sinal, não digo de falta, mas de fraqueza de caráter.
Mas o que dizer de alguém que, por exemplo, se ausenta de sua própria vocação, e que mal responde aos apelos de sua própria inteligência, de seu próprio dom? Que professor poderia ajudar alguém assim? Felizmente, Boulanger não menospreza demais esse tipo de pessoas. São, diz ela, os "adormecidos". Cumprirão a seu modo, e quem sabe com grandeza, o seu destino pessoal. Mas o destino dessa professora era tratar dos que estão despertos. "Dom" é outra palavra que Nadia Boulanger utiliza com plena convicção, sem relativismo nem correção política. A idéia adquire, em suas frases, ressonância quase religiosa.
Curioso, afinal, que outro sinônimo de "dom" seja "presente". É como se, num artista como Stravinsky, por exemplo, estivesse em curso uma troca permanente entre seu trabalho e sua natureza: os presentes recebidos se retribuem com "presença", os dons se respondem com novas doações.
Stravinsky dedicou uma peça a Nadia Boulanger, chamando-a de "aquela que ouve tudo". De novo, é a atenção. No filme, o compositor Leonard Bernstein confirma essa qualidade de Boulanger. Tocou para ela os primeiros acordes, complicadíssimos, de uma peça para canto e piano. Meio compasso depois, a mão esquerda estourava um si bemol no grave.
"Não, não!", pulou a professora. "Ça ne va pas!" Aos 58 anos, Bernstein não precisava de aulas de ninguém; era só amigo de "Mademoiselle". "Mas eu me senti um aluno de primeiro ano." A professora tinha escutado uma repetição banal no meio da sofisticada barafunda bernsteiniana.
Voltando aos distúrbios de atenção. Podem ter causas neurológicas reais. Não só entre as crianças, contudo, as coisas hoje em dia parecem feitas para nos deixar o tempo todo desatentos. No meio do barulho, não ouvimos coisa nenhuma, nem sequer a nós mesmos.
Fico por aqui, não sem observar que, se o leitor chegou até o fim do artigo, já temos, ambos, de comemorar nossa atenção.
Os despertos e os ausentes
Talvez exista um bocado de verdade no que dizia uma grande educadora de outros tempos a respeito das virtudes da energia intelectual, da entrega e da atenção. Trata-se de Nadia Boulanger (1887-1979), talvez a mais importante professora de composição erudita do século 20... Seu ensino ("draconiano", como ela própria dizia) formou gerações de compositores e de intérpretes. Saiu agora em DVD um documentário já antigo, em preto-e-branco, feito por Bruno Monsaingeon quando "Mademoiselle", como a chamavam, completou 90 anos, durinha e lúcida como ela só.
Músicos de toda parte do mundo ainda faziam fila para assistir a suas aulas. Como selecioná-los? Sem dúvida, o talento natural era a primeira coisa a avaliar. Igualmente importante, contudo, era a capacidade de concentração.
Tudo se torna absolutamente inútil, diz Boulanger, quando de uma semana para a outra o aluno se esquece do que aprendeu... Ela conta o exemplo de Stravinsky, seu grande amigo: mesmo quando estava jogando cartas, ele se entregava completamente ao que fazia.
Nessa hora, o filme mostra uma foto de Stravinsky com o baralho na mão. O compositor russo, meio de perfil, grandes óculos de massa preta, raros cabelos grudados com fixador em volta da orelha, encara o jogo como se quisesse hipnotizar as próprias cartas. Sente-se que Stravinsky está integralmente ali. É ele mesmo, ele próprio, inteiro, quem vive aquele momento. Imagino que fosse assim o tempo todo.
Nesse sentido, Boulanger acaba usando um termo antiquado. Diz que a atenção é "um traço de caráter". Entende que um grande músico possa ter personalidade odiosa; "caráter", em seu vocabulário, não parece ter muito a ver com isso.
Fiquei pensando se o termo não significaria, antes de mais nada, uma capacidade de "estar presente", coisa que não se resume apenas ao aspecto moral. Sem dúvida, "ausentar-se" de uma situação difícil é sinal, não digo de falta, mas de fraqueza de caráter.
Mas o que dizer de alguém que, por exemplo, se ausenta de sua própria vocação, e que mal responde aos apelos de sua própria inteligência, de seu próprio dom? Que professor poderia ajudar alguém assim? Felizmente, Boulanger não menospreza demais esse tipo de pessoas. São, diz ela, os "adormecidos". Cumprirão a seu modo, e quem sabe com grandeza, o seu destino pessoal. Mas o destino dessa professora era tratar dos que estão despertos. "Dom" é outra palavra que Nadia Boulanger utiliza com plena convicção, sem relativismo nem correção política. A idéia adquire, em suas frases, ressonância quase religiosa.
Curioso, afinal, que outro sinônimo de "dom" seja "presente". É como se, num artista como Stravinsky, por exemplo, estivesse em curso uma troca permanente entre seu trabalho e sua natureza: os presentes recebidos se retribuem com "presença", os dons se respondem com novas doações.
Stravinsky dedicou uma peça a Nadia Boulanger, chamando-a de "aquela que ouve tudo". De novo, é a atenção. No filme, o compositor Leonard Bernstein confirma essa qualidade de Boulanger. Tocou para ela os primeiros acordes, complicadíssimos, de uma peça para canto e piano. Meio compasso depois, a mão esquerda estourava um si bemol no grave.
"Não, não!", pulou a professora. "Ça ne va pas!" Aos 58 anos, Bernstein não precisava de aulas de ninguém; era só amigo de "Mademoiselle". "Mas eu me senti um aluno de primeiro ano." A professora tinha escutado uma repetição banal no meio da sofisticada barafunda bernsteiniana.
Voltando aos distúrbios de atenção. Podem ter causas neurológicas reais. Não só entre as crianças, contudo, as coisas hoje em dia parecem feitas para nos deixar o tempo todo desatentos. No meio do barulho, não ouvimos coisa nenhuma, nem sequer a nós mesmos.
Fico por aqui, não sem observar que, se o leitor chegou até o fim do artigo, já temos, ambos, de comemorar nossa atenção.
terça-feira, 11 de março de 2008
Como gente normal
Tento colocar mais tensão no livro, cortando alguns parágrafos e interrompendo cenas sem explicar totalmente. Também decidi mudar a relação dos pais da narradora: há um projeto de separação que a menina não sabe. Quando o pai comunica a longa viagem que irá fazer, tentei ressaltar uma amargura que não se expõe em palavras:
"Na minha memória há uma imagem sombria dessa cidade em que o pai morou, e que nunca conheci. Enquanto ele organizava suas coisas e fechava uma mala depois da outra, eu e Diego perguntávamos sobre o novo lugar, como eram as casas, as crianças, pulando em volta dele e repetindo que iríamos também. O pai respondia sem entusiasmo. Dizia que a cidade era pequena, perto de uma represa em construção, e não havia quase nada. As ruas não tinham asfalto e os índios moravam ali perto. Nós queríamos saber mais sobre os índios, mas o pai só dizia que vestiam roupas e viviam como gente normal.
A mãe não ficava no quarto, enquanto o pai arrumava as malas. Aparecia à porta, observava um pouco, depois ia ver televisão. E quando planejávamos mudar de escola, comprar uma casa nova e irmos todos juntos com o pai, ela apenas balançava a cabeça e levantava as sobrancelhas, numa expressão mista entre paciência e impaciência, e repetia "tá bom, tá bom".
- - -
Antes estava assim:
"Na minha memória há também esta cidade em que o pai morou, e que nunca conheci. Nas semanas que seguiram antes da viagem, eu e Diego adorávamos falar sobre o novo lugar, e perguntávamos ao pai como eram as casas, as crianças, e fazíamos planos e insistíamos com nossa mãe que também queríamos ir. O pai contava que era uma cidade pequena, perto de uma represa que estava sendo construída, e as casas eram todas novas e iguais, as ruas de terra, e havia índios morando ali perto. Mas os índios vestiam roupas e viviam como gente normal, dizia o pai, respondendo às nossas perguntas. O pai ouvia nossos planos com um sorriso. Embora não participasse em nossa invenção de planos, ele parecia feliz em responder nossas perguntas."
"Na minha memória há uma imagem sombria dessa cidade em que o pai morou, e que nunca conheci. Enquanto ele organizava suas coisas e fechava uma mala depois da outra, eu e Diego perguntávamos sobre o novo lugar, como eram as casas, as crianças, pulando em volta dele e repetindo que iríamos também. O pai respondia sem entusiasmo. Dizia que a cidade era pequena, perto de uma represa em construção, e não havia quase nada. As ruas não tinham asfalto e os índios moravam ali perto. Nós queríamos saber mais sobre os índios, mas o pai só dizia que vestiam roupas e viviam como gente normal.
A mãe não ficava no quarto, enquanto o pai arrumava as malas. Aparecia à porta, observava um pouco, depois ia ver televisão. E quando planejávamos mudar de escola, comprar uma casa nova e irmos todos juntos com o pai, ela apenas balançava a cabeça e levantava as sobrancelhas, numa expressão mista entre paciência e impaciência, e repetia "tá bom, tá bom".
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Antes estava assim:
"Na minha memória há também esta cidade em que o pai morou, e que nunca conheci. Nas semanas que seguiram antes da viagem, eu e Diego adorávamos falar sobre o novo lugar, e perguntávamos ao pai como eram as casas, as crianças, e fazíamos planos e insistíamos com nossa mãe que também queríamos ir. O pai contava que era uma cidade pequena, perto de uma represa que estava sendo construída, e as casas eram todas novas e iguais, as ruas de terra, e havia índios morando ali perto. Mas os índios vestiam roupas e viviam como gente normal, dizia o pai, respondendo às nossas perguntas. O pai ouvia nossos planos com um sorriso. Embora não participasse em nossa invenção de planos, ele parecia feliz em responder nossas perguntas."
segunda-feira, 10 de março de 2008
Mel e feijão
No sábado assistimos a "Memória do subdesenvolvimento" em DVD.
Pensei que o filme seria mais político. Mas o personagem tem apenas uma leve crise sobre sua origem burguesa. Boa parte das cenas trata de seu problema com as mulheres e nenhuma me interessou muito. Ele é bastante machista, e não encontrei muita ironia do filme em relação a isso.
Me interessou mais a posição do filme em relação ao feijão.
Várias vezes aparecem personagens falando que tal moça é uma cubaninha vulgar, "alimentada a feijão preto".
Aparentemente, a coisa mais pobre e desprezada por ali era comer feijão. Mas eu adoro feijão: todos os tipos preparados de todas as maneiras. Imagino que uma moça alimentada a feijão seria bastante magra e saudável.
Me disseram uma vez que os nobres europeus na Idade Média preferiam açúcar ao mel - o açúcar indicava riqueza porque era caro. O mel era deixado para os pobres.
Sobre tudo isso, admirando a pureza do mel e do feijão, só consigo pensar com tristeza nos pobres de São Paulo: alimentados com os piores tipos de salgadinhos e biscoitos, comprados nas barracas de camelô ao lado do ponto de ônibus.
Pensei que o filme seria mais político. Mas o personagem tem apenas uma leve crise sobre sua origem burguesa. Boa parte das cenas trata de seu problema com as mulheres e nenhuma me interessou muito. Ele é bastante machista, e não encontrei muita ironia do filme em relação a isso.
Me interessou mais a posição do filme em relação ao feijão.
Várias vezes aparecem personagens falando que tal moça é uma cubaninha vulgar, "alimentada a feijão preto".
Aparentemente, a coisa mais pobre e desprezada por ali era comer feijão. Mas eu adoro feijão: todos os tipos preparados de todas as maneiras. Imagino que uma moça alimentada a feijão seria bastante magra e saudável.
Me disseram uma vez que os nobres europeus na Idade Média preferiam açúcar ao mel - o açúcar indicava riqueza porque era caro. O mel era deixado para os pobres.
Sobre tudo isso, admirando a pureza do mel e do feijão, só consigo pensar com tristeza nos pobres de São Paulo: alimentados com os piores tipos de salgadinhos e biscoitos, comprados nas barracas de camelô ao lado do ponto de ônibus.
quinta-feira, 6 de março de 2008
Pela manhã
Minha avó faleceu hoje. Não era minha avó preferida quando eu era pequena. Estava sempre trabalhando na cozinha e não mimava as crianças.
Há algum tempo entendi que mimar nem sempre é o mais importante.
Ela dizia, quando minha mãe era jovem: vá estudar, casar não é importante - sempre vai ter um prato de feijão aqui em casa.
Fez apenas a primeira série, pois seu pai não queria que as filhas mulheres estudassem. Minha mãe conta que ela sempre repetia: a professora tinha as mãos mais brancas que ela já vira.
A mãe também conta que ela dizia, ao abrir as janelas de manhã: area basanica. Era um dialeto, imagino que significava: ar balsâmico.
Ainda hoje abro todas as janelas quando acordo. Por que é isso que mais precisamos: um bálsamo de ar.

Há algum tempo entendi que mimar nem sempre é o mais importante.
Ela dizia, quando minha mãe era jovem: vá estudar, casar não é importante - sempre vai ter um prato de feijão aqui em casa.
Fez apenas a primeira série, pois seu pai não queria que as filhas mulheres estudassem. Minha mãe conta que ela sempre repetia: a professora tinha as mãos mais brancas que ela já vira.
A mãe também conta que ela dizia, ao abrir as janelas de manhã: area basanica. Era um dialeto, imagino que significava: ar balsâmico.
Ainda hoje abro todas as janelas quando acordo. Por que é isso que mais precisamos: um bálsamo de ar.
terça-feira, 4 de março de 2008
Brincar com o líquido
Às vezes, como hoje, escrevo num estado de concentração quase próximo ao transe. Não um transe desvairado: um transe atento e interior. Às vezes pronuncio as frases em voz alta enquanto escrevo. Às vezes fico emocionada, e em alguns momentos já chorei.
Sei que corro o risco, nesses dias, de entrar em crise novamente. É muito difícil me afastar do texto e voltar à vida cotidiana. Mas é a vida cotidiana que me mantém estável, de um ponto de vista clínico.
Um trecho do que escrevi hoje, adaptando imagens de alguns poemas antigos:
"Eu não poderia dizer o nome dele. Eu soube que ele era frágil quando deixou a camisinha no chão. Não lavou nem ficou desconfiado que eu pudesse usar aquilo como prova de alguma coisa. Nem brincou com o líquido, porque era evidente que não estava alegre. Eu tentava me apegar à minha postura de estudante, e encarar o sexo tecnicamente. Não era exatamente possível, com ele.
Quando o vi ele estava em frente à janela. No fundo do quarto, num canto escuro. Falou alguma coisa que não escutei, depois lembrou que precisava comprar um presente para sua filha de doze anos. Tinha os olhos tristes e eu mesma fiquei triste, como nunca teria imaginado, mesmo em todas as vezes que pensei na sensação: de estar num quarto, com ele.
Eu nunca disse nada nem mesmo ao terapeuta: quanto havia pensado em sua pele, sua proximidade. Não saberia dizer com a gravidade que existia internamente.
Depois que ele saiu, tive vontade de ir ao banheiro. Ao sentar no vaso, senti o cheiro que havia ficado entre minhas pernas. Só então percebi o que era evidente e terrível: ele havia ido embora. Não senti culpa, apenas a tristeza da impossibilidade. E isso era ainda mais difícil de aceitar."
Sei que corro o risco, nesses dias, de entrar em crise novamente. É muito difícil me afastar do texto e voltar à vida cotidiana. Mas é a vida cotidiana que me mantém estável, de um ponto de vista clínico.
Um trecho do que escrevi hoje, adaptando imagens de alguns poemas antigos:
"Eu não poderia dizer o nome dele. Eu soube que ele era frágil quando deixou a camisinha no chão. Não lavou nem ficou desconfiado que eu pudesse usar aquilo como prova de alguma coisa. Nem brincou com o líquido, porque era evidente que não estava alegre. Eu tentava me apegar à minha postura de estudante, e encarar o sexo tecnicamente. Não era exatamente possível, com ele.
Quando o vi ele estava em frente à janela. No fundo do quarto, num canto escuro. Falou alguma coisa que não escutei, depois lembrou que precisava comprar um presente para sua filha de doze anos. Tinha os olhos tristes e eu mesma fiquei triste, como nunca teria imaginado, mesmo em todas as vezes que pensei na sensação: de estar num quarto, com ele.
Eu nunca disse nada nem mesmo ao terapeuta: quanto havia pensado em sua pele, sua proximidade. Não saberia dizer com a gravidade que existia internamente.
Depois que ele saiu, tive vontade de ir ao banheiro. Ao sentar no vaso, senti o cheiro que havia ficado entre minhas pernas. Só então percebi o que era evidente e terrível: ele havia ido embora. Não senti culpa, apenas a tristeza da impossibilidade. E isso era ainda mais difícil de aceitar."
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