sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Ninguém se banha no Sena

"- Meu pai, o senhor sabe muito bem que o general não se afogou por desespero, e que ninguém se banha no Sena, pelo menos no mês de fevereiro. Não, não, não se iluda, essa morte é claramente qualificada como assassinato.

- E quem assim a qualificou?

- O próprio rei.

- O rei! Eu o julgava suficientemente filósofo para compreender que não existe assassinato em política. Em política, meu caro, sabe tão bem quanto eu, não existem homens, mas idéias; não existem sentimentos, mas interesses; em política, ninguém mata um homem: suprime-se um obstáculo, ponto final."

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O Conde de Monte Cristo, Alexandre Dumas. Tradução André Telles e Rodrigo Lacerda. Jorge Zahar Editor, 2009.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O alcance das Belas-Letras

"No século XVII, quando se decidia escrever, abraçava-se uma carreira definida, com suas receitas, suas regras e seus costumes, seu lugar na hierarquia das profissões. No século XVIII, os moldes se quebram, tudo está por fazer; as obras do espírito, em vez de serem confeccionadas com maior ou menor acerto e segundo normas estabelecidas, são cada qual uma invenção particular, uma decisão do autor no que toca à natureza, ao valor e ao alcance das Belas-Letras; cada uma traz consigo as suas prórpias regras e os princípios segundo os quais quer ser julgada; cada uma pretende engajar toda a literatura e abrir-lhe novos caminhos."

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O que é literatura?, Jean-Paul Sartre. Editora Ática, p. 82.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Espiritualmente talvez

Sexta-feira e este blog continua abandonado.

Gasto minhas horas estudando e trabalhando, a cada dia me angustio menos por escrever pouco. Escrever dessa maneira: como pintar um quadro.

Muitos anos atrás, falava com um psicanalista. Reclamava de escrever roteiros, o que diminuía meu tempo para "escrever".

Ele: Mas escrever roteiros não é escrever?

Eu: Não.

Talvez não fosse claro, mas agora penso que escrever - desse modo - é um ato sem finalidade. Um impulso que sobrevive à ausência de resultados planejáveis: não gera dinheiro, diploma, nenhum retorno imediato.

Escrevo sempre, claro, mas raramente dessa maneira.

Estranho não sentir mais angústia. O tempo diluído, o desejo latente e conformado, a ânsia enfraquecida.

Espiritualmente talvez seja bom: querer pouco, cada vez menos, sem querer.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Nimbo extremamente favorável

Continuando o conto Uma visita de Alcibíades. Fala ainda o Desembargador Álvares:

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"Lia Plutarco, acontecendo-me o que sempre me acontece quando abrou um livro da antiguidade. Passo todo em espírito para o tempo do livro. Depois de jantar é excelente; e acompanhado de um bom charuto de Havana não há nada melhor. O fumo envolve a imaginação numa espécie de nimbo extremamente favorável às evocações mentais. Dentro de pouco acha-se a gente numa via romana, ao pé de um pórtico grego ou na loja de um gramático. Desaparecem os tempos modernos, a insurreição da Herzegovina, a guerra dos carlistas, a rua do Ouvidor, e o Circo Chiarini. Quinze ou vinte minutos de vida antiga por trezentos réis, termo médio, que é o preço do charuto. Uma verdadeira digestão literária.

Ora, foi isso o que aconteceu sábado passado. A página aberta acertou de ser a vida de Alcibíades; deixei-me ir ao sabor da tradução de Amyot. Daí a pouco estava nos jogos olímpicos, a contemplar o elegante ateniense, guiando os seus sete carros, com a firmeza e o donaire com que havia de reger mais tarde as armadas, os cidadãos e os próprios sentidos. Imaginem se vivi! Mas não há bem que sempre dure. Acabou o charuto, desfez-se o nimbo, a antiga Atenas volveu ao cemitério da história e cairam-me os olhos no casaco branco, que então vestia, e nos sapatos de cordovão que me resguardavam os pés.

Súbito pensei comigo:

- Que impressão faria ao ateniense Alcibíades o nosso vestuário moderno?"

sábado, 5 de dezembro de 2009

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Plutarco é um autor grego

Ainda sem tempo de escrever, procuro algo nos arquivos.

Meu trabalho final, no curso sobre a crítica a Machado de Assis, comparava duas versões do conto Uma visita de Alcibíades.

A primeira foi publicada em revista para o público feminino - o Jornal das Famílias - em 1876. A segunda fez parte da coletânea Papéis avulsos¸ de 1882.

As duas versões têm o mesmo enredo, mas estilos diferentes.

Segue um trecho da primeira versão, mais difícil de encontrar, e minha preferida:

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"O desembargador Alvares bebeu a última gota de genuíno café, limpou os bigodes ao guardanapo e dispôs-se a obedecer às moças que lhe pediam uma anedota. Era noite de Natal; e o comendador costumava a reunir alguns amigos. O desembargador era figura obrigada de tais festas. Conversado, galhofeiro, palrador, trazendo sempre no alforje da memória boa cópia de anedotas que distribuía às meninas e rapazes curiosos, não era possível passar sem êle naquelas noites de festa anual. A única alteração que havia era uma chícara de café que o desembargador não dispensava nunca, alegando que o chá ia levando a humanidade para a total extinção.

- Carlos Magno não bebia chá e podia com a sua célebre espada, dizia êle; se bebesse café não sei o que teria deixado de fazer.

Mas uma chícara de café era fraco preço para tão amável conviva. Por isso, a dona da casa mandara vir da fazenda de um tio um excelente saco de café de que bebia, a qualquer hora, o desembargador, quando ali ia, e ia sempre. Nas noites de festas fartava-se o desembargador daquela bebida favorita.

Afiaram todos o ouvido, e o desembargador começou:

"- Não contarei uma anedota mentirosa, dessas que os redatores de folhinhas aumentam ou remendam para regalo dos fregueses. Vou referir o que me aconteceu sábado passado.

Sábado passado, logo depois do jantar, estirei-me no divã e abri uma página de Plutarco. Estas meninas talvez não saibam que Plutarco é um autor grego. Pois fiquem sabendo. É autor profano e pagão. Sem embargo disso, tem muitos merecimentos..."