terça-feira, 10 de junho de 2008
Meu cabrito
Meu marido é uma figura, gosto de usar as idéias dele. Mas estou enjoada de dizer "meu marido" porque parece dona de casa antiga, dizendo a toda hora "meu marido isso", "meu marido aquilo".
Pensei em dizer "fofinho" mas ele não gosta de diminutivos. Depois, procurando uma palavra mais neutra, pensei em "cabrito". Será que ele vai se ofender? Esse animal tem alguma conotação negativa? Alguns homens chamam assim suas mulheres, "minha cabrita". Dá uma idéia de agilidade, acho. Também lembra "cabra macho".
Bem, por hora vai, cabrito.
- - -
Tudo isso para dizer que hoje usei no meu livro uma expressão dele que adoro: "passar recibo".
Segue o parágrafo:
"Eu pensava que era muito esperta, mas não conseguia cercar Juliana. Eram minhas últimas horas ali, eu queria descobrir o máximo possível, se o namorado era negro ou branco, se a irmã iria casar com o patrão como a mãe dela casou, se Juliana queria mudar para São Paulo para também pegar um namorado branco e mudar para um condomínio e ser a dona da casa. Não podia obviamente dizer essas coisas, então dava voltas, falava de cabelos curtos e lisos, o que fosse. Mas ela não dava nenhuma pista, era impressionate. Menina dura: não passava recibo."
Pensei em dizer "fofinho" mas ele não gosta de diminutivos. Depois, procurando uma palavra mais neutra, pensei em "cabrito". Será que ele vai se ofender? Esse animal tem alguma conotação negativa? Alguns homens chamam assim suas mulheres, "minha cabrita". Dá uma idéia de agilidade, acho. Também lembra "cabra macho".
Bem, por hora vai, cabrito.
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Tudo isso para dizer que hoje usei no meu livro uma expressão dele que adoro: "passar recibo".
Segue o parágrafo:
"Eu pensava que era muito esperta, mas não conseguia cercar Juliana. Eram minhas últimas horas ali, eu queria descobrir o máximo possível, se o namorado era negro ou branco, se a irmã iria casar com o patrão como a mãe dela casou, se Juliana queria mudar para São Paulo para também pegar um namorado branco e mudar para um condomínio e ser a dona da casa. Não podia obviamente dizer essas coisas, então dava voltas, falava de cabelos curtos e lisos, o que fosse. Mas ela não dava nenhuma pista, era impressionate. Menina dura: não passava recibo."
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Sobre "O afeto"
Às vezes me espanto com a redundância na primeira versão desse texto. Também um excesso de detalhes, que confundem em vez de esclarecer. Provavelmente é reflexo de meu esforço de memória (foi muito difícil relembrar claramente meu colégio de infância). De todo modo, me espanta. Porque eu já revisei esse texto uma vez e não percebi.
Por exemplo:
Versão 1:
"A aula de natação era separada entre os alunos que sabiam nadar, na parte funda da piscina, e aqueles que não sabiam na parte rasa. As meninas vinham com o maiô vestido debaixo do uniforme, o decote aparecia por debaixo da camiseta. As duas quintas-séries desciam juntas para a piscina. Havia dois vestiários, para meninos e meninas. O chão era coberto de tiras de madeira, que já estavam molhadas quando chegávamos. Entrávamos todas com a calça vermelha do uniforme, e camiseta branca. As meninas se espalhavam pelos bancos de madeira conforme seu grupo de amigas. Algumas demoravam muito tempo para desamarrar o cadarço. Dobravam as meias, tomavam muito cuidado para passar a gola pelas presilhas e rabos de cavalo. Não olhavam para ninguém enquanto se despiam.
Paula tirava a roupa sentada, enquanto Cíntia, em pé, soltava os vários elásticos que tinha no cabelo, falando e gesticulando muito. Cíntia tinha a pele bronzeada, os cabelos longos e lisos com reflexos claros do excesso de sol. Tinha lábios grossos e usava brilho incolor - sua boca estava sempre úmida, dava enormes gargalhadas e chamava com grandes gestos as amigas à sua volta, para repetir uma coisa engraçada que tinha pensado."
Versão de hoje:
"As duas quintas-séries desciam juntas para a piscina. As meninas vinham com o maiô debaixo do uniforme, era um maiô azul-escuro que aparecia pela camiseta branca. Havia dois vestiários, para meninos e meninas. O chão era coberto de tiras de madeira, que já estavam molhadas quando chegávamos. Entrávamos todas com nosso uniformes vermelhos, as meninas se espalhavam pelos bancos de madeira e começavam a desamarrar o cadarço, dobrar as meias, tirar presilhas e elásticos dos cabelos.
Algumas meninas ficavam envergonhadas no vestiário, outras, pelo contrário, se exibiam com orgulho. Paula era discreta, nem muito tímida nem à vontade demais. Cíntia era sempre a mais animada: se arrumava em pé, falando e gesticulando muito. Sua pele bronzeada, cabelos longos com reflexos claros do excesso de sol. Lábios grossos com brilho de "efeito úmido", dava enormes gargalhadas e chamava as amigas à sua volta, com grandes gestos, para repetir uma coisa engraçada que tivesse dito."
Por exemplo:
Versão 1:
"A aula de natação era separada entre os alunos que sabiam nadar, na parte funda da piscina, e aqueles que não sabiam na parte rasa. As meninas vinham com o maiô vestido debaixo do uniforme, o decote aparecia por debaixo da camiseta. As duas quintas-séries desciam juntas para a piscina. Havia dois vestiários, para meninos e meninas. O chão era coberto de tiras de madeira, que já estavam molhadas quando chegávamos. Entrávamos todas com a calça vermelha do uniforme, e camiseta branca. As meninas se espalhavam pelos bancos de madeira conforme seu grupo de amigas. Algumas demoravam muito tempo para desamarrar o cadarço. Dobravam as meias, tomavam muito cuidado para passar a gola pelas presilhas e rabos de cavalo. Não olhavam para ninguém enquanto se despiam.
Paula tirava a roupa sentada, enquanto Cíntia, em pé, soltava os vários elásticos que tinha no cabelo, falando e gesticulando muito. Cíntia tinha a pele bronzeada, os cabelos longos e lisos com reflexos claros do excesso de sol. Tinha lábios grossos e usava brilho incolor - sua boca estava sempre úmida, dava enormes gargalhadas e chamava com grandes gestos as amigas à sua volta, para repetir uma coisa engraçada que tinha pensado."
Versão de hoje:
"As duas quintas-séries desciam juntas para a piscina. As meninas vinham com o maiô debaixo do uniforme, era um maiô azul-escuro que aparecia pela camiseta branca. Havia dois vestiários, para meninos e meninas. O chão era coberto de tiras de madeira, que já estavam molhadas quando chegávamos. Entrávamos todas com nosso uniformes vermelhos, as meninas se espalhavam pelos bancos de madeira e começavam a desamarrar o cadarço, dobrar as meias, tirar presilhas e elásticos dos cabelos.
Algumas meninas ficavam envergonhadas no vestiário, outras, pelo contrário, se exibiam com orgulho. Paula era discreta, nem muito tímida nem à vontade demais. Cíntia era sempre a mais animada: se arrumava em pé, falando e gesticulando muito. Sua pele bronzeada, cabelos longos com reflexos claros do excesso de sol. Lábios grossos com brilho de "efeito úmido", dava enormes gargalhadas e chamava as amigas à sua volta, com grandes gestos, para repetir uma coisa engraçada que tivesse dito."
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Ao meio-dia
Tentei postar um desenho do meu pai, mas meu computador não está fazendo upload de arquivos.
Mistério completo.
Bem, segue o link do blog dele:
http://www.lapiseirapaint.com/
Mistério completo.
Bem, segue o link do blog dele:
http://www.lapiseirapaint.com/
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Na fronteira
Acho que nunca expliquei o nome desse blog.
A imagem vem de uma cena que nem escrevi, que seria o título de um livro que apenas comecei.
Um casal viaja pelo interior de Minas Gerais. A moça está de regime e leva um pacote de Limas da Pérsia, a fruta mais leve e menos calórica segundo uma lista de alimentos que ela copiou de uma amiga.
Ela descasca a fruta amarela e joga as cascas pela janela. É uma estrada estreita entre pequenos sítios, faz sol.
O regime e os detalhes banais são apenas um disfarce de realismo.
A segredo está na vastidão: viajar de carro, num lugar sem importância, com alguém querido e a luz do sol e uma fruta de cheiro leve e nome oriental.
- - -
Tom Zé tem uma música mais ou menos assim (sobre a mulher):
"Quero ali na fronteira / do tato e do tempo / estar nua no vazio"
A imagem vem de uma cena que nem escrevi, que seria o título de um livro que apenas comecei.
Um casal viaja pelo interior de Minas Gerais. A moça está de regime e leva um pacote de Limas da Pérsia, a fruta mais leve e menos calórica segundo uma lista de alimentos que ela copiou de uma amiga.
Ela descasca a fruta amarela e joga as cascas pela janela. É uma estrada estreita entre pequenos sítios, faz sol.
O regime e os detalhes banais são apenas um disfarce de realismo.
A segredo está na vastidão: viajar de carro, num lugar sem importância, com alguém querido e a luz do sol e uma fruta de cheiro leve e nome oriental.
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Tom Zé tem uma música mais ou menos assim (sobre a mulher):
"Quero ali na fronteira / do tato e do tempo / estar nua no vazio"
terça-feira, 3 de junho de 2008
Ela era boazinha
Mudei umas frases no primeiro capítulo, senão o discurso da narradora perderia o nexo. Um pouco de ironia sobre a psicóloga que a atende no início do livro. Resolvi que o homem no começo é um caso extraconjugal. Antes apenes ele era casado. Agora ela também. Tem um marido razoavelmente rico, dirige carros automáticos, é uma intelectual de respeito. A psicóloga acha tudo isso lindo... nada específico contra essa classe profissional, mas, enfim.
- - -
"Não consegui voltar a dormir, e com alguns pensamentos soltos lembrei de minha última conversa com a psicóloga, quase um ano atrás. Imaginei seu espanto diante desse sonho. Ainda guardava sua imagem quando falei que não iria mais voltar. Seus olhos tristes e talvez quase chorosos. Sim, chorosos, e a sensação incômoda de que me admirava mais do que devia. Escolhi uma psicóloga boazinha e agora não a podia suportar."
"Talvez eu estivesse errada quando decidi interromper o tratamento com a psicóloga. Ela era boazinha mas parecia inteligente. Poderia talvez interpretar alguma coisa."
"Não era psicanalista, eu não teria paciência para isso. Seguia a linha americana e às vezes ela improvisava brincadeiras."
"Pensei em responder mas não falei nada. Parecia óbvio e não quis ser agressiva. Havia realmente o muro, havia a grade. Se era simbólico, se a grade significava qualquer coisa que eu não percebia, o que eu poderia fazer? Uma grade tem sentido evidente e não sei se os psicólogos se interessam por isso. Desenhei o que estava lá. Era o que eu via."
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"Não consegui voltar a dormir, e com alguns pensamentos soltos lembrei de minha última conversa com a psicóloga, quase um ano atrás. Imaginei seu espanto diante desse sonho. Ainda guardava sua imagem quando falei que não iria mais voltar. Seus olhos tristes e talvez quase chorosos. Sim, chorosos, e a sensação incômoda de que me admirava mais do que devia. Escolhi uma psicóloga boazinha e agora não a podia suportar."
"Talvez eu estivesse errada quando decidi interromper o tratamento com a psicóloga. Ela era boazinha mas parecia inteligente. Poderia talvez interpretar alguma coisa."
"Não era psicanalista, eu não teria paciência para isso. Seguia a linha americana e às vezes ela improvisava brincadeiras."
"Pensei em responder mas não falei nada. Parecia óbvio e não quis ser agressiva. Havia realmente o muro, havia a grade. Se era simbólico, se a grade significava qualquer coisa que eu não percebia, o que eu poderia fazer? Uma grade tem sentido evidente e não sei se os psicólogos se interessam por isso. Desenhei o que estava lá. Era o que eu via."
segunda-feira, 2 de junho de 2008
De um jeito ou de outro
Mais um pouco de crueldade na narradora:
"Observava sua mão conforme ela desenhava. Sua pele era escura por fora e clara na palma. Suas unhas longas e finas, diferentes das minhas, arredondadas. Eram unhas de mulher adulta, eu pensava. Ela ficava sentada com as pernas cruzadas e o caderno apoiado na coxa direita. Eu observava seu joelho magro, os tornozelos encaixados. Sua mãe batia na porta e entrava no quarto para oferecer bolachas. Rosquinhas cobertas de açúcar que eu não comia em casa de jeito nenhum. A mãe às vezes tentava comprar essa marca mais barata - "bolacha é tudo igual", ela dizia. Mas eu desprezava aquele pacote grande e transparente, bolachas soltas como na feira. Na casa da avó, ela me obrigava a comer: “Tua avó não tem dinheiro", dizia - "Não seja nojenta”. A mãe de Juliana estendia o prato. Era quase fim da tarde e estava com fome. Mastigava a bolacha conformada.
Juliana não comia. Sua mãe deixava o quarto. Passávamos a tarde num silêncio totalmente estranho para mim. Mas eu insistia, porque não queria voltar para casa e ficar sozinha. Além do mais, de um jeito ou de outro, eu estava sendo sua amiga.
A mãe ficava satisfeita quando eu ia à casa de Juliana. “Esta menina faz bem a você”, dizia. “Você está mais calma, mais madura”. Eu estava calma, segundo acreditava minha mãe, porque não falava tanto como antes. O que eu iria falar? Que Paula não me olhava mais na cara, que minha nova amiga era praticamente muda, que eu era obrigada a comer rosquinhas de feira? Ela não percebia nada e insistia nesses elogios descabidos. “Você fica mais bonita quando está calma”. “Não gosto quando você faz caretas como uma histérica.”
"Observava sua mão conforme ela desenhava. Sua pele era escura por fora e clara na palma. Suas unhas longas e finas, diferentes das minhas, arredondadas. Eram unhas de mulher adulta, eu pensava. Ela ficava sentada com as pernas cruzadas e o caderno apoiado na coxa direita. Eu observava seu joelho magro, os tornozelos encaixados. Sua mãe batia na porta e entrava no quarto para oferecer bolachas. Rosquinhas cobertas de açúcar que eu não comia em casa de jeito nenhum. A mãe às vezes tentava comprar essa marca mais barata - "bolacha é tudo igual", ela dizia. Mas eu desprezava aquele pacote grande e transparente, bolachas soltas como na feira. Na casa da avó, ela me obrigava a comer: “Tua avó não tem dinheiro", dizia - "Não seja nojenta”. A mãe de Juliana estendia o prato. Era quase fim da tarde e estava com fome. Mastigava a bolacha conformada.
Juliana não comia. Sua mãe deixava o quarto. Passávamos a tarde num silêncio totalmente estranho para mim. Mas eu insistia, porque não queria voltar para casa e ficar sozinha. Além do mais, de um jeito ou de outro, eu estava sendo sua amiga.
A mãe ficava satisfeita quando eu ia à casa de Juliana. “Esta menina faz bem a você”, dizia. “Você está mais calma, mais madura”. Eu estava calma, segundo acreditava minha mãe, porque não falava tanto como antes. O que eu iria falar? Que Paula não me olhava mais na cara, que minha nova amiga era praticamente muda, que eu era obrigada a comer rosquinhas de feira? Ela não percebia nada e insistia nesses elogios descabidos. “Você fica mais bonita quando está calma”. “Não gosto quando você faz caretas como uma histérica.”
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