Coisas que estou aprendendo no curso do prof. Hélio:
Parece que os primeiros escritores do romantismo não tinham informação do que era exatamente o Brasil... nem sobre o território, nem as pessoas, não havia muito como saber essas coisas.
É num censo no início da década de 1870 que descobrem que só 16% da população é alfabetizada. E a busca de leitores, antes imaginada como uma luta contra o descaso, se transforma numa batalha já de início perdida. Pois as pessoas simplesmente não sabiam ler.
Esse seria um dos motivos da desilusão de Machado de Assis, que levaria à radicalização de seu estilo a partir de Brás Cubas. Em teoria: se não há público leitor, se não há mercado ou uma expectativa qualquer a que eu precise atender, me deixem em paz a escrever como quero.
Pode haver algo de dramatização, mas me fez pensar em Brás Cubas com bem mais tristeza e menos galhofa.
Relendo ontem o início, um trecho me pareceu realmente agressivo e triste:
"Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja daí a torcer-me o nariz, só porque ainda não chegamos à parte narrativa destas memórias. Lá iremos. Creio que prefere a anedota à reflexão, como os outros leitores, seus confrades, e acho que faz muito bem. Pois lá iremos. Todavia, importa dizer que este livro é escrito com pachorra, com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século, obra supinamente filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, cousa que não edifica nem destrói, não inflama nem regela..."
quinta-feira, 27 de março de 2008
quarta-feira, 26 de março de 2008
Meu estojo
Quando eu era criança, em Curitiba, não dizíamos "estojo".
Dizíamos "penal". Aparentemente, para guardar as penas.
Depois meu pai me ensinou a fazer uma caneta primitiva, cortando a base de uma pena enorme.
Funcionava com tinta nanquim, e me senti orgulhosa. Eu poderia escrever mesmo que toda a tecnologia do mundo acabasse.
- - -
Minha mãe e minhas tias tentavam lembrar frases de minha avó, para colocar na sepultura. A tia lembrou uma frase linda: "estudo não ocupa lugar".
Dizíamos "penal". Aparentemente, para guardar as penas.
Depois meu pai me ensinou a fazer uma caneta primitiva, cortando a base de uma pena enorme.
Funcionava com tinta nanquim, e me senti orgulhosa. Eu poderia escrever mesmo que toda a tecnologia do mundo acabasse.
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Minha mãe e minhas tias tentavam lembrar frases de minha avó, para colocar na sepultura. A tia lembrou uma frase linda: "estudo não ocupa lugar".
terça-feira, 25 de março de 2008
Suas veias
Uma frase que escrevi hoje e achei bonita:
"Sua pele branca era mais clara que a minha, porque sob meus pêlos castanhos não apareciam suas veias azuis."
"Sua pele branca era mais clara que a minha, porque sob meus pêlos castanhos não apareciam suas veias azuis."
segunda-feira, 24 de março de 2008
O pássaro voa
Continuo a revisão de "O afeto...". Corto os trechos lineares demais, colocando mais insegurança da narradora em relação a suas memórias. Também interrompo algumas lembranças pacíficas com cenas curtas de medo e insatisfação.
Preciso me controlar para não revisar o texto detalhadamente. O livro já deveria estar pronto, em teoria, a revisão é apenas para melhorar o enredo. Não as palavras. Não as frases. Mas é difícil conter o impulso de reescrever trechos que agora me parecem falsos.
Marquei em itálico algumas frases que mudei:
"Lembro bem dessa primeira tarefa (tenho certa vergonha de dizer "lembro bem" pois parece mentira ou exagero - mas às vezes é exatamente isso: eu lembro, e bem) *1. Tivemos aula de português, a professora passou uma redação com "tema livre". Eu sempre anotava as tarefas imediatamente, gostava de tentar entender tudo à primeira leitura *2. A professora era nova e eu queria caprichar, deixar logo claro que era rápida e escrevia bem. Quando peguei o material, em casa, para fazer o trabalho, vi a expressão "tema livre" e achei que "livre" era o tema. A palavra não me trouxe nenhuma inspiração e, embora fosse mais fácil escrever sobre qualquer outra coisa, me esforcei para falar em liberdade *3, um tema abstrato que não me trazia nenhuma associação, que eu não sabia como relacionar à minha vida real. Depois de pensar um pouco, não tive nenhuma idéia melhor do que a imagem de um pássaro voando solto no céu. Não gostei mas fazia as tarefas assim: rápido e na primeira tentativa. Não queria ficar horas pensando naquele assunto *4. Escrevi sobre o pássaro, e fiquei reclamando intimamente daquele tema que considerava idiota e estava me impedindo de mostrar à professora como eu era criativa *5. No dia seguinte entreguei minha redação amargurada, e enquanto a professora recolhia os textos, uma aluna disse que não tinha feito a tarefa porque não soubera o que escrever. A professora disse: "Mas era um tema livre, meu bem. Você poderia fazer o que quisesse." Eu poderia ter reagido a isso de qualquer outra maneira: poderia falar com a professora e pedir para fazer novamente o trabalho, ou comentar meu erro com Paula e dar risada *6. Mas no momento apenas fiquei em silêncio e pensei: "se eu podia escrever qualquer coisa, então o pássaro serve, ela não vai perceber meu engano" *7.
- - -
Por que mudei essas frases:
*1: Ah, a insegurança da memória fica cafona, escrita desse jeito.
*2: Resolvi não exagerar nas descrições generalistas que a narradora faz de si mesma. Melhor colocar os pensamentos localizados em cada situação.
*3: Não há nada errado em teoria, mas a frase é comum. Achei que podia melhorar.
*4: Mesmo motivo de *2.
*5: "Ser criativa" é meio complexo para uma criança pensar, e parece nome de revista feminina.
*6: Deduções corretas, mas não servem para nada.
*7: Palavras difíceis para um criança, não deveriam estar entre aspas.
- - -
No final, ficou assim:
"Lembro dessa primeira tarefa. A professora de português passou uma redação com "tema livre". Eu anotei concentrada porque era a primeria aula, a professora era nova e eu queria mostrar que escrevia bem. Em casa, quando abri o caderno, vi a expressão "tema livre" e achei que "livre" era o tema. Me pareceu tão abstrato e difícil. O que eu poderia dizer sobre liberdade? O tema era distante e não me trazia nenhuma associação, não sabia como relacionar à minha vida real. Depois de pensar um pouco, não tive nenhuma idéia melhor do que a imagem de um pássaro voando solto no céu. Eu percebia como a associação era banal e inútil: o pássaro voa, mas não diz nada sobre a liberdade das pessoas. Pessoas não podem voar. Essa lógica irritada fez a imagem se fixar na minha cabeça, e nada mais apareceu. Escrevi sobre o pássaro, e fiquei reclamando internamente daquele tema que considerava idiota e me impedia de mostrar à professora como eu escrevia bem. No dia seguinte entreguei minha redação amargurada e, enquanto a professora recolhia os textos, uma aluna disse que não tinha feito a tarefa porque não soubera o que escrever. A professora disse: "Mas era um tema livre, meu bem. Você poderia fazer o que quisesse." Só então, com vergonha, eu entendi. Mas não disse nada a ninguém. Apenas fiquei em silêncio e pensei: "Se eu podia escrever qualquer coisa, então o pássaro serve. Ela nunca vai perceber".
Preciso me controlar para não revisar o texto detalhadamente. O livro já deveria estar pronto, em teoria, a revisão é apenas para melhorar o enredo. Não as palavras. Não as frases. Mas é difícil conter o impulso de reescrever trechos que agora me parecem falsos.
Marquei em itálico algumas frases que mudei:
"Lembro bem dessa primeira tarefa (tenho certa vergonha de dizer "lembro bem" pois parece mentira ou exagero - mas às vezes é exatamente isso: eu lembro, e bem) *1. Tivemos aula de português, a professora passou uma redação com "tema livre". Eu sempre anotava as tarefas imediatamente, gostava de tentar entender tudo à primeira leitura *2. A professora era nova e eu queria caprichar, deixar logo claro que era rápida e escrevia bem. Quando peguei o material, em casa, para fazer o trabalho, vi a expressão "tema livre" e achei que "livre" era o tema. A palavra não me trouxe nenhuma inspiração e, embora fosse mais fácil escrever sobre qualquer outra coisa, me esforcei para falar em liberdade *3, um tema abstrato que não me trazia nenhuma associação, que eu não sabia como relacionar à minha vida real. Depois de pensar um pouco, não tive nenhuma idéia melhor do que a imagem de um pássaro voando solto no céu. Não gostei mas fazia as tarefas assim: rápido e na primeira tentativa. Não queria ficar horas pensando naquele assunto *4. Escrevi sobre o pássaro, e fiquei reclamando intimamente daquele tema que considerava idiota e estava me impedindo de mostrar à professora como eu era criativa *5. No dia seguinte entreguei minha redação amargurada, e enquanto a professora recolhia os textos, uma aluna disse que não tinha feito a tarefa porque não soubera o que escrever. A professora disse: "Mas era um tema livre, meu bem. Você poderia fazer o que quisesse." Eu poderia ter reagido a isso de qualquer outra maneira: poderia falar com a professora e pedir para fazer novamente o trabalho, ou comentar meu erro com Paula e dar risada *6. Mas no momento apenas fiquei em silêncio e pensei: "se eu podia escrever qualquer coisa, então o pássaro serve, ela não vai perceber meu engano" *7.
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Por que mudei essas frases:
*1: Ah, a insegurança da memória fica cafona, escrita desse jeito.
*2: Resolvi não exagerar nas descrições generalistas que a narradora faz de si mesma. Melhor colocar os pensamentos localizados em cada situação.
*3: Não há nada errado em teoria, mas a frase é comum. Achei que podia melhorar.
*4: Mesmo motivo de *2.
*5: "Ser criativa" é meio complexo para uma criança pensar, e parece nome de revista feminina.
*6: Deduções corretas, mas não servem para nada.
*7: Palavras difíceis para um criança, não deveriam estar entre aspas.
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No final, ficou assim:
"Lembro dessa primeira tarefa. A professora de português passou uma redação com "tema livre". Eu anotei concentrada porque era a primeria aula, a professora era nova e eu queria mostrar que escrevia bem. Em casa, quando abri o caderno, vi a expressão "tema livre" e achei que "livre" era o tema. Me pareceu tão abstrato e difícil. O que eu poderia dizer sobre liberdade? O tema era distante e não me trazia nenhuma associação, não sabia como relacionar à minha vida real. Depois de pensar um pouco, não tive nenhuma idéia melhor do que a imagem de um pássaro voando solto no céu. Eu percebia como a associação era banal e inútil: o pássaro voa, mas não diz nada sobre a liberdade das pessoas. Pessoas não podem voar. Essa lógica irritada fez a imagem se fixar na minha cabeça, e nada mais apareceu. Escrevi sobre o pássaro, e fiquei reclamando internamente daquele tema que considerava idiota e me impedia de mostrar à professora como eu escrevia bem. No dia seguinte entreguei minha redação amargurada e, enquanto a professora recolhia os textos, uma aluna disse que não tinha feito a tarefa porque não soubera o que escrever. A professora disse: "Mas era um tema livre, meu bem. Você poderia fazer o que quisesse." Só então, com vergonha, eu entendi. Mas não disse nada a ninguém. Apenas fiquei em silêncio e pensei: "Se eu podia escrever qualquer coisa, então o pássaro serve. Ela nunca vai perceber".
quinta-feira, 20 de março de 2008
Indignações veementes
A pedidos, um trecho de que não gosto:
"Resvés ao caminho-de-ferro de Entrecampos, em rua estreita e discreta, de que o nome não me ocorre, foi construído, há anos, o controverso edifício da Fundação Helmut Tchang Gomes, que, como é sabido, suscitou indignações veementes na migalha de público dita "os intelectuais", cismas avinagrados na Associação dos Arquitectos, balanceios incômodos na cadeira dum ministro, e choros convulsos numa misteriosa viúva de quem nunca mais se soube nada, nem eu nem ninguém."
O livro se chama "Era bom que trocássemos umas idéias sobre o assunto", de Mário de Carvalho, escritor português contemporâneo. O jornal fez elogios, o título era interessante e comprei. Não consegui terminar e fiquei com a sensação de jogar fora meu dinheiro.
Por que não gosto? Acho o humorzinho meio chinfrim...
Por que os intelectuais são uma "migalha de público"? Cismas avinagrados, balanceios incômodos, choros convulsos, tudo isso me parece muito floreio para pouco significado.
E por que dizer sobre a rua: "de que o nome não me ocorre"? Se não lembra, paciência, fique quieto. A não ser que o problema do livro seja a memória.
- - -
Fiquei com vontade de comentar escritores brasileiros. Para ser mais útil e honesta, porque vivemos aqui e por princípio deveria nos interessar o que fazemos nós. Queria reler uns trechos do Bernardo Carvalho que me incomodaram há alguns anos, pelas frases curtas e o ritmo martelado demais. Mas não encontrei o livro na estante. E não adianta criticar em teoria.
Ah: se alguém se interessar pelo livro português, posso mandar de presente pelo correio.
"Resvés ao caminho-de-ferro de Entrecampos, em rua estreita e discreta, de que o nome não me ocorre, foi construído, há anos, o controverso edifício da Fundação Helmut Tchang Gomes, que, como é sabido, suscitou indignações veementes na migalha de público dita "os intelectuais", cismas avinagrados na Associação dos Arquitectos, balanceios incômodos na cadeira dum ministro, e choros convulsos numa misteriosa viúva de quem nunca mais se soube nada, nem eu nem ninguém."
O livro se chama "Era bom que trocássemos umas idéias sobre o assunto", de Mário de Carvalho, escritor português contemporâneo. O jornal fez elogios, o título era interessante e comprei. Não consegui terminar e fiquei com a sensação de jogar fora meu dinheiro.
Por que não gosto? Acho o humorzinho meio chinfrim...
Por que os intelectuais são uma "migalha de público"? Cismas avinagrados, balanceios incômodos, choros convulsos, tudo isso me parece muito floreio para pouco significado.
E por que dizer sobre a rua: "de que o nome não me ocorre"? Se não lembra, paciência, fique quieto. A não ser que o problema do livro seja a memória.
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Fiquei com vontade de comentar escritores brasileiros. Para ser mais útil e honesta, porque vivemos aqui e por princípio deveria nos interessar o que fazemos nós. Queria reler uns trechos do Bernardo Carvalho que me incomodaram há alguns anos, pelas frases curtas e o ritmo martelado demais. Mas não encontrei o livro na estante. E não adianta criticar em teoria.
Ah: se alguém se interessar pelo livro português, posso mandar de presente pelo correio.
terça-feira, 18 de março de 2008
Notei-o
Frases bonitas de um artigo publicado no "Correio do Brasil", em maio de 1872, sobre o romance "Ressurreição", de Machado de Assis:
- - -
"Isto é prejudicial sobre ser escandaloso."
"Nota-se isto no seu bello romance... pelo menos, notei-o eu de mim para mim."
- - -
A primeira diz de modo sintético: "sobre" em vez de "além de" ou algo assim.
A segunda é três vezes redundante, e por isso mais bonita.
- - -
Foram escritas por Carlos Ferreira, então com 26 anos. Estão reunidas no livro "Os leitores de Machado de Assis", de Hélio S. Guimarães.
- - -
"Isto é prejudicial sobre ser escandaloso."
"Nota-se isto no seu bello romance... pelo menos, notei-o eu de mim para mim."
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A primeira diz de modo sintético: "sobre" em vez de "além de" ou algo assim.
A segunda é três vezes redundante, e por isso mais bonita.
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Foram escritas por Carlos Ferreira, então com 26 anos. Estão reunidas no livro "Os leitores de Machado de Assis", de Hélio S. Guimarães.
segunda-feira, 17 de março de 2008
Del rayo y del fuego
Ontem, conversando com minha mãe sobre música latino-americana, lembrei de alguns versos de José Marti cantados por Pablo Milanés:
"Penas! Quien osa decir
que tengo yo penas? Luego,
despues del rayo y del fuego,
tendré tiempo de sufrir."
Algo sobre o sentimento do escritor e o dever de lutar...
Poesias completas de Martí:
http://www.exilio.com/Marti/PoesiaCF.html
"Penas! Quien osa decir
que tengo yo penas? Luego,
despues del rayo y del fuego,
tendré tiempo de sufrir."
Algo sobre o sentimento do escritor e o dever de lutar...
Poesias completas de Martí:
http://www.exilio.com/Marti/PoesiaCF.html
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