sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Trilha sonora de Império dos Sonhos

"Vinícius morava com o pai divorciado numa casa de três quartos, comprada quando este ainda estava casado com a segunda esposa. A casa já não tinha as cerâmicas decorativas e as telas florais daquela época. Sobrou da decoração antiga um grande sofá bordô e uma mesa oval de oito lugares. As estantes novas, que substituíam as que foram levadas na divisão dos móveis, eram prateleiras metálicas de escritório. Nelas estavam amontoadas revistas, DVDs, bonés esportivos e traquitanas eletrônicas. Os poucos objetos coloridos eram um cabideiro rosa na entrada e almofadinhas bordadas na poltrona, deixados pela última namorada que durou alguns meses.

Heitor, o pai de Vinícius, coordenava a transmissão de campeonatos esportivos em um canal de TV a cabo. Era responsável pelas equipes técnicas que cobriam eventos nacionais e internacionais de futebol, basquete, rugby, poker, ciciclismo e judô. Ele não tinha horário fixo e passava muitas horas na emissora, principalmente aos sábados e domingos. Quando os amigos de Vinícius apareciam no fim de semana, a casa ficava inteira para eles até duas ou três da manhã.  

Olívia frequentava esses encontros havia alguns meses, desde que Naomi se aproximara de Vinícius. Ele era um ano mais velho que as duas e começara a estudar no Rio Branco da Granja quando a mãe se casou com um holandês e foi morar na Europa. Ele tinha quinze anos e estava no primeiro colegial. No início teve alguns problemas com o coordenador porque se recusava a usar a camiseta branca do uniforme. Ele só vestia roupas pretas. Depois de algumas advertências conformou-se em usar a camiseta, com uma camisa preta aberta por cima.

Naomi e Olívia eram melhores amigas desde os treze anos, quando houve uma redivisão das turmas e as duas ficaram na mesma classe. Nenhuma delas tinha amigas muito próximas antes disso. Naomi não tinha paciência para rodinhas e trocava de amigas constantemente. Olívia passava os intervalos com algumas garotas fanáticas por Harry Potter, mas não gostava especialmente delas. Num trabalho em grupo para a aula de inglês, Naomi descobriu que Olívia estava lendo 1984, de George Orwell, na língua original. Então mostrou-se interessada, puxou conversa para saber o que Olívia gostava de ler, assistir e ouvir, e logo a afastou definitivamente das outras. Naomi gostava de grupos pequenos. Expressando seu desdém pela banalidade das colegas, garantia para si a atenção integral de Olívia.

Foi numa festinha de algum aniversário que Vinícius e Naomi conversaram pela primeira vez. Ele se apresentou no meio da noite, quando boa parte dos garotos e garotas já estavam bêbados. Quase todas as luzes estavam apagadas, um grupo gritava em torno do videogame na sala, outros assistiam TV chapados num quarto. Olívia e Naomi estavam perto da caixa de som, ouvindo a trilha sonora do filme "Império dos sonhos". Vinícius disse oi e pegou uma latinha de coca-cola que estava entre as duas. "Vocês não bebem?", ele perguntou. Naomi respondeu que não. Ele disse: "Nem eu.""

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Naomi Wolf

"Pegaram dois ônibus para chegar à rua 24 de Maio, no centro. O primeiro ônibus foi mais demorado, uma linha intermunicipal pois a Granja infelizmente não era em São Paulo mas em Cotia. No longo caminho Olívia falou animada do episódio de "Arquivo X" que ela assistiu na noite anterior, "A Guerra das Baratas", muito nojento. Não foi tão bom quanto o episódio dos freaks, mas foi quase, Naomi precisava assistir.

- Já te falei que me recuso a assistir esse seriado. Eu odeio ficção científica.
- Não é ficção científica. É muito mais do que isso.
- É muito tosco você baixando séries antigas. Eu não quero mais ver séries. Só vou ver filmes agoras. Séries são idiotas.
- Eu curto coisas idiotas.
- Eu sei.

Olívia constantemente precisava defender seu gosto pelo mundo trash, os filmes de horror, os efeitos especiais defeituosos. Naomi se recusava a compartilhar certas preferências, detestava que confundissem seu gosto por rock gótico e filmes antigos de vampiro com algumas modas deprimentes, como os emos. Seu nome foi inspirado em Naomi Wolf, escritora feminista, autora do livro "O mito da beleza", que impressionou sua mãe quando estava grávida.

Chegaram na galeria do rock, passaram pelas lojas de tênis de skate no térreo, os cabeleireiros afro, as lojas de reggae, as camisetas e canecas temáticas no primeiro andar.

- Só tem reggae aqui?
- A loja de tintas é no terceiro andar.

Olívia tinha lido sobre tintas num blog chamado "Cherry Bomb", sobre moda e estilo punk lolita. Um dos textos explicava em detalhes todas as marcas de tintas coloridas, como aplicar e onde comprar. Azul Roxfluor, Blue Rox, Ice Metalic, Coral Salmon. Ela e Naomi escolheram o preto azulado para começar. Naomi porque gostava de preto. Olívia porque era mais fácil de manter. Foi uma decisão cuidadosa, porque elas sabiam que o preto era difícil de tirar do cabelo, na prática só raspando ou deixando crescer. Olívia sugeriu pintar o cabelo em casa, era mais barato. Ela viu no blog que a melhor tinta preto azulado era a Koleston, e tinha na Droga Raia, ela procurou quando foi às compras com a avó. Mas Naomi não queria o cabelo manchado de jeito nenhum, pintar em casa só faz sujeira e não fica bom, ela não confiava.

Mariana já tinha sido avisada e não protestou quando Olívia chegou em casa no fim da tarde com a nuca raspada e a franja desigual, com uma mecha bem mais longa que o resto.

- Ficou bonita a cor - ela disse."

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Mallu e a galeria do rock

"Olívia acordou entediada. Levantou, trancou a porta do quarto sem fazer barulho, deitou novamente e se cobriu com o lençol. Ficou de barriga para baixo, de olhos fechados, mexendo-se o mínimo possível por alguns minutos com os braços entre as pernas levemente abertas. Depois sua expressão se acalmou. Ela levantou de novo, foi até o banheiro, lavou o rosto e escovou os dentes.

Naomi tocou o interfone do portão às nove e meia. Olívia saiu com sua mochila e as duas caminharam até o cruzamento da rodovia Raposo Tavares.

- Vamos esperar o 297 ou quer ir até o terminal?
- Não quero andar hoje. Vamos esperar.

Elas atravessaram a passarela e desceram até o ponto de ônibus. Era sábado, havia menos carros passando e menos gente no ponto. Normalmente Mariana ou Carol, a mãe de Naomi, levariam as duas de carro quando queriam passear fora da Granja. Mas neste sábado ela preferiram ir sozinhas.

Era março de 2008 e ela começavam o segundo ano do ensino médio. O assunto no início das aulas, em fevereiro, tinha sido a adolescente de 15 anos que fez sucesso na internet, Mallu Magalhães e sua música Tchubaruba. Quase todas as garotas da classe achavam Mallu muito fofa, cantando em inglês com sua voz fininha "she was just crying / under my favorite tree" e o refrão meigo "If you are down / yes I will say tchubaruba". Mallu deu entrevistas na TV e contou que ao completar 15 anos queria fazer uma coisa legal, por isso cortou os cabelos, que estavam abaixo dos ombros, e doou para uma instituição de apoio a pacientes com câncer. Também recebeu da avó algum dinheiro como presente de aniversário, e gravou num estúdio quatro músicas que ela mesma compôs. A meiguice de Mallu despertou nas garotas da classe uma nova mania por músicas fofas, especialmente Belle e Sebastian e baladinha de amor frustrado "Another Sunny Day". Olívia e Naomi decidiram raspar uma parte do cabelo e pintar tudo de preto.

Pegaram dois ônibus para chegar à galeria do rock na rua 24 de Maio, no centro. "

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Pelas barbas de Merlin

"Sala de aula do colégio em que Olívia estuda desde criança. Uma sala limpa, em que tudo é novo e tudo é plástico. As paredes são feitas de placas pré-fabricadas, o chão é coberto de um revestimento sintético cor gelo. Um branco acinzentado que nunca lembraria gelo, nenhum brilho, nenhuma transparência, nenhum reflexo azul. A sala cheia, vinte e oito adolescentes bem criados da Granja Viana. Um grupo tenro e pálido de garotos e garotas de dezesseis anos, limpos, saudáveis, as camisetas brancas e bem lavadas do uniforme. A professora de química certinha, arrumadinha, segura o pincel atômico com a ponta dos dedos para não se sujar. Ainda não tem trinta anos, cabelos clareados e alisados com escova, estudou no Rio Branco desde criança e agora é professora. Uma vida inteira no Rio Branco. A vida inteira na Granja.

Aquele ano para Olívia se arrastava sofrido desde o começo. Evitar a primeira fila de carteiras, seu lugar preferido desde o ensino fundamental, recuar para a quinta carteira na fileira do canto não ajudou. Ela estava mais escondida mas não melhor. Suzana a acompanhou meio contrariada para a quarta carteira, à sua frente. Olívia observava durante a aula seu cabelo liso, comprido e bem penteado. Sentia um pouco de raiva, um pouco de desprezo, um pouco de inveja. Por que os cabelos eram o centro da vida de todas as garotas em sua classe? Como conseguiam fazer escova todos os dias? Olívia nunca teria aquela paciência. Ela não conseguia conceber que cabelos merecessem tanta importância, cabelos são só cabelos, pelas barbas de Merlin. Ela não podia mais dizer pelas barbas de Merlin. Ela não gostava mais de Harry Potter."  

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A casa de Vinícius

"Olívia parou de responder. Pegou o celular e escreveu uma mensagem:

"Oi, Fava. Queria conversar uma coisa contigo. Posso te ligar?"

Fava era o apelido de Vinícius, abreviação do sobrenome materno, Favero. Enquanto esperava a resposta, ela desceu até a cozinha. Estava vazia. Pela porta dos fundos aberta viu a avó no jardim. O celular vibrou com a resposta de Vinícius: "ok".

Olívia gritou avisando:

- Vó, vou sair!

Inês mal a vira, e ela já estava saindo.

- Vai aonde?
- No Vinícius. Não demoro. Tchau!

Vinícius não morava longe. A casa ficava num condomínio fechado, na Estrada Zurique. Olívia subiu a Avenida São Camilo até a Estrada Bucarest, onde havia um portão secundário. Ela apertou o interfone e esperou apoiada na grade, logo a empregada respondeu e abriu a portinha de pedestres. Olívia seguiu pelas ruas cheias de árvores e palmeiras, as casas esparsas escondidas pelos altos e baixos do terreno e as folhagens vigorosas do verão. Finalmente, depois de subir um tanto, chegou à rampa de entrada, que descia até a casa no declive do terreno. A sala aparecia pela ampla porta de vidro, que estava aberta. Vinícius jogava videogame no sofá. Pausou o jogo quando ela sentou na outra poltrona e disse oi.

- Oi, ele respondeu. - E aí?
- Tranquilo. E você?
- Normal. Na calma.

Os dois não se viam desde o fim das aulas em dezembro. Olívia foi na festa de despedida mas não participou da viagem de formatura. Ele ainda estava com o controle do videogame na mão.

- Se importa se eu continuar jogando?
- Okei.

Ele tirou o som da TV. O jogo era Fallout 3, que ele já tinha fechado, estava só completando algumas missões secundárias. Olívia assistiu um pouco, a imagem estava mais bonito do que ela lembrava.

- TV nova?
- É Led. Meu pai comprou no fim do ano.
- Foda.
- É.

Seguiram acompanhando o jogo mais um tempo, e então ela disse:

- Então, preciso te contar um negócio. Tipo, é uma coisa que eu queria te contar, pra você não ficar puto se descobrir depois.
- Fala
- Aff... não sei como começar.
- Você tá saindo com outro cara ou algo assim?
- Não. É outra coisa. É... Bem, eu fiz uns vídeos pro youtube. É uma coisa que eu inventei, é tipo um projeto feminista. Mas tem uns lances sobre sexo e tal. Eu não queria que você olhasse e pensasse que estou falando de você.
- Você faz sexo nos vídeos?
- Não, é só falado. É tipo umas ideias e opiniões. Eu comecei escrevendo num blog e depois eu fiz uns vídeos.
- Tá, e daí?
- Daí que tem umas histórias de namoro e transas, e eu não quero que você ache que é sobre você.
- Só isso?
- Só isso.
- Eu não vou ver os seus vídeos. Tá viajando.
- Uma jornalista disse que vai fazer uma matéria. Talvez você veja.
- Pode ficar tranquila porque eu não vou ver."

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A jornalista Bianca Yasmin

"Em catorze de janeiro de 2010, Olívia recebeu o email de uma jornalista do portal Planeta, que escrevia uma matéria sobre jovens blogueiras. A matéria sairia no dia seguinte, a jornalista tinha uma lista de perguntas e seria muito legal se Olívia pudesse responder naquela mesma tarde.

Olívia estava em casa. Eram férias e ela tinha acordado ao meio-dia. A avó já almoçara e cuidava das plantas no jardim. Olívia tomou seu café-da-manhã na cozinha, pão com requeijão, leite e nescau, depois voltou para o quarto e ligou o computador. Olhou as novidades em seu perfil familiar, onde estavam seus colegas e conhecidos reais, distraiu-se um pouco, e em seguida abriu as contas de email, twitter e facebook de Caroline Cólera. Checou os comentários e mensagens, respondeu rapidamente o que podia ser respondido sem atenção, e finalmente leu o email da jornalista.

"Olá, Caroline
Sou redatora de entretenimento do Planeta e estou entrevistando blogueiras para uma matéria. Minha prima mais nova é fã dos seus vídeos, foi ela quem te indicou. A matéria é sobre as novas blogueiras de moda e estilo, mas eu também quero inserir um box sobre blogs alternativos e feministas. Meu prazo é amanhã, se você se interessar te mando as perguntas ainda hoje. Espero que você queira e possa participar!"

A jornalista se chamava Bianca Yasmin. Olívia pesquisou seu nome mas não havia muita coisa. Viu duas fotos, parecia jovem e delicada. Era redatora do portal, no perfil do linkedin havia três empregos e dois estágios, estava formada havia três anos. Olívia gostou da moça, respondeu que poderia sim participar e logo recebeu outro email com as perguntas:

"Obrigada por aceitar o convite! Assisti alguns de seus vídeos, achei muito legal. Seguem as perguntas. Depois mando o link quando a matéria sair. Um beijo!
- Quando surgiu seu blog? De onde veio a ideia?
- Caroline Cólera é um pseudônimo? Qual seu nome verdadeiro?
- Qual sua idade e profissão (ou atividade principal)?
- Seu blog tem uma linha editorial, ou seja, há um tema central e uma abordagem definida?
- Qual seu objetivo para o blog? O que você sonha conseguir?
- Quais seus hobbies ou atividades favoritas?
- Como você descreveria a si mesma em duas linhas?"

Era sua primeira entrevista. O primeiro contato de uma profissional da mídia, alguém que trabalhava contratada por um portal importante e se interessava por ela. Seu entusiasmo foi mais intenso do que toda satisfação que sentira pelas mensagens de suas seguidoras até aquele dia. Era uma jornalista de verdade. Um portal de verdade. Uma entrevista de verdade. Olívia leu e releu as perguntas, pensou em frases bonitas, sua "linha editorial", seus sonhos e objetivos, seus hobbies e atividades. Foi atingida por uma ventania de ideias e queria dizer muitas coisas. Mas como lidar com a segunda pergunta? Ela já havia pensado algumas vezes, quando seus vídeos ultrapassaram as centenas de visualizações, que a popularidade aumentava a chance de ser identificada por algum conhecido. Por mais maquiada que estivesse, mesmo simulando um tom de voz diferente, um amigo poderia reconhecê-la, se olhasse com atenção. Até aquele momento ela havia adiado qualquer decisão a respeito disso. Ela não tinha vergonha do que publicara, a fantasia de Caroline Cólera era principalmente um efeito estético, a incorporação da atitude e da imagem de uma personagem que ela admirava. Mas as palavras que ela escreveu e gravou eram as suas próprias. O sigilo sobre seu nome tinha a intenção principal de evitar amolações. Agora, se o blog aparecesse no portal Planeta, era provável (e ela desejava) que mais pessoas o descobrissem. A chance de ser reconhecida aumentava. Então não seria melhor simplificar tudo e já assumir seu nome verdadeiro, como a jornalista pediu? Não era melhor ser direta, se afinal ela seria descoberta mais cedo ou mais tarde?

Inês bateu à porta do quarto (ela checava frequentemente se Olívia estava acordada, percebia pelo barulho do teclado). Olívia fechou seus emails antes de responder:

- Oi, vó.

Inês entrou, deu um beijo de bom dia nos cabelos da neta. Era seu beijo habitual nas manhãs das férias, Olívia sentada ao computador desde que acordava.

- Já tomou café?
- Já.
- Vamos no mercado comigo?
- Pode ser daqui a pouco? Tipo uma meia hora?
- Tá ótimo. Te esperando lá embaixo.

Olívia queria responder a jornalista antes de sair com a avó, e precisava decidir rápido. Diria seu nome ou não? Não adiantava ruminar todos as possíveis consequências, era mais honesto escolher uma postura que ela se orgulhasse de defender, em qualquer circunstância. E então ela percebeu que não queria dizer o seu nome, não por vergonha ou medo das consequências, mas porque isso a tornaria novamente uma garota comum - aquela Olívia de dezessete anos, que morava desde criança na Granja Viana com sua avó, e terminara o ensino médio em dezembro, e esperava o início das aulas em fevereiro como qualquer outra garota de classe média da sua idade. Ela era essa Olívia, mas isso era tão insuficiente. Sua vida tinha mais importância como Caroline Cólera."

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Por que Olívia escrevia

"As primeiras experiências de discreto sucesso no youtube deixaram Olívia dividida. Era bom ver o interesse dos outros pelo que ela dizia. Seu humor melhorava imediatamente ao ler os comentários, as estatísticas mostrando que o número de visualizações crescia e os acessos a seu blog aumentavam. Seu tédio cotidiano e a sensação de desimportância desapareciam momentaneamente. Ela ficava alerta e ativa, com a sensação emergente de que sua vida tinha um propósito. Porém havia um descompasso entre os vídeos que faziam mais sucesso e os que Olívia considerava melhores e mais autênticos. Seus três primeiros sucessos foram respostas a alguém, reações inflamadas a conflitos de outras pessoas, não temas originais que ela escolheu a partir de suas motivações mais internas. Foi até mesmo fácil para ela se manifestar sobre o vídeo do chip ou a história de Bruna. Olívia teve tantos tormentos íntimos e familiares em sua própria vida, tinha gastado tanta energia emocional remoendo suas angústias, que opinar sobre as relações alheias era simples. Ela tinha mais orgulho dos textos que foram difíceis de escrever, mas nenhum desses despertou tanto interesse.

Olívia escrevia por muitos impulsos e motivos, alguns deles contraditórios. O começo de sua adolescência foi assombrado por fantasias de abuso, manipulação e vingança. Eram seus fantasmas noturnos, seus cenários eróticos, quando estava sozinha e trancada no quarto antes de dormir. Mas durante o dia, nas aulas e em casa com a avó, ela se comportava conforme as regras, raramente brigava ou se rebelava contra alguém. Suas atitudes mais correntes eram o desânimo e o desprezo; não criava conflito porque preferia ignorar o que detestava, convencer a si mesma de que estava imune a tudo. A situação mudou nas férias entre o primeiro e o segundo colegial, no verão de 2008, quando ela e Vinícius começaram a namorar. Os dois não eram apaixonados e a decisão consciente de se unir, falar a verdade e acolher as indignações um do outro ampliou a compreensão de Olívia sobre muitas coisas. Sua raiva interna se dissolveu um pouco, deixou de ser tão secreta. Quando o namoro acabou, ela tinha outras ideias e outra necessidade de expressão. Seu blog absorveu tudo isso.

O blog canalizava toda inquietação de Olívia sobre o mundo e sobre si mesma. Entre os dezesseis e os dezessete anos Olivia questionava tudo, desconfiava de tudo, queria redefinir do zero o que era viver, encontrar um caminho próprio e verdadeiro para uma existência livre da mentira e da banalidade. Ela achava que poderia fazer isso sozinha, observando e pensando, pois somente pessoas muito atormentadas e francas poderiam compreendê-la, e essas pessoas quase não existiam. Quem a compreendia em seu colégio? Ninguém. Quem a compreendeu verdadeiramente entre todas as pessoas que ela conheceu na vida? Ninguém. Vinícius foi quem talvez chegou mais perto. Agora ela precisava se virar sozinha.

Olívia não queria fazer terapia, embora sua avó perguntasse sobre isso a cada tantos meses. Mas depois de quatro anos de sessões semanais, dos 9 aos 13 anos, essa era a última de suas vontades. Na última vez que Inês tocou no assunto, ela explodiu:

- Pára com isso, vó! Eu não quero! De jeito nenhum. Nunca mais. Nem agora nem daqui a um mês nem daqui a seis meses. Não fica me perguntando porque a resposta vai ser sempre não.

Escrever era difícil, mas transformava seu tumulto interno em algo concreto. As frases, uma depois da outra, se articulavam melhor do que suas ideias, e se um rumo aparecia conforme as palavras se ordenavam, esse rumo ficava gravado e não se perdia nas flutuações de ânimo de seu dia a dia."