domingo, 17 de junho de 2012

Sem Madonna não sustento a Cindy Lauper

Bem, agora é respirar fundo e escrever chick-lit com maturidade, leveza e elegância. Incorporar a Madonna literária, adaptada ao meu jeito tímido e bovino. We're living in a material world e tal. Girl's just wanna have fun mas têm que pagar as contas.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Um dia escrevi um manifesto

Relendo coisas antigas, encontrei um manifesto literário (único) que escrevi em 2001.

Ainda mantenho algumas idéias (embora esta palavra hoje já não tenha acento):

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"É uma pena que eu não saiba escrever um manifesto, ou alguma coisa assim.

Pois eu gostaria que se escrevesse melhor. Eu gostaria que as pessoas fizessem coisas mais interessantes com suas vidas, e escrevessem e publicassem coisas mais interessantes.

Não vou desmerecer um escritor que nasceu pobre, teve que trabalhar duro para garantir os novecentos reais mensais que vão lhe pagar o aluguel e permitir que continue lendo em seu quarto apertado os livros de autores alemães que são o único lugar onde conseguiu encontrar uma manifestação estética que desse algum sentido à sua vida sacrificada e reprimida.

Mas: um escritor que usa toda sua energia e inteligência para dominar um formato que outro homem, em uma outra vida, sofreu pra concretizar, e se esforça pra fazer o que o outro já fez, isso tem alguma importância pra mim?

Eu não agüento mais escritores que falam da "Palavra". A palavra não é nada. Uma palavra de hoje pode não dizer nada a ninguém daqui a dez anos.

(tradução: me irritava, nessa época, e fetichização da palavra)

Não agüento mais as pessoas que dizem que o Brasil está errado, não agüento a crítica moral, nem a denúncia social. Não vou descrever as misérias de um cara pobre e culpar um cara rico, porque independente do que se faz com a riqueza que se consegue, e mesmo que se mate outros de fome por causa disso, tenho que dizer que me admira – e tenho alguma admiração – pelo cara que entende que o dinheiro é o valor que elegeram para esse mundo, e é preciso ter a coragem de consegui-lo.

Admiro as pessoas que admiram elementos decorativos metálicos e reluzentes. Admiro as roupas novas, os sapatos altos, a maquiagem, a tintura de cabelo, a cirurgia plástica, os implantes de silicone e o viagra. Não admiro o xenical porque faz as pessoas cagarem óleo com cheiro de merda, mas admito que precisa ter culhão pra tomar um troço desse sistematicamente. Admiro todas as tentativas que as pessoas fazem pra ficar bonitas.

Compreendo que ninguém quer olhar o rio Pinheiros sujo e poluído, com seu cheiro de esgoto e as dragas puxando entulho para a margem dia após dia. Compreendo que ninguém queira olhar aquele velho magro e sujo com roupas esfarrapadas e o pé cheio de feridas e uma camada de poeira preta lhe cobrindo o corpo enquanto pede esmola na rua pra qualquer um que se aproxime. As crianças que vão ficar daquele jeito se viverem para tanto. As mulheres que continuam parindo crianças que vão ficar daquele jeito. 

Entendo que ninguém queira olhar pra isso, e como a visão permanece e é impossível de desviar, entendo que alguns fiquem amargurados e cínicos na tentativa de esquecer o que viram, e outros deságüem sua frágil vontade de ajuda em conversas de sala de estar.

Mas voltando à literatura, também não é a descrição pura disso que vai ser interessante. A descrição disso, mesmo o julgamento disso, é pouco pra mim. Quem é que vai além disso? Quem vai ter a coragem de mergulhar nisso, e a força de voltar à tona com uma solução? Não uma solução social (impossível de realizar individualmente), mas uma solução estética, porque eu não agüento uma literatura que se acomoda num vazio sem soluções, e não tem o viço de apontar umazinha, mínima que seja. Uma solução estética que acene um caminho ou ao menos uma esperança para essa crueldade social em que vivemos.

A bela "Palavra" revela o medo de nossa pobreza medíocre. A palavra de denúncia joga a culpa aos outros, mas eu não quero repassar a responsabilidade; eu tenho a minha responsabilidade.

E entre tantas coisas que estou pensando, posso pelo menos montar uma frase, que seria: encontrar caminhos especiais, a partir dos fatos reais. Estou tentando descobrir quais são os caminhos especiais; e me esforço pra ser cada vez mais receptiva aos fatos reais.

São onze horas da manhã, no bairro da Vila Madalena, na cidade de São Paulo. Meu cachorrinho entrou no banheiro e revirou a cesta ao lado da privada, espalhando pedaços de papel higiênico sujos de merda e sangue de menstruação pelo chão. Se eu não o tivesse recolhido da carrocinha vinte dias atrás, minha cesta de papel higiênico estaria intocada e a merda e o sangue bem guardadinhos lá dentro. Mas se eu não o tivesse recolhido, eu estaria sozinha, ele teria sido morto pelo Centro de Controle de Zoonoses, e não poderíamos deitar juntos no sol, agora.

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Tradução: Não tenho paciência pra literatura como sublimação, e ou para a fetichização da vítima.

Gosto da uma literatura de superfície agradável, que encaminhe aos poucos à exposição crua do que existe de bom ou ruim. E gosto de nuance, quando ela é verdadeira: algumas coisas são complexas, outras não. Fatos e relações complexas merecem sua descrição cuidadosa. O que é simplesmente bom, ou simplesmente ruim, que se seja dito com clareza.

Mas o leitor, coitado, ele não tem culpa. É mais uma pessoa por aí, buscando num livro alguma iluminação e amparo.

O leitor é como um amigo que chega em visita casual, para tomar um chá. No meio da tarde agradável, toca o telefone da sua casa. É alguma história velha, algum parente ou questão romântica mal resolvida, a ligação te irrita e você começa a bater-boca ali na frente do seu amigo, não dá pra segurar. Você diz todas as coisas entaladas que precisava dizer, aquela ligação veio cutucar sua ferida, você quer acabar o assunto e diz claramente o que acha, pra nunca repetir de novo. Quando você desliga o telefone, seu amigo está assustado mas estranhamente compreensivo, porque provavelmente já passou por algo semelhante. Você está mais calmo, e pode demonstrar alguma consideração. Deixa o clima acalmar um pouco, retoma algum assunto agradável na medida do possível, e se despede com gentileza.



domingo, 3 de junho de 2012

A literatura é um vulcão

Eu tinha cinco anos quando meus pais me levaram para visitar as ruínas de Pompéia. As imagens mais marcantes da minha infância: um corpo encolhido, carbonizado, de alguém que tentou se proteger escondido num canto. E o desenho do vulcão escuro num cartão postal. A montanha que expelia lava: a massa líquida, vermelha e fervente.

Por que as imagens me marcaram tanto? Seriam talvez minhas impressões assombrantes da infância? O enorme seio potente. O corpo assustado do bebê. A história mágica da terra que explode e devasta em suas casas a minúscula vida das pessoas comuns.

Aos dezoito anos tentei voltar a Pompéia com toda minha vontade e meu pouco dinheiro, aproveitando a chance de uma bolsa de estudos depois de por dois anos estudar italiano com paixão. Tinha um convite para estudar no norte da Itália, onde estavam as melhores e mais antigas universidades. Mas me importavam as universidades? Num dia livre peguei o trem que me levou ao sul, onde tudo é barulhento e bagunçado e os vulcões explodem.

Foi difícil chegar. Os trens têm horários. As cidades históricas reservadas à visitação turística têm portões que fecham às cinco da tarde. Os dias de um viajante são curtos quando falta dinheiro para mais uma noite de hotel.

Eu sabia respeitar horários, preços e limites. Mas tinha dezoito anos e o mundo se abre para as moças na esperança que elas se abram também.

Um dia talvez eu escreva essa outra história, sobre o homem que percebeu meu desejo e me levou no escuro para ver um pequeno vulcão urbano ao lado de uma base militar em sua cidade. Quando eu disse que não era aquele, meu vulcão era maior e ficava mais longe, ele esperou a folga de sábado e fomos juntos num Alfa Romeo pela rodovia pedagiada e pela estrada seca que entre curvas chegava à cratera.

Ouvimos música: those lazy hazy crazy days of summer.

Num sábado de sol ele pagou a entrada, e olhei o círculo murcho de terra escura e seca, o vulcão inativo visto de cima.

Deitamos em seu carro quente ao sol do meio-dia. Comemos nosso lanche de iogurte. Depois, tranquila e sossegada, dormi aconchegada em seu peito.

Por muitos anos quis escrever a história que se chamaria "Dormir no vulcão". A memória era tão forte: a viagem infantil e a tentativa adolescente, voluntariosa, nostálgica e desajeitada de voltar.

Vencer os obstáculos do caminho. Chegar ao destino. Ganhar o amor e dormir.

Mas como saber as partes importantes dessa história, para que os outros entendessem e sentissem o que eu senti?

Que palavras retratam e transmitem? Que ordem de frases e parágrafos tem o tamanho exato de encantar e explicar o lugar e o tempo em que o horror era maravilhoso?

A história não era o vulcão desolado de minha adolescência. Era o encantamento de ouvir o pai contando sobre o dia inesperado em que jorrou terra incandescente e congelou as pessoas para sempre na posição daquele instante.

O que é a literatura?

A literatura é o vulcão.

domingo, 27 de maio de 2012

Um olhar

Alguns anos atrás, duas estudantes - Juliana Gola e Amanda Loscardini - fizeram uma longa entrevista comigo. Foi um dos poucos momentos em que alguém parou para me ouvir como escritora (e não como roteirista ou professora). 


Era um TCC. 


Curiosamente, elas não me avisaram quando o texto ficou pronto. É um livro com os perfis de Andrea del Fuego, Ana Rusche e Clarah Averbuck, além do meu.


Ficou bonito, encontrei por acaso em seu blog.



http://umolhar.wordpress.com/


http://umolhar.files.wordpress.com/2010/04/retalhos1.pdf

Lançamento em SP

No próximo sábado, 2 de Junho, das 16h às 19h, será lançado em São Paulo meu novo livro:

"O afeto ou Caderno sobre a mesa" (7Letras)

Será na Livraria da Vila / Lorena - Alameda Lorena 1731, piso superior.

Aproveito para comemorar meu aniversário de 38 anos, que completo dia 1, com os amigos que puderem ir.

OBS: no mesmo dia será lançada a revista Lado7, em que também há um conto meu: "Lésbicas procuram apartamento".

Leitores e amigos, estão todos convidados.



segunda-feira, 21 de maio de 2012

Roteirista e operário

Na última semana andei pensando sobre alguns lugares-comuns que se ouvem sobre "o problema crônico do roteiro" ou a "falta de bons roteiristas" no cinema brasileiro.

Em geral, essas opiniões parecem sugerir que os roteiros de filmes brasileiros, mesmo quando eficientes em relação ao seu público de destino, são menos inteligentes ou elegantes que outros modelos generalizados tomados como melhores (de filmes argentinos, ou seriados americanos, ou outra média qualquer de preferência).

Essa generalização me irrita e nem sempre consigo explicá-la. A raiz de minha irritação provavelmente vem dessa interpretação: se o problema crônico é a falta de bons roteiristas, então a causa seria um acidente demográfico que gerou um país sem talentos para o trabalho?

A causa do problema crônico de roteiro seria a incompetência crônica dos roteiristas?

Certamente não.

Aos dezoito anos eu me considerava naturalmente talentosa para escrever. Acreditava que tinha capacidade e talento para lidar com qualquer dificuldade de composição dramática. Ingenuamente, talvez. Mas meu entusiasmo natural era tão fácil e fluido que eu tinha total confiança em minha habilidade.

Bem: a experiência mostrou que isso não era suficiente.

Os contatos e contratos entre roteiristas, diretores e produtores acontecem por dezenas de motivos, e nem sempre a habilidade de escrever é o fator determinante.

Simpatias, amabilidade, apresentação sedutora, nome, fama, ou simplesmente casualidade. Ser charmoso e falar bem muitas vezes vale mais do que escrever bem.

Há também roteiros que seduzem no papel - porque têm frases bem sacadas e evidentes - e nem sempre são bons. A esperteza no texto nem sempre traduz uma boa relação entre imagens e construção dramática.

A carreira de roteirista de cinema é ingrata: pouco trabalho disponível, pagamentos irregulares, muita concorrência pelas vagas - porque qualquer um pode ser roteirista, a princípio. Atores, publicitários, redatores. É uma profissão de aparente glamour criativo, e muitos se candidatam.

Na maioria absoluta dos casos, a decisão de como o roteiro deve ser vem de cima pra baixo. O dono do projeto - aquele que irá buscar o dinheiro - tem sua ideia do que deseja, e o roteirista precisa se desdobrar pra atender àquela fantasia. Nesse processo, muitas vezes o roteirista simplesmente desiste das qualidades em que acredita, porque o dono do projeto não está disposto a adaptar suas intenções iniciais. Ser roteirista de cinema, no Brasil, é uma prestação de serviços. É uma relação entre chefe e operário. Não é um diálogo criativo entre dois profissionais com igual autonomia.

Aos meus alunos que escrevem bem, eu recomendo que procurem a televisão. Roteirista de cinema, no Brasil, não é trabalho pra quem precisa pagar aluguel todo mês.

E, na televisão, você precisa escrever conforme a demanda da televisão. Se os roteiristas mais experientes, hoje, escrevem de modo "televisivo", como culpá-los?