Um trecho de "Breve carta para um longo adeus", Peter Handke:
"- Cometi muitos erros com a criança - disse Claire... Não queria que ela se portasse como dona do mundo, ou como se aquilo que lhe pertence fosse o mundo todo. Queria evitar que se apegasse aos objetos, porque acreditava que a educação americana fortalecia ainda mais essa tendência para apegar-se aos objetos. Não lhe comprava brinquedos, apenas a deixava brincar com coisas destinadas a outra finalidade, como escovas de dentes, potes de pomada de sapato, utensílios domésticos. Ela brincava com elas, depois ficava olhando sem se aborrecer quando eram usadas. Mas se outra pessoa também quisesse brincar com elas como ela fazia, não as queria dar, e portava-se como se fossem brinquedos comuns. Então acreditei que estava realmente desenvolvendo aquela mania de posse, e tentei convencê-la a entregar tudo à outra criança que quisesse brincar. Mas ela se agarrava aos objetos, e como eu ainda o interpretasse como desejo de posse, tirei-lhe tudo. Só mais tarde notei que provavelmente ela se agarrava àquilo de medo."
quarta-feira, 30 de abril de 2008
terça-feira, 29 de abril de 2008
Sete linhas
Comecei a escrever num outro blog, chamado "Sete linhas".
São sete amigos que escrevem, um a cada dia. Pequenos textos de... sete linhas.
Eu escrevo na terça.
O link é www.setelinhas.blogspot.com
São sete amigos que escrevem, um a cada dia. Pequenos textos de... sete linhas.
Eu escrevo na terça.
O link é www.setelinhas.blogspot.com
domingo, 27 de abril de 2008
Casinha vizinha
Ainda por causa do doutorado, estou lendo "Machado de Assis", de Lúcia Miguel Pereira. É um livro de 1936 e muito famoso para quem estuda literatura brasileira. Mas acho que não o leria nunca se não fosse o curso.
Adoro certas expressões que se usavam antigamente. A palavra "feitio", por exemplo. Uma frase do prefácio:
"Tarefa em regra penosa, não raro degenerando em lição de humildade, a de rever textos antigos. Não digo que ma poupasse este..."
- - -
Uma vez vi um folheto anunciando algumas palestras místicas, e um dos temas era "saudades de lugares que não se conheceu". Eu tenho saudades dessas palavras que nunca usei. Principalmente essa contração do pronome com o artigo, que só uma vez tive coragem de escrever.
- - -
Nesse livro há uma das frases mais lindas já escritas sobre Machado de Assis:
"Não suspeitava Dona Maria José de Mendonça Barroso, viúva de Bento Barroso Pereira, senador, oficial general do exército, ministro duas vezes, de D. Pedro I e da Regência trina, que seu nome só passaria à posteridade por haver, em 13 de novembro de 1839, consentido em ser madrinha de uma criança nascida a 21 de junho desse mesmo ano, numa casinha vizinha da sua chácara."
Adoro certas expressões que se usavam antigamente. A palavra "feitio", por exemplo. Uma frase do prefácio:
"Tarefa em regra penosa, não raro degenerando em lição de humildade, a de rever textos antigos. Não digo que ma poupasse este..."
- - -
Uma vez vi um folheto anunciando algumas palestras místicas, e um dos temas era "saudades de lugares que não se conheceu". Eu tenho saudades dessas palavras que nunca usei. Principalmente essa contração do pronome com o artigo, que só uma vez tive coragem de escrever.
- - -
Nesse livro há uma das frases mais lindas já escritas sobre Machado de Assis:
"Não suspeitava Dona Maria José de Mendonça Barroso, viúva de Bento Barroso Pereira, senador, oficial general do exército, ministro duas vezes, de D. Pedro I e da Regência trina, que seu nome só passaria à posteridade por haver, em 13 de novembro de 1839, consentido em ser madrinha de uma criança nascida a 21 de junho desse mesmo ano, numa casinha vizinha da sua chácara."
sexta-feira, 25 de abril de 2008
Breve carta
Durante muito tempo Peter Handke foi meu escritor preferido. Ele escreveu algumas alegorias e contos de fada, de que não gosto. Mas seus ensaios e novelas sempre me fascinaram. Principalmente a que escreveu depois do suicídio de sua mãe.
Em 1997, diante da extrema dificuldade de encontrar um método para escrever, tive a idéia de contar as linhas de cada parágrafo do livro "Breve carta para um longo adeus", e tentar escrever seguindo a mesma ordem, o mesmo número de linhas exatamente.
Não consegui, mas é um indício de como ele era importante para mim.
Em 2004 estive em Paris e liguei para sua assessoria de imprensa, perguntando se seria possível encontrá-lo. A mulher que atendeu ao telefone parecia absolutamente surpresa, como se minha pergunta fosse ingênua e pretensiosa ao mesmo tempo - enfim, como eu não sabia? - o pedido era absurdo. Mandei um e-mail insistindo, em inglês, e ela nunca me respondeu.
Não sei se ele ainda vive recluso numa casa nos arredores de Paris, como vivia naquela época.
Em 1997, colei uma foto em meu armário. Mesmo reconhecendo como ele era feio.
Em 1997, diante da extrema dificuldade de encontrar um método para escrever, tive a idéia de contar as linhas de cada parágrafo do livro "Breve carta para um longo adeus", e tentar escrever seguindo a mesma ordem, o mesmo número de linhas exatamente.
Não consegui, mas é um indício de como ele era importante para mim.
Em 2004 estive em Paris e liguei para sua assessoria de imprensa, perguntando se seria possível encontrá-lo. A mulher que atendeu ao telefone parecia absolutamente surpresa, como se minha pergunta fosse ingênua e pretensiosa ao mesmo tempo - enfim, como eu não sabia? - o pedido era absurdo. Mandei um e-mail insistindo, em inglês, e ela nunca me respondeu.
Não sei se ele ainda vive recluso numa casa nos arredores de Paris, como vivia naquela época.
Em 1997, colei uma foto em meu armário. Mesmo reconhecendo como ele era feio.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Armário de roupa branca
Comprei ontem o livro "Minha Ántonia", de Willa Cather, porque achei a capa linda. De maneira geral, desde que não me pareçam absolutamente idiotas, tento ler sistematicamente os livros escritos por mulheres. Principalmente os mais antigos, porque hoje escrever é mais fácil e há muita banalidade. Mas tenho um encanto pela obstinação das mulheres que conseguiram escrever, apesar de tudo, no início do século XX. O livro é narrado em primeira pessoa (o que me agrada muito).
Segue um trecho:
"Nossa vida pessoal era tão livre quanto a de nossos professores. A faculdade não tinha dormitórios; morávamos onde e como podíamos. Alojei-me na casa de um casal de velhos, que tinham casado os filhos e agora viviam na orla da cidade, perto do campo aberto. Como a casa, por sua localização, era incoveniente para estudantes, pude alugar dois quartos pelo preço de um. Meu quarto de dormir, originalmente um armário de roupa branca, não tinha aquecimento e mal comportava a minha cama de armar, mas me permitia chamar o outro cômodo de meu estúdio. Empurrei para um canto a penteadeira e o grande guarda-roupa de nogueira, que guardava todas as minhas roupas, até chapéus e sapatos, e fazia de conta que não existiam, como fazem as crianças com objetos incongruentes quando brincam de casinha."

terça-feira, 22 de abril de 2008
Solidão e estafa
Parágrafos 21 a 23:
"Foi num destes períodos de solidão e estafa que, visitando meu irmão, comentei o que se passava. Naquele tempo ele estava terminando o curso de psicologia, e, depois de minha confissão sofrida, disse algo que mudou minha compreensão:
- Denise - ele disse - não quero falar coisas sobre sua vida que não conheço direito. Mas o sexo é uma coisa muito importante na mente das pessoas. Tão importante que elas simbolizam, através do sexo, todas as preocupações de sua vida. Por exemplo: a criança é a coisa mais indefesa que existe... Um adulto, transando com uma criança, tem total poder sobre ela, que não tem como reagir. Se você tem essa fantasia, não significa necessariamente que você foi abusada e não se lembra. Pode ser que você se sinta oprimida por uma situação qualquer - o trabalho, a falta de dinheiro - e transforme essa opressão numa fantasia sexual. Numa cena em que você pode finalmente dominar a situação.
- - -
Talvez eu estivesse errada quando decidi interromper o tratamento com o terapeuta. Ele seria provavelmente mais capaz de interpretar o que não consegui."
"Foi num destes períodos de solidão e estafa que, visitando meu irmão, comentei o que se passava. Naquele tempo ele estava terminando o curso de psicologia, e, depois de minha confissão sofrida, disse algo que mudou minha compreensão:
- Denise - ele disse - não quero falar coisas sobre sua vida que não conheço direito. Mas o sexo é uma coisa muito importante na mente das pessoas. Tão importante que elas simbolizam, através do sexo, todas as preocupações de sua vida. Por exemplo: a criança é a coisa mais indefesa que existe... Um adulto, transando com uma criança, tem total poder sobre ela, que não tem como reagir. Se você tem essa fantasia, não significa necessariamente que você foi abusada e não se lembra. Pode ser que você se sinta oprimida por uma situação qualquer - o trabalho, a falta de dinheiro - e transforme essa opressão numa fantasia sexual. Numa cena em que você pode finalmente dominar a situação.
- - -
Talvez eu estivesse errada quando decidi interromper o tratamento com o terapeuta. Ele seria provavelmente mais capaz de interpretar o que não consegui."
sexta-feira, 18 de abril de 2008
O iceberg imaginário
Uma coisa bonita.
(trecho de "Questões de viagem", poema de Elizabeth Bishop na coletânea "O iceberg imaginário", tradução do Paulo Henriques Britto)
Desculpem o cansaço, a edição é bilíngue, mas não digitei o original.
"Pensemos na longa viagem de volta.
Devíamos ter ficado em casa pensando nas terras daqui?
Onde estaríamos hoje?
Será direito ver estranhos encenando uma peça
neste teatro tão estranho?
Que infantilidade nos impele, enquanto nos resta
um sopro de vida, a partir decididos a ver
o sol nascendo do outro lado?
O menor beija-flor verde do mundo?
Ficar contemplando uma antiga e inexplicável obra de cantaria,
inexplicaável e impenetrável,
qualquer paisagem,
imediatamente vista e sempre, sempre deleitosa?
(...)
Mas certamente seria uma pena
não ter visto as árvores à beira dessa estrada,
de uma beleza realmente exagerada,
não tê-las visto gesticular
como nobres mímicos de vestes róseas.
- Não ter parado num posto de gasolina e ouvido
a melancólica melodia de madeira, com duas notas só,
de um par de tamancos descasados
pisando sonoros, descuidados,
um chão todo sujo de graxa."
(trecho de "Questões de viagem", poema de Elizabeth Bishop na coletânea "O iceberg imaginário", tradução do Paulo Henriques Britto)
Desculpem o cansaço, a edição é bilíngue, mas não digitei o original.
"Pensemos na longa viagem de volta.
Devíamos ter ficado em casa pensando nas terras daqui?
Onde estaríamos hoje?
Será direito ver estranhos encenando uma peça
neste teatro tão estranho?
Que infantilidade nos impele, enquanto nos resta
um sopro de vida, a partir decididos a ver
o sol nascendo do outro lado?
O menor beija-flor verde do mundo?
Ficar contemplando uma antiga e inexplicável obra de cantaria,
inexplicaável e impenetrável,
qualquer paisagem,
imediatamente vista e sempre, sempre deleitosa?
(...)
Mas certamente seria uma pena
não ter visto as árvores à beira dessa estrada,
de uma beleza realmente exagerada,
não tê-las visto gesticular
como nobres mímicos de vestes róseas.
- Não ter parado num posto de gasolina e ouvido
a melancólica melodia de madeira, com duas notas só,
de um par de tamancos descasados
pisando sonoros, descuidados,
um chão todo sujo de graxa."
Assinar:
Postagens (Atom)