sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Mallu e a galeria do rock

"Olívia acordou entediada. Levantou, trancou a porta do quarto sem fazer barulho, deitou novamente e se cobriu com o lençol. Ficou de barriga para baixo, de olhos fechados, mexendo-se o mínimo possível por alguns minutos com os braços entre as pernas levemente abertas. Depois sua expressão se acalmou. Ela levantou de novo, foi até o banheiro, lavou o rosto e escovou os dentes.

Naomi tocou o interfone do portão às nove e meia. Olívia saiu com sua mochila e as duas caminharam até o cruzamento da rodovia Raposo Tavares.

- Vamos esperar o 297 ou quer ir até o terminal?
- Não quero andar hoje. Vamos esperar.

Elas atravessaram a passarela e desceram até o ponto de ônibus. Era sábado, havia menos carros passando e menos gente no ponto. Normalmente Mariana ou Carol, a mãe de Naomi, levariam as duas de carro quando queriam passear fora da Granja. Mas neste sábado ela preferiram ir sozinhas.

Era março de 2008 e ela começavam o segundo ano do ensino médio. O assunto no início das aulas, em fevereiro, tinha sido a adolescente de 15 anos que fez sucesso na internet, Mallu Magalhães e sua música Tchubaruba. Quase todas as garotas da classe achavam Mallu muito fofa, cantando em inglês com sua voz fininha "she was just crying / under my favorite tree" e o refrão meigo "If you are down / yes I will say tchubaruba". Mallu deu entrevistas na TV e contou que ao completar 15 anos queria fazer uma coisa legal, por isso cortou os cabelos, que estavam abaixo dos ombros, e doou para uma instituição de apoio a pacientes com câncer. Também recebeu da avó algum dinheiro como presente de aniversário, e gravou num estúdio quatro músicas que ela mesma compôs. A meiguice de Mallu despertou nas garotas da classe uma nova mania por músicas fofas, especialmente Belle e Sebastian e baladinha de amor frustrado "Another Sunny Day". Olívia e Naomi decidiram raspar uma parte do cabelo e pintar tudo de preto.

Pegaram dois ônibus para chegar à galeria do rock na rua 24 de Maio, no centro. "

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Pelas barbas de Merlin

"Sala de aula do colégio em que Olívia estuda desde criança. Uma sala limpa, em que tudo é novo e tudo é plástico. As paredes são feitas de placas pré-fabricadas, o chão é coberto de um revestimento sintético cor gelo. Um branco acinzentado que nunca lembraria gelo, nenhum brilho, nenhuma transparência, nenhum reflexo azul. A sala cheia, vinte e oito adolescentes bem criados da Granja Viana. Um grupo tenro e pálido de garotos e garotas de dezesseis anos, limpos, saudáveis, as camisetas brancas e bem lavadas do uniforme. A professora de química certinha, arrumadinha, segura o pincel atômico com a ponta dos dedos para não se sujar. Ainda não tem trinta anos, cabelos clareados e alisados com escova, estudou no Rio Branco desde criança e agora é professora. Uma vida inteira no Rio Branco. A vida inteira na Granja.

Aquele ano para Olívia se arrastava sofrido desde o começo. Evitar a primeira fila de carteiras, seu lugar preferido desde o ensino fundamental, recuar para a quinta carteira na fileira do canto não ajudou. Ela estava mais escondida mas não melhor. Suzana a acompanhou meio contrariada para a quarta carteira, à sua frente. Olívia observava durante a aula seu cabelo liso, comprido e bem penteado. Sentia um pouco de raiva, um pouco de desprezo, um pouco de inveja. Por que os cabelos eram o centro da vida de todas as garotas em sua classe? Como conseguiam fazer escova todos os dias? Olívia nunca teria aquela paciência. Ela não conseguia conceber que cabelos merecessem tanta importância, cabelos são só cabelos, pelas barbas de Merlin. Ela não podia mais dizer pelas barbas de Merlin. Ela não gostava mais de Harry Potter."  

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A casa de Vinícius

"Olívia parou de responder. Pegou o celular e escreveu uma mensagem:

"Oi, Fava. Queria conversar uma coisa contigo. Posso te ligar?"

Fava era o apelido de Vinícius, abreviação do sobrenome materno, Favero. Enquanto esperava a resposta, ela desceu até a cozinha. Estava vazia. Pela porta dos fundos aberta viu a avó no jardim. O celular vibrou com a resposta de Vinícius: "ok".

Olívia gritou avisando:

- Vó, vou sair!

Inês mal a vira, e ela já estava saindo.

- Vai aonde?
- No Vinícius. Não demoro. Tchau!

Vinícius não morava longe. A casa ficava num condomínio fechado, na Estrada Zurique. Olívia subiu a Avenida São Camilo até a Estrada Bucarest, onde havia um portão secundário. Ela apertou o interfone e esperou apoiada na grade, logo a empregada respondeu e abriu a portinha de pedestres. Olívia seguiu pelas ruas cheias de árvores e palmeiras, as casas esparsas escondidas pelos altos e baixos do terreno e as folhagens vigorosas do verão. Finalmente, depois de subir um tanto, chegou à rampa de entrada, que descia até a casa no declive do terreno. A sala aparecia pela ampla porta de vidro, que estava aberta. Vinícius jogava videogame no sofá. Pausou o jogo quando ela sentou na outra poltrona e disse oi.

- Oi, ele respondeu. - E aí?
- Tranquilo. E você?
- Normal. Na calma.

Os dois não se viam desde o fim das aulas em dezembro. Olívia foi na festa de despedida mas não participou da viagem de formatura. Ele ainda estava com o controle do videogame na mão.

- Se importa se eu continuar jogando?
- Okei.

Ele tirou o som da TV. O jogo era Fallout 3, que ele já tinha fechado, estava só completando algumas missões secundárias. Olívia assistiu um pouco, a imagem estava mais bonito do que ela lembrava.

- TV nova?
- É Led. Meu pai comprou no fim do ano.
- Foda.
- É.

Seguiram acompanhando o jogo mais um tempo, e então ela disse:

- Então, preciso te contar um negócio. Tipo, é uma coisa que eu queria te contar, pra você não ficar puto se descobrir depois.
- Fala
- Aff... não sei como começar.
- Você tá saindo com outro cara ou algo assim?
- Não. É outra coisa. É... Bem, eu fiz uns vídeos pro youtube. É uma coisa que eu inventei, é tipo um projeto feminista. Mas tem uns lances sobre sexo e tal. Eu não queria que você olhasse e pensasse que estou falando de você.
- Você faz sexo nos vídeos?
- Não, é só falado. É tipo umas ideias e opiniões. Eu comecei escrevendo num blog e depois eu fiz uns vídeos.
- Tá, e daí?
- Daí que tem umas histórias de namoro e transas, e eu não quero que você ache que é sobre você.
- Só isso?
- Só isso.
- Eu não vou ver os seus vídeos. Tá viajando.
- Uma jornalista disse que vai fazer uma matéria. Talvez você veja.
- Pode ficar tranquila porque eu não vou ver."

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A jornalista Bianca Yasmin

"Em catorze de janeiro de 2010, Olívia recebeu o email de uma jornalista do portal Planeta, que escrevia uma matéria sobre jovens blogueiras. A matéria sairia no dia seguinte, a jornalista tinha uma lista de perguntas e seria muito legal se Olívia pudesse responder naquela mesma tarde.

Olívia estava em casa. Eram férias e ela tinha acordado ao meio-dia. A avó já almoçara e cuidava das plantas no jardim. Olívia tomou seu café-da-manhã na cozinha, pão com requeijão, leite e nescau, depois voltou para o quarto e ligou o computador. Olhou as novidades em seu perfil familiar, onde estavam seus colegas e conhecidos reais, distraiu-se um pouco, e em seguida abriu as contas de email, twitter e facebook de Caroline Cólera. Checou os comentários e mensagens, respondeu rapidamente o que podia ser respondido sem atenção, e finalmente leu o email da jornalista.

"Olá, Caroline
Sou redatora de entretenimento do Planeta e estou entrevistando blogueiras para uma matéria. Minha prima mais nova é fã dos seus vídeos, foi ela quem te indicou. A matéria é sobre as novas blogueiras de moda e estilo, mas eu também quero inserir um box sobre blogs alternativos e feministas. Meu prazo é amanhã, se você se interessar te mando as perguntas ainda hoje. Espero que você queira e possa participar!"

A jornalista se chamava Bianca Yasmin. Olívia pesquisou seu nome mas não havia muita coisa. Viu duas fotos, parecia jovem e delicada. Era redatora do portal, no perfil do linkedin havia três empregos e dois estágios, estava formada havia três anos. Olívia gostou da moça, respondeu que poderia sim participar e logo recebeu outro email com as perguntas:

"Obrigada por aceitar o convite! Assisti alguns de seus vídeos, achei muito legal. Seguem as perguntas. Depois mando o link quando a matéria sair. Um beijo!
- Quando surgiu seu blog? De onde veio a ideia?
- Caroline Cólera é um pseudônimo? Qual seu nome verdadeiro?
- Qual sua idade e profissão (ou atividade principal)?
- Seu blog tem uma linha editorial, ou seja, há um tema central e uma abordagem definida?
- Qual seu objetivo para o blog? O que você sonha conseguir?
- Quais seus hobbies ou atividades favoritas?
- Como você descreveria a si mesma em duas linhas?"

Era sua primeira entrevista. O primeiro contato de uma profissional da mídia, alguém que trabalhava contratada por um portal importante e se interessava por ela. Seu entusiasmo foi mais intenso do que toda satisfação que sentira pelas mensagens de suas seguidoras até aquele dia. Era uma jornalista de verdade. Um portal de verdade. Uma entrevista de verdade. Olívia leu e releu as perguntas, pensou em frases bonitas, sua "linha editorial", seus sonhos e objetivos, seus hobbies e atividades. Foi atingida por uma ventania de ideias e queria dizer muitas coisas. Mas como lidar com a segunda pergunta? Ela já havia pensado algumas vezes, quando seus vídeos ultrapassaram as centenas de visualizações, que a popularidade aumentava a chance de ser identificada por algum conhecido. Por mais maquiada que estivesse, mesmo simulando um tom de voz diferente, um amigo poderia reconhecê-la, se olhasse com atenção. Até aquele momento ela havia adiado qualquer decisão a respeito disso. Ela não tinha vergonha do que publicara, a fantasia de Caroline Cólera era principalmente um efeito estético, a incorporação da atitude e da imagem de uma personagem que ela admirava. Mas as palavras que ela escreveu e gravou eram as suas próprias. O sigilo sobre seu nome tinha a intenção principal de evitar amolações. Agora, se o blog aparecesse no portal Planeta, era provável (e ela desejava) que mais pessoas o descobrissem. A chance de ser reconhecida aumentava. Então não seria melhor simplificar tudo e já assumir seu nome verdadeiro, como a jornalista pediu? Não era melhor ser direta, se afinal ela seria descoberta mais cedo ou mais tarde?

Inês bateu à porta do quarto (ela checava frequentemente se Olívia estava acordada, percebia pelo barulho do teclado). Olívia fechou seus emails antes de responder:

- Oi, vó.

Inês entrou, deu um beijo de bom dia nos cabelos da neta. Era seu beijo habitual nas manhãs das férias, Olívia sentada ao computador desde que acordava.

- Já tomou café?
- Já.
- Vamos no mercado comigo?
- Pode ser daqui a pouco? Tipo uma meia hora?
- Tá ótimo. Te esperando lá embaixo.

Olívia queria responder a jornalista antes de sair com a avó, e precisava decidir rápido. Diria seu nome ou não? Não adiantava ruminar todos as possíveis consequências, era mais honesto escolher uma postura que ela se orgulhasse de defender, em qualquer circunstância. E então ela percebeu que não queria dizer o seu nome, não por vergonha ou medo das consequências, mas porque isso a tornaria novamente uma garota comum - aquela Olívia de dezessete anos, que morava desde criança na Granja Viana com sua avó, e terminara o ensino médio em dezembro, e esperava o início das aulas em fevereiro como qualquer outra garota de classe média da sua idade. Ela era essa Olívia, mas isso era tão insuficiente. Sua vida tinha mais importância como Caroline Cólera."

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Por que Olívia escrevia

"As primeiras experiências de discreto sucesso no youtube deixaram Olívia dividida. Era bom ver o interesse dos outros pelo que ela dizia. Seu humor melhorava imediatamente ao ler os comentários, as estatísticas mostrando que o número de visualizações crescia e os acessos a seu blog aumentavam. Seu tédio cotidiano e a sensação de desimportância desapareciam momentaneamente. Ela ficava alerta e ativa, com a sensação emergente de que sua vida tinha um propósito. Porém havia um descompasso entre os vídeos que faziam mais sucesso e os que Olívia considerava melhores e mais autênticos. Seus três primeiros sucessos foram respostas a alguém, reações inflamadas a conflitos de outras pessoas, não temas originais que ela escolheu a partir de suas motivações mais internas. Foi até mesmo fácil para ela se manifestar sobre o vídeo do chip ou a história de Bruna. Olívia teve tantos tormentos íntimos e familiares em sua própria vida, tinha gastado tanta energia emocional remoendo suas angústias, que opinar sobre as relações alheias era simples. Ela tinha mais orgulho dos textos que foram difíceis de escrever, mas nenhum desses despertou tanto interesse.

Olívia escrevia por muitos impulsos e motivos, alguns deles contraditórios. O começo de sua adolescência foi assombrado por fantasias de abuso, manipulação e vingança. Eram seus fantasmas noturnos, seus cenários eróticos, quando estava sozinha e trancada no quarto antes de dormir. Mas durante o dia, nas aulas e em casa com a avó, ela se comportava conforme as regras, raramente brigava ou se rebelava contra alguém. Suas atitudes mais correntes eram o desânimo e o desprezo; não criava conflito porque preferia ignorar o que detestava, convencer a si mesma de que estava imune a tudo. A situação mudou nas férias entre o primeiro e o segundo colegial, no verão de 2008, quando ela e Vinícius começaram a namorar. Os dois não eram apaixonados e a decisão consciente de se unir, falar a verdade e acolher as indignações um do outro ampliou a compreensão de Olívia sobre muitas coisas. Sua raiva interna se dissolveu um pouco, deixou de ser tão secreta. Quando o namoro acabou, ela tinha outras ideias e outra necessidade de expressão. Seu blog absorveu tudo isso.

O blog canalizava toda inquietação de Olívia sobre o mundo e sobre si mesma. Entre os dezesseis e os dezessete anos Olivia questionava tudo, desconfiava de tudo, queria redefinir do zero o que era viver, encontrar um caminho próprio e verdadeiro para uma existência livre da mentira e da banalidade. Ela achava que poderia fazer isso sozinha, observando e pensando, pois somente pessoas muito atormentadas e francas poderiam compreendê-la, e essas pessoas quase não existiam. Quem a compreendia em seu colégio? Ninguém. Quem a compreendeu verdadeiramente entre todas as pessoas que ela conheceu na vida? Ninguém. Vinícius foi quem talvez chegou mais perto. Agora ela precisava se virar sozinha.

Olívia não queria fazer terapia, embora sua avó perguntasse sobre isso a cada tantos meses. Mas depois de quatro anos de sessões semanais, dos 9 aos 13 anos, essa era a última de suas vontades. Na última vez que Inês tocou no assunto, ela explodiu:

- Pára com isso, vó! Eu não quero! De jeito nenhum. Nunca mais. Nem agora nem daqui a um mês nem daqui a seis meses. Não fica me perguntando porque a resposta vai ser sempre não.

Escrever era difícil, mas transformava seu tumulto interno em algo concreto. As frases, uma depois da outra, se articulavam melhor do que suas ideias, e se um rumo aparecia conforme as palavras se ordenavam, esse rumo ficava gravado e não se perdia nas flutuações de ânimo de seu dia a dia."

terça-feira, 17 de novembro de 2015

"Sexo anal dói menos / que ficar solteira"

"Olívia escreveu o texto com a história de Bruna na quinta-feira 29 de outubro, antes de almoço. Naquela manhã ela tivera prova de matemática e acabou rápido. Voltou cedo para casa, caminhando sozinha e organizando as ideias.

Na quinta-feira a avó cozinhava algum tipo de carne. Era o único dia em que comiam carne vermelha em casa, para manterem o nível de ferro. Inês cozinhava e Olívia lavava a louça, era esse o combinado. Olívia deu um beijo na avó e seguiu para o seu quarto, para descansar um pouco antes do almoço. No quarto de portas fechadas, ela ligou o computador e começou a escrever. Falava as frases em voz alta enquanto digitava, para encontrar o ritmo, os pontos de ênfase. Deixou o texto quase pronto, salvou em seu email e desceu para almoçar.

Ela publicou o vídeo na segunda-feira 2 de novembro, feriado de finados. Colocou o link em suas contas no facebook e twitter com uma pequena sinopse: "Conheçam a comovente história do namorado bonzinho que só quer fazer sexo anal, para preservar a virgindade de uma garota de 15 anos." Para ilustrar a abertura do vídeo, Olívia organizou uma seleção de memes sobre o tema: "Sexo anal dói menos / que ficar solteira." "Não há prova de amor maior / que sexo anal." "Aniversários: é quando você sonha com sexo anal, espera por sexo oral, se contentaria com sexo vaginal, e ganha uma punheta preguiçosa enquanto assiste a novela." Nos memes, o sexo anal quase sempre aparecia como prêmio, se o homem ia penetrar a mulher, e como castigo ou zombaria, se fosse o homem a ser penetrado.

A primeira parte da história de Bruna foi muito bem recebida. Dezenas de garotas agradeceram por ela abordar aquele assunto e pediram ansiosamente a continuação, sua opinião, o fim da história. Nos comentários as seguidoras de Caroline interagiam entre si, opinando e discutindo umas com as outras sobre virgindade, namorados sacanas, dificuldades sobre quando transar ou não. Olívia aproveitou a fase inspirada e publicou, na quinta-feira da mesma semana, a segunda parte da história. O segundo vídeo teve alcance dobrado e atingiu 4.000 visualizações em dez dias.

Esse era o primeiro vídeo em que Olívia se colocava com conselheira de suas seguidoras. Nas primeiras gravações, em agosto, ela se expressava isoladamente, como a adolescente desconhecida que era, tentando expor sua opinião minoritária e desvalorizada. Mas ela adquiriu uma nova segurança depois que seu canal ganhou centenas de assinantes, e se sentiu confortável para aconselhar as garotas que pediam sua ajuda. Era apenas por pudor que ela dizia, no primeiro vídeo, que talvez fosse muito jovem para orientar alguém. Na verdade ela se sentia capaz e cada vez mais confiante conforme aumentavam os emails e comentários de fãs com problemas íntimos e sentimentais.

Em três meses, do final de setembro a meados de dezembro, Olívia deixou de ser uma adolescente isolada que escrevia sozinha em seu quarto, e transformou-se numa formadora de opinião, numa jovem estrela nascente da web. Na virada do ano de 2010, seu canal tinha 1.632 seguidores e a soma das visualizações de todos os seus vídeos chegou a 98 mil. Ela permanecia anônima. Sua avó, sua ex-melhor amiga, seu ex-namorado e os colegas da escola ainda não tinham notícias do que acontecia."


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

"Garotas gostam de sexo anal?", por Caroline Cólera

29 de outubro de 2009

"Eu recebi um email com uma história chocante e eu fiquei o dia inteiro com isso na cabeça pensando no que dizer. É de uma garota que mora em Rio Claro e gostou dos meus vídeos, por isso ela me mandou a história dela achando que eu poderia ajudar. Ela tem quinze anos. Na verdade ela não  mora em Rio Claro, é uma outra cidade do interior de São Paulo, mas eu troquei os nomes porque essa é uma história muito íntima e eu prefiro que ninguém possa desconfiar da identidade dela.

Eu tenho dezessete anos. Eu nem sei se eu posso ajudar uma garota de quinze. Quer dizer, eu tinha quinze anos ontem, o que eu sei mais do que ela? Mas eu vou tentar dizer alguma coisa porque às vezes só de uma pessoa te ouvir e tentar te entender já ajuda um pouco.

Então. Vou inventar um nome pra essa garota. Eu vou chamar ela de Bruna. Mas só inventei o nome e a cidade, toda a história é verdadeira, foi a Bruna que escreveu e me contou.

A Bruna tem um namorado desde os catorze anos. Eu vou chamar ele de Lucas. Ele tem vinte anos e é o segundo namorado dela. Antes ela namorou um garoto da escola, mas depois ela conheceu o Lucas, que é amigo dos primos dela. Ela diz que eles são tipo Agroboy, têm uma boa vida, fazendas, carrão tipo pick-up, gostam de rodeio, essas coisas. E ela disse que na escola dela é muito comum as meninas namorarem um cara mais velho. É tipo um orgulho ter um namorado de 20, 25 anos.

Então a Bruna começou a namorar o Lucas, ela tava super feliz. Ela disse que era semi-virgem. Quer dizer, tinha feito umas brincadeiras mas nunca penetração de fato. E no começo com o Lucas também foi assim, ele disse que respeitava muito ela, que era uma menina de família e tal.

Depois que o namoro foi esquentando, eles foram fazendo cada vez mais coisas. A Bruna não disse exatamente o quê, mas eles começaram a ir num drive in e ficavam se pegando no carro do Lucas. Até aí tecnicamente ela ainda era virgem, quer dizer, ainda não tinha penetração. Tudo isso ela fazia escondido dos pais dela. Ela dizia que ia pra um barzinho, alguma balada, mas eles ficavam um tempo no bar e depois antes de voltar pra casa eles paravam no drive in.

Um dia o Lucas disse que queria fazer uma noite romântica. Ele deu um presente pra ela e eles foram num motel de verdade, no sábado à noite. Como sempre, com aquela história de dizer para os pais que iam num barzinho, e iriam voltar lá pela meia-noite. A Bruna nunca tinha ido num motel, mas ele disse que era só usar bastante maquiagem, que ninguém ia desconfiar que ela era menor de idade. Ela fez isso e ninguém pediu documento mesmo.

No quarto o Lucas fez uma super declaração de amor, disse que ele sempre sonhou em conhecer uma garota como ela, que ela era a mulher da vida dele, e ela estava super feliz e apaixonada. Ela achou que nesse dia ela ia perder a virgindade. Que ele tinha feito tudo aquilo pra ser um momento especial pra ela. Eles começaram a se beijar e tal e quando ela achou que ia acontecer, ele disse que queria proteger ela, que queria proteger a virgindade dela, então ele ia fazer de um jeito que ela continuaria virgem.

Ela não entendeu direito o que estava acontecendo. Ela achou que ele estava só se esfregando na bunda dela, que ele ia gozar daquele jeito meio por fora. Ela foi deixando porque ela estava apaixonada e só se deu conta quando começou a doer. Mesmo nessa hora ela não entendeu direito, ela achou que entendeu, mas não acreditava que ele pudesse fazer isso, então ao mesmo tempo ela tentava achar que era outra coisa, que não era aquilo.

Depois dessa noite ela disse que não queria mais ir pro motel com ele. Mas ele respondeu que se ela não fosse ele ia terminar o namoro. E ele ia contar para os primos e os irmãos dela tudo o que ela tinha feito. Depois ele pediu desculpas, chorou, disse que estava arrependido. Que só disse aquilo porque ficou desesperado e achou que ela queria terminar com ele. Então eles continuaram indo para o motel e transando daquele jeito. Já faz dois meses que isso está acontecendo.

Ela diz que não consegue contar essa história pra ninguém que ela conheça. Que as amigas dela acham que o Lucas é o namorado perfeito. Ela tem vergonha de contar e elas digam que é culpa dela.

Ela não sabe o que fazer, porque ela gosta dele. Ele é carinhoso, elogia ela, dá presentes. Todos os amigos dela gostam dele, e as amigas dela namoram o caras da mesma turma, eles são todos amigos. Ela não quer terminar o namoro.

Ela acha que seria melhor eles transarem normal, mas ele diz que é muito perigoso. Que ela pode engravidar. Que a camisinha pode estourar. Que se ela tomar pílula ela vai engordar e a mãe dela vai descobrir. Então eles continuam fazendo daquele jeito e ela já se acostumou. Dói um pouco mas ela pediu pra ele ir devagar, então ela já sabe como é. Ela às vezes até gosta um pouco.

Mas ela acha que é errado e queria saber a minha opinião.

Eu respondi pra ela por email.

Eu contei essa história toda aqui porque talvez isso aconteça com outras garotas.

Na semana que vem vou fazer outro vídeo, contando uma história que aconteceu comigo.

A minha opinião é muito simples. Esse Lucas é um sacana. A conversa dele é um papo furado. Bruna, termina com esse cara. E se ele contar pra todo mundo, sai dessa cidade horrorosa e vai morar em outro lugar. Nem que seja um colégio interno.

Você tem quinze anos. Você vai encontrar mil pessoas na sua vida. Esse cara é um mentiroso e tá te enganando pra você fazer o que ele quer.

Talvez você goste dele, mas não vale a pena gostar de uma pessoa assim.

Na próxima semana eu vou tentar explicar melhor o que eu penso.

Em teoria eu não sou contra sexo anal.

Mas não com essa chantagem e esse papo furado e esse monte de mentira que esse cara tá contando."