terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Livre dos clichés ideológicos

Tira do Laerte hoje na Folha.

Intimamente feliz, acredito ser a resposta elegante às barbaridades escritas pelo sr. Pondé na Ilustrada.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Os romances são inventados

Antigas idéias do século XVIII: os romances são inventados, então inúteis; os romances são inventados, assim mentirosos, e perigosos.

NaNoWriMo

A fé na produtividade gera monstros.

National Novel Writing Month is a fun, seat-of-your-pants approach to novel writing. Participants begin writing November 1. The goal is to write a 175-page (50,000-word) novel by midnight, November 30.

Valuing enthusiasm and perseverance over painstaking craft, NaNoWriMo is a novel-writing program for everyone who has thought fleetingly about writing a novel but has been scared away by the time and effort involved.

Because of the limited writing window, the ONLY thing that matters in NaNoWriMo is output. It's all about quantity, not quality. The kamikaze approach forces you to lower your expectations, take risks, and write on the fly.

Make no mistake: You will be writing a lot of crap. And that's a good thing. By forcing yourself to write so intensely, you are giving yourself permission to make mistakes. To forgo the endless tweaking and editing and just create. To build without tearing down.

As you spend November writing, you can draw comfort from the fact that, all around the world, other National Novel Writing Month participants are going through the same joys and sorrows of producing the Great Frantic Novel. Wrimos meet throughout the month to offer encouragement, commiseration, and—when the thing is done—the kind of raucous celebrations that tend to frighten animals and small children.

In 2008, we had over 120,000 participants. More than 20,000 of them crossed the 50k finish line by the midnight deadline, entering into the annals of NaNoWriMo superstardom forever. They started the month as auto mechanics, out-of-work actors, and middle school English teachers. They walked away novelists.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Eu, meus irmãos e nossos cachorros

Minha amiga Sissi lembrou que em 2010 completamos outro ciclo no horóscopo chinês (ou seja, fazemos 36 anos).

Talvez por isso eu ande nostálgica. Não sobre o mundo em geral, mas sobre figuras que fui e costumo esquecer.



A foto deve ser de 1986 ou 1987.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Escrever, escrever

Ainda sobre escrever, um artigo de Francisco Bosco na revista Confraria:

"É conhecida a declaração de Valéry segundo a qual o autor de Variété jamais escreveria um romance porque não poderia escrever uma frase como “A Marquesa saiu às cinco da tarde”. O que significa uma frase como essa em um romance? Grande parte dos romances contém acontecimentos, encadeados numa determinada lógica temporal e num espaço definido; com efeito, para Barthes um romance é feito de “momentos de verdade” - a “verdade do afeto”, como a morte da avó do narrador na Recherche proustiana, ou a morte do velho príncipe Bolkonski em Guerra e paz -, e todo um trabalho de escrita como que apenas preparatório (dilatatório, adiador) para esses momentos de alta intensidade. Assim, a frase que tanto irritava Valéry pode ser considerada como sendo parte da composição do romance, uma parte como que preparatória, necessária, nesse tipo de romance, para o surgimento das passagens de alta intensidade, os momentos de verdade de que fala Barthes.


Mas - o que é escrever? Escrever “A Marquesa saiu às cinco da tarde” é escrever? Escrever é necessariamente escrever? Ou há o escrever e o escrever, como duas práticas bastante distintas, abrigadas pelo mesmo significante? Como se sabe, o citado Barthes propôs uma distinção, fecunda e pertinente a meu ver, entre “escritores” e “escreventes”; esta distinção se fundamenta principalmente no caráter intransitivo da atividade do escritor, que a diferencia da prática transitiva, que tem como finalidade uma intervenção concreta no mundo, do escrevente. Mas há outra possibilidade de se fundar uma diferença no interior do escrever. Vejamos.

(...)

Do outro lado, no caso das estruturas mais visivelmente enrigecedoras, é preciso um olhar complexo: pois a partitura ou o passo são instâncias-fármacon da experiência artística: a um tempo possibilitam e impedem, propiciam e paralisam, a depender da capacidade de apropriação, de liberdade que possui o artista. Assim, às vezes um solo de jazz pode ser um mero lugar-comum, enquanto uma interpretação de Bach pode ser extremamente livre; alguém pode dançar samba no pé sem nenhum “suingue”, ao passo que se pode dançar um samba de gafieira entrecortado pelo engano, a malandragem, o improviso. O lance decisivo, portanto, é a apropriação, o gesto de liberdade que instaura o território da imaginação (do corpo, dos ouvidos, dos pés, dos quadris).


Como tocar ou dançar, também escrever, o verdadeiro escrever, acontece quando se está no território da imaginação e da liberdade. Chamo aqui de imaginação uma visualização mental - um cinema-cabeça - que tem como resultado a produção de uma alteridade: imaginar é produzir aquilo que não se é, é surpreender-se com o próprio pensamento, é pôr o pensamento em estado de alteridade. Assim, a imaginação pode perfeitamente ser uma imaginação teórica: é possível ver conceitos, e é isso que os grandes filósofos e teóricos fazem."

sábado, 26 de dezembro de 2009

Pirata da perna-de-pau

Raramente procuro vídeos ou músicas entre usuários - digamos assim, pra não usar o termo "ilegal". Sempre compro DVDs oficiais porque uso em aula, acho feio chegar com cópias piratas. Quanto a música, tenho preguiça. Meus gostos são específicos e os arquivos demoram horas pra baixar.

Mas alguns dias atrás, no ócio das férias, resolvi visitar o Pirate Bay, imaginando se encontraria algum capítulo de novelas antigas, como Beto Rockfeller.

Achei algo quase melhor: um documentário produzido pela TV Cultura em 1979, chamado justamente "História da telenovela". Assisti partes dele no Centro Cultural SP, que tem uma cópia no arquivo.

Há alguns meses liguei para a TV Cultura perguntando se poderia comprar uma cópia. Eles informaram que não têm os direitos de venda de todas as imagens, por isso (naturalmente) não vendem.

OK, faz parte do trabalho de um pesquisador gastar horas em bibliotecas e acervos, consultando material que não pode ser emprestado. Mas ter uma cópia facilita tanto!

Fiquei dois dias inteiros baixando o arquivo de 690 MiB, que descia a 14 kB por segundo. Sem saber se iria funcionar.

Descobri inclusive a diferença entre MiB e MB, na Wikipedia.

Quando finalmente o arquivo se completou, meu computador não lia. Lá fui baixar atualizações do RealPlayer, mas a imagem tinha algum tipo de código e ficava alterada.

Finalmente lembrei de converter para um arquivo mais simples, usando o AnyVideoConverter. Funcionou!

O documentário foi reprisado nos 40 anos da TV Cultura, o que explica seu reaparecimento repentino.

Se alguém se interessar (secretamente) posso compartilhar.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Adeus às aulas

Cristóvão Tezza comentou seu pedido de demissão da UFPR, na Gazeta do Povo (jornal de Curitiba):

- - -

(...)

"Antes que pensem que enlouqueci – nenhuma cultura é mais avessa ao risco do que a brasileira, e eu me incluo nela – es­­clareço que há em tudo um cálculo cuidadoso, típico da cidade que me educou, em que ponderados custo e benefício, o saldo será uma imensa felicidade, ainda que mais pobre, se é que al­­guém pode se permitir essa so­­berba. Em suma, não gostaria de entregar ao Estado (a essa altura da vida, só a ele, porque como aca­­dêmico já esgotei meus projetos e minha paciência) os dez anos que ainda me faltam para merecer aquela aposentadoria gorda do estamento federal. Pre­­firo gastar esses anos comigo mesmo, enquanto tenho tempo.

(...)

Calculo que passaram por mim cerca de oito ou nove mil estudantes nessas duas décadas e meia, todos sempre com a mesma idade; só eu envelheci. Devo ter lido mais de 100.000 textos escritos por eles, o que sempre deixou meu ouvido e minha intuição sintonizados com a linguagem contemporânea, uma experiência inestimável para quem escreve. Sempre gostei de dar aulas, e acho que os alunos perceberam isso. Manti­­ve-me anos a fio mais um mestre-escola que um pesquisador, e graças à generosa tolerância de meus colegas, consegui escapar, fugindo sorrateiro pelos corredores, de cargos burocráticos infernais, o que me permitiu escrever os livros que escrevi desde Trapo. A universidade foi uma sólida e boa companhia que agora chega ao fim.

Diz a lenda – que minha vaidade ajudou a propagar – que saio da universidade para me dedicar a escrever. Não contem para ninguém, mas o que eu quero mesmo é curtir o ócio, en­­quanto ainda tenho saúde para desfrutá-lo."

- - -

Aqui o texto completo.