sábado, 6 de setembro de 2008

Blocos de plástico

Depois do sofrimento da mãe, espero que as cenas seguintes ganhem sentido porque não acontece nada: justamente pela ausência, o vazio.

- - -

"A lembrança de Juliana me voltava de vez em quando, descendo o elevador no prédio de Paula, no fim da tarde. Eu atravessa o jardim em direção à nossa portaria e pensava em bater à sua porta. Mas sua presença agora estava indissoluvelmente ligada à imagem de minha mãe chorando e por isso, acredito, nunca voltei a procurá-la. Subia direto pelas escadas com medo de encontrá-la por acaso. Tinha saudades de tomar lanche em sua casa. A cozinha de seu apartamento, as mãos de sua mãe cortando o pão ao meio e passando margarina, tudo se trasformou numa memória distante e inalcansável de carinho.


Não me lembro exatamente, mas acho que sim. Foi nesse período que Diego começou a montar carrinhos de Hering Rasti. Sentava no chão ao pé do sofá, ficava horas separando peças, ordenando cores, encaixando, desmontando e reencaixando blocos de plástico. Eu entrava na sala e encontrava a mãe diante da televisão, Diego no chão, os dois em silêncio.

Parada entre a mesa e o sofá, em pé olhando pra eles, eu percebia como terrível novidade a distância física entre nós: a distância física que realmente existia. Os poucos metros que nos separavam pareciam finalmente metros reais, visíveis, como se o espaço fosse maciço e eu pudesse senti-lo com os olhos."

3 comentários:

Ismar Tirelli Neto disse...

"como se o espaço fosse maciço e eu pudesse senti-lo com os olhos". ah. grande momento, grande momento.

e obrigado. :-)

esteja à vontade,
I.

Rachel Souza disse...

O último páragrafo tá lindo,lindo!!

Anônimo disse...

Ficou bonito.Muito mesmo.