quinta-feira, 15 de maio de 2008

Trancinhas

Hoje comprei um penhoar.

Alguns meses atrás, lendo "À sombra das raparigas em flor", estranhei uma passagem em que se descrevia a sra. Swann vestindo um. Como o texto era traduzido, pensei que havia algum erro... ela era elegante demais para isso. Perguntei a uma amiga especialista em moda, que me explicou o que era o "robe-de-chambre" no século XIX.

Nenhuma relação com essa espécie de roupão deselegante que as donas-de-casa usavam nos anos 60.

De todo modo, hoje vi um desses numa lojinha minúscula e não resisti. O tecido não é de espuma, e não tem flores. É azul de algodão. Uma perversão estética absolutamente pacífica e macia.

Tenho uma obsessão desde criança com as roupas da minha memória. Com 9 anos eu sonhava encontrar um mágico qualquer que fizesse reaparecer, me servindo novamente, as roupas preferidas de quando eu tinha 2, 3, 5 anos: um macacão de jeans desbotado, um vestido vermelho de bolinhas brancas, uma camiseta listrada de marinheiro.

Uma amiga dizia: é impossível não gostar de alguém que use macacão e trancinhas.

Checando a palavra na internet, achei o seguinte trecho:

Regrets sur ma vieille robe de chambre
ou avis à ceux qui ont plus de goût que de fortune

par Denis DIDEROT

"Ma vieille robe de chambre était une avec les autres guenilles qui m'environnaient. Une chaise de paille, une table de bois, une tapisserie de Bergame, une planche de sapin qui soutenait quelques livres, quelques estampes enfumées, sans bordure, clouées par les angles sur cette tapisserie ; entre ces estampes trois ou quatre plâtres suspendus formaient avec ma vieille robe de chambre l'indigence la plus harmonieuse.

Tout est désaccordé. Plus d'ensemble, plus d'unité, plus de beauté."

3 comentários:

Anônimo disse...

Saudades tb!

maria claudia disse...

"uma perversão estética absolutamente pacífica e macia"
nossa! esse penhoir deve ser tudo de bom.
sá, gosto de seus textos como esse, assim, fazendo um comentário de algo vivído, como um diário, meio sem compromisso. fica livre, tranquilo, e dá gosto ler. são meus prefiridos

Unknown disse...

a beleza em desacordo. como o penhoar... bjs