sábado, 8 de agosto de 2015

As maravilhas da revisão

Decidi revisar o tom da narradora do livro de Melissa, depois de alguns amigos comentarem que seu tom distante, como se não se envolvesse com os fatos que narrava, causava incômodo.

Quando comecei o livro, estava tão preocupada em tocar a história para frente, que nem percebi isso. Imaginei uma narradora determinada e proativa, que ia em frente sem choramingar muito com nada. (uma narradora que me ajudaria a levar o livro adiante)

Agora é um pouco mais fácil dar nuance a isso (não muito fácil, mas um pouco sim, se comparado a começar do zero).

Os dois primeiros parágrafos revisados ficaram assim:

"Conheci Melissa algum tempo depois dos meus trinta anos, quando minha vida com Agnes caía aos pedaços e eu tentava bancar a conquistadora em sites de encontro na hora do almoço. A cidade é grande e eu queria apenas conhecer alguém novo, cuja idade, origem e história fossem totalmente diferentes dos meus. Mesmo que fossem apenas vinte minutos enquanto ainda estava sozinha na sala, na escola onde trabalhava, depois de almoçar rápido no restaurante por quilo, a fantasia momentânea de experimentar uma vida em branco como se renascesse em outro país era uma das poucas alegrias que eu tinha na época.

Existem muitos caminhos para conhecer pessoas pela internet. Eu imaginava otimista com uma adolescente que poderia encontrar alguma garota simpática, que ouviria compreensiva meus lamentos sobre meu casamento em crise, e sorriria porque no seu lado do mundo não existiam problemas, ela me mostraria que a vida pode ser mais leve, e nós transaríamos loucamente por uma noite sem compromisso, e eu voltaria para casa tranquila e relaxada e tudo com Agnes se resolveria. Criei um email alternativo porque Agnes sabia a senha de meu email pessoal e seria um drama trocar essa senha que ela sabia que eu sabia que ela sabia. O site de encontros mandava sugestões de perfis com as características que eu tinha selecionado e quando eu seguia os links apareciam outras fotos no canto da tela, como em lojas virtuais: "quem olhou este perfil também se interessou por estes". Meu perfil dizia: "Tenho 32 anos, casada com uma mulher, em relacionamento aberto. Gosto de natureza e esportes. Gostaria de encontrar uma amiga para sair de vez em quando."

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Antes, era assim:

"Conheci Melissa algum tempo depois dos meus trinta anos, num período em que não tinha expectativas precisas. Ainda morava com Agnes e olhava anúncios de um site de encontros na hora do almoço. A cidade é grande e eu queria apenas conhecer alguém novo, cuja idade, origem e história fossem totalmente diferentes dos meus. A alternativa de uma vida em branco, como em outro país.

Existem muitos caminhos para conhecer pessoas pela internet. Eu experimentava as possibilidades de abertura: achar alguma garota simpática, paquerar um pouco, transar e depois eventualmente dar um sumiço. Nada que exigisse muita energia. Criei um email alternativo, usando o nome de um grupo feminista da década de 1960. O site de encontros mandava sugestões de perfis com as características que eu tinha selecionado e também permitia navegação aleatória, em fotos que apareciam no canto da tela, como em lojas virtuais: "quem olhou este perfil também se interessou por estes". Meu perfil dizia: "Tenho 32 anos, casada com uma mulher, em relacionamento aberto. Acordo cedo, gosto de natureza e esportes. Gostaria de encontrar uma amiga para sair de vez em quando."