terça-feira, 26 de agosto de 2014

Alguma insistência

"Quando voltei do trabalho, na quarta-feira à noite, o apartamento estava diferente. A sala parecia mais limpa, mas não percebi de imediato o que acontecera. Apenas no quarto entendi. As portas do guarda-roupa estavam abertas e as prateleiras que tinham as coisas de Melissa agora estavam vazias. Voltei para a sala e verifiquei a estante e o móvel da TV. Ela havia levado seus livros, cadernos, todos os papéis e objetos. A paisagem rural pintada sobre veludo escuro também tinha ido.

Então, é isso. Por alguns instantes foi só isso que pensei. Pronto. Acabou. Então foi assim que acabou.

Logo depois, entre irritada e defensiva, eu quis ouvir a voz de Melissa dizendo tudo claramente. Levar as coisas enquanto eu estava fora não era suficiente. Faltavam frases completas, com sujeito, verbo e predicado, para encerrar tudo de uma vez.

Liguei para o celular de Melissa mas ela não atendeu. Procurei na agenda os outros números possíveis: os pais em Santa Bárbara, Camila, tia Solange. Comecei pela amiga, calmamente:

- Oi, Camila. Você sabe da Melissa? O celular dela não está atendendo.

Camila não sabia, fazia tempo que não se falavam. Telefonei para os pais, com mais esforço para soar natural e não indicar problemas:

- Aqui é a Fernanda, amiga da Melissa. Ela por acaso deixou algum recado com vocês? Não estou conseguindo ligar para o celular dela.

Mas ela também não dera notícias recentes aos pais.

Pensei finalmente que devia insistir no celular. Se ela não atendeu porque reconheceu meu número, merecia alguma insistência. Liguei três vezes em sequência, e nada. Esperei dez minutos e liguei novamente. Depois outra vez, em meia hora. E repeti uma hora depois. Soaram todos os toques até o fim. Finalmente deixei um recado de voz, e mandei uma mensagem de texto:

"Melissa, ligue pra mim. Só quero conversar, na paz."

Ela ligou quarenta minutos depois."

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Caminhos errados

"Tentei pensar em alguma versão alternativa de minha história com Melissa, buscando ver as coisas do ponto de vista dela, imaginando o que ela sentiria que eu não tivesse percebido. Se eu ofereci minha casa, patrocinei nossos passeios e noitadas, o que ela me deu em troca que não agradeci?

Mas troca e agradecimento talvez fossem os caminhos errados. Lembrei da época em que ela quis conversar sobre nossa relação, pouco antes de ficar deprimida. A longa conversa em que pediu várias vezes que eu explicasse meus sentimentos, se a amava de verdade, ou quanto a amava. Sem outras referências para interpretar seu comportamento, eu a julguei por mim mesma. Enxerguei uma garota insegura e carente, que havia se submetido a penúria em sua vida amorosa anterior, amando muito e recebendo pouco.  

Eu errei, provavelmente, julgando que ela agia com eu. Carência não explica tudo. Pensei que Melissa quisesse ouvir "eu te amo" porque, frágil e insegura, sentia necessidade de ser amada. Mas poderia haver outros motivos. Uma mulher vaidosa também precisa de "eu te amo" para confirmar seu domínio, e essa possibilidade havia me escapado."

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Algum melodrama

"Agora que Melissa estava formada e trabalhando, não havia mais motivo para eu pagar as contas sozinha. Também havia pouca razão para dividirmos o quarto se quase não transávamos. Eu precisava falar claramente sobre os dois problemas mas era difícil decidir por onde começar. Muita coisa para discutir de uma só vez. Tocar no assunto do quarto era praticamente sugerir a ruptura, pois meu apartamento não tinha espaço para duas pessoas independentes. Eu ainda tinha pouca energia para ser tão direta. Talvez falar das contas fosse um modo mais brando de preparar o terreno.

Esperei um horário tranquilo durante o fim de semana, quando estivéssemos descansadas. Queria ser delicada e gentil. Depois de meses apoiando a recuperação de Melissa, seria injusto comigo, por uma demanda razoável, passar por mesquinha ou egoísta. Numa manhã de sábado, depois do café, comecei calmamente:

- Melissa, eu queria conversar uma coisa com você.

Ela assentiu, disposta a ouvir:

- Diga.
- Acho que podemos combinar melhor as coisas aqui em casa, agora que você está mais organizada. Eu vou sair do meu emprego no final do mês, como eu te disse. Vou começar o mestrado e pedir a bolsa, talvez demore dois ou três meses para aprovar. Então preciso controlar melhor os gastos.
- Sim.
- Eu pensei em algumas opções, para a gente dividir as contas. Entre o condomínio, a faxineira e a internet... pensei que podemos fazer uma divisão que seja justa para nós duas.

Melissa ficou quieta por um instante. Depois disse:

- Eu já ajudo com o supermercado.  
- Eu sei. Mas as outras coisas... são 250 reais de condomínio, 150 para a faxineira, 100 de internet e TV a cabo. A gente poderia dividir meio a meio.
- Meu salário é 900 reais. Com as contas e a comida, não vai sobrar nada.
- Mas é justo, não é? Nem tem aluguel. Quando eu me formei, eu pagava as contas e um aluguel.
- Você ganhava mais do que eu.
- Não tanto assim.
- Eu não sei o que te responder, Fernanda. Não estava esperando por isso.

Melissa foi para o quarto e logo depois voltou vestida para sair. Disse que ia passar o dia fora, precisava de um tempo sozinha.

Eu não esperava essa atitude irritada, meio rancorosa. Melissa sabia que eu não era rica e trabalhava bastante pra ganhar o que tinha. Quando me preparava para essa conversa, imaginei uma reação culpada, algum melodrama. Melissa pediria desculpas por não ter percebido antes ou talvez, se quisesse prolongar sua situação confortável, fingiria de coitadinha, tentaria despertar minha pena. Mas, sem nenhum sinal de remorso, ela apenas ficou ofendida, como se fosse ela a me prestar um favor sem reconhecimento, e não o contrário."

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Amizade fraterna

"Saímos para jantar, eu e Patrícia, depois de algum tempo sem nos encontrarmos pessoalmente. Ela estava bronzeada, um pouco mais magra, com o cabelo mais curto.

- Ainda estou me acostumando com a rotina nova. A casa foi pensada para férias, para entrar e ficar. Tem muito trânsito para chegar no restaurante no verão. Teve dia que passei cinquenta minutos no carro. Mas agora que a temporada terminou, estou conseguindo nadar no mar três vezes por semana.

Ela perguntou minhas novidades e contei sairia da Escola da Fonte no final daquele mês.

- Quero ficar pelo menos até o fim do ano sem trabalhar, só estudando.
- Acho isso uma bobagem. Você consegue fazer o curso e trabalhar ao mesmo tempo.
- Eu mereço um ano sabático, não mereço?
- Pra quê? Você está muito estressada ou algo assim?
- Na verdade, não. Só quero um tempo para pensar.
- Você não precisa de oito meses para pensar.

Eu insisti no meu projeto:

- Bem, Patrícia, é um plano. Trabalho desde os dezoito anos. Posso parar um tempo, não tem nenhum drama nisso.
- Acho um desperdício. Você vai viver com uma bolsa da 1.800 reais? É ridículo.
- Eu tenho dinheiro guardado.
- Tem porque trabalhou. Agora é sua idade de ganhar dinheiro.  

Patrícia expressava suas opiniões com um tom de segurança muito particular, com bom humor e ao mesmo tempo levemente impaciente com divagações. Ela achava que eu deveria comprar outro apartamento para alugar. Dois apartamentos alugados, além daquele em que eu morava, era uma meta razoável de patrimônio.

- Talvez você tenha razão - eu disse. - Vamos ver o que acontece.

Encerrado temporariamente o assunto trabalho, contei a Patrícia sobre o encontro com Laura.

- Agora estou vendo algum interesse nesse mestrado - ela disse. - E a sua hóspede, como anda?

Quando estávamos somente nós duas, Patrícia não se referia a Melissa como minha namorada. Dizia mocinha, garota, universitária. Junto a Heloísa mantinha-se neutra, porém comigo deixava claro seu desdém. Era possível que Patrícia tivesse alguma atração por mim, eu não sabia exatamente. Ela nunca manifestou nenhuma intenção de trair Heloísa, nem eu ouvi histórias a esse respeito. Eu acreditaria que sua amizade era fraterna, se não fosse o desprezo recorrente pelas mulheres com quem eu saía. Ela respeitou Bebel em sua época, e respeitava Agnes, embora cansada do nhe-nhe-nhem de nossa crise conjugal. Talvez se imaginasse na fila de mulheres mais velhas em minha vida amorosa. Ou talvez tais relações satisfizessem sua fantasia, por empréstimo.

Falei um pouco de meu desencanto com Melissa.

- Uma hora ou outra vou ter que resolver isso. Mas que preguiça de gastar energia pra terminar uma coisa que nem começou.
- Saia dessa com elegância. Heloísa gosta da menina.
- É. Eu sei."

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Estimulação autoaplicada

"Fazia pouco mais de um ano que eu reencontrara Melissa depois da minha separação. Ela se mudara oficialmente para meu apartamento havia dez meses. Em mim, o resultado do tempo e de tudo o que aconteceu foi um distanciamento. Às vezes a convivência torna as pessoas mais próximas e amadas. Às vezes não.

A conclusão do curso na faculdade, apesar das tensões, criou temporariamente um objetivo comum. Depois sua depressão, por ser um novo problema, alimentou também uma nova expectativa de resolução. Passadas as duas circunstâncias, não restou outro motivo para eu desejar Melissa por perto.

Eu não tinha mais vontade de transar com ela. Fisicamente ainda sentia desejo, mas não do jeito que ela aceitava fazer, e perdi a energia para negociar. Algumas vezes me masturbava com a fantasia de forçá-la em pé contra a parede, contra sua vontade, comer sua bunda. Às vezes com cinta, às vezes com os dedos, todos os dedos. Eu tinha muita prática com fantasias e masturbação e ultrapassara havia tempo o estágio de fantasiar por covardia. Não havia nada em sexo que eu desejasse e ainda não fizera. Depois de uma certa idade, as fantasias de estimulação autoaplicada eram geralmente motivadas por preguiça."