Leio agora a autobiografia de Dias Gomes, Apenas um subversivo (Bertrand Brasil, 1998). Eu não me interessava muito por seu trabalho, por cansaço do regionalismo (O pagador de promessas, que preguiça). Mas a biografia é ótima: sujeito inteligente e bem-humorado.
Também gostei dos roteiros de O Espigão, de onde saíram as pérolas abaixo:
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"Marcito Camará - Pois é esse o meu drama, doutor. Eu já fui a vários analistas... Sei que isso não é normal... por mais bonita, espetacular que seja a garota, eu só consigo sentir interesse nos primeiros dias... Uma semana, no máximo, depois... é como se fosse uma estátua de pedra diante de mim. Na primeira semana, fico alucinado! Depois... sou um fracasso! Tenho então que inventar mil desculpas para fugir dela... e arranjar outra, por quem me apaixono perdidamente! ... por um semana. E volta a acontecer a mesma coisa... "
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Descrição de Carlinhos, filho de Urânia Camará:
"É um hippie no sentido saudável. Sua contestação é romântica e não envolve apelo a drogas. É apenas no trajar e no comportamento. Uma reação à sociedade industrializada. Roupa usada, remendada, cabelos compridos, maneiras anti-convencionais e ausência absoluta de díalogo com a mãe e os tios."
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"Helka - Pois este, meu querido, é o apartamento de Lauro Fontana. E essa é a mulher dele. Se você está pensando que ele deu o golpe do baú, então você é um gênio da perspicácia... de fato, que pode levar um homem como Lauro a casar-se com uma mulherzinha insignificante e feia como Cordélia, senão o dinheiro? O pai dela enriqueceu explorando motéis suspeitos na Barra da Tijuca, como você sabe..."
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E o final melancólico da trama:
"Em câmera lenta, as paredes começam a ruir. Vários takes. O velho coqueiro de Martiniano também vem abaixo. E outras árvores também são derrubadas. Lauro, trepado numa elevação assiste, sorrindo, emocionado.
CORTA para novas árvores vindo abaixo (repetir várias vezes).
LEO (Voz gravada) - O importante não é a árvore, importante é o homem. Mas só no dia em que o homem aprender a respeitar a árvore é que ele se terá tornado realmente humano. Aí começará a sua verdadeira história.
Segue o show no slow motion, agora alternando parques e árvores que caem com panorâmicas verticais e ascendentes de arranha-céus, terminando na massa de cimento armado de Copacabana.
Sonofonia - Sobre o côro (ou trecho Vagneriano)
SLIDE - FIM"
terça-feira, 29 de junho de 2010
terça-feira, 22 de junho de 2010
Problemas no primeiro ato
Continuando a matéria de Amir Labaki (FSP, 19/11/1999):
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"De forma dispersa, Billy Wilder distribui pelo livro alguns de seus segredos de roteirista premiadíssimo. Uma das raras sacadas editoriais de Cameron Crowe é reuni-las na miscelânea de declarações do posfácio. Eis, assim, os 11 mandamentos de Wilder.
1. O público é instável.
2. Agarre-o pela garganta e não o deixe fugir.
3. Crie uma clara linha de ação para o personagem principal.
4. Saiba aonde você está indo.
5. Quanto mais sutil e elegante for a forma pela qual você camufla seus pontos de desenvolvimento da trama, melhor escritor você será.
6. Se você tem um problema com o terceiro ato, o problema verdadeiro está no primeiro ato.
7. Uma dica de Lubitsch: deixe o público somar dois mais dois. Vai amá-lo para sempre.
8. Em narrações em "off", tenha cuidado para não descrever o que o público já está vendo. Acrescente ao que ele está vendo.
9. O evento que acontece no fim do segundo ato desencadeia o fim do filme.
10. O terceiro ato deve ser construído, construído, construído em ritmo e ação até o último evento, e então...
11. ...É isso. Não vagabundeie."
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"De forma dispersa, Billy Wilder distribui pelo livro alguns de seus segredos de roteirista premiadíssimo. Uma das raras sacadas editoriais de Cameron Crowe é reuni-las na miscelânea de declarações do posfácio. Eis, assim, os 11 mandamentos de Wilder.
1. O público é instável.
2. Agarre-o pela garganta e não o deixe fugir.
3. Crie uma clara linha de ação para o personagem principal.
4. Saiba aonde você está indo.
5. Quanto mais sutil e elegante for a forma pela qual você camufla seus pontos de desenvolvimento da trama, melhor escritor você será.
6. Se você tem um problema com o terceiro ato, o problema verdadeiro está no primeiro ato.
7. Uma dica de Lubitsch: deixe o público somar dois mais dois. Vai amá-lo para sempre.
8. Em narrações em "off", tenha cuidado para não descrever o que o público já está vendo. Acrescente ao que ele está vendo.
9. O evento que acontece no fim do segundo ato desencadeia o fim do filme.
10. O terceiro ato deve ser construído, construído, construído em ritmo e ação até o último evento, e então...
11. ...É isso. Não vagabundeie."
Quanto mais quente melhor
Hoje, em aula, lembrei de umas sugestões de Billy Wilder que apareceram na Folha de São Paulo há alguns anos. Graças à internet e minha memória vaga, encontrei a matéria original, de 19 de novembro de 1999:
- - -
Billy Wilder, cínico, entrega Billy Wilder
AMIR LABAKI
da equipe de articulistas
"Conversations with Wilder", recém-lançado nos EUA, ilumina pontos obscuros da vida do cineasta Billy Wilder, por meio de sua própria narração. (...)
Wilder nos conduz também a um delicioso "tour" pelos bastidores de sua estupenda obra. Ele mesmo começa por renunciar a qualquer importância. "Minha única ambição era entreter. Entreter, não me repetir e fazer o menor número de erros", anuncia logo nas primeiras páginas.
Para ele, "wilderiano" é um adjetivo sem sentido. "Não desenvolvi um estilo próprio, com uma exceção, talvez: fazia tudo a sério, fosse uma comédia ou não."
Wilder considera exagerada sua classificação como o mais cínico dos cineastas hollywoodianos. "Irônico, talvez", diz. Apenas um de seus títulos mereceria a etiqueta do cinismo: "A Montanha dos Sete Abutres", sobre um repórter que fatura com o desnecessário adiamento do salvamento de um acidentado. "Era como o filme deveria ser", explica. (...)
No livro, Wilder reafirma que seu maior mestre foi Ernst Lubitsch (1892-1947), para quem co-roteirizou "A Oitava Esposa de Barba-Azul" (1938) e "Ninotchka" (1939). "O segredo de suas comédias era deixar o público somar dois mais dois", explica. Mas não é de Lubitsch seu filme predileto: "O Encouraçado Potemkin" (1927), de Sergei Eisenstein.
(...)
O prazer maior é o de ouvir (aqui, ler) Wilder. É o grande triunfo do livro frente aos demais volumes recentes dedicados ao cineasta, da biografia autorizada já editada por aqui ("Billy Wilder e o Resto É Loucura", de Hellmuth Karasek, DBA, 1998) às duas últimas narrativas de sua vida publicadas nos EUA ("On Sunset Boulevard - The Life and Times of Billy Wilder", de Ed Sikov, Hyperion, 1998, e "Wilder Times", de Kevin Lally, Henry Holt, 1996).
Mesmo nonagenário, o diretor de "Quanto Mais Quente Melhor" nada perdeu do humor ácido que originou algumas das frases e situações mais divertidas da história do cinema. Wilder confirma-se no livro como seu maior personagem: dionisíaco, erudito, ranzinza, culturalmente conservador, curioso de tudo e de todos.
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Billy Wilder, cínico, entrega Billy Wilder
AMIR LABAKI
da equipe de articulistas
"Conversations with Wilder", recém-lançado nos EUA, ilumina pontos obscuros da vida do cineasta Billy Wilder, por meio de sua própria narração. (...)
Wilder nos conduz também a um delicioso "tour" pelos bastidores de sua estupenda obra. Ele mesmo começa por renunciar a qualquer importância. "Minha única ambição era entreter. Entreter, não me repetir e fazer o menor número de erros", anuncia logo nas primeiras páginas.
Para ele, "wilderiano" é um adjetivo sem sentido. "Não desenvolvi um estilo próprio, com uma exceção, talvez: fazia tudo a sério, fosse uma comédia ou não."
Wilder considera exagerada sua classificação como o mais cínico dos cineastas hollywoodianos. "Irônico, talvez", diz. Apenas um de seus títulos mereceria a etiqueta do cinismo: "A Montanha dos Sete Abutres", sobre um repórter que fatura com o desnecessário adiamento do salvamento de um acidentado. "Era como o filme deveria ser", explica. (...)
No livro, Wilder reafirma que seu maior mestre foi Ernst Lubitsch (1892-1947), para quem co-roteirizou "A Oitava Esposa de Barba-Azul" (1938) e "Ninotchka" (1939). "O segredo de suas comédias era deixar o público somar dois mais dois", explica. Mas não é de Lubitsch seu filme predileto: "O Encouraçado Potemkin" (1927), de Sergei Eisenstein.
(...)
O prazer maior é o de ouvir (aqui, ler) Wilder. É o grande triunfo do livro frente aos demais volumes recentes dedicados ao cineasta, da biografia autorizada já editada por aqui ("Billy Wilder e o Resto É Loucura", de Hellmuth Karasek, DBA, 1998) às duas últimas narrativas de sua vida publicadas nos EUA ("On Sunset Boulevard - The Life and Times of Billy Wilder", de Ed Sikov, Hyperion, 1998, e "Wilder Times", de Kevin Lally, Henry Holt, 1996).
Mesmo nonagenário, o diretor de "Quanto Mais Quente Melhor" nada perdeu do humor ácido que originou algumas das frases e situações mais divertidas da história do cinema. Wilder confirma-se no livro como seu maior personagem: dionisíaco, erudito, ranzinza, culturalmente conservador, curioso de tudo e de todos.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Livro adormecido
Ontem fui assistir à Orquestra Sinfônica de SP. Tenho dificuldade de me concentrar em música erudita. Faço o esforço, mas meu pensamento se distrai facilmente.
Estive pensando no meu livro adormecido, imaginando como retomá-lo.
Há algum tempo imagino fazer um livro-documentário, uma narrativa baseada em depoimentos de pessoas reais. Gostaria de trabalhar com a expressão verbal dos outros (vocabulário, sintaxe, pensamento). Também com a intimidade alheia. Seria possível, numa entrevista, captar expressões menos racionalizadas, relatos poucas vezes falados?
O projeto ficava sempre vago.
Ontem, depois depois de uma reunião com meu ex-professor, pensei em unir esse método ao meu projeto estacionado, de nome provisório "Materialismo dialético das lésbicas".
Até o próximo ano será difícil para mim escrever, por causa do doutorado. Mas fiquei entusiasmada de gravar depoimentos, que depois seriam usados pra compor o livro: reunir vozes, a serem reorganizadas à minha maneira.
Pensei em iniciar o livro com uma frase, introduzindo o início já escrito:
"Ela um dia começou a escrever sobre si mesma."
Estive pensando no meu livro adormecido, imaginando como retomá-lo.
Há algum tempo imagino fazer um livro-documentário, uma narrativa baseada em depoimentos de pessoas reais. Gostaria de trabalhar com a expressão verbal dos outros (vocabulário, sintaxe, pensamento). Também com a intimidade alheia. Seria possível, numa entrevista, captar expressões menos racionalizadas, relatos poucas vezes falados?
O projeto ficava sempre vago.
Ontem, depois depois de uma reunião com meu ex-professor, pensei em unir esse método ao meu projeto estacionado, de nome provisório "Materialismo dialético das lésbicas".
Até o próximo ano será difícil para mim escrever, por causa do doutorado. Mas fiquei entusiasmada de gravar depoimentos, que depois seriam usados pra compor o livro: reunir vozes, a serem reorganizadas à minha maneira.
Pensei em iniciar o livro com uma frase, introduzindo o início já escrito:
"Ela um dia começou a escrever sobre si mesma."
sexta-feira, 11 de junho de 2010
A prática das virtudes sagradas
Estive na TV Globo do Rio, algumas semanas atrás, para consultar alguns roteiros antigos. É um projeto de pesquisa sobre autores de novelas na década de 1970, que foram ligados em algum momento ao Partido Comunista.
Com limite de tempo, li os cinco primeiros e os cinco últimos capítulos de O espigão (Dias Gomes, 1977), Nina (Walter Durst, 1977) e Os gigantes (Lauro Cesar Muniz, 1979).
"A trama de Nina se passa entre 1926 e 1929. Nina (Regina Duarte) é uma jovem professora do interior que inicia sua carreira num dos mais importantes colégios de São Paulo. Ao saber que a escola rejeita a matrícula de Isadora (Isabela Garcia), de oito anos de idade, por ela ser filha de artistas, Nina vai contra a decisão da diretoria da escola. A partir daí, a história se desenvolve contrapondo os ideais da professora aos dos personagens com perfis conservadores, como o barão Antônio Galba (Mário Lago), membro ativo do Partido Republicano Paulista (PRP), e sua família." (sinopse do site Memória Globo)
É interessante como Walter Durst escreve didaticamente. Seu texto é minucioso e explicadinho, mas bonito. Lembra histórias infantis.
Segue um trecho:
- - -
"Dona Dalva - Você não leu os nossos prospectos? Lá está bem claro o que devemos ensinar às alunas: "a prática das virtudes sagradas e sociais incutindo nas meninas o amor ao trabalho, à vida doméstica, à ordem, à docilidade e à modéstia"...! Não é isso...? (...) Pois essa gente - os artistas - faz exatamente o contrário de tudo isso!
(...)
Nina - Mas ela ainda é uma menina...!"
Com limite de tempo, li os cinco primeiros e os cinco últimos capítulos de O espigão (Dias Gomes, 1977), Nina (Walter Durst, 1977) e Os gigantes (Lauro Cesar Muniz, 1979).
"A trama de Nina se passa entre 1926 e 1929. Nina (Regina Duarte) é uma jovem professora do interior que inicia sua carreira num dos mais importantes colégios de São Paulo. Ao saber que a escola rejeita a matrícula de Isadora (Isabela Garcia), de oito anos de idade, por ela ser filha de artistas, Nina vai contra a decisão da diretoria da escola. A partir daí, a história se desenvolve contrapondo os ideais da professora aos dos personagens com perfis conservadores, como o barão Antônio Galba (Mário Lago), membro ativo do Partido Republicano Paulista (PRP), e sua família." (sinopse do site Memória Globo)
É interessante como Walter Durst escreve didaticamente. Seu texto é minucioso e explicadinho, mas bonito. Lembra histórias infantis.
Segue um trecho:
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"Dona Dalva - Você não leu os nossos prospectos? Lá está bem claro o que devemos ensinar às alunas: "a prática das virtudes sagradas e sociais incutindo nas meninas o amor ao trabalho, à vida doméstica, à ordem, à docilidade e à modéstia"...! Não é isso...? (...) Pois essa gente - os artistas - faz exatamente o contrário de tudo isso!
(...)
Nina - Mas ela ainda é uma menina...!"
segunda-feira, 7 de junho de 2010
O mundo não vale meu lar
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