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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Entrevista para Rádio Gazeta Universitária


Entrevista para o programa "Tudo em família", da Rádio Gazeta Universitária, realizada pelo meu aluno Matheus Schunemann.

Na entrevista falo sobre meus livros, vida privada, vida de professora e a profissão de roteirista.

http://www.gazetaam.com/tudo-em-familia-16/

domingo, 28 de julho de 2013

American Splendor Assaults de Media


"What he said led me to believe that she probably liked my work but wasn't going to do anything for me, and she didn't. I was enraged even though I initially didn't think there was much chance of The Voice doing anything for me. Why hadn't this woman ignored my first letter instead of answering it and giving rise to some false hope I couldn't completely supress?"

"I think I know the answer. She had good intentions, but good intentions come cheap. It's easy to make promises, give assurance. Her execution was lousy, though. A person with good intentions who promises things and is too lazy to come through is often more harmful than a malicious person. (...) People like the assistant book editor don't even care enough about you to want to hurt you. That's why they're shocked when you get angry at them. They promise you things because they want to seem agreeabele. They don't keep their promises because it's too much trouble. They keep breaking their word because thy're so seldom penalized for it. It's accepted behavior in our society, like being fashionably late for dinner."

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Swamp é Grassado

Entre tanta bobagem que se escreve sobre falta de roteiristas na TV, imagino como os produtores lidariam com os adolescentes hoje. 

Esse é um cartum de humor. Se entendo corretamente, a postagem é irônica: ri-se por descordar de gente que publica piadas assim na internet.

A graça está em criticar no mau gosto das expressões usadas. Zuera, ta esaltado, etc. Também se considera tristemente engraçado que tantas pessoas curtam e comentem um cartum ruim, inclusive crianças de "6 a 10 anos".

Swamp Booger é um personagem de internet, baseado num animal imaginário, junção de partes de vários bichos, aparentemente uma lenda urbana americana.



terça-feira, 13 de setembro de 2011

David Angell, por João Pereira Coutinho

(espero que não me considerem uma neoconservadora, por citar novamente sr. Coutinho)

Um nome entre milhares
(FSP, 13 set. 2011)

"Gostava de ser David Angell, dizia eu, anos atrás, quando assistia a "Frasier" na televisão. Admito que, para espíritos mais sofisticados, os ídolos sejam outros. Kafka. Borges. Talvez Saramago, o parente pobre dos dois.

Sou um rapaz modesto. David Angell chegava e sobrava.

Quem é Angell? Digamos apenas isto: encarnação moderna de Noel Coward na capacidade narcótica de escrever diálogos como Cole Porter escrevia canções. Não existe nada de cerebral na obra de Angell -por exemplo, um homem que acorda inseto e, sei lá, revela ao leitor a grotesca inadaptação do homem contemporâneo.

David Angell não é bicho de profundezas; é bicho de sutilezas. E as frases dele eram cinzeladas de tal forma que se diluíam no ar depois de escutadas. Puro prazer efêmero.

Basta assistir ao trabalho de Angell para televisão. Alguns especialistas citam "Archie Bunker's Place" e "Cheers" como exemplos maiores de uma pena maior.

Não nego. Quem não ri com as colocações do reacionário Archie Bunker deve analisar rapidamente o seu estado neurológico. O mesmo em relação a "Cheers", essa série de camaradagem etílica que quase fez de mim um alcoólatra feliz.

Mas a Capela Sistina é mesmo "Frasier" e sempre que posso volto a ela. Como voltei agora, nos dez anos dos atentados de 11 de Setembro. Coisa bizarra: o mundo repete o mesmo circo midiático sobre o horror -fotos, documentários, declarações, alguns delírios- e eu, deitado no sofá, com um sorriso de orelha a orelha, acompanhando as aventuras e desventuras do dr. Frasier Crane em Seattle. Terei desculpa?

Talvez tenha. Parafraseando a velha sabedoria judaica, se é verdade que salvar uma vida significa salvar a humanidade inteira, não deixa de ser igualmente verdade que relembrar uma vida é relembrar todas as outras.
Os fatos: se o avião da American Airlines onde David Angell viajava naquela manhã de setembro não tivesse batido contra a torre norte do World Trade Center, talvez não estivesse aqui assistindo a "Frasier".

Mas estou. Na contabilidade macabra do 11 de Setembro, temos números que nada dizem de essencial. O que são 3.000 vítimas quando nada sabemos de cada uma delas? A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística, dizia o camarada Stálin, que nesse particular sempre preferiu contribuir para as estatísticas.

Eu prefiro dar a minha contribuição para as tragédias. Como a morte de David Angell. Como a morte de cada vida inocente naquela manhã infame -vidas que David Angell retratou de forma magistral no seu trabalho.

Por isso "Frasier" merece ser visto e revisto. Não apenas para saborearmos -"saborear" é o verbo- o humor, a criatividade verbal, o espantoso ritmo de tramas e diálogos que a televisão americana nunca mais voltou a exibir.

Mas também porque acompanhar a vida de Frasier, psiquiatra e estrela radiofônica; as suas tempestuosas relações com o pai aposentado (e colega de casa); as suas competições profissionais e emocionais com o irmão Niles; as suas homéricas ilusões e desilusões amorosas -tudo isso é uma celebração gentil, urbana, por vezes absurda e absurdamente cômica, que sempre foi anátema para a mentalidade dos fanáticos.

O Ocidente é "Frasier": essa cultura de "perdão" e "ironia", como explicava o filósofo Roger Scruton tempos atrás. Uma cultura onde recusamos a literariedade do fundamentalismo para acomodarmos a imperfeição de que somos feitos. Para nos rirmos dela. E, pelo riso, para perdoarmos e nos perdoarmos a nós.

Sem "perdão" e "ironia", explicava Scruton, as liberdades da civilização ocidental teriam sido inalcançáveis. Como são inalcançáveis em culturas dominadas pela violência e pela intransigência de quem aplica comandos sagrados aos outros.

David Angell mostrou o que somos em cada episódio de "Frasier". E mostrou que a nossa salvação não está no martírio; está na ironia.

Lembrá-lo, nos dez anos do 11 de Setembro, não é apenas evocar uma das vítimas mais famosas daquela manhã.

É retirá-lo daquele avião funesto e permitir-lhe uma última gargalhada sobre o ódio e a escuridão."

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OBS: Simpatizo com Frasier, mas não tanto assim. Já Cheers, adorava.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Homens de classe, de João Pereira Coutinho

O católico Waugh nunca entendeu como um ateu, como Orwell, defendeu posições morais absolutas

Esquerda, direita: há coisas mais importantes na vida. Vamos lendo, vamos vivendo. E então percebemos que a distinção fundamental não é entre esquerda e direita. Até porque existem várias esquerdas e várias direitas.

A diferença resume-se em duas palavras: liberdade individual. Ou estamos dispostos a ceder essa liberdade a um poder político único e centralizado; ou, simplesmente, não estamos.

Deve ser por isso que George Orwell tem lugar eterno na minha estante. Evelyn Waugh também. E, ao lado deles, prometo colocar um livro notável sobre ambos: "O Mesmo Homem" (Difel), de David Lebedoff. Chegou com três anos de atraso ao Brasil. Chegou a tempo. Lebedoff foi sagaz. Partiu de uma coincidência biográfica -o esquerdista Orwell e o conservador Waugh nasceram em 1 903- para mostrar como ambos foram, na verdade, "o mesmo homem". Confrontaram-se com os mesmos problemas da modernidade. Responderam a eles alicerçados na mesma posição moral.

Mas, antes dos problemas modernos, convém visitar um problema especificamente britânico. Anos atrás, em Oxford, um velho professor dizia-me que não havia nada mais cruel do que ter nascido na classe média antes da Segunda Guerra Mundial. Era o caso dele. Numa sociedade rigidamente estratificada, como a inglesa, habitar o meio da tabela era levar por tabela. Era viver na angústia de poder cair no fundo da ladeira. Era viver na angústia de desejar subir até ao topo.

Orwell e Waugh, produtos do meio, experimentaram pressões dos extremos. Responderam a eles como Disraeli e Marx, numa interpretação de Isaiah Berlin, responderam ao seu judaísmo um século antes: procurando suplantar o "defeito" de origem pela identificação com os de cima (aristocracia) e os de baixo (proletariado).

Para Orwell, os anos de terror na "escola pública" ("pública", na Inglaterra, significa "privada") imprimiram-lhe um sentido inapagável de marginalização e injustiça que definiu um percurso: o percurso descendente de quem prefere descer a escala social para lhe roubar todos os seus terrores. O estoicismo de Orwell; a sua pobreza autoimposta; o seu recuo estratégico para as favelas de Paris ou Londres são marcas de uma opção. A opção pela queda.

Evelyn Waugh optou pela ascensão: se existia o mesmo "pecado de classe", era necessário redimi-lo casando bem e vivendo melhor. Waugh agiu em conformidade e, ainda antes dos 40, era a encarnação perfeita, alguns dirão caricatural, do "squire" inglês. David Lebedoff narra com mestria a história desses percursos. Mas o melhor do livro está nas aproximações entre eles: na forma como Orwell, a partir de baixo, e Waugh, a partir de cima, foram respondendo aos desafios sombrios do tempo.

E respondendo de igual forma: não apenas elegendo a literatura, e a clareza inegociável da língua inglesa, como instrumento de reflexão e transformação social. Mas vislumbrando na modernidade a presença insidiosa do relativismo moral -uma sombra de irracionalismo que, ao viciar o pensamento (e até a linguagem), permitia o abandono de um sentido primordial de decência comum e abria as portas para os totalitarismos do século 20.

George Orwell acabaria por morrer em 1950. Tinha 46 anos. E, meses antes do fim, receberia no hospital a visita de Evelyn Waugh. Sabemos pouco sobre o conteúdo dessa visita -e Lebedoff não acrescenta muito. Daria o meu dedo mindinho para recuar no tempo e ser uma mosca no quarto daquele hospital de Londres.

Mas sabemos que ela foi antecedida por cartas de admiração mútua. Verdade: o católico Waugh nunca entendeu como era possível a um ateu, como Orwell, defender posições morais absolutas.

Mas o mistério talvez se possa resolver com uma suprema ironia: o fato de Orwell e Waugh terem abandonado a "classe média" não significa que a "classe média" os tenha abandonado a eles.

No gosto de ambos pela moderação e pela prudência; e na defesa "burguesa" da liberdade individual face aos autoritarismos dos extremos, Orwell e Waugh não foram apenas "o mesmo homem"; foram também esse homem que, depois de todas as viagens, nunca realmente saiu do mesmo lugar.

(FSP, 6/9/11)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Karl Marx Was Right

Jornalismo da fragilidade

Entrevista com Juan Villoro, recomendada por Marcos Visnadi.

–En la literatura, salvo algunas excepciones, siempre se prefiere al derrotado, a la víctima; el perdedor suele tener “más prensa”. ¿Por qué la ficción es mejor territorio para el perdedor que el periodismo?

–En la ficción, los ganadores suelen ser odiosos y la felicidad cumplida es un tema aburrido. Por eso Tolstoi escribió en Ana Karenina que “las familias felices no tienen historia”; desde el punto de vista narrativo es algo insustancial porque carece de conflicto. En cambio, la literatura relacionada con la pérdida, con la derrota, enriquece las posibilidades de la trama. La casa pierde es un libro de perdedores. A mí me interesaba mucho no sólo la categoría de la gente que pierde, sino cómo las nociones de triunfo y de derrota de pronto cambian de signo. Una de las cuestiones interesantes a las que te lleva la derrota es que son caídas que secretamente te alimentan, te permiten ver algo a lo que no te hubiera llevado la victoria. Y al revés: hay triunfos que envenenan, que te corroen por dentro. El primer relato es la historia de un boxeador que se encumbra porque él quiere purgar un delito que cree que cometió. Digamos que tiene una herida “eficiente” que le permite tratar de castigarse para poder superar ese crimen que supuestamente cometió; de modo que recibir el castigo en el boxeo lo ayuda mucho. Pero cuando se entera de que es inocente, pierde la motivación para seguir combatiendo y que le rompan la cara en el cuadrilátero. Una buena noticia, saberse inocente, se convierte en una desgracia. Me interesa mucho el cambiante valor de la derrota y el triunfo. En el caso del periodismo, los periódicos han escrito la gran narrativa del poder. Todos los periódicos del mundo comienzan siempre con la agenda presidencial, lo que dijo el rey, si se trata de una monarquía; lo que dijo la Bolsa de Valores, que es la Teodicea contemporánea que rige esos cielos inaccesibles de la macroeconomía. En ese relato del poder cuentan a los disidentes cuando se levantan en armas, es decir cuando tienen una cuota de poder. Es muy difícil encontrar un periodismo de la debilidad, una narrativa alterna, incluso algunos de los mejores cronistas procuran seguir a las celebridades.

–Quizá entre los mejores cronistas, Ryszard Kapuscinski fue uno de los primeros en pensar en un “periodismo de la debilidad”...

–Sí, una de las grandes lecciones de Kapuscinski fue demostrarnos que el sujeto más humilde tiene todo el derecho del mundo a ser perfectamente neurótico, a tener una vida interior complicadísima; que no es sólo un dato estadístico para informarnos antropológicamente de algo sino que es un sujeto con una vida interior que puede ser detestable, pero fascinante por sus enredos. Pero el caso de Kapuscinski es bastante insólito; en general tendemos a ver a las figuras que no son protagonistas, que no tienen fuerza, como seres anónimos. Esta es una cuestión que en el combate con el narcotráfico tenemos que cambiar. Los muertos no tienen nombre, son cinco o seis bultos tirados en la carretera, pero todos los capos que se capturan tienen nombre, tienen apodo y tienen historia. Las víctimas ni siquiera son nombradas. Ahora esto está empezando a cambiar; ha sido muy importante en México el papel de las mujeres periodistas. Alma Guillermopietro encabezó un retablo de 72 relatos que rinden tributo a 72 migrantes que fueron asesinados en México, tratando de cruzar la frontera con los Estados Unidos. Hay ejemplos de restitución muy necesarios y creo que el periodismo debería crecer en esta línea. Existe, pero debería ser la zona dominante.

Villoro cuenta que hace poco visitó la Cruz Roja mexicana y escribió la crónica “Vivir en México: un daño colateral”. “Lo más interesante fue saber que las personas que más dinero dan en la colecta son los pobres. La gente con menos recursos sostiene la Cruz Roja. Y eso habla mucho de lo que es un verdadero país y de un tejido social del que no se está hablando –plantea–. Está esa resistencia frágil, la resistencia del que tiene poco, pero da. A través de este tipo de historias podemos recuperar una noción de esperanza, porque tú no puedes combatir el horror sin tener una esperanza alterna. Se trata también de construir un discurso oponente al horror.”

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A cor dos extraterrestres

Lendo um artigo sobre o crescimento da extrema-direita na Europa (Estadão, 31/07/11, originalmente publicado em Foreign Policy, link abaixo), de repente fica tão claro que toda essa conversa sobre multiculturalismo e islamismo apenas encobre o bom e velho racismo.

Se os muçulmanos não fossem árabes, se os africanos não fossem negros, se os latinos não fossem índios, se os orientais não fossem amarelos, se os mediterrâneos não tivessem cabelos escuros...

Em Curitiba a gente aprende o que é racismo. Entre loiros, pelos escuros no braço já são suficientes pra enegrecer alguém.

O problema dos multiculturalistas europeus não é serem marxistas ou coisa que o valha. Inaceitável é não darem legítimo valor à superioridade dos brancos.

Talvez por isso os extraterrestres, seres superiores que às vezes nos visitam (reles terráqueos), são luminosos e quase transparentes.

Não existem extraterrestres pretos.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Por mais autoritário que fosse

Assim segue minha tese... eu, falando por intuição, de assuntos que conheço parcialmente:

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Sobre Beto Rockfeller, a revista Veja em 1969 diz que:

Ao lado de alguns momentos de lirismo e bondade, Beto persegue infatigàvelmente a vida fácil dos burgueses enfastiados. Mente, trai, ilude a todos, ilude-se, foge ao trabalho, combate tôdas as vilanias miúdas do cotidiano.

A reportagem resume a descrição de Beto com uma frase de Lima Duarte, diretor da novela: “Enfim, é um homem; um homem possível”.

Tal personagem, “homem possível”, distancia-se de outros protagonistas de telenovela, segundo a revista. O escolhido para a comparação é Antônio Maria, descrito como “o maior sucesso em telenovela desde O Direito [de nascer]”: um “exótico milionário lusitano” envolvido em “conspirações mesquinhas e padronizadas”.

Precisaríamos de uma impossível pesquisa sociológica retrospectiva para medir o quanto Beto Rockfeller “existia” ou era mais “possível” que Antônio Maria, em relação ao público que assistia às duas novelas. Tarefa impossível mesmo se não houvesse a distância de quatro décadas. Como mostram os estudos de recepção, a noção de “público” é complexa e impalpável, a não ser por indícios.

Mas a reportagem indica, na própria lógica de articulação do texto, qual parte do público se identifica com esse novo personagem, que se destaca da “padronização” anterior. É o jornalista, o editor, e provavelmente o diretor responsável pela pauta da reportagem. O sentido final dessa pauta começa a ser esclarecido ao final do texto. Primeiro, cita-se depoimento em que Benedito Rui Barbosa defende as novelas como são –

O que os críticos queriam? Que a Colgate investisse 1 bilhão (velhos) (...) procurando apenas criar um programa de educação do gôsto popular? Isso é problema da educação nacional, não nosso. Deve ser empurrado para as costas do Govêrno, não da novela.

No depoimento, a expressão “educação do gosto popular” e não “educação ao gosto popular” sugere que um “programa de educação” deveria, digamos assim, “melhorar” o gosto popular. E a “educação nacional” é um “problema” (não uma função pública, nem um desejo) a ser “empurrado”.

A reportagem comenta tal depoimento aceitando que “é difícil imaginar os heróis da telenovela carregando nos ombros o pêso da educação brasileira” - mas logo insitindo que “também não se pode deixar que êles [a televisão, os produtores de telenovela] se tornem completamente irresponsáveis.”

Podemos considerar a seguinte interpretação: a televisão, surgindo poderosa no mercado das comunicações – e dividindo as verbas publicitárias com jornais, revistas e rádios –, entra numa competição complexa com a imprensa escrita, que é ao mesmo tempo concorrente e colega. Isso porque vários grupos - Abril, Folha (SP), Estado (SP) e Jornal do Brasil – não entram no ramo das telecomunicações. Permanecem no mercado do papel, que se financia pela venda concreta de exemplares, conjuntamente com anúncios. Tais grupos dependem da televisão em alguns setores, e concorrem em outros. De um lado, conforme cresce a popularidade dos programas televisivos, os grupos editoriais vendem produtos anexos (revistas e jornais que cobrem as novidades da TV). Por outro lado, mantêm veículos voltados ao público “sério” (cobrindo principalmente as áreas de política e economia). Tais veículos mantém certa independência editorial quando tratam da produção televisiva, pois isso reforça sua imagem de austeridade e pensamento crítico diante dos leitores. Do ponto de vista da relação com anunciantes, tais veículos oferecem um espaço seleto, dirigido diretamente a um de maior poder consumidor.

Assim, quando a revista Veja levanta a bandeira do bom gosto, está compartilhando com certo público o orgulho de ser bem educado, de estar acima da plebe rude. Respondendo a uma demanda de confirmação de status, a revista indica a esses leitores um caminho para avaliar certos programas televisivos.

Tal debate entre imprensa escrita e empresas de televisão será intenso na década de 1970. Ele segue paralelamente às relações do governo militar com as empresas de comunicação, pois trata-se de uma luta direta pela opinião pública (que se reflete concretamente em dinheiro). O governo militar, por mais autoritário que fosse, tinha interferência apenas indireta nesse jogo."

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Pondé na Dinamarca

No dicionário Houaiss, há algumas explicações sobre a palavra orgulho.

1 - Sentimento de prazer, de grande satisfação sobre algo que é visto como alto, honrável, creditável de valor e honra; dignidade pessoal, altivez

2 -
Atitude moral ou psíquica que afasta o indivíduo de práticas desonestas ou desonrosas

3 -
Atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros; vaidade, insolência

É comum, nos debates ideológicos, que as pessoas sintam uma mistura de 2 e 3 pelo seu contrário. Por exemplo, se acho que o sr. Pondé demonstra uma misoginia antiquada, e considero isso uma "prática desonesta ou desonrosa", assumo "atitude de desprezo" em relação a ele.

(pensando bem, a misoginia do sr. Pondé não é desonesta; pelo contrário, é bastante clara)

Às vezes sou levada por esse tipo de orgulho, mas nem tanto. Para a versão adulta da criança educada como atéia desde muito pequena (eu) - com conhecimentos superficiais da filosofia ligada ao cristianismo - confesso que vejo muita verdade em certo pensamento cristão. Embora seja constrangedor admiti-lo, pois minha formação escolar associava o cristianismo à igreja católica e sua violenta história de poder, e as práticas políticas atuais demostram que o nome de Jesus Cristo é quase sempre usado pra justificar posições opressivas, egoístas e conservadoras.

Sr. Pondé hoje, na Folha de São Paulo:

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LUIZ FELIPE PONDÉ

Meu irmão Kierkegaard


Somos um nada que ama. Tanto a angústia como o amor são "virtudes práticas" que demandam coragem

QUANDO VOCÊ estiver lendo esta coluna, estarei em Copenhague, Dinamarca, terra do filósofo Soren Kierkegaard (1813-1855), pai do existencialismo. Ao falarmos em existencialismo, pensamos em gente como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, tomando vinho em Paris, dizendo que a vida não tem sentido, fumando cigarros Gitanes.

O ancestral é Pascal, francês do século 17, para quem a alma vive numa luta entre o "ennui" (angústia, tédio) e o "divertissement" (divertimento, distração, este, um termo kierkegaardiano).
O filósofo dinamarquês afirma que nós somos "feitos de angústia" devido ao nada que nos constitui e à liberdade infinita que nos assusta.

A ideia é que a existência precede a essência, ou seja, tudo o que constitui nossa vida em termos de significado (a essência) é precedido pelo fato que existimos sem nenhum sentido a priori.
Como as pedras, existimos apenas. A diferença é que vivemos essa falta de sentido como "condenação à liberdade", justamente por sabermos que somos um nada que fala. A liberdade está enraizada tanto na indiferença da pedra, que nos banha a todos, quanto no infinito do nosso espírito diante de um Deus que não precisa de nós.

O filósofo alemão Kant (século 18) se encantava com o fato da existência de duas leis. A primeira, da mecânica newtoniana, por manter os corpos celestes em ordem no universo, e a segunda, a lei moral (para Kant, a moral é passível de ser justificada pela razão), por manter a ordem entre os seres humanos.

Eu, que sou uma alma mais sombria e mais cética, me encanto mais com outras duas "leis": o nada que nos constitui (na tradição do filósofo dinamarquês) e o amor de que somos capazes.
Somos um nada que ama.

A filosofia da existência é uma educação pela angústia. Uma vez que paramos de mentir sobre nosso vazio e encontramos nossa "verdade", ainda que dolorosa, nos abrimos para uma existência autêntica.

Deste "solo da existência" (o nada), tal como afirma o dinamarquês em seu livro "A Repetição", é possível brotar o verdadeiro amor, algo diferente da mera banalidade.

É conhecida sua teoria dos três estágios como modos de enfrentamento desta experiência do nada. O primeiro, o estético, é quando fugimos do nada buscando sensações de prazer. Fracassamos. O segundo, o ético, quando fugimos nos alienando na certeza de uma vida "correta" (pura hipocrisia). Fracassamos. O terceiro, o religioso, quando "saltamos na fé", sem garantias de salvação. Mas existe também o "abismo do amor".

Sua filosofia do amor é menos conhecida do que sua filosofia da angústia e do desespero, mas nem por isso é menos contundente.

Seu livro "As Obras do Amor, Algumas Considerações Cristãs em Forma de Discursos" (ed. Vozes), traduzido pelo querido colega Álvaro Valls, maior especialista no filósofo dinamarquês no Brasil, é um dos livros mais belos que conheço.

A ideia que abre o livro é que o amor "só se conhece pelos frutos". Vê-se assim o caráter misterioso do amor, seguido de sua "visibilidade" apenas prática.
Angústia e amor são "virtudes práticas" que demandam coragem.

Kierkegaard desconfia profundamente das pessoas que são dadas à felicidade fácil porque, para ele, toda forma de autoconhecimento começa com um profundo entristecimento consigo mesmo.
Numa tradição que reúne Freud, Nietzsche e Dostoiévski (e que se afasta da banalidade contemporânea que busca a felicidade como "lei da alma"), o dinamarquês acredita que o amor pela vida deita raízes na dor e na tristeza, afetos que marcam o encontro consigo mesmo.
Deixo com você, caro leitor, uma de suas pérolas:

"Não, o amor sabe tanto quanto qualquer um, ciente de tudo aquilo que a desconfiança sabe, mas sem ser desconfiado; ele sabe tudo o que a experiência sabe, mas ele sabe ao mesmo tempo que o que chamamos de experiência é propriamente aquela mistura de desconfiança e amor... Apenas os espíritos muito confusos e com pouca experiência acham que podem julgar outra pessoa graças ao saber."

(FPS, 13 jun. 2011)

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Mas não resisto a comentar: sr. Pondé vai para a Dinamarca. Bem poderia ficar por lá.

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Ou também: sr. Pondé vai para a Dinamarca. Como dizia Shakespeare, sobre esse reino...

terça-feira, 5 de abril de 2011

Sibele

Acompanhei por jornais e revistas o suicídio de Cibele Dorsa.

Veja e a Folha reclamam da ordem judicial que impediu a menção do nome do cavaleiro Doda. Curiosamente, ambas evocam a censura no período militar.

O período militar é evocado para enobrecer qualquer argumento frágil, numa técnica malandra para desviar nossos esforços de bom senso.

Imagino que qualquer pessoa sensata concordaria que Doda tem razão, ao pedir que não se publique uma carta que o acusa de ter sido "o pior homem", o que "fez mais mal".

Ele não cometeu nenhum crime, até onde se saiba. Seu mal parece ter sido dispensar uma garota bonita, provavelmente vaidosa e insegura, por outra mais feia e rica (muito rica).

Penso nessa modelo de 36 anos, indo a baladas, usando drogas, namorando um rapaz mais novo... sustentada por mesada do ex-marido que casou com uma herdeira milionária e levou os filhos para a Europa.

Nos contos de fada, há histórias da jovem pobre, bonita e sensata, que se prepara com cautela para o dia em que perderá a beleza. Cibele não ouviu essas histórias, ou não acreditou nelas?

Talvez em alguns momentos ela percebesse que sua situação não era ruim: ganhava um bom dinheiro por mês, dinheiro que duraria talvez por toda vida, pois ela nunca deixaria de ser mãe da filha do marido de uma milionária.

Que alguém morresse, que ele se separasse... mesmo assim, agindo com bom senso e sem ofender o lado forte, dificilmente se romperia a corrente de culpas e responsablidades que conduzia a tal mesada.

Mas como ver o que ela era, e esquecer o que ela não era? Não era mais jovem, não era milionária, não era o centro das atenções dos homens, que agora preferiam mulheres mais novas ou mais ricas.

A mulher bonita tem um super-poder aos vinte anos. Depois ela o perde.

Não é fácil perder um super-poder.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Luta de Classes, por Danuza Leão e Alex Castro

Artigo do blog Liberal, libertário, libertino, sugerido por meu amigo Thiago Venco.

São comentários críticos e engraçados de um artigo sobre empregadas domésticas publicado por Danuza Leão, na Folha.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Os amigos de Kassab

Barbara Gancia é conservadora demais para meu gosto. Mas se mesmo ela critica uma ação do prefeito Kassab, o assunto é sério.

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A vez da "Cidade Digna"

De acordo com a lógica de Kassab, o Central Park deveria ser loteado para extinguir cortiços no Harlem

Barbara Gancia, FSP 06/01/11

"O PREFEITO GILBERTO KASSAB é uma realidade mais do que estabelecida na política paulista. Inteligente e duro na queda, ele já deu mostras de que tem um futuro político interessante pela frente.

É cheio de qualidades e a Cidade Limpa foi uma opção genial dentro da limitação estabelecida pelo caos paulistano. Mas, sinto informar, nem a lei ou seus predicados pessoais terão transformado Kassab em um Haussmann, o prefeito que modernizou Paris.

De certo, não estamos aqui hoje falando de um administrador com uma visão urbanística para São Paulo. Prova disto é sua mais recente iniciativa, a de vender um quarteirão de 20 mil m2 no Itaim Bibi -onde estão localizados centenas de árvores nativas, uma biblioteca tombada, uma creche, uma escola, um Caps (Centro de Apoio Psicossocial), uma Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) e um posto de saúde.

Em seu lugar, a iniciativa privada construiria novos espigões que serviriam de moradia para a grã-finada que foge da insegurança das casas dos Jardins.
A desculpa para a ocupação da área é a de que a prefeitura precisa do dinheiro para construir creches, uma vez que há cerca de 120 mil crianças sem vaga na rede pública.

Sinto muito, mas o argumento do prefeito, cuja intimidade com grupos imobiliários é conhecida, não cola. Com o tanto de IPTU e de impostos pagos pelo paulistano, trata-se de uma infâmia desocupar uma área funcionante, linda e verdejante para atender aos caprichos de construtoras de imóveis de luxo.

E, veja só: a mentalidade mesquinha dos moradores do entorno é tão distorcida quanto a argumentação oferecida pelo prefeito. Dizem eles que o quarteirão não comporta novos prédios por falta de espaço e reclamam de possíveis congestionamentos. Ou seja, como sempre, estão apenas olhando para seu próprio umbigo."

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O homem-legenda ataca novamente!

A Folha traz hoje um editorial sobre os gastos com publicidade no governo Lula. Fiz minha versão de homem-legenda.

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Bomba-relógio

Fernando Rodrigues, FSP 29/12/10

BRASÍLIA - É um sofisma o argumento usado pelo governo - e petistas em geral- a respeito da pulverização das verbas de publicidade. Eis a lógica: se a propaganda existe, então é melhor dividir o dinheiro entre o maior número possível de veículos de comunicação.

Quando Lula assumiu o Planalto, 499 jornais, revistas, TVs, rádios, portais e sites de internet, entre outros, recebiam verbas publicitárias federais. Hoje, oito anos depois, o número aumentou para 8.094. Um salto de 1.522%.

O raciocínio chapa-branca se sustenta no fato de Lula ter mantido os gastos no mesmo patamar do governo tucano de Fernando Henrique Cardoso: um pouco acima de R$ 1 bilhão por ano, descontados os custos com publicidade legal (balanços), produção dos comerciais e patrocínio.

Ou seja, sem ampliar os gastos, Lula "democratizou" (sic) o dinheiro entre mais veículos. Fez algo positivo, certo? Errado. Uma parte não fecha nessa conta. Trata-se da pergunta não respondida: por que o governo federal precisa, por exemplo, gastar R$ 20 milhões na atual campanha cujo slogan é "estamos vivendo o Brasil de todos"?

Nesta semana, TVs de várias partes do país também veicularam um comercial enaltecendo o Banco da Amazônia. Essa instituição federal tem as funções de uma agência de desenvolvimento. Não há razão para fazer propaganda.

Na oposição, Lula e o PT cansaram de malhar os gastos publicitários do PSDB. Uma vez no Planalto, aderiam à estratégia de maneira mais sofisticada. Milhares de rádios e blogs pelo país agora recebem de R$ 1.000 a R$ 3.000 por mês. Se um presidente ousar cortar tal despesa terá de encarar as imprecações incessantes dessa turba.
Publicidade estatal às vezes é uma forma de censura indireta. Vira um vício. Receber R$ 1.000 por mês no interior é uma benção. Lula criou uma bomba-relógio quase impossível de ser desarmada.

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Homem-legenda

A Folha de São Paulo se sente prejudicada pelo argumento usado pelo governo - e petistas em geral- a respeito da pulverização das verbas de publicidade. Eis a lógica: se a propaganda existe, então é melhor dividir o dinheiro entre o maior número possível de veículos de comunicação.

Quando Lula assumiu o Planalto, 499 jornais, revistas, TVs, rádios, portais e sites de internet, entre outros, recebiam verbas publicitárias federais. Hoje, oito anos depois, o número aumentou para 8.094. Um salto de 1.522%.

O raciocínio do governo se sustenta no fato de Lula ter mantido os gastos no mesmo patamar do governo tucano de Fernando Henrique Cardoso: um pouco acima de R$ 1 bilhão por ano, descontados os custos com publicidade legal (balanços), produção dos comerciais e patrocínio.

Sem ampliar os gastos, Lula democratizou o dinheiro entre mais veículos. Fez algo positivo, certo? Errado. Se mais gente está recebendo e a verba não aumentou, alguém está ganhando menos: por exemplo, a Folha de São Paulo. Por que o governo federal precisa, por exemplo, gastar R$ 20 milhões na atual campanha cujo slogan é "estamos vivendo o Brasil de todos"? Se nós estivéssemos recebendo, tudo bem. Mas outras pessoas, não.

Nesta semana, TVs de várias partes do país também veicularam um comercial enaltecendo o Banco da Amazônia. Essa instituição federal tem as funções de uma agência de desenvolvimento. Não há razão para fazer propaganda, a não ser que tenhamos parte do lucro.

Na oposição, Lula e o PT malhavam os gastos publicitários do PSDB. Uma vez no Planalto, aderiam à estratégia de maneira mais sofisticada. Milhares de rádios e blogs pelo país agora recebem de R$ 1.000 a R$ 3.000 por mês. O dinheiro era nosso, e agora estão dando a outros.

Se, algum dia, um presidente de outro partido cortar tal despesa terá de encarar as imprecações incessantes dessa turba. Assim nós fazemos agora.

Publicidade estatal sempre foi um acordo entre amigos (nós e os governos anteriores). Virou um vício. Receber R$ 1.000 por mês no interior é uma benção. Mas, em São Paulo, a Folha precisaria receber muito mais. Lula está se vingando porque sempre falamos mal dele.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Nos metrôs de Paris

OBS: Ainda falta revisar este texto.

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Hoje, lendo a crônica do sr. Pondé na Ilustrada, me ocorreu uma hipótese que talvez explique sua filosofia rasteira e "provocativa".

O marido de uma amiga, que estudou na FAAP (para quem não é de São Paulo: trata-se de uma das faculdade particulares mais caras daqui), contava que o sr. Pondé, antes de escrever para o jornal, era um professor famoso por "mudar a cabeça" dos alunos.

Aquele professor-evento, com idéias radicais, interpretações surpreendentes que "marcam" os alunos, mostrando um "outro lado", um "segredo" interpretativo que eles nunca haviam imaginado, em suas vidas normais, com pais normais e expectativas normais.

Na Cásper Líbero, onde trabalho, havia um professor assim alguns anos atrás, que criava problemas com a secretaria porque se recusava a preencher diários de classe. Entre os alunos ele era um ídolo, um "mito". Um dia, por curiosidade, entrei numa comunidade do orkut em que os alunos colecionvam suas máximas. Uma garota lembrava de tal professor contando que passara alguns anos em Paris, vivendo do dinheiro que ganhava tocando algum instrumento musical numa estação de metrô.

Bem... qualquer professor conhece esse tipo de colega: o sujeito que seduz os alunos contando "segredos" ou o "lado proibido", normalmente clichés baratos superficialmente libertários, que só impressionam almas inocentes aos 17 anos.

Muitas vezes o professor "rebelde" e "libertário" na sala de aula é esnobe entre os colegas - que despreza por serem "burocráticos". Tal esnobismo é talvez o único consolo a este libertário frustrado que assina ponto e recebe por hora-aula assim como seus colegas, porém considera tal vida medíocre diante das aspirações grandiosas que tinha mas nunca alcançou.

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Bem, minha teoria é que o sr. Pondé escreve na Folha como se falasse a seus alunos de 17 anos na FAAP.

Mas nem todos os leitores da Folha são adolescentes de 17 anos que pagam R$ 2.000,00 para ouvir "grandes verdades". A maioria é provavelmente como eu: adultos de classe média que pagam R$ 150,00 pela assinatura do jornal, e se contentam com notícias comuns, que não precisam ser excessivamente verdadeiras ou revolucionárias.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Três queixas masculinas básicas

Depois de minha irritação inicial com o Sr. Pondé, consegui felizmente ignorá-lo, ajudada pela falta de assunto em seus artigos semanais.

O texto de hoje na Ilustrada reedita os ataques habituais às suas vitimas preferidas - feministas, índios e progressistas - e praticamente não precisa de crítica.

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"O detalhe ridículo de hoje se refere a um novo movimento de conscientização que nasce. Vejamos.

O que haveria de errado em mulheres que querem atrair os homens e por isso se fazem bonitas? Macacas atraem macacos, aves fêmeas atraem aves machos. Mas parece haver umas pessoas por aí que acham que legal é ser feia. É, caro leitor, se prepare para a nova onda feminista: mulheres peludas. Para essas neopeludas que não se depilam ter pelos significa ser consciente dos seus direitos.

Quais seriam esses "direitos"? De ser feia? De parecer com homens e disputar o Prestobarba de manhã?"

COMENTÁRIO: Precisa?

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"Contra a "política do ódio ao macho", nossa polemista [Phyllis Schlafly ou Ann Coulter, o artigo é confuso nesse ponto] afirma que a maioria das mulheres, sim, quer, antes de tudo, amor e lar.

Quando elas se lançam na busca do amor e sucesso profissional em "quantidades iguais", mergulham numa escolha infernal (a autora desenvolve a questão nos ensaios seguintes) que marca a desorientação contemporânea. O importante, antes de tudo, é não mentirmos sobre isso e iluminarmos a agonia da vida feminina quando submetida à "política do ódio ao macho".

A vida amorosa nunca foi feliz. E nunca será. Mas a mentira da "emancipação feminina" é não reconhecer que ela criou novas formas de vida para a mulher em troca de novas formas de agonia."

COMENTÁRIO: Entendi: se a emancipação feminina criou novas formas de solidão, então desistamos dela é optemos pelas antigas formas.

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"Diz um amigo meu que, pouco a pouco, as mulheres se tornam obsoletas. Por que não haveria mais razão para investir nelas?

Conversando sobre esses medos com alunos e alunas entre 19 e 21 anos, percebi que muito da "obsolescência da mulher" é consequência de três queixas masculinas básicas: 1. Elas são carreiristas; 2. Não valorizam a maternidade; 3. Não cuidam da vida cotidiana da família. Associando-se a este "tripé", o fato que elas começam a ganhar bem, nem um "jantar" é preciso pagar para levá-las à cama. Resultado: a facilidade no sexo de hoje é a solidão de amanhã."

COMENTÁRIO: Ainda bem que esses alunos/as têm o Sr. Pondé para ensinar garotas de 19 anos a valorizar a maternidade e a vida cotidiana da família!

sábado, 17 de julho de 2010

Jeremias, o bom

Por algum motivo aleatório, ontem lembre de Jeremias, o bom. Eu lia o exemplar de meu pai quando era criança. Tinha uma espécie de verdade mágica, para mim.

Quando estiver mais sossegada, vou digitalizar minha charge preferida: uma festa de adultos com as crianças no quarto ao lado.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Aero-willis preto

Encomendei cópias de algumas matérias da Folha de São Paulo, para meu doutorado. Esta foi publicada em 14 de fevereiro de 1968. Chama-se Gama e Silva apoia artistas de teatro, e relata o segundo dia da greve da classe teatral, que se concentrava nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo.

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Carro de presos

Um pouco antes das 20 horas, um aero-willis preto do Departamento de Polícia Federal chegou ao teatro. O general Silvio Correia de Andrade pedia a presença de uma comissão de atores em seu gabinete.

O susto foi substituído pela tranquilidade quando Lilian Lemertz, Plinio Marcos, Juca de Oliveira, Francisco Cuoco, Ety Frazer e Aracy Balabanian entraram no gabinete do general Silvio. Ele queria ler um telegrama que recebera do general Florimar Campelo, diretor do departamento de Policia Federal, em resposta à visita que os atores fizeram na véspera à delegacia estadual do órgão. O general leu para a comissão:

- Peço informar comissão artistas greve pacífica de protesto é um direito que regime democrático em que vivemos lhes confere. Suspensão artista Maria Fernanda motivada desrespeito autoridade quando chamada Serviço de Censura de Diversões Publicas para entendimento. Peça ainda está fase estudos, não tendo sido tomada qualquer decisão. Podem estar certos Censura Federal continuará defesa princípios morais...

Nesta altura, Plínio Marcos interrompeu:

- Mas não precisa ser fanática.

- ... e culturais norteadoras nossa sociedade bem como artistas dignos desse nome que não compactuam enxovalhamento arte e desconsideram publico com emporcamento teatro. Autorizo dar divulgação presente mensagem.

Plínio Marcos, após a leitura do telegrama, entregou ao general Silvio o documento recebido da classe teatral do Rio sobre o encontro com o ministro da Justiça. O general não quis fazer nenhum comentário. Os atores acham que os dois documentos divergem frontalmente.

Na saída, o motorista do aero-willis preto não quis levar os atores de volta para o Municipal. O problema foi resolvido com um carro de presos, que trouxe de volta os representantes da classe.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A scena muda

Procurando textos sobre Jorge Andrade no catálogo online do Museu Lasar Segall, descobri encantada que as revistas A Scena Muda e Cinearte foram digitalizadas e estão disponíveis aqui.

Esta é a apresentação do projeto:

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"Editadas semanalmente na primeira metade do século XX, A Scena Muda (1921-1955) e Cinearte (1926-1942), são documentos de indiscutível valor histórico, imprescindíveis para a recuperação da memória do cinema nacional, da exibição e da crítica cinematográfica no Brasil."