Trecho de Graciliano: retrato fragmentado, livro de memória de Ricardo Ramos (também escritor e comunista) sobre o pai.
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"Um dos seus moldes, entretanto, me confundiu bastante durante anos, tanto que o aceitei como verdadeiro, quase emblema pessoal. Ensimesmado, sim, à margem das mais corriqueiras referências ao redor. E principalmente quanto a dinheiro. Nesse capítulo, se não deixava de ser metódico (ia à Caixa Econômica diariamente, sacando só para as imediatas despesas miúdas), mostrava-se incapaz, desamparado, nada prático. Um homem perdido, atarantado a tropeçar nele mesmo.
Era o que eu pensava, confesso que admirando. Ele dava importância ao seu trabalho e mandava o resto para o inferno. Se de normal aceitamos ganhar dinheiro como prioridade, ou pelo menos interesse, por que não admitir a contramão?
Vim assim, afeito ao que tomavam por esquisitice de meu pai, até 1951. Eu havia gramado um ano de Exército, conseguira me manter na faculdade às custas de meu irmão Márcio, odiava a ideia de voltar a jornal, trabalhar em um, dois, três, para ganhar aquela miséria. (...) Uma encruzilhada. Aí desabafei com o Velho:
- Só volto a jornal amarrado.
E passei em revista meus problemas, pai é para essas coisas. Ele sentiu o casamento adiado, comentou, jornalismo não dava nem quarto de pensão no Catete. Já viu? Pioramos, ninguém se iluda. E quando eu imaginava que ficaríamos por ali, chorando as mágoas, ele me perguntou:
- Por que você não tenta propaganda?
- O quê?
- Propaganda. Isso de anúncio. Tem muito amigo fazendo. Homem, que ideia! Capaz de dar certo. Se quiser, e pagam bem, pode ser uma solução. Procure Emil Farhat, na McCann. Ou Orígenes Lessa, na Thompson. São meus camaradas, diga que é meu filho. Eles atendem.
Espantado, calei-me. Os nomes e firmas, português e inglês, prontamente. Interpretou mal o silêncio:
- Você tem problemas com empresa americana?
- Eu? Meu problema é dinheiro.
- Então, vá."
(em "Graciliano: retrato fragmentado", de Ricardo Ramos. Editora Globo, 2011, p. 154)
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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Revista Lado7
Sai pela 7Letras o número três da revista Lado7. Com poemas de Heitor Ferraz Mello e um conto meu, "Lésbicas procuram apartamento".
TRECHO DO CONTO:
"Nós precisávamos de um lugar. Fazia três meses que eu estava na república das enfermeiras e já tinha percebido que não ia rolar. Elas não eram virgens nem nada, traziam às vezes namorados para dormir na sala, mas namorados normais, enfim, eu não ia criar toda uma discussão filosófica e acabar despejada. A empregada da Rafaela ainda não havia nos denunciado, mas até quando? Saíamos da aula no fim da manhã, entrávamos no apartamento, trancadas no quarto o dia inteiro escapando eventualmente pra buscar comida na cozinha. No fim da tarde ligávamos o chuveiro, aparecíamos limpinhas e lavadas pra assistir a novela das seis. Tão inocente. A empregada já estava me olhando torto, era crente, não ia tolerar a safadeza. Rafaela queria que eu alugasse um apartamento só pra mim.
- Está louca? Com que dinheiro?
- Eu te ajudo - ela dizia.
Eu não ia assinar um contrato e depender do dinheiro dela. Apesar de nosso entusiasmo, eu considerava importante manter as portas desobstruídas e sinalizadas com barras antipânico. Tínhamos que encontrar algo que eu pudesse pagar sozinha, o que não era fácil. Sendo realista, nada fácil mesmo."
TRECHO DO CONTO:
"Nós precisávamos de um lugar. Fazia três meses que eu estava na república das enfermeiras e já tinha percebido que não ia rolar. Elas não eram virgens nem nada, traziam às vezes namorados para dormir na sala, mas namorados normais, enfim, eu não ia criar toda uma discussão filosófica e acabar despejada. A empregada da Rafaela ainda não havia nos denunciado, mas até quando? Saíamos da aula no fim da manhã, entrávamos no apartamento, trancadas no quarto o dia inteiro escapando eventualmente pra buscar comida na cozinha. No fim da tarde ligávamos o chuveiro, aparecíamos limpinhas e lavadas pra assistir a novela das seis. Tão inocente. A empregada já estava me olhando torto, era crente, não ia tolerar a safadeza. Rafaela queria que eu alugasse um apartamento só pra mim.
- Está louca? Com que dinheiro?
- Eu te ajudo - ela dizia.
Eu não ia assinar um contrato e depender do dinheiro dela. Apesar de nosso entusiasmo, eu considerava importante manter as portas desobstruídas e sinalizadas com barras antipânico. Tínhamos que encontrar algo que eu pudesse pagar sozinha, o que não era fácil. Sendo realista, nada fácil mesmo."
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Duas versões de um conto de Machado
Seguem trechos de um artigo que escrevi em 2008, em disciplina do prof. Helio Guimarães, analisando duas versões do conto Uma visita de Alcibíades, de Machado de Assis. A primeira versão, mais difícil de encontrar, está transcrita em seguida.
As editoras
A coletânea Papéis avulsos reúne doze contos que haviam sido publicados anteriormente em periódicos, entre 1875 e 1882. Teve sua primeira edição lançada em 1882 pela casa Lombaerts. O belga Jean-Baptiste Lombaerts e seu filho faziam impressões por encomenda e, como livreiros, lidavam principalmente com jornais e revistas. Eram os responsáveis pela revista A Estação, em que Machado de Assis colaborou com muitos contos e também com a seriação do romance Quincas Borba, entre 1886 e 1891. A casa publicou poucos livros, mas imprimiu algumas obras lançadas pela Garnier.
Durante as últimas décadas do século XIX, Garnier e Laemmert eram os principais editores de livros no país. Não exatamente concorrentes, pois concentravam seus interesses em áreas diferentes. Laemmert se dedicava principalmente a livros de história e ciência. Garnier era o mais importante editor de literatura brasileira no período ou, mais especificamente, o maior editor de livros de ficção de escritores brasileiros. Era de Garnier o Jornal das Famílias, periódico em que foi publicado pela primeira vez o conto Uma visita de Alcibíades, em 1876.
No início da década de 1880, Memórias Póstumas de Brás Cubas saiu em forma seriada na Revista Brasileira, de Laemmert. A versão em livro foi publicada pela Typographia Nacional em 1881. Seu próximo livro de contos, Histórias sem data, sairia pela Garnier em 1884 . O panorama um pouco confuso deixa clara a intensa atividade de Machado de Assis no período, como escritor e agente comercial de seus próprios trabalhos.
Os periódicos
O Jornal das Famílias era uma revista feminina, impressa em Paris, onde Garnier mantinha um leitor de provas em português. Era a continuação da publicação quinzenal ilustrada Revista Popular, lançada em 1859 e impressa no Brasil por Pinheiro & Cia. Três fatores contribuíram para a mudança do nome e do local de impressão: a regularidade das viagens de navio, o preço e a qualidade do produto europeu. O material realizado no Brasil utilizava máquinas e papel importado, e o custo de vida no Rio de Janeiro era pouco competitivo, devido aos altos impostos aplicados à mercadoria estrangeira. Além disso havia o gosto do público por tudo que era francês. A expressão “nitidamente impressa e suntuosamente encadernada em Pariz” era usual nos anúncios publicitários do período .
A revista apresentava ensinamentos religiosos, crônicas culinárias e dava bastante destaque para a moda, com ilustrações coloridas. Machado ali publicou setenta contos, entre 1854 e 1878 . Segundo John Gledson, ele era o espírito orientador da revista no aspecto literário. Havia uma relação entre seus textos e o público leitor do periódico: o público real que comprava a revista, e o gosto desse público, conforme Machado o observava e presumia .
A relação não era simples nem linear. Gledson sugere uma postura diferente de Machado nos três periódicos em que sua colaboração foi mais importante: o Jornal das Famílias, A Estação e a Gazeta de notícias. Segundo ele, os textos publicados na Gazeta eram mais variados, e ali apareceram muitos de seus contos mais memoráveis. A Gazeta era um jornal liberal, “politicamente independente, vivo e empenhado em apoiar boas produções literárias”. Seu fundador e redator-chefe, Ferreira de Araújo, era muito amigo de Machado.
O Jornal e a Estação eram voltados para o público feminino. Mas ainda assim haveria uma diferença entre as duas revistas: a Estação era mais moderna, argumentando que “as mulheres deviam ser instruídas e não se limitar tão completamente à vida do lar” . Seu primeiro número, lançado em janeiro de 1879 (logo depois que o Jornal deixou de ser publicado, em dezembro de 1878) seria talvez estranhamente simultâneo ao tão mencionado momento de inflexão na obra de Machado, entre o “romancista medíocre e o grande romancista” .
Segundo Lúcia Miguel Pereira, “em 1878 deixou Machado de Assis todas as suas colaborações da imprensa. A Semana Ilustrada já terminara desde 1876, e a Ilustração Brasileira foi suspensa em 1878 por dificuldades financeiras de Henrique Fleiuss (...) Também o Garnier cessou a publicação do Jornal das Famílias. No Cruzeiro ele ainda escreveu até setembro de 1878, mas nesse momento interromperam-se as colaborações de Eleazar.”
Duas versões do conto
O próprio Machado, na nota F de Papéis avulsos, diz que reformou “totalmente” o texto, “não aproveitando mais do que a idéia” . Declaração exagerada, já que não apenas a idéia, mas praticamente toda a ação narrada, algumas frases e expressões inteiras foram mantidas sem nenhuma alteração. Aliás, dependendo da interpretação do termo “idéia”, pode-se dizer que justamente nela está a alteração.
A versão publicada em Papéis avulsos não apresenta o desembargador de um ponto de vista externo, como o primeiro texto. Na coletânea, o conto tem a forma de uma carta que este escreve ao chefe de polícia da corte, datada de 20 de setembro de 1875. Nela se desculpa pelo “tremido da letra e o desgrenhado do estilo” e narra praticamente a mesma cena, com alguma mudança de estilo, supressão e ampliação de passagens. Ao final solicita que o chefe de polícia “se digne de expedir suas respeitáveis ordens para que o cadáver seja transportado ao necrotério, e se proceda ao corpo de delito”. Conclui pedindo que seja dispensado de ir pessoalmente àquela hora da noite, em atenção ao profundo abalo por que acaba de passar.
Mesmo antes de detalhar alguns trechos incorporados à segunda versão, fica evidente a diferença de tom entre as duas. Embora o caso seja sempre narrado pelo desembargador (função equivalente a um juiz), a primeira situação é cotidiana e despretensiosa. É noite de Natal – uma das “noites de festa anual” - e o homem é “figura obrigada de tais festas” por ser “conversado”, “tão amável conviva”. Contando uma história para moças que “talvez não saibam que Plutarco é um autor grego”, ele toma inclusive o cuidado de advertir que este, embora “profano e pagão”, “tem muitos merecimentos”.
O papel do desembargador, nessa versão, é paralelo ao papel do próprio Machado que, como escritor, também está apresentando uma anedota para as moças leitoras da revista. Também ele supõe que essas leitoras desconheçam Plutarco. O paralelismo é ressaltado pela simpática ironia na primeira frase do personagem: a história que se segue não é dessas de “redatores de folhinhas”, mas realmente aconteceu. Truque usual de contadores de causos, conhecido dos ouvintes: afirmar enfaticamente a veracidade do absurdo que se seguirá. Ao mesmo tempo, no plano real e editorial, é de fato uma anedota de folhinha, os leitores sabem disso e o escritor também. Mas, sendo Machado de Assis, a ironia se transforma numa espécie de verdade, já que o conto foi recuperado com pretensões maiores, revisado, reimpresso em forma de livro, e sobreviveu na coletânea hoje considerada notável.
O estilo da segunda versão é mais sóbrio, e o discurso põe ênfase em aspectos cultos, dignos de um desembargador em posição oficial. O chefe de polícia é tratado de Vossa Excelência, a leitura do livro de Plutarco e explicada por uma “antiga devoção do grego”, e lido no original (“loqüela ática”, em vez de “tradução de Amyot”). Explicando sua adesão ao espiritismo, o desembargador comenta que esse credo, no futuro, poderá ser “útil à solução de problemas históricos”, em vez de apenas recreativo ou jovial. Está bem evidente o novo estilo de discurso, que nunca chega a ser sisudo, mas perde muito de sua descontração anterior.
Na segunda versão, diz-se: “Sou espírita desde alguns meses”. No texto anterior, está “Não sei se sabem que sou um tanto espiritista. Não se riam; sou até muito. Posso dizer que vivo, como, durmo, passeio, converso, bebo café e espero morrer na fé de Alan Kardec”. Difícil disfarçar uma simpatia pela primeira versão. Embora a ironia continue presente na versão do livro, quando se propõe o uso do espiritismo no estudo da história pois “é mais sumário evocar o espírito dos mortos do que gastar as forças críticas (...) em pura perda, porque não há raciocínio nem documento que nos explique melhor a intenção de um ato do que o próprio autor” - ainda assim, essa ironia refinada parece um tanto pesada. A enumeração das banalidades na primeira frase (conversar e beber café na fé de Alan Kardec) reduz o espiritismo a quase nada, assim como Plutarco e Alcibíades, aliás, no restante da narrativa. A ironia permanece na segunda versão, mas não com a mesma leveza.
Plutarco e Alcibíades
Cumpre dizer que Alcibíades, conforme descrito por Plutarco, não é exatamente um exemplo de ateniense sábio. Interessava-se por roupas, meio afeminado, passeando pela cidade vestido em púrpura. Sua atuação era política e militar, homem astuto, vaidoso, um tanto desleal. Machado não esconde essa personalidade. O grego estava ali “como se viesse de cortar agora mesmo a famosa cauda do cão” e se menciona que “também houvesse pataus [indivíduos ignorantes] em Atenas”. No episódio sugerido, Alcibíades corta a cauda de um cão para criar motivo concreto à maledicência: era um “cão notável pelo tamanho e beleza”, e todos na cidade o criticam pelo ato; ele responde “Estão fazendo (...) o que eu queria; eu queria que falassem disso em Atenas, para não dizerem de mim coisas piores.” (Plutarco, p. 110-111)
Não é uma Grécia idealizada, mas o leitor desavisado de Machado talvez entendesse assim: por seu próprio senso comum, que o conto não se esforça a desmentir.
Bibliografia
Assis, M. d. (2000). Papéis avulsos. Rio de Janeiro - Belo Horizonte: Livraria Garnier.
Gledson, J. (2006). Por um novo Machado de Assis. São Paulo: Companhia das Letras.
Guimarães, H. d. (2004). Os leitores de Machado de Assis. São Paulo: Nankin Editorial ; Edusp.
Hallewell, L. (2005). O livro no Brasil. São Paulo: Edusp.
Magalhães Júnior, R. (1956). Prefácio. In: M. d. Assis, Contos esparsos (pp. 1-12). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
Pereira, L. M. (1988). Machado de Assis: estudo crítico e biográfico. Belo Horizonte - São Paulo: Itatiaia ; Edusp.
Plutarco. (1963). Vidas. (J. Bruna, Trad.) São Paulo: Cultrix.
Rocha, J. C. (2006). "Rosebud" e o Santo Graal: uma hipótese para a leitura dos contos de Machado de Assis. Teresa (6/7), 164-184.
As editoras
A coletânea Papéis avulsos reúne doze contos que haviam sido publicados anteriormente em periódicos, entre 1875 e 1882. Teve sua primeira edição lançada em 1882 pela casa Lombaerts. O belga Jean-Baptiste Lombaerts e seu filho faziam impressões por encomenda e, como livreiros, lidavam principalmente com jornais e revistas. Eram os responsáveis pela revista A Estação, em que Machado de Assis colaborou com muitos contos e também com a seriação do romance Quincas Borba, entre 1886 e 1891. A casa publicou poucos livros, mas imprimiu algumas obras lançadas pela Garnier.
Durante as últimas décadas do século XIX, Garnier e Laemmert eram os principais editores de livros no país. Não exatamente concorrentes, pois concentravam seus interesses em áreas diferentes. Laemmert se dedicava principalmente a livros de história e ciência. Garnier era o mais importante editor de literatura brasileira no período ou, mais especificamente, o maior editor de livros de ficção de escritores brasileiros. Era de Garnier o Jornal das Famílias, periódico em que foi publicado pela primeira vez o conto Uma visita de Alcibíades, em 1876.
No início da década de 1880, Memórias Póstumas de Brás Cubas saiu em forma seriada na Revista Brasileira, de Laemmert. A versão em livro foi publicada pela Typographia Nacional em 1881. Seu próximo livro de contos, Histórias sem data, sairia pela Garnier em 1884 . O panorama um pouco confuso deixa clara a intensa atividade de Machado de Assis no período, como escritor e agente comercial de seus próprios trabalhos.
Os periódicos
O Jornal das Famílias era uma revista feminina, impressa em Paris, onde Garnier mantinha um leitor de provas em português. Era a continuação da publicação quinzenal ilustrada Revista Popular, lançada em 1859 e impressa no Brasil por Pinheiro & Cia. Três fatores contribuíram para a mudança do nome e do local de impressão: a regularidade das viagens de navio, o preço e a qualidade do produto europeu. O material realizado no Brasil utilizava máquinas e papel importado, e o custo de vida no Rio de Janeiro era pouco competitivo, devido aos altos impostos aplicados à mercadoria estrangeira. Além disso havia o gosto do público por tudo que era francês. A expressão “nitidamente impressa e suntuosamente encadernada em Pariz” era usual nos anúncios publicitários do período .
A revista apresentava ensinamentos religiosos, crônicas culinárias e dava bastante destaque para a moda, com ilustrações coloridas. Machado ali publicou setenta contos, entre 1854 e 1878 . Segundo John Gledson, ele era o espírito orientador da revista no aspecto literário. Havia uma relação entre seus textos e o público leitor do periódico: o público real que comprava a revista, e o gosto desse público, conforme Machado o observava e presumia .
A relação não era simples nem linear. Gledson sugere uma postura diferente de Machado nos três periódicos em que sua colaboração foi mais importante: o Jornal das Famílias, A Estação e a Gazeta de notícias. Segundo ele, os textos publicados na Gazeta eram mais variados, e ali apareceram muitos de seus contos mais memoráveis. A Gazeta era um jornal liberal, “politicamente independente, vivo e empenhado em apoiar boas produções literárias”. Seu fundador e redator-chefe, Ferreira de Araújo, era muito amigo de Machado.
O Jornal e a Estação eram voltados para o público feminino. Mas ainda assim haveria uma diferença entre as duas revistas: a Estação era mais moderna, argumentando que “as mulheres deviam ser instruídas e não se limitar tão completamente à vida do lar” . Seu primeiro número, lançado em janeiro de 1879 (logo depois que o Jornal deixou de ser publicado, em dezembro de 1878) seria talvez estranhamente simultâneo ao tão mencionado momento de inflexão na obra de Machado, entre o “romancista medíocre e o grande romancista” .
Segundo Lúcia Miguel Pereira, “em 1878 deixou Machado de Assis todas as suas colaborações da imprensa. A Semana Ilustrada já terminara desde 1876, e a Ilustração Brasileira foi suspensa em 1878 por dificuldades financeiras de Henrique Fleiuss (...) Também o Garnier cessou a publicação do Jornal das Famílias. No Cruzeiro ele ainda escreveu até setembro de 1878, mas nesse momento interromperam-se as colaborações de Eleazar.”
Duas versões do conto
O próprio Machado, na nota F de Papéis avulsos, diz que reformou “totalmente” o texto, “não aproveitando mais do que a idéia” . Declaração exagerada, já que não apenas a idéia, mas praticamente toda a ação narrada, algumas frases e expressões inteiras foram mantidas sem nenhuma alteração. Aliás, dependendo da interpretação do termo “idéia”, pode-se dizer que justamente nela está a alteração.
A versão publicada em Papéis avulsos não apresenta o desembargador de um ponto de vista externo, como o primeiro texto. Na coletânea, o conto tem a forma de uma carta que este escreve ao chefe de polícia da corte, datada de 20 de setembro de 1875. Nela se desculpa pelo “tremido da letra e o desgrenhado do estilo” e narra praticamente a mesma cena, com alguma mudança de estilo, supressão e ampliação de passagens. Ao final solicita que o chefe de polícia “se digne de expedir suas respeitáveis ordens para que o cadáver seja transportado ao necrotério, e se proceda ao corpo de delito”. Conclui pedindo que seja dispensado de ir pessoalmente àquela hora da noite, em atenção ao profundo abalo por que acaba de passar.
Mesmo antes de detalhar alguns trechos incorporados à segunda versão, fica evidente a diferença de tom entre as duas. Embora o caso seja sempre narrado pelo desembargador (função equivalente a um juiz), a primeira situação é cotidiana e despretensiosa. É noite de Natal – uma das “noites de festa anual” - e o homem é “figura obrigada de tais festas” por ser “conversado”, “tão amável conviva”. Contando uma história para moças que “talvez não saibam que Plutarco é um autor grego”, ele toma inclusive o cuidado de advertir que este, embora “profano e pagão”, “tem muitos merecimentos”.
O papel do desembargador, nessa versão, é paralelo ao papel do próprio Machado que, como escritor, também está apresentando uma anedota para as moças leitoras da revista. Também ele supõe que essas leitoras desconheçam Plutarco. O paralelismo é ressaltado pela simpática ironia na primeira frase do personagem: a história que se segue não é dessas de “redatores de folhinhas”, mas realmente aconteceu. Truque usual de contadores de causos, conhecido dos ouvintes: afirmar enfaticamente a veracidade do absurdo que se seguirá. Ao mesmo tempo, no plano real e editorial, é de fato uma anedota de folhinha, os leitores sabem disso e o escritor também. Mas, sendo Machado de Assis, a ironia se transforma numa espécie de verdade, já que o conto foi recuperado com pretensões maiores, revisado, reimpresso em forma de livro, e sobreviveu na coletânea hoje considerada notável.
O estilo da segunda versão é mais sóbrio, e o discurso põe ênfase em aspectos cultos, dignos de um desembargador em posição oficial. O chefe de polícia é tratado de Vossa Excelência, a leitura do livro de Plutarco e explicada por uma “antiga devoção do grego”, e lido no original (“loqüela ática”, em vez de “tradução de Amyot”). Explicando sua adesão ao espiritismo, o desembargador comenta que esse credo, no futuro, poderá ser “útil à solução de problemas históricos”, em vez de apenas recreativo ou jovial. Está bem evidente o novo estilo de discurso, que nunca chega a ser sisudo, mas perde muito de sua descontração anterior.
Na segunda versão, diz-se: “Sou espírita desde alguns meses”. No texto anterior, está “Não sei se sabem que sou um tanto espiritista. Não se riam; sou até muito. Posso dizer que vivo, como, durmo, passeio, converso, bebo café e espero morrer na fé de Alan Kardec”. Difícil disfarçar uma simpatia pela primeira versão. Embora a ironia continue presente na versão do livro, quando se propõe o uso do espiritismo no estudo da história pois “é mais sumário evocar o espírito dos mortos do que gastar as forças críticas (...) em pura perda, porque não há raciocínio nem documento que nos explique melhor a intenção de um ato do que o próprio autor” - ainda assim, essa ironia refinada parece um tanto pesada. A enumeração das banalidades na primeira frase (conversar e beber café na fé de Alan Kardec) reduz o espiritismo a quase nada, assim como Plutarco e Alcibíades, aliás, no restante da narrativa. A ironia permanece na segunda versão, mas não com a mesma leveza.
Plutarco e Alcibíades
Cumpre dizer que Alcibíades, conforme descrito por Plutarco, não é exatamente um exemplo de ateniense sábio. Interessava-se por roupas, meio afeminado, passeando pela cidade vestido em púrpura. Sua atuação era política e militar, homem astuto, vaidoso, um tanto desleal. Machado não esconde essa personalidade. O grego estava ali “como se viesse de cortar agora mesmo a famosa cauda do cão” e se menciona que “também houvesse pataus [indivíduos ignorantes] em Atenas”. No episódio sugerido, Alcibíades corta a cauda de um cão para criar motivo concreto à maledicência: era um “cão notável pelo tamanho e beleza”, e todos na cidade o criticam pelo ato; ele responde “Estão fazendo (...) o que eu queria; eu queria que falassem disso em Atenas, para não dizerem de mim coisas piores.” (Plutarco, p. 110-111)
Não é uma Grécia idealizada, mas o leitor desavisado de Machado talvez entendesse assim: por seu próprio senso comum, que o conto não se esforça a desmentir.
Bibliografia
Assis, M. d. (2000). Papéis avulsos. Rio de Janeiro - Belo Horizonte: Livraria Garnier.
Gledson, J. (2006). Por um novo Machado de Assis. São Paulo: Companhia das Letras.
Guimarães, H. d. (2004). Os leitores de Machado de Assis. São Paulo: Nankin Editorial ; Edusp.
Hallewell, L. (2005). O livro no Brasil. São Paulo: Edusp.
Magalhães Júnior, R. (1956). Prefácio. In: M. d. Assis, Contos esparsos (pp. 1-12). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
Pereira, L. M. (1988). Machado de Assis: estudo crítico e biográfico. Belo Horizonte - São Paulo: Itatiaia ; Edusp.
Plutarco. (1963). Vidas. (J. Bruna, Trad.) São Paulo: Cultrix.
Rocha, J. C. (2006). "Rosebud" e o Santo Graal: uma hipótese para a leitura dos contos de Machado de Assis. Teresa (6/7), 164-184.
Uma visita de Alcibíades, de Machado de Assis
A pedido de um leitor do blog, segue a primeira versão do conto, diferente daquela publicada em Papéis avulsos. O texto foi transcrito a partir da coletânea Contos esparsos, com organização e prefácio de R. Magalhães Júnior (Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1956, pps. 203-207).
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Uma visita de Alcibíades
in Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1876, p. 305-308
O desembargador Alvares bebeu a última gota de genuíno café, limpou os bigodes ao guardanapo e dispôs-se a obedecer às moças que lhe pediam uma anedota. Era noite de Natal; e o comendador costumava a reunir alguns amigos. O desembargador era figura obrigada de tais festas. Conversado, galhofeiro, palrador, trazendo sempre no alforje da memória boa cópia de anedotas que distribuía às meninas e rapazes curiosos, não era possível passar sem êle naquelas noites de festa anual. A única alteração que havia era uma chícara de café que o desembargador não dispensava nunca, alegando que o chá ia levando a humanidade para a total extinção.
- Carlos Magno não bebia chá e podia com a sua célebre espada, dizia êle; se bebesse café não sei o que teria deixado de fazer.
Mas uma chícara de café era fraco preço para tão amável conviva. Por isso, a dona da casa mandara vir da fazenda de um tio um excelente saco de café de que bebia, a qualquer hora, o desembargador, quando ali ia, e ia sempre. Nas noites de festas fartava-se o desembargador daquela bebida favorita.
Afiaram todos o ouvido, e o desembargador começou:
"- Não contarei uma anedota mentirosa, dessas que os redatores de folhinhas aumentam ou remendam para regalo dos fregueses. Vou referir o que me aconteceu sábado passado.
Sábado passado, logo depois do jantar, estirei-me no divã e abri uma página de Plutarco. Estas meninas talvez não saibam que Plutarco é um autor grego. Pois fiquem sabendo. É autor profano e pagão. Sem embargo disso, tem muitos merecimentos.
Lia Plutarco, acontecendo-me o que sempre me acontece quando abro um livro da antiguidade. Passo todo em espírito para o tempo do livro. Depois de jantar é excelente; e acompanhado de um bom charuto de Havana não há nada melhor. O fumo envolve a imaginação numa espécie de nimbo extremamente favorável às evocações mentais. Dentro de pouco acha-se a gente numa via romana, ao pé de um pórtico grego ou na loja de um gramático. Desaparecem os tempos modernos, a insurreição da Herzegovina, a guerra dos carlistas, a rua do Ouvidor, e o Circo Chiarini. Quinze ou vinte minutos de vida antiga por trezentos réis, termo médio, que é o preço do charuto. Uma verdadeira digestão literária.
Ora, foi isso o que aconteceu sábado passado. A página aberta acertou de ser a vida de Alcibíades; deixei-me ir ao sabor da tradução de Amyot. Daí a pouco estava nos jogos olímpicos, a contemplar o elegante ateniense, guiando os seus sete carros, com a firmeza e o donaire com que havia de reger mais tarde as armadas, os cidadãos e os próprios sentidos. Imaginem se vivi! Mas não há bem que sempre dure. Acabou o charuto, desfez-se o nimbo, a antiga Atenas volveu ao cemitério da história e cairam-me os olhos no casaco branco, que então vestia, e nos sapatos de cordovão que me resguardavam os pés.
Súbito pensei comigo:
- Que impressão faria ao ateniense Alcibíades o nosso vestuário moderno?
Não sei se sabem que sou um tanto espiritista. Não se riam; sou até muito. Posso dizer que vivo, como, durmo, passeio, converso, bebo café e espero morrer na fé de Alan Kardec. Convencido de que todos os sistemas são pura niilidade, adotei o mais jovial de todos.
Sendo espiritista, lembrei-me de evocar Alcibíades; o que imediatamente fiz, convidando-o a comparecer na minha casa, rua de tal, número tantos (placa). Alcibíades é polido e benévolo; não se fez esperar muito. Cinco minutos depois tínhamos ambos aproximado duas civilizações; o tempo e a eternidade conversavam amigàvelmente como pessoas da mesma família.
- Que me queres, curioso mortal?
Não respondi logo; fiquei boquiaberto a contemplá-lo. Não era uma sombra impalpável que eu tinha diante de mim, era um homem de carne e ossos, o próprio Alcibíades, tal qual se fôra de vida, ainda, trajado como se estivera prestes a arengar aos patáus de Atenas.
- De que te espantas? perguntou êle.
- De te ver qual eras antes de mudar de domicílio.
Alcibíades sorriu desta metáfora cansada como se me dissesse que não valia a pena incomodar um membro ilustre do povo mais espirituoso da terra para lhe repetir uma figura já desprezada dos mais pífios retóricos. Sorriu; e sentou-se benèvolamente na cadeira de balanço que ficava defronte de mim. Começamos então uma conversa singularmente interessante. Dei-lhe notícias do século; contei-lhe o que ia pela pátria; falei-lhe do parlamento grego, instituição que êle não compreendeu muito - e referi-lhe a facilidade com que Bulgaris e Comondoura, estadistas seus patrícios, andavam a cair e a subir ao ministério.
- Sempre atenienses! murmurou êle. Mas, afinal por que motivo me mandaste chamar?
- Queria propôr-te uma coisa.
- Dize.
- Queres ir comigo a uma soirée?
A idéia de soirée não podia entrar fàcilmente na cabeça de um grego. Expliquei-lhe conforme pude; e Alcibíades ficou curiosíssimo de ver a coisa de perto.
- Já agora, disse êle, não volto à eternidade sem ver alguma coisa do teu século, disse êle. Onde fica isso?
- Devagar, repliquei eu. Para ires lá é preciso que deixes aqui a roupa que trazes, e vistas outra que te vou emprestar. Aliás imaginarás que representas uma comédia de Aristófanes. Anda comigo.
- Não seja essa a dúvida. Só te peço que te vistas primeiro.
Levantei-me, o meu hóspede ficou imensamente admirado de me ver as calças, que êle chamou canudos de pano. Respondi que usavamos isto por maior comodidade; que o nosso século, mais recatado que estético, determinara trajar de um modo compatível com seu decôro e gravidade. Alcibíades refletiu um instante, abanou a cabeça e seguiu-me ao quarto de vestir.
Mudei de toilette o mais depressa que pude, com grande pasmo do ateniense. As calças pretas, por exemplo, excitaram uma gargalhada que ofendeu o meu melindre de homem moderno.
- Canudos pretos! exclamou êle. Por que motivo preferes essa côr escura e feia?
- Feia, mas séria. Vê, entretanto, a graça do corte. Afianço-te que é obra da melhor tesoura do Rio de Janeiro. Demais, é uso.
O pasmo de Alcibíades aumentou quando me viu atar a gravata. Correu para mim, supondo que ia enforcar-me. Tranqüilizei-o, e vesti o colete.
- Por Vênus! exclamou êle. És a coisa mais singular que jamais vi. Estás todo côr da noite - uma noite com três estrêlas apenas, - continuou apontando para os botões da camisa. O mundo deve estar imensamente melancólico, se escolheu para uso uma côr tão morta e triste. Nós eramos mais alegres; vivíamos...
Não pôde concluir a frase; eu acabava de enfiar a casaca, e a consternação do ateniense foi indescritível. Os braços cairam-lhe, e uma espécie de sufocação embargou-lhe a voz. Seus olhos estavam cravados em mim; o peito arfava-lhe. Enfim pôde suspirar:
- Estás completo?
- Ainda não; falta o chapéu.
- Oh! Venha alguma coisa que possa corrigir o resto! disse êle. Assim pois, tôda a elegância que nós vos legamos, está reduzida a dois canudos fechados e dois canudos abertos e tudo dessa côr enfadonha e negativa! Não, não posso crê-lo. Alguma coisa há de vir que corrija semelhante coisa. Põe o que te falta, meu caro, põe o que te falta.
Obedeci. Fui dali ao cabide, despendurei o chapéu, e pu-lo na cabeça. Alcibíades olhou para êle e para mim, empalideceu e cambaleou. Corri ao ilustre ateniense; era tarde. Tinha caído no chão. Quando lhe pus a mão no peito, vi que estava diante de um cadáver. Que havia de fazer? Mandei-lhe para o necrotério."
Victor de Paula
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Uma visita de Alcibíades
in Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1876, p. 305-308
O desembargador Alvares bebeu a última gota de genuíno café, limpou os bigodes ao guardanapo e dispôs-se a obedecer às moças que lhe pediam uma anedota. Era noite de Natal; e o comendador costumava a reunir alguns amigos. O desembargador era figura obrigada de tais festas. Conversado, galhofeiro, palrador, trazendo sempre no alforje da memória boa cópia de anedotas que distribuía às meninas e rapazes curiosos, não era possível passar sem êle naquelas noites de festa anual. A única alteração que havia era uma chícara de café que o desembargador não dispensava nunca, alegando que o chá ia levando a humanidade para a total extinção.
- Carlos Magno não bebia chá e podia com a sua célebre espada, dizia êle; se bebesse café não sei o que teria deixado de fazer.
Mas uma chícara de café era fraco preço para tão amável conviva. Por isso, a dona da casa mandara vir da fazenda de um tio um excelente saco de café de que bebia, a qualquer hora, o desembargador, quando ali ia, e ia sempre. Nas noites de festas fartava-se o desembargador daquela bebida favorita.
Afiaram todos o ouvido, e o desembargador começou:
"- Não contarei uma anedota mentirosa, dessas que os redatores de folhinhas aumentam ou remendam para regalo dos fregueses. Vou referir o que me aconteceu sábado passado.
Sábado passado, logo depois do jantar, estirei-me no divã e abri uma página de Plutarco. Estas meninas talvez não saibam que Plutarco é um autor grego. Pois fiquem sabendo. É autor profano e pagão. Sem embargo disso, tem muitos merecimentos.
Lia Plutarco, acontecendo-me o que sempre me acontece quando abro um livro da antiguidade. Passo todo em espírito para o tempo do livro. Depois de jantar é excelente; e acompanhado de um bom charuto de Havana não há nada melhor. O fumo envolve a imaginação numa espécie de nimbo extremamente favorável às evocações mentais. Dentro de pouco acha-se a gente numa via romana, ao pé de um pórtico grego ou na loja de um gramático. Desaparecem os tempos modernos, a insurreição da Herzegovina, a guerra dos carlistas, a rua do Ouvidor, e o Circo Chiarini. Quinze ou vinte minutos de vida antiga por trezentos réis, termo médio, que é o preço do charuto. Uma verdadeira digestão literária.
Ora, foi isso o que aconteceu sábado passado. A página aberta acertou de ser a vida de Alcibíades; deixei-me ir ao sabor da tradução de Amyot. Daí a pouco estava nos jogos olímpicos, a contemplar o elegante ateniense, guiando os seus sete carros, com a firmeza e o donaire com que havia de reger mais tarde as armadas, os cidadãos e os próprios sentidos. Imaginem se vivi! Mas não há bem que sempre dure. Acabou o charuto, desfez-se o nimbo, a antiga Atenas volveu ao cemitério da história e cairam-me os olhos no casaco branco, que então vestia, e nos sapatos de cordovão que me resguardavam os pés.
Súbito pensei comigo:
- Que impressão faria ao ateniense Alcibíades o nosso vestuário moderno?
Não sei se sabem que sou um tanto espiritista. Não se riam; sou até muito. Posso dizer que vivo, como, durmo, passeio, converso, bebo café e espero morrer na fé de Alan Kardec. Convencido de que todos os sistemas são pura niilidade, adotei o mais jovial de todos.
Sendo espiritista, lembrei-me de evocar Alcibíades; o que imediatamente fiz, convidando-o a comparecer na minha casa, rua de tal, número tantos (placa). Alcibíades é polido e benévolo; não se fez esperar muito. Cinco minutos depois tínhamos ambos aproximado duas civilizações; o tempo e a eternidade conversavam amigàvelmente como pessoas da mesma família.
- Que me queres, curioso mortal?
Não respondi logo; fiquei boquiaberto a contemplá-lo. Não era uma sombra impalpável que eu tinha diante de mim, era um homem de carne e ossos, o próprio Alcibíades, tal qual se fôra de vida, ainda, trajado como se estivera prestes a arengar aos patáus de Atenas.
- De que te espantas? perguntou êle.
- De te ver qual eras antes de mudar de domicílio.
Alcibíades sorriu desta metáfora cansada como se me dissesse que não valia a pena incomodar um membro ilustre do povo mais espirituoso da terra para lhe repetir uma figura já desprezada dos mais pífios retóricos. Sorriu; e sentou-se benèvolamente na cadeira de balanço que ficava defronte de mim. Começamos então uma conversa singularmente interessante. Dei-lhe notícias do século; contei-lhe o que ia pela pátria; falei-lhe do parlamento grego, instituição que êle não compreendeu muito - e referi-lhe a facilidade com que Bulgaris e Comondoura, estadistas seus patrícios, andavam a cair e a subir ao ministério.
- Sempre atenienses! murmurou êle. Mas, afinal por que motivo me mandaste chamar?
- Queria propôr-te uma coisa.
- Dize.
- Queres ir comigo a uma soirée?
A idéia de soirée não podia entrar fàcilmente na cabeça de um grego. Expliquei-lhe conforme pude; e Alcibíades ficou curiosíssimo de ver a coisa de perto.
- Já agora, disse êle, não volto à eternidade sem ver alguma coisa do teu século, disse êle. Onde fica isso?
- Devagar, repliquei eu. Para ires lá é preciso que deixes aqui a roupa que trazes, e vistas outra que te vou emprestar. Aliás imaginarás que representas uma comédia de Aristófanes. Anda comigo.
- Não seja essa a dúvida. Só te peço que te vistas primeiro.
Levantei-me, o meu hóspede ficou imensamente admirado de me ver as calças, que êle chamou canudos de pano. Respondi que usavamos isto por maior comodidade; que o nosso século, mais recatado que estético, determinara trajar de um modo compatível com seu decôro e gravidade. Alcibíades refletiu um instante, abanou a cabeça e seguiu-me ao quarto de vestir.
Mudei de toilette o mais depressa que pude, com grande pasmo do ateniense. As calças pretas, por exemplo, excitaram uma gargalhada que ofendeu o meu melindre de homem moderno.
- Canudos pretos! exclamou êle. Por que motivo preferes essa côr escura e feia?
- Feia, mas séria. Vê, entretanto, a graça do corte. Afianço-te que é obra da melhor tesoura do Rio de Janeiro. Demais, é uso.
O pasmo de Alcibíades aumentou quando me viu atar a gravata. Correu para mim, supondo que ia enforcar-me. Tranqüilizei-o, e vesti o colete.
- Por Vênus! exclamou êle. És a coisa mais singular que jamais vi. Estás todo côr da noite - uma noite com três estrêlas apenas, - continuou apontando para os botões da camisa. O mundo deve estar imensamente melancólico, se escolheu para uso uma côr tão morta e triste. Nós eramos mais alegres; vivíamos...
Não pôde concluir a frase; eu acabava de enfiar a casaca, e a consternação do ateniense foi indescritível. Os braços cairam-lhe, e uma espécie de sufocação embargou-lhe a voz. Seus olhos estavam cravados em mim; o peito arfava-lhe. Enfim pôde suspirar:
- Estás completo?
- Ainda não; falta o chapéu.
- Oh! Venha alguma coisa que possa corrigir o resto! disse êle. Assim pois, tôda a elegância que nós vos legamos, está reduzida a dois canudos fechados e dois canudos abertos e tudo dessa côr enfadonha e negativa! Não, não posso crê-lo. Alguma coisa há de vir que corrija semelhante coisa. Põe o que te falta, meu caro, põe o que te falta.
Obedeci. Fui dali ao cabide, despendurei o chapéu, e pu-lo na cabeça. Alcibíades olhou para êle e para mim, empalideceu e cambaleou. Corri ao ilustre ateniense; era tarde. Tinha caído no chão. Quando lhe pus a mão no peito, vi que estava diante de um cadáver. Que havia de fazer? Mandei-lhe para o necrotério."
Victor de Paula
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terça-feira, 28 de junho de 2011
Tolstói por Gorki
Estou lendo um lindo livro (perdoem a aliteração). Três russos e Como me tornei um escritor, de Máximo Gorki. O volume reúne três perfis de escritores, e mais uma palestra que começa assim: "Camaradas! Em todas as cidades onde tive a oportunidade de conversar com vocês, muitos me perguntaram pessoalmente ou por bilhetinhos: como me tornei escritor".
A palestra parece atraente pelo título, mas não me empolgou. Tem um bê-a-bá meio chatinho sobre técnicas e funções do escritor.
Já os perfis de Tchékhov e Tolstói são lindos. Especialmente este último. Como ele explica no início, são anotações fragmentárias que escreveu quando morava em Oleiz, povoado da Criméia, perto de uma estação terapêutica onde Tolstói se tratava: "Achava perdidas essas anotações, escritas com descuido em pedacinhos de papel."
Em passagens curtas e numeradas, Gorki descreve conversas com o outro, mestre e celebridade literária a que recorrem jovens escritores. Tolstói é às vezes messiânico, outras mundano; agressivo com uns, tolerante demais com outros.
Há várias agressões de Tolstói ao próprio Gorki. Curioso como este relata as críticas e suas reações.
- - -
XXXIII
Li para ele cenas da peça Albergue noturno. Ele ouviu atentamente e depois perguntou:
- Para que você escreve isso?
- Expliquei como pude.
- Em suas obras notam-se ataques de um galo de briga. E outra: você sempre quer cobrir todas as ranhuras e rachaduras com sua tinta. Lembre-se do que disse Andersen: "A douradura gastar-se-á e o couro de porco permanecerá"; mas os nossos mujiques dizem: "Tudo passará, só a verdade permancecerá". É melhor não cobrir, porque mais tarde é você quem vai se dar mal. Além disso, a linguagem é ágil demais, com truques, isso não é o certo. É preciso escrever de forma mais simples, o povo fala de maneira simples, até parece não ter nexo, mas fala bem. O mujique não perguntaria: "Por que um terço é maior do que um quarto, se quatro é sempre maior do que três?", como pergunta uma moça estudada. Não precisa de truques.
Ele falava com descontentamento, pois, pelo visto, não havia gostado nada do que li. Depois de um silêncio, disse, sem olhar para mim, em tom sombrio:
- Seu velho é antipático, não se acredita na bondade dele. O ator... é bom. Conhece Os frutos da civilização? Lá, meu cozinheiro se parece com seu ator. É difícil escrever peças. E sua prostituta ficou bem, deve haver desse tipo. Viu algumas assim?
- Vi.
- Sim, percebe-se. A verdade sempre se deixa reconhecer onde quer que esteja. Você fala muito à sua própria maneira, por isso não há personagens típicas e todas têm a mesma cara. Você, provavelmente, não compreende as mulheres, elas não saem bem, nenhuma. Não ficam na memória.
Entrou a mulher de A.L. (Andrei Lvóvitch, filho de Tolstói) e convidou-nos a tomar chá; ele se levantou e saiu muito depressa, como se tivesse ficado feliz em encerrar a conversa.
- - -
(Ed. Martins Fontes, 2006. Tradução Klara Gourianova, revisão Graziela Schneider)
A palestra parece atraente pelo título, mas não me empolgou. Tem um bê-a-bá meio chatinho sobre técnicas e funções do escritor.
Já os perfis de Tchékhov e Tolstói são lindos. Especialmente este último. Como ele explica no início, são anotações fragmentárias que escreveu quando morava em Oleiz, povoado da Criméia, perto de uma estação terapêutica onde Tolstói se tratava: "Achava perdidas essas anotações, escritas com descuido em pedacinhos de papel."
Em passagens curtas e numeradas, Gorki descreve conversas com o outro, mestre e celebridade literária a que recorrem jovens escritores. Tolstói é às vezes messiânico, outras mundano; agressivo com uns, tolerante demais com outros.
Há várias agressões de Tolstói ao próprio Gorki. Curioso como este relata as críticas e suas reações.
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XXXIII
Li para ele cenas da peça Albergue noturno. Ele ouviu atentamente e depois perguntou:
- Para que você escreve isso?
- Expliquei como pude.
- Em suas obras notam-se ataques de um galo de briga. E outra: você sempre quer cobrir todas as ranhuras e rachaduras com sua tinta. Lembre-se do que disse Andersen: "A douradura gastar-se-á e o couro de porco permanecerá"; mas os nossos mujiques dizem: "Tudo passará, só a verdade permancecerá". É melhor não cobrir, porque mais tarde é você quem vai se dar mal. Além disso, a linguagem é ágil demais, com truques, isso não é o certo. É preciso escrever de forma mais simples, o povo fala de maneira simples, até parece não ter nexo, mas fala bem. O mujique não perguntaria: "Por que um terço é maior do que um quarto, se quatro é sempre maior do que três?", como pergunta uma moça estudada. Não precisa de truques.
Ele falava com descontentamento, pois, pelo visto, não havia gostado nada do que li. Depois de um silêncio, disse, sem olhar para mim, em tom sombrio:
- Seu velho é antipático, não se acredita na bondade dele. O ator... é bom. Conhece Os frutos da civilização? Lá, meu cozinheiro se parece com seu ator. É difícil escrever peças. E sua prostituta ficou bem, deve haver desse tipo. Viu algumas assim?
- Vi.
- Sim, percebe-se. A verdade sempre se deixa reconhecer onde quer que esteja. Você fala muito à sua própria maneira, por isso não há personagens típicas e todas têm a mesma cara. Você, provavelmente, não compreende as mulheres, elas não saem bem, nenhuma. Não ficam na memória.
Entrou a mulher de A.L. (Andrei Lvóvitch, filho de Tolstói) e convidou-nos a tomar chá; ele se levantou e saiu muito depressa, como se tivesse ficado feliz em encerrar a conversa.
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(Ed. Martins Fontes, 2006. Tradução Klara Gourianova, revisão Graziela Schneider)
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Fundíssimo do baú
Este blog anda abandonado. Ando sem tempo ou cabeça pra escrever. Então, procurei meus arquivos antigos.
Quando troco de computador, gravo as pastas da memória numa nova pasta, que chamo "antigos". Desde meu primeiro computador, em 1997, foram poucas trocas. São cinco degraus. O primeiro é um disquete chamado "1996", em que estão meus trabalhos no último ano da faculdade. Antes disso eu escrevia em máquina de escrever. Em 1996, comprei um disquete de 1,44 MB e digitava no computador da faculdade.
Este é o trabalho de uma disciplina optativa no curso de Editoração, chamada "Edição de livros populares". O professor convidado era o editor Jiro Takahashi.
Mantive o texto original, não alterei nada. E me pergunto de onde tirei as mulheres que cito como exemplo.
- - -
EDIÇÃO DE LIVROS POPULARES
prof: Jiro Takahashi
aluna: Sabina Anzuategui
novembro/96
Trabalho Final:
"Proposta para uma versão moderna da Biblioteca das Moças"
1. Introdução
Eu gosto muito de escrever, e as coisas que eu escrevo às vezes eu chamo de neo-feministas, meio ironicamente, na falta de um termo melhor. É talvez duvidoso tomar uma opinião minha como válida para todas as mulheres, mas se eu quero ser escritora é justamente pra filtrar os sentimentos e idéias que pairam no mundo - e, desses, os que mais me interessam são justamente os que dizem respeito às mulheres.
Esse "neo-feminismo" seria o que restou das idéias objetivas do feminismo (independência financeira, investimento na profissão, direitos iguais) misturado com algo que ele não conseguiu apagar, que é o lado "sentimental" da mulher. Isso tudo é muito delicado pra ser escrito, porque corre sempre o risco de parecer preconceituoso: mas não há dúvida que, do ponto de vista de consumo de bens culturais, as mulheres formam um público definido, diferente do público masculino, e com características recorrentes. Tem uma aluna de pós-graduação da ECA que está estudando os mangás femininos do Japão. E ela tem um quadro mostrando as principais diferenças entre os quadrinhos japoneses masculinos e femininos, desde o século XIII. Basicamente, os maculinos têm mais ação e menos texto, enquanto que nos femininos as ações entram em função dos sentimentos das protagonistas, e há muito mais texto, pra comentar tais emoções.
Não me parece exagero ampliar esse quadro para o ocidente. Essas diferenças são basicamente as mesmas, se falarmos do cinema hollywoodiano feito pra homens e pra mulheres. Por outro lado, a questão do quadrinho feminino ter "mais texto", bate com uma intuição que eu tenho, de que as mulheres lêem mais.
Enfim: neste trabalho, vou levantar idéias mais do que concluí-las, sobre o que seria uma coleção atual, feita pras mulheres de hoje, que trabalham fora e são um grande público consumidor, de "Livros para Mulheres".
2. A Coleção
A Coleção seria vendida em bancas, com um lançamento por mês, todos com a mesma capa, no estilo dos clássicos da literatura da Abril, pra atingir o público da revistas femininas tipo Claudia, Nova, Marie Claire. A capa seria algo do tipo cor-de-rosa revisitado, como são os gilettes pra mulher (cores e estampas que remetessem a embalagem de cosméticos, sem parecer muito óbvio ou irônico, mas pra funcionar quase como mensagem subliminar).
O volumes teriam: ficção escrita por mulheres, auto-biografias de mulheres, livros de correspondência de mulheres muito famosas. Tanto coisas já editadas no Brasil, mas esgotadas, quanto inéditos. As autoras teriam um certo perfil: respeitadas por sua inteligência/sensibilidade/história mais que por beleza/fama/maridos.
Além disso, cada livro seria prefaciado por uma mulher conhecida, que apareceria na contracapa, com foto e trecho do prefácio. (ou talvez uma contracapa que tivesse maior, no canto superior esquerdo, a foto da autora, e menor, no canto inferior direito, a foto da prefaciadora). A idéia desses prefácios seria dizer "esse livro marcou minha vida ou carreira", "essa autora sempre foi minha ídola/um exemplo pra mim".
3. As Autoras
Algumas autoras poderiam ser reeditadas, com livros menos conhecidos ou mais "intimistas": Collete, Agatha Christie, Simone de Beauvoir, Katherine Mansfield (parece que há uma tradução muito boa da Cecília Meireles, que é rara de encontrar), Nieh Hua-Ling. Há também autoras muito queridas em outros países, mas desconhecidas por aqui, como Carmen Martín Gaite, espanhola. Para descobrir outras, seria preciso fazer uma pesquisa entre os livros nesse perfil publicados no exterior.
Eu conheço um livro americano, por exemplo, que é uma coletânea de escritoras índias dos EUA - que tem um prefácio também muito bom, sobre a função da narrativa nas tribos indígenas, de ensinar e ajudar as pessoas a viver. (uma espécie de auto-ajuda, só que mais cultural e artístico; menos óbvio ou oportunista)
Já sobre os livros de correspondência era necessário pesquisar sobre os estrangeiros, e editar os nacionais que não existem. Mas, por exemplo, a Clarice Lispector tem uma correspondência muito interessante, que talvez não fosse difícil recolher (já que ela tem uma biografia escrita). Talvez o mesmo se possa fazer com Cecília Meireles, e outras escritoras brasileiras.
Enfim, qualquer escritora poderia ser incluída, se estivesse no "espírito geral" da coleção: mulheres refletindo sobre a vida, o amor, o sofrimento. Como aulas de vida, justamente, resgatando o poder didático da arte (parece que há um texto muito bom do Antônio Cândido sobre isso).
4. As Prefaciadoras
Seriam mulheres queridas pelo público feminino, tidas como exemplo - maduras, determinadas, sensíveis etc.
Por exemplo:
- Zélia Gattai
- Fernanda Montenegro
- Zíbia Gasparetto
- Ruth Cardoso
- Luísa Erundina
- Sílvia Poppovic
- Célia Pardi
5. Conclusão
Seria uma coleção de livros que além do valor cultural, teria uma publicidade voltada à discussão da condição da mulher - que ainda não saiu de moda pois, diferente dos homens que discutem sobre assuntos externos, as mulheres adoram falar de si mesmas, suas vidas, seu papel na sociedade.
Os livros dariam assunto para tal discussão, o que estimularia suas vendas.
Quando troco de computador, gravo as pastas da memória numa nova pasta, que chamo "antigos". Desde meu primeiro computador, em 1997, foram poucas trocas. São cinco degraus. O primeiro é um disquete chamado "1996", em que estão meus trabalhos no último ano da faculdade. Antes disso eu escrevia em máquina de escrever. Em 1996, comprei um disquete de 1,44 MB e digitava no computador da faculdade.
Este é o trabalho de uma disciplina optativa no curso de Editoração, chamada "Edição de livros populares". O professor convidado era o editor Jiro Takahashi.
Mantive o texto original, não alterei nada. E me pergunto de onde tirei as mulheres que cito como exemplo.
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EDIÇÃO DE LIVROS POPULARES
prof: Jiro Takahashi
aluna: Sabina Anzuategui
novembro/96
Trabalho Final:
"Proposta para uma versão moderna da Biblioteca das Moças"
1. Introdução
Eu gosto muito de escrever, e as coisas que eu escrevo às vezes eu chamo de neo-feministas, meio ironicamente, na falta de um termo melhor. É talvez duvidoso tomar uma opinião minha como válida para todas as mulheres, mas se eu quero ser escritora é justamente pra filtrar os sentimentos e idéias que pairam no mundo - e, desses, os que mais me interessam são justamente os que dizem respeito às mulheres.
Esse "neo-feminismo" seria o que restou das idéias objetivas do feminismo (independência financeira, investimento na profissão, direitos iguais) misturado com algo que ele não conseguiu apagar, que é o lado "sentimental" da mulher. Isso tudo é muito delicado pra ser escrito, porque corre sempre o risco de parecer preconceituoso: mas não há dúvida que, do ponto de vista de consumo de bens culturais, as mulheres formam um público definido, diferente do público masculino, e com características recorrentes. Tem uma aluna de pós-graduação da ECA que está estudando os mangás femininos do Japão. E ela tem um quadro mostrando as principais diferenças entre os quadrinhos japoneses masculinos e femininos, desde o século XIII. Basicamente, os maculinos têm mais ação e menos texto, enquanto que nos femininos as ações entram em função dos sentimentos das protagonistas, e há muito mais texto, pra comentar tais emoções.
Não me parece exagero ampliar esse quadro para o ocidente. Essas diferenças são basicamente as mesmas, se falarmos do cinema hollywoodiano feito pra homens e pra mulheres. Por outro lado, a questão do quadrinho feminino ter "mais texto", bate com uma intuição que eu tenho, de que as mulheres lêem mais.
Enfim: neste trabalho, vou levantar idéias mais do que concluí-las, sobre o que seria uma coleção atual, feita pras mulheres de hoje, que trabalham fora e são um grande público consumidor, de "Livros para Mulheres".
2. A Coleção
A Coleção seria vendida em bancas, com um lançamento por mês, todos com a mesma capa, no estilo dos clássicos da literatura da Abril, pra atingir o público da revistas femininas tipo Claudia, Nova, Marie Claire. A capa seria algo do tipo cor-de-rosa revisitado, como são os gilettes pra mulher (cores e estampas que remetessem a embalagem de cosméticos, sem parecer muito óbvio ou irônico, mas pra funcionar quase como mensagem subliminar).
O volumes teriam: ficção escrita por mulheres, auto-biografias de mulheres, livros de correspondência de mulheres muito famosas. Tanto coisas já editadas no Brasil, mas esgotadas, quanto inéditos. As autoras teriam um certo perfil: respeitadas por sua inteligência/sensibilidade/história mais que por beleza/fama/maridos.
Além disso, cada livro seria prefaciado por uma mulher conhecida, que apareceria na contracapa, com foto e trecho do prefácio. (ou talvez uma contracapa que tivesse maior, no canto superior esquerdo, a foto da autora, e menor, no canto inferior direito, a foto da prefaciadora). A idéia desses prefácios seria dizer "esse livro marcou minha vida ou carreira", "essa autora sempre foi minha ídola/um exemplo pra mim".
3. As Autoras
Algumas autoras poderiam ser reeditadas, com livros menos conhecidos ou mais "intimistas": Collete, Agatha Christie, Simone de Beauvoir, Katherine Mansfield (parece que há uma tradução muito boa da Cecília Meireles, que é rara de encontrar), Nieh Hua-Ling. Há também autoras muito queridas em outros países, mas desconhecidas por aqui, como Carmen Martín Gaite, espanhola. Para descobrir outras, seria preciso fazer uma pesquisa entre os livros nesse perfil publicados no exterior.
Eu conheço um livro americano, por exemplo, que é uma coletânea de escritoras índias dos EUA - que tem um prefácio também muito bom, sobre a função da narrativa nas tribos indígenas, de ensinar e ajudar as pessoas a viver. (uma espécie de auto-ajuda, só que mais cultural e artístico; menos óbvio ou oportunista)
Já sobre os livros de correspondência era necessário pesquisar sobre os estrangeiros, e editar os nacionais que não existem. Mas, por exemplo, a Clarice Lispector tem uma correspondência muito interessante, que talvez não fosse difícil recolher (já que ela tem uma biografia escrita). Talvez o mesmo se possa fazer com Cecília Meireles, e outras escritoras brasileiras.
Enfim, qualquer escritora poderia ser incluída, se estivesse no "espírito geral" da coleção: mulheres refletindo sobre a vida, o amor, o sofrimento. Como aulas de vida, justamente, resgatando o poder didático da arte (parece que há um texto muito bom do Antônio Cândido sobre isso).
4. As Prefaciadoras
Seriam mulheres queridas pelo público feminino, tidas como exemplo - maduras, determinadas, sensíveis etc.
Por exemplo:
- Zélia Gattai
- Fernanda Montenegro
- Zíbia Gasparetto
- Ruth Cardoso
- Luísa Erundina
- Sílvia Poppovic
- Célia Pardi
5. Conclusão
Seria uma coleção de livros que além do valor cultural, teria uma publicidade voltada à discussão da condição da mulher - que ainda não saiu de moda pois, diferente dos homens que discutem sobre assuntos externos, as mulheres adoram falar de si mesmas, suas vidas, seu papel na sociedade.
Os livros dariam assunto para tal discussão, o que estimularia suas vendas.
terça-feira, 10 de maio de 2011
O álcool
"Falta-nos um deus. Esse vazio que descobrimos certo dia na adolescência, coisa alguma é capaz de fazê-lo não ter ocorrido. O álcool foi feito para suportar o vazio do universo, o equilíbrio dos planetas, sua rotação imperturbável no espaço, sua silenciosa indiferença em relação a nossa dor. O home que bebe é um homem interplanetário. É num espaço interplanetário que ele se move. É ali que espreita. O álcool não consola em coisa alguma, não mobilia os espaços psicológicos do indivíduo, a única coisa que ele substitui é a falta de Deus. Não consola o homem. Pelo contrário, o álcool conforta o homem em sua loucura, transporta-o para as regiões soberanas onde ele é senhor de seu destino. Nenhum ser humano, nenhuma mulher, nenhum poema, nenhuma música, nenhuma literatura, nenhuma pintura pode substituir o álcool nessa sua função junto ao homem, a ilusão da criação capital. Ele está ali para substituí-la. E é o que faz com toda uma parte do mundo que teria devido acreditar em Deus e que já não acredita. O álcool é estéril. As palavras do homem que são ditas na noite da embriaguez desvanecem-se com ela, uma vez chegado o dia. A embriaguez nada cria, não vai além das palavras, obscurece a inteligência, repousa-a. Falei alcoolizada. A ilusão é total: o que dizemos, ninguém jamais disse. Mas o álcool não cria coisa alguma que permaneça. É o vento. Como as palavras. Escrevi alcoolizada, eu tinha uma capacidade de controlar a embriaguez que me vinha, sem dúvida, do horror à ebriografia. Eu jamais bebia para ficar bêbada. Jamais bebia depressa. Bebia o tempo inteiro e nunca ficava bêbada. Estava retirada do mundo, intangível, nas não bêbada.
Uma mulher que bebe é como se fosse um animal, uma criança que bebesse. O alcoolismo atinge o escândalo com a mulher que bebe: é raro, é grave uma mulher alcoólatra. A atingida é a natureza divina. Reconheci esse escândalo ao meu redor. No meu tempo, para ter forças de enfrentá-lo em público, entrar sozinha num bar à noite, por exemplo, era preciso já ter bebido.
Sempre se diz tarde demais às pessoas que elas estão bebendo demais. 'Você bebe demais.' É escandaloso dizê-lo, em todo caso. Jamais sabemos por nós mesmos que somos alcoólatras."
(A vida material, de Marguerite Duras, trad. Heloísa Jahn.)
Uma mulher que bebe é como se fosse um animal, uma criança que bebesse. O alcoolismo atinge o escândalo com a mulher que bebe: é raro, é grave uma mulher alcoólatra. A atingida é a natureza divina. Reconheci esse escândalo ao meu redor. No meu tempo, para ter forças de enfrentá-lo em público, entrar sozinha num bar à noite, por exemplo, era preciso já ter bebido.
Sempre se diz tarde demais às pessoas que elas estão bebendo demais. 'Você bebe demais.' É escandaloso dizê-lo, em todo caso. Jamais sabemos por nós mesmos que somos alcoólatras."
(A vida material, de Marguerite Duras, trad. Heloísa Jahn.)
sábado, 8 de janeiro de 2011
Livros para doação
Queridos amigos:
Estou mudando neste mês para um pequeno apartamento, e em 2012 voltarei para Curitiba.
Por isso estou me desfazendo de livros queridos, já lidos, e mas agora ocupando um espaço que preciso liberar.
Estão todos em bom estado. São um presente (gratuito) para quem buscar na minha casa. Posso também enviar pelo correio, mas nesse caso peço R$ 15 (R$ 5 de frete e R$ 10 pelo trabalho de ir ao correio).
Os interessados podem me escrever no email sabina.anz@gmail.com
OBS: Os astericos (***) significam livros reservados. As pessoas têm uma semana para buscar os livros, senão a reserva será cancelada.
Eis a lista:
CINEMA
*** America: depoimentos (coletanea de entrevistas usadas por João Moreira Salles no documentário de 1989)
*** Entre tramas, rendas e fuxicos (belo livro sobre a história do figurino na TV Globo)
*** Estudos Socine Ano IV
TEATRO
Coleção Primeiras Obras, 10 volumes (peças de autores contemporâneos, Imprensa Oficial)
LITERATURA
*** Geração 90: os transgressores, Nelson de Oliveira (org)
Geração 90: manuscritos de computador, Nelson de Oliveira (org)
Os bêbados e os sonâmbulos, Bernardo Carvalho
I sette Messaggeri, Dino Buzzati (italiano)
*** Meus verdes anos, José Lins do Rego
Trapo, Cristovão Tezza
Ombros Altos, Carlos Sussekind
O aspite: há um jeito pra tudo, Ziraldo
Os três últimos dias de Fernando Pessoa, Antonio Tabucchi
*** Você Nunca Chegará a Nada, Juan Benet
*** Contravida, Augusto Roa Bastos
*** Inferno Provisório Ii: o Mundo Inimigo, Luiz Ruffato
*** Como Esquecer, Myriam Campello
Os frutos do ouro, Nathalie Sarraute
CRITICA LITERÁRIA
*** Obra aberta, Umberto Eco
*** Introdução à Linguística, José Luiz Fiorin (org)
Marguerite Duras e os Possiveis da Escritura, Andrea Correa Paraiso
A aventura brasileira de Blaise Cendrars, Alexandre Eulalio
ASSUNTOS GERAIS
*** Hamlet on the Holodeck, Janet Murray (ingles)
*** Aldo Manuzio: Editor, Tipografo, Livreiro, Enric Satué
*** Os mortos e os outros, Manuela Carneiro da Cunha
Shiatsu Facial, Aridinea Vacchiano
Estou mudando neste mês para um pequeno apartamento, e em 2012 voltarei para Curitiba.
Por isso estou me desfazendo de livros queridos, já lidos, e mas agora ocupando um espaço que preciso liberar.
Estão todos em bom estado. São um presente (gratuito) para quem buscar na minha casa. Posso também enviar pelo correio, mas nesse caso peço R$ 15 (R$ 5 de frete e R$ 10 pelo trabalho de ir ao correio).
Os interessados podem me escrever no email sabina.anz@gmail.com
OBS: Os astericos (***) significam livros reservados. As pessoas têm uma semana para buscar os livros, senão a reserva será cancelada.
Eis a lista:
CINEMA
*** America: depoimentos (coletanea de entrevistas usadas por João Moreira Salles no documentário de 1989)
*** Entre tramas, rendas e fuxicos (belo livro sobre a história do figurino na TV Globo)
*** Estudos Socine Ano IV
TEATRO
Coleção Primeiras Obras, 10 volumes (peças de autores contemporâneos, Imprensa Oficial)
LITERATURA
*** Geração 90: os transgressores, Nelson de Oliveira (org)
Geração 90: manuscritos de computador, Nelson de Oliveira (org)
Os bêbados e os sonâmbulos, Bernardo Carvalho
I sette Messaggeri, Dino Buzzati (italiano)
*** Meus verdes anos, José Lins do Rego
Trapo, Cristovão Tezza
Ombros Altos, Carlos Sussekind
O aspite: há um jeito pra tudo, Ziraldo
Os três últimos dias de Fernando Pessoa, Antonio Tabucchi
*** Você Nunca Chegará a Nada, Juan Benet
*** Contravida, Augusto Roa Bastos
*** Inferno Provisório Ii: o Mundo Inimigo, Luiz Ruffato
*** Como Esquecer, Myriam Campello
Os frutos do ouro, Nathalie Sarraute
CRITICA LITERÁRIA
*** Obra aberta, Umberto Eco
*** Introdução à Linguística, José Luiz Fiorin (org)
Marguerite Duras e os Possiveis da Escritura, Andrea Correa Paraiso
A aventura brasileira de Blaise Cendrars, Alexandre Eulalio
ASSUNTOS GERAIS
*** Hamlet on the Holodeck, Janet Murray (ingles)
*** Aldo Manuzio: Editor, Tipografo, Livreiro, Enric Satué
*** Os mortos e os outros, Manuela Carneiro da Cunha
Shiatsu Facial, Aridinea Vacchiano
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Gênesis, por Robert Crumb
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Toda decisão é um erro
Trecho de um artigo de Arnaldo Bloch para o jornal O Globo:
- - -
"Qual a decisão certa, então?
Este foi o tema central do debate que mediei, em seguida, entre as escritoras Patrícia Melo e Lionel Shriver. (...) Em seu mais recente livro, “O mundo pós-aniversário”, Shriver examina com brilhantismo, numa narrativa de dupla face, a escolha da personagem, Irina, entre a estabilidade de um casamento convencional e a aventura de um amor sem limites. Alternadamente, o livro descreve os dois caminhos possíveis: num, Irina decide abandonar o marido e unir-se a um jogador de sinuca famoso; no outro, resiste à tentação e fica com o marido, um bom homem.
Em ambos os casos, a decisão leva a resultados complexos e novas encruzilhadas. Na vida real, aliás, a autora realmente terminou uma relação estável para se juntar a um baterista. Arrisquei uma analogia entre tacos de sinuca e baquetas que levou a plateia às gargalhadas.
Lionel também gostou. Se tivesse cedido a meus pudores para poupar-me de um vexame, teria sido um erro ou um acerto? Nos livros de Patrícia, por sua vez, os personagens, sempre criminosos cruéis, parecem ser carregados por uma enxurrada, um determinismo implacável, mas, na verdade, sempre vislumbram um outro caminho, até desejável, que terminam por não escolher, residindo aí, e não na solução dos crimes, o maior mistério.
Conta-se (não sei dizer se está em algum dos seus escritos) que um discípulo certa vez perguntou a Platão se deveria se casar, temeroso de perder sua liberdade. Mas teme também que a solidão e a dissipação o levem ao desespero. Platão responde: “Não se preocupe: de qualquer maneira, você vai se arrepender”.
Meu psicanalista, que não é Platão mas tem notável paciência para monólogos, vive dizendo que, uma vez diante de um grande dilema, a questão não é de tomar a decisão certa, e sim de decidir “qual dos erros vou cometer”.
Ainda me pergunto se ele quer dizer que isso é uma impossibilidade universal do acerto, ou se este talento para errar é uma peculiaridade muito minha. Se eu descobrir antes de morrer, minha decisão de fazer análise terá sido um acerto.
Mas, falando sério, se há uma verdade, é essa: mesmo quando uma decisão se revela, a posteriori, acertada, nunca cessarão as especulações noturnas (não confundir com poluções noturnas) sobre como teria sido percorrer o outro caminho, o “errado”. Esta sensação será mais forte à medida que o lado nefasto do tal acerto emergir num fim de tarde qualquer, sob o mais suicidário luscofusco.
Teria o “outro erro” se convertido num acerto ainda maior? Num loop sem fim, então, todos os acertos se converterão em erros, e todos os erros não-cometidos piscarão no fundo do infinito como acertos que desperdiçamos. Não tem jeito: o arrependimento pelo erro que não abraçamos é não só um direito e um dever, mas um fim inexorável.
Ainda que nossa morte seja entupida da mais fina morfina, acolhida pelo mais piedoso e rápido mal súbito ou abençoada pelo sono mais natural, desta dor, a do cotovelo, não escaparemos."
- - -
"Qual a decisão certa, então?
Este foi o tema central do debate que mediei, em seguida, entre as escritoras Patrícia Melo e Lionel Shriver. (...) Em seu mais recente livro, “O mundo pós-aniversário”, Shriver examina com brilhantismo, numa narrativa de dupla face, a escolha da personagem, Irina, entre a estabilidade de um casamento convencional e a aventura de um amor sem limites. Alternadamente, o livro descreve os dois caminhos possíveis: num, Irina decide abandonar o marido e unir-se a um jogador de sinuca famoso; no outro, resiste à tentação e fica com o marido, um bom homem.
Em ambos os casos, a decisão leva a resultados complexos e novas encruzilhadas. Na vida real, aliás, a autora realmente terminou uma relação estável para se juntar a um baterista. Arrisquei uma analogia entre tacos de sinuca e baquetas que levou a plateia às gargalhadas.
Lionel também gostou. Se tivesse cedido a meus pudores para poupar-me de um vexame, teria sido um erro ou um acerto? Nos livros de Patrícia, por sua vez, os personagens, sempre criminosos cruéis, parecem ser carregados por uma enxurrada, um determinismo implacável, mas, na verdade, sempre vislumbram um outro caminho, até desejável, que terminam por não escolher, residindo aí, e não na solução dos crimes, o maior mistério.
Conta-se (não sei dizer se está em algum dos seus escritos) que um discípulo certa vez perguntou a Platão se deveria se casar, temeroso de perder sua liberdade. Mas teme também que a solidão e a dissipação o levem ao desespero. Platão responde: “Não se preocupe: de qualquer maneira, você vai se arrepender”.
Meu psicanalista, que não é Platão mas tem notável paciência para monólogos, vive dizendo que, uma vez diante de um grande dilema, a questão não é de tomar a decisão certa, e sim de decidir “qual dos erros vou cometer”.
Ainda me pergunto se ele quer dizer que isso é uma impossibilidade universal do acerto, ou se este talento para errar é uma peculiaridade muito minha. Se eu descobrir antes de morrer, minha decisão de fazer análise terá sido um acerto.
Mas, falando sério, se há uma verdade, é essa: mesmo quando uma decisão se revela, a posteriori, acertada, nunca cessarão as especulações noturnas (não confundir com poluções noturnas) sobre como teria sido percorrer o outro caminho, o “errado”. Esta sensação será mais forte à medida que o lado nefasto do tal acerto emergir num fim de tarde qualquer, sob o mais suicidário luscofusco.
Teria o “outro erro” se convertido num acerto ainda maior? Num loop sem fim, então, todos os acertos se converterão em erros, e todos os erros não-cometidos piscarão no fundo do infinito como acertos que desperdiçamos. Não tem jeito: o arrependimento pelo erro que não abraçamos é não só um direito e um dever, mas um fim inexorável.
Ainda que nossa morte seja entupida da mais fina morfina, acolhida pelo mais piedoso e rápido mal súbito ou abençoada pelo sono mais natural, desta dor, a do cotovelo, não escaparemos."
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
O que são deterrents neste caso?
Nem terminei o doutorado e estou me sentindo tão livre, como se tivesse acabado, porque organizei o material e agora só falta escrever a tese. Espero que a banca de qualificação seja compreensiva e não jogue minhas ilusões por terra.
Depois de muitos meses comprei um livro por gostar, sem relação com a pesquisa. Um escritor espanhol chamado Juan Benet. O conto se chama Você nunca chegará a nada. Começa assim:
- - -
"Um inglês bêbado que encontramos não me lembro onde, e que nos acompanhou durante vários dias e talvez semanas inteiras daquela desenfreada loucura ferroviária, chegou a dizer - depois de muitas noites mal dormidas e no decorrer de sabe-se lá que morrediça, noturna e interminável conversa - que éramos apenas uns pobres deterrent tentando em vão sobreviver. Depois disse que não entendia; perguntava por que continuávamos empenhados em viajar sem objetivo (talvez por isso nos seguisse) e pedia que explicássemos melhor o que pensávamos fazer, que - por favor - disséssemos de uma vez e claramente, pois, de outra forma, nos abandonaria para sempre à nossa triste sorte."
- - -
Tradução Maria Alzira Brum Lemos, Editora José Olympio, 2008.
Depois de muitos meses comprei um livro por gostar, sem relação com a pesquisa. Um escritor espanhol chamado Juan Benet. O conto se chama Você nunca chegará a nada. Começa assim:
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"Um inglês bêbado que encontramos não me lembro onde, e que nos acompanhou durante vários dias e talvez semanas inteiras daquela desenfreada loucura ferroviária, chegou a dizer - depois de muitas noites mal dormidas e no decorrer de sabe-se lá que morrediça, noturna e interminável conversa - que éramos apenas uns pobres deterrent tentando em vão sobreviver. Depois disse que não entendia; perguntava por que continuávamos empenhados em viajar sem objetivo (talvez por isso nos seguisse) e pedia que explicássemos melhor o que pensávamos fazer, que - por favor - disséssemos de uma vez e claramente, pois, de outra forma, nos abandonaria para sempre à nossa triste sorte."
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Tradução Maria Alzira Brum Lemos, Editora José Olympio, 2008.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Fins que eu não havia definido
Encontrei, numa livraria no Rio de Janeiro, o livro Carta a D., de André Gorz.
Assim o descreve Josué Pereira da Silva, professor da Unicamp, no posfácio:
"Carta a D. - História de um amor é o último livro de André Gorz; ele o escreveu para homenagear sua mulher, Dorine, com quem partilhou a vida por quase sessenta anos. É possível que muitos dos leitores terminem a leitura deste livro com um sentimento semelhante ao meu: o suicído de André e Dorine, em 22 de setembro último [2007], evento que chocou a mim e a muitas outras pessoas, foi um puro ato de amor.
Segue um trecho, em que o autor narra suas sensações depois da publicação do primeiro livro:
- - -
"Você sempre me disse que esse livro foi me transformando à medida que eu o escrevia. "Depois de terminá-lo, você não era mais o mesmo." Acho que estava enganada. O que me permitiu mudar não foi escrevê-lo; foi ter produzido um texto publicável e vê-lo publicado. Publicar mudou a minha situação. Conferiu-me um lugar no mundo, conferiu realidade ao que eu pensava, uma realidade que excedia minhas intenções; que me obrigava a me redefinir e a me ultrapassar continuamente para não me tornar o prisioneiro nem da imagem que os outros faziam de mim, nem de um produto que se tornara outro em relação a mim, por sua realidade objetiva. A magia da literatura: ela me dava acesso à existência na medida em que eu tinha me descrito, escrito, na minha recusa, era essa recusa, e, por sua publicação, me impedia de perseverar nessa recusa. Era precisamente o que eu tinha esperado, e que só a publicação permitiria que eu obtivesse: ser obrigado a me engajar além do que minha própria vontade me permitia; e me fazer perguntas, perseguir fins que eu não havia definido sozinho."
Assim o descreve Josué Pereira da Silva, professor da Unicamp, no posfácio:
"Carta a D. - História de um amor é o último livro de André Gorz; ele o escreveu para homenagear sua mulher, Dorine, com quem partilhou a vida por quase sessenta anos. É possível que muitos dos leitores terminem a leitura deste livro com um sentimento semelhante ao meu: o suicído de André e Dorine, em 22 de setembro último [2007], evento que chocou a mim e a muitas outras pessoas, foi um puro ato de amor.
Segue um trecho, em que o autor narra suas sensações depois da publicação do primeiro livro:
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"Você sempre me disse que esse livro foi me transformando à medida que eu o escrevia. "Depois de terminá-lo, você não era mais o mesmo." Acho que estava enganada. O que me permitiu mudar não foi escrevê-lo; foi ter produzido um texto publicável e vê-lo publicado. Publicar mudou a minha situação. Conferiu-me um lugar no mundo, conferiu realidade ao que eu pensava, uma realidade que excedia minhas intenções; que me obrigava a me redefinir e a me ultrapassar continuamente para não me tornar o prisioneiro nem da imagem que os outros faziam de mim, nem de um produto que se tornara outro em relação a mim, por sua realidade objetiva. A magia da literatura: ela me dava acesso à existência na medida em que eu tinha me descrito, escrito, na minha recusa, era essa recusa, e, por sua publicação, me impedia de perseverar nessa recusa. Era precisamente o que eu tinha esperado, e que só a publicação permitiria que eu obtivesse: ser obrigado a me engajar além do que minha própria vontade me permitia; e me fazer perguntas, perseguir fins que eu não havia definido sozinho."
terça-feira, 11 de maio de 2010
Poeta da pensão
Estou no Rio desde domingo. Reservei um hotel pelo site Submarino e tive uma surpresa ao chegar.
No meu pensamento eletrônico, qualquer hotel cadastrado no site teria um padrão básico, meio Mc Donald's, como a rede Formula 1. Escolhi um baratinho, preocupada apenas com a localização.
Ao chegar no domingo, nas ruas escuras por causa da chuva, quase chorei de desamparo. O hotel ficava num antigo casarão. Depois da recepão coberta de madeira laminada, os quartos se dividiam por um longo corredor, como um pensionato. Ou, num termo mais antigo, uma casa de pensão.
O quarto era pequeníssimo, mobilidado com uma grande cama de casal e um armário de madeira antigo. Não havia espaço para abrir completamente essa porta.
O chão tinha tacos de madeira, provavlemente encerados há décadas sem nenhum polimento. Apesar de limpo, parecia ensebado como a recepção.
Senti um misto de horror e simpatia. Saindo de minha casa arejada e ampla, um instinto animal parecia reagir, alerta, à súbita redução no grau de conforto. Ao mesmo tempo, minha memória literária reconhecia com familiaridade uma lembrança imaginada de escritores modestos, trabalhando como funcionários públicos na década de 1940, escrevendo seus poemas em pequenos quartos de pensão.
Como é emocionante o curta-metragem O poeta do Castelo, de Joaquim Pedro de Andrade, mostrando Manuel Bandeira curvado, com seu terno frouxo, espremido entre prédios de apartamentos.
Lindo filme.
No meu pensamento eletrônico, qualquer hotel cadastrado no site teria um padrão básico, meio Mc Donald's, como a rede Formula 1. Escolhi um baratinho, preocupada apenas com a localização.
Ao chegar no domingo, nas ruas escuras por causa da chuva, quase chorei de desamparo. O hotel ficava num antigo casarão. Depois da recepão coberta de madeira laminada, os quartos se dividiam por um longo corredor, como um pensionato. Ou, num termo mais antigo, uma casa de pensão.
O quarto era pequeníssimo, mobilidado com uma grande cama de casal e um armário de madeira antigo. Não havia espaço para abrir completamente essa porta.
O chão tinha tacos de madeira, provavlemente encerados há décadas sem nenhum polimento. Apesar de limpo, parecia ensebado como a recepção.
Senti um misto de horror e simpatia. Saindo de minha casa arejada e ampla, um instinto animal parecia reagir, alerta, à súbita redução no grau de conforto. Ao mesmo tempo, minha memória literária reconhecia com familiaridade uma lembrança imaginada de escritores modestos, trabalhando como funcionários públicos na década de 1940, escrevendo seus poemas em pequenos quartos de pensão.
Como é emocionante o curta-metragem O poeta do Castelo, de Joaquim Pedro de Andrade, mostrando Manuel Bandeira curvado, com seu terno frouxo, espremido entre prédios de apartamentos.
Lindo filme.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
A noiva
Li este conto de Tchekhov na segunda-feira à noite, antes de dormir. Tive uma triste sensação de familiaridade, aumentada pelo cansaço e o sono.
Há uma tradução disponível aqui. É diferente da publicada pela L&PM. Mais antiquada, talvez mais bonita.
- - -
"Nadia chegou à sua cidade ao meio-dia. O caminho da estação para casa deixou-lhe a impressão de que as ruas eram muito largas e as casas pequenas e achatadas. Não havia gente nas ruas; cruzaram-se apenas com um afinador de pianos, um alemão de sobretudo cor de cenoura. Dir-se-ia que todas as casas estavam cobertas de poeira. A avó, velha de todo, gorda e feia como antes, abraçou Nadia e chorou muito, incapaz de afastar o rosto encostado ao ombro dela. Nina Ivanovna também estava visivelmente mais velha e mais feia, como que encolhida, mas continuava com a cintura fina e anéis com brilhantes nos dedos.
— Minha querida! — exclamava ela, tremendo toda. — Minha querida!
As três ficaram algum tempo chorando em silêncio. Notava-se que tanto a avó como a mãe sentiam que o passado estava perdido para sempre, irremediavelmente; já não gozavam a consideração de antes, não tinham a mesma posição social nem o direito a receber visitas. O mesmo se sente quando uma casa, em que se levava uma vida fácil e despreocupada, é invadida de noite por policiais que revistam tudo, descobrindo-se então que o dono havia desviado fundos ou falsificado dinheiro, e pronto — adeus vida fácil e despreocupada!
Nadia subiu ao andar de cima e viu a mesma cama, as mesmas janelas com simples cortinas brancas, lá fora o mesmo jardim inundado de luz, alegre e sussurrante. Passou a mão pelo tampo da sua mesa, sentou-se e ficou pensativa. Havia almoçado bem e tomado chá com natas, gordas e saborosas, mas sentia falta de qualquer coisa; os quartos pareciam-lhe vazios e os tectos muito baixos. Quando, à noite, se deitou, metendo-se por baixo do cobertor, pareceu-lhe estranhamente engraçado estar naquela cama quente e muito fofa."
Há uma tradução disponível aqui. É diferente da publicada pela L&PM. Mais antiquada, talvez mais bonita.
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"Nadia chegou à sua cidade ao meio-dia. O caminho da estação para casa deixou-lhe a impressão de que as ruas eram muito largas e as casas pequenas e achatadas. Não havia gente nas ruas; cruzaram-se apenas com um afinador de pianos, um alemão de sobretudo cor de cenoura. Dir-se-ia que todas as casas estavam cobertas de poeira. A avó, velha de todo, gorda e feia como antes, abraçou Nadia e chorou muito, incapaz de afastar o rosto encostado ao ombro dela. Nina Ivanovna também estava visivelmente mais velha e mais feia, como que encolhida, mas continuava com a cintura fina e anéis com brilhantes nos dedos.
— Minha querida! — exclamava ela, tremendo toda. — Minha querida!
As três ficaram algum tempo chorando em silêncio. Notava-se que tanto a avó como a mãe sentiam que o passado estava perdido para sempre, irremediavelmente; já não gozavam a consideração de antes, não tinham a mesma posição social nem o direito a receber visitas. O mesmo se sente quando uma casa, em que se levava uma vida fácil e despreocupada, é invadida de noite por policiais que revistam tudo, descobrindo-se então que o dono havia desviado fundos ou falsificado dinheiro, e pronto — adeus vida fácil e despreocupada!
Nadia subiu ao andar de cima e viu a mesma cama, as mesmas janelas com simples cortinas brancas, lá fora o mesmo jardim inundado de luz, alegre e sussurrante. Passou a mão pelo tampo da sua mesa, sentou-se e ficou pensativa. Havia almoçado bem e tomado chá com natas, gordas e saborosas, mas sentia falta de qualquer coisa; os quartos pareciam-lhe vazios e os tectos muito baixos. Quando, à noite, se deitou, metendo-se por baixo do cobertor, pareceu-lhe estranhamente engraçado estar naquela cama quente e muito fofa."
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
O enterramento da menor
Estou lendo Labirinto, romance de Jorge Andrade. Livro estranho: ele reuniu reportagens que fez para a revista Realidade e costurou a memórias pessoais.
Mas sua memória é obsessiva com certos temas e personagens, que analisou repetidamente em suas peças. Assim, no romance, além de relatar memórias inéditas (ou relatos inéditos de referências anteriores, ficcionalizadas), ele as misturou com trechos de peças antigas. É um emaranhado em várias camadas confusas de suas obsessões.
Cansativo. O texto sobrevive apesar dele mesmo (malgré lui). Sinto uma rejeição permanente (por que não se liberta? por que não esquece?). Mas a força das cenas e do texto me forçam, num encantamento desagradável.
- - -
"Chego correndo diante do portão do Cemitério dos Aflitos, em Águas Belas, acompanhando o coveiro Manoel. Os olhos miúdos de Manoel, acavalados no nariz, fecham-se ligeiramente quando empurra o portão e percebe que fora aberto. É neste instante que vê o caixãozinho azul abandonado em cima de um túmulo. Preso à tampa, o bilhete: 'Sr. encarregado do cemitério. Pode efetuar o enterramento da menor Maria Pastora da Conceição, falecida hoje...'
Estou confuso, pois acompanhara o enterro antes de ir chamar Manoel na feira. Eu deixara, esperando à sombra de uma árvore, o pai e quatro crianças segurando o caixãozinho. Com naturalidade, Manoel abre a capela e pega a enxada. O Caixão da Caridade, guardado para os que não podem comprar um, chama a minha atenção. Sei que nunca é enterrado: apenas joga o morto dentro da cova e volta para a capela, onde fica esperando o próximo."
Mas sua memória é obsessiva com certos temas e personagens, que analisou repetidamente em suas peças. Assim, no romance, além de relatar memórias inéditas (ou relatos inéditos de referências anteriores, ficcionalizadas), ele as misturou com trechos de peças antigas. É um emaranhado em várias camadas confusas de suas obsessões.
Cansativo. O texto sobrevive apesar dele mesmo (malgré lui). Sinto uma rejeição permanente (por que não se liberta? por que não esquece?). Mas a força das cenas e do texto me forçam, num encantamento desagradável.
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"Chego correndo diante do portão do Cemitério dos Aflitos, em Águas Belas, acompanhando o coveiro Manoel. Os olhos miúdos de Manoel, acavalados no nariz, fecham-se ligeiramente quando empurra o portão e percebe que fora aberto. É neste instante que vê o caixãozinho azul abandonado em cima de um túmulo. Preso à tampa, o bilhete: 'Sr. encarregado do cemitério. Pode efetuar o enterramento da menor Maria Pastora da Conceição, falecida hoje...'
Estou confuso, pois acompanhara o enterro antes de ir chamar Manoel na feira. Eu deixara, esperando à sombra de uma árvore, o pai e quatro crianças segurando o caixãozinho. Com naturalidade, Manoel abre a capela e pega a enxada. O Caixão da Caridade, guardado para os que não podem comprar um, chama a minha atenção. Sei que nunca é enterrado: apenas joga o morto dentro da cova e volta para a capela, onde fica esperando o próximo."
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Nimbo extremamente favorável
Continuando o conto Uma visita de Alcibíades. Fala ainda o Desembargador Álvares:
- - -
"Lia Plutarco, acontecendo-me o que sempre me acontece quando abrou um livro da antiguidade. Passo todo em espírito para o tempo do livro. Depois de jantar é excelente; e acompanhado de um bom charuto de Havana não há nada melhor. O fumo envolve a imaginação numa espécie de nimbo extremamente favorável às evocações mentais. Dentro de pouco acha-se a gente numa via romana, ao pé de um pórtico grego ou na loja de um gramático. Desaparecem os tempos modernos, a insurreição da Herzegovina, a guerra dos carlistas, a rua do Ouvidor, e o Circo Chiarini. Quinze ou vinte minutos de vida antiga por trezentos réis, termo médio, que é o preço do charuto. Uma verdadeira digestão literária.
Ora, foi isso o que aconteceu sábado passado. A página aberta acertou de ser a vida de Alcibíades; deixei-me ir ao sabor da tradução de Amyot. Daí a pouco estava nos jogos olímpicos, a contemplar o elegante ateniense, guiando os seus sete carros, com a firmeza e o donaire com que havia de reger mais tarde as armadas, os cidadãos e os próprios sentidos. Imaginem se vivi! Mas não há bem que sempre dure. Acabou o charuto, desfez-se o nimbo, a antiga Atenas volveu ao cemitério da história e cairam-me os olhos no casaco branco, que então vestia, e nos sapatos de cordovão que me resguardavam os pés.
Súbito pensei comigo:
- Que impressão faria ao ateniense Alcibíades o nosso vestuário moderno?"
- - -
"Lia Plutarco, acontecendo-me o que sempre me acontece quando abrou um livro da antiguidade. Passo todo em espírito para o tempo do livro. Depois de jantar é excelente; e acompanhado de um bom charuto de Havana não há nada melhor. O fumo envolve a imaginação numa espécie de nimbo extremamente favorável às evocações mentais. Dentro de pouco acha-se a gente numa via romana, ao pé de um pórtico grego ou na loja de um gramático. Desaparecem os tempos modernos, a insurreição da Herzegovina, a guerra dos carlistas, a rua do Ouvidor, e o Circo Chiarini. Quinze ou vinte minutos de vida antiga por trezentos réis, termo médio, que é o preço do charuto. Uma verdadeira digestão literária.
Ora, foi isso o que aconteceu sábado passado. A página aberta acertou de ser a vida de Alcibíades; deixei-me ir ao sabor da tradução de Amyot. Daí a pouco estava nos jogos olímpicos, a contemplar o elegante ateniense, guiando os seus sete carros, com a firmeza e o donaire com que havia de reger mais tarde as armadas, os cidadãos e os próprios sentidos. Imaginem se vivi! Mas não há bem que sempre dure. Acabou o charuto, desfez-se o nimbo, a antiga Atenas volveu ao cemitério da história e cairam-me os olhos no casaco branco, que então vestia, e nos sapatos de cordovão que me resguardavam os pés.
Súbito pensei comigo:
- Que impressão faria ao ateniense Alcibíades o nosso vestuário moderno?"
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Plutarco é um autor grego
Ainda sem tempo de escrever, procuro algo nos arquivos.
Meu trabalho final, no curso sobre a crítica a Machado de Assis, comparava duas versões do conto Uma visita de Alcibíades.
A primeira foi publicada em revista para o público feminino - o Jornal das Famílias - em 1876. A segunda fez parte da coletânea Papéis avulsos¸ de 1882.
As duas versões têm o mesmo enredo, mas estilos diferentes.
Segue um trecho da primeira versão, mais difícil de encontrar, e minha preferida:
- - -
"O desembargador Alvares bebeu a última gota de genuíno café, limpou os bigodes ao guardanapo e dispôs-se a obedecer às moças que lhe pediam uma anedota. Era noite de Natal; e o comendador costumava a reunir alguns amigos. O desembargador era figura obrigada de tais festas. Conversado, galhofeiro, palrador, trazendo sempre no alforje da memória boa cópia de anedotas que distribuía às meninas e rapazes curiosos, não era possível passar sem êle naquelas noites de festa anual. A única alteração que havia era uma chícara de café que o desembargador não dispensava nunca, alegando que o chá ia levando a humanidade para a total extinção.
- Carlos Magno não bebia chá e podia com a sua célebre espada, dizia êle; se bebesse café não sei o que teria deixado de fazer.
Mas uma chícara de café era fraco preço para tão amável conviva. Por isso, a dona da casa mandara vir da fazenda de um tio um excelente saco de café de que bebia, a qualquer hora, o desembargador, quando ali ia, e ia sempre. Nas noites de festas fartava-se o desembargador daquela bebida favorita.
Afiaram todos o ouvido, e o desembargador começou:
"- Não contarei uma anedota mentirosa, dessas que os redatores de folhinhas aumentam ou remendam para regalo dos fregueses. Vou referir o que me aconteceu sábado passado.
Sábado passado, logo depois do jantar, estirei-me no divã e abri uma página de Plutarco. Estas meninas talvez não saibam que Plutarco é um autor grego. Pois fiquem sabendo. É autor profano e pagão. Sem embargo disso, tem muitos merecimentos..."
Meu trabalho final, no curso sobre a crítica a Machado de Assis, comparava duas versões do conto Uma visita de Alcibíades.
A primeira foi publicada em revista para o público feminino - o Jornal das Famílias - em 1876. A segunda fez parte da coletânea Papéis avulsos¸ de 1882.
As duas versões têm o mesmo enredo, mas estilos diferentes.
Segue um trecho da primeira versão, mais difícil de encontrar, e minha preferida:
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"O desembargador Alvares bebeu a última gota de genuíno café, limpou os bigodes ao guardanapo e dispôs-se a obedecer às moças que lhe pediam uma anedota. Era noite de Natal; e o comendador costumava a reunir alguns amigos. O desembargador era figura obrigada de tais festas. Conversado, galhofeiro, palrador, trazendo sempre no alforje da memória boa cópia de anedotas que distribuía às meninas e rapazes curiosos, não era possível passar sem êle naquelas noites de festa anual. A única alteração que havia era uma chícara de café que o desembargador não dispensava nunca, alegando que o chá ia levando a humanidade para a total extinção.
- Carlos Magno não bebia chá e podia com a sua célebre espada, dizia êle; se bebesse café não sei o que teria deixado de fazer.
Mas uma chícara de café era fraco preço para tão amável conviva. Por isso, a dona da casa mandara vir da fazenda de um tio um excelente saco de café de que bebia, a qualquer hora, o desembargador, quando ali ia, e ia sempre. Nas noites de festas fartava-se o desembargador daquela bebida favorita.
Afiaram todos o ouvido, e o desembargador começou:
"- Não contarei uma anedota mentirosa, dessas que os redatores de folhinhas aumentam ou remendam para regalo dos fregueses. Vou referir o que me aconteceu sábado passado.
Sábado passado, logo depois do jantar, estirei-me no divã e abri uma página de Plutarco. Estas meninas talvez não saibam que Plutarco é um autor grego. Pois fiquem sabendo. É autor profano e pagão. Sem embargo disso, tem muitos merecimentos..."
sábado, 21 de novembro de 2009
Recontado em português
Estou talvez enganada, no google não encontrei resposta rápida.
De todo modo, desde que li No caminho de Swann sinto curiosidade pelos livros infantis que ele menciona. Gravei o nome da Condessa de Ségur, mas pode ser um erro.
Num sebo em Curitiba, encontrei uma edição de 1972 da Ediouro (talvez reimpressão, mas não está indicado): O general Durakine, "recontado em português por Herberto Sales".
Gosto de livros adaptados. Às vezes, sem tempo de ler certos clássicos, compro a versão infanto-juvenil.
Agora, cansada, esse livro me acalma muito.
De todo modo, desde que li No caminho de Swann sinto curiosidade pelos livros infantis que ele menciona. Gravei o nome da Condessa de Ségur, mas pode ser um erro.
Num sebo em Curitiba, encontrei uma edição de 1972 da Ediouro (talvez reimpressão, mas não está indicado): O general Durakine, "recontado em português por Herberto Sales".
Gosto de livros adaptados. Às vezes, sem tempo de ler certos clássicos, compro a versão infanto-juvenil.
Agora, cansada, esse livro me acalma muito.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Todos os canhões
Trecho da Felicidade conjugal de Tolstoi, edição de bolso da L&PM, tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares (muitos nomes!).
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"Lembrei-me vivamente de uma conversa que nós três tivéramos alguns dias antes. Kátia havia dito que é mais fácil para o homem amar e expressar o seu amor do que para a mulher.
- O homem pode dizer que está apaixonado, mas a mulher, não - disse ela.
- Pois eu penso que o homem também não deve e não pode dizer que está apaixonado - disse ele.
- Por quê? - perguntei.
- Porque será sempre uma mentira. Que tipo de descoberta é essa, de que uma pessoa está amando? Como se, dizendo isso, alguma coisa desse um estalo: clique! - e algo fora do comum deveria acontecer, algum sinal, como todos os canhões atirando ao mesmo tempo, por exemplo. Penso - continuou - que quem pronuncia as palavras "eu te amo" ou está se enganando, ou está enganando os outros, o que é pior."
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Agradeço à sugestão de Luciana Araújo.
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"Lembrei-me vivamente de uma conversa que nós três tivéramos alguns dias antes. Kátia havia dito que é mais fácil para o homem amar e expressar o seu amor do que para a mulher.
- O homem pode dizer que está apaixonado, mas a mulher, não - disse ela.
- Pois eu penso que o homem também não deve e não pode dizer que está apaixonado - disse ele.
- Por quê? - perguntei.
- Porque será sempre uma mentira. Que tipo de descoberta é essa, de que uma pessoa está amando? Como se, dizendo isso, alguma coisa desse um estalo: clique! - e algo fora do comum deveria acontecer, algum sinal, como todos os canhões atirando ao mesmo tempo, por exemplo. Penso - continuou - que quem pronuncia as palavras "eu te amo" ou está se enganando, ou está enganando os outros, o que é pior."
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Agradeço à sugestão de Luciana Araújo.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Ataídes para todas as épocas
"- Ele diz que os tempos são outros e é natural que a nova geração substitua a velha, mas desconfio que tem esperanças de não ficar esquecido. Acredita que o Brasil vai mudar muito, principalmente se houver guerra na Europa. Foi revolucionário em 1922, 1924, e 1930. Agora, é de paz... Ainda espera assistir à evolução social do Brasil, mas deseja que as modificações venham sem violência, pela simples pressão das massas. É o que está sempre a dizer... Se o senhor visse a cara que mamãe faz com essas conversas... Papai lhe chama "latifundiária" e diz que os Ataídes têm mentalidade feudal. O senhor acha?
Respondi que, tanto quanto conhecia a história da família, podia assegurar que sempre houve Ataídes para todas as épocas. A prova é que tínhamos ali uma Ataíde socialista...
Estas palavras lisonjeiras fizeram-lhe os olhos brilhar de prazer. Certamente por ter vindo à baila a palavra "socialista", Gabriela exclamou, de súbito:
- Xi!... Estamos perdendo tempo em conversas. Precisamos trabalhar... Ia-lhe dizendo que podíamos formar duas comissões, para que o grupo não fique muito grande. Cada uma poderá agir num setor..."
(Abdias, de Cyro dos Anjos, p. 114)
Respondi que, tanto quanto conhecia a história da família, podia assegurar que sempre houve Ataídes para todas as épocas. A prova é que tínhamos ali uma Ataíde socialista...
Estas palavras lisonjeiras fizeram-lhe os olhos brilhar de prazer. Certamente por ter vindo à baila a palavra "socialista", Gabriela exclamou, de súbito:
- Xi!... Estamos perdendo tempo em conversas. Precisamos trabalhar... Ia-lhe dizendo que podíamos formar duas comissões, para que o grupo não fique muito grande. Cada uma poderá agir num setor..."
(Abdias, de Cyro dos Anjos, p. 114)
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