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segunda-feira, 18 de julho de 2016
Uniforme obrigatório
"Vinícius era mais bonito e tinha mais estilo, aos dezessete anos, do que seu pai nessa idade. Talvez porque tenha acompanhado desde o divórcio dos pais, quando ainda estava na pré-escola, uma sequência de namoros, rupturas, reconciliações equivocadas e novos namoros, tanto do pai quanto da mãe, ele na adolescência já tinha postura e comportamento de um jovem adulto. Começou a estudar no colégio Três Rios da Granja Vianna aos quinze anos, na metade do primeiro colegial, quando sua mãe se casou com um holandês e foi morar na Europa. No início ele teve alguns problemas com o coordenador porque se recusava a usar a camiseta branca do uniforme. Ele só vestia roupas pretas. Depois de algumas advertências conformou-se em usar o uniforme obrigatório, com a camisa preta aberta por cima. O colégio Três Rios ficava do outro lado da Rodovia Raposo Tavares e Vinícius ia de ônibus comum às seis e meia da manhã. Ele não gostava do aspecto grandioso e rodoviário do lugar, o estacionamento gigantesco, as filas de ônibus escolares que traziam centenas de crianças dos condomínios da região. Carteiras plásticas nas salas de aula, paredes pré-fabricadas, revestimento sintético no chão. Em sua turma, vinte e oito adolescentes limpos e bem tratados. Vinícius não sentia curiosidade nem interesse por jovens tão saudáveis. Nos últimos meses daquele ano, quem mais o interessava era a jovem professora de química que segurava o pincel atômico com a ponta dos dedos para não se sujar. A pequena professora que estudou no Três Rios desde criança e agora ensinava propriedades coligativas com um otimismo inocente e meio assustado, como se tivesse medo que os alunos a acusassem de ser o que era, uma jovem como eles, protegida por uma vida inteira na Granja."
segunda-feira, 27 de junho de 2016
Esse mundo barulhento
"Vinícius fechou a loja às
sete da noite. Desceu a Rua Nova Amazonas, depois a Nova América, no
caminho para a Estrada da Aldeia. Seus tênis já estavam bem gastos
de tanto andar a pé. Ouvia música no fone de ouvido, com o celular
no bolso da calça. Sua calça jeans meio suja, a camiseta velha, era
mais honesto como estilo e também mais seguro, certos caras do Rio
Branco tinham sido assaltados cinco, seis vezes, mas ele não, ele
não parecia um filhinho de papai.
Era quinta-feira, Naomi
sairia da aula de francês às oito e meia. Segunda e quarta não
havia dilema, ele saía da loja às sete e voltava direto para casa.
Mas terça e quinta agora havia essa questão, essa aula de francês.
Naomi se matriculou no primeiro semestre de francês básico e em
julho iria para o Canadá fazer intercâmbio. A escola de línguas
ficava na Avenida São Camilo, no meio do caminho entre a loja e sua
casa. Quando ela contou ele disse casualmente: “Qualquer dia passo
lá depois do trampo.” Era caminho pra ele, “Legal”, ela
respondeu. Ele passou numa quinta, depois na outra terça,
casualmente, caminharam juntos da escola até a casa dela para ela
não voltar sozinha de noite. Ela contou do intercâmbio, dos seus
planos, de como não gostava do Brasil porque não conseguia se
identificar com esse mundo barulhento, brilhante e dourado onde
ninguém valorizava livros e história e as coisas que ela achava
importantes. Para caminhar com ela aqueles vinte minutos, ele
precisava decidir o que fazer com a hora e meia que sobravam depois
de fechar a loja. Decidir se simplesmente parava em algum lugar e
esperava, ou andava trinta e cinco minutos até a casa do Samuel,
devolvia a chave, depois voltava pelo mesmo caminho mais vinte e
cinco minutos até a escola de línguas na Avenida São Camilo."
sexta-feira, 17 de junho de 2016
In bluer skies
"A loja ficava na casa 10 da galeria Pátio da Granja, um conjunto de sobrados comerciais construído no fim dos anos 1990, simulando uma vila residencial. No centro das casas um pátio calçado com paralelepípedos, um canteiro de folhagens e dois bancos de praça. Vinícius entrava às duas da tarde depois de sair do colégio. Era responsável pela loja até as sete da noite, quando fechava tudo e deixava as chaves na casa do dono, que assumia pela manhã. Samuel, o dono, tinha um toca-discos para vinil e queria música na loja sempre, alta o suficiente para ser ouvida mas nem tanto que atrapalhasse o atendimento. No seu turno de manhã tocava os discos que encontrava em sebos e feiras no fim de semana: funk americano dos anos 1970, às vezes rap paulista dos anos 1990, às vezes algum rock psicodélico (embora os garotos do skate estranhassem esse estilo). Quando assumia, Vinícius trocava o vinil por seus arquivos digitais de música. Ele estava estudando sintetizadores de bandas pós-punk dos anos 1980. Pensava há dias numa mesma música, “In bluer skies”, do terceiro álbum da banda inglesa Echo and the Bunnymen. “Eu dependo do seu coração oprimido / para não me desintegrar.”
No começo da tarde não apareceu ninguém. Vinícius ficou ao computador, repetindo várias vezes algumas faixas do álbum, “Porcupine”, uma versão remasterizada lançada em 2003 que ele baixou da internet. Ele passava muitas horas em casa, à noite, pesquisando novos discos em sites especializados, procurando torrents para baixar o que lhe interessava. Salvava as faixas num pen drive e depois copiava no computador da loja, para ouvir no sistema de caixas de som montado pelo Samuel. Eram boas caixas, melhores que as de sua casa, e faziam parte da lista de coisas que ele pretendia comprar aos poucos com seu salário. Equipamentos musicais eram caros. A lista era grande e seu salário não.
Pouco antes das cinco entrou um garoto de uns treze anos, cabelo liso e comprido, com uniforme da Escola da Granja. Sua mãe veio alguns passos atrás e parou perto da porta, longe do balcão. O garoto veio falar com ele, queria montar um longboard, já tinha vindo à loja no sábado, Samuel mostrou alguns shapes e agora ele queria comprar. A mãe ouviu de longe, sem se intrometer. Vinícius simpatizava com esse tipo de mãe que vinha para pagar mas deixava o filho escolher sozinho e resolver por conta própria. O garoto tinha todo o figurino de skate, a bermuda larga, o tênis old school, o blusão com capuz. Mas todas as peças eram novas e caras, estavam limpas e passadas. Vinícius perguntou pra confirmar se o garoto queria montar o skate inteiro ou só queria substituir algumas peças. Era um skate inteiro; o garoto não disse, estava tentando passar por experiente, mas visivelmente seria seu primeiro skate. Vinícius simpatizou com isso também e se manteve muito sério e profissional, para não estragar o momento do moleque."
No começo da tarde não apareceu ninguém. Vinícius ficou ao computador, repetindo várias vezes algumas faixas do álbum, “Porcupine”, uma versão remasterizada lançada em 2003 que ele baixou da internet. Ele passava muitas horas em casa, à noite, pesquisando novos discos em sites especializados, procurando torrents para baixar o que lhe interessava. Salvava as faixas num pen drive e depois copiava no computador da loja, para ouvir no sistema de caixas de som montado pelo Samuel. Eram boas caixas, melhores que as de sua casa, e faziam parte da lista de coisas que ele pretendia comprar aos poucos com seu salário. Equipamentos musicais eram caros. A lista era grande e seu salário não.
Pouco antes das cinco entrou um garoto de uns treze anos, cabelo liso e comprido, com uniforme da Escola da Granja. Sua mãe veio alguns passos atrás e parou perto da porta, longe do balcão. O garoto veio falar com ele, queria montar um longboard, já tinha vindo à loja no sábado, Samuel mostrou alguns shapes e agora ele queria comprar. A mãe ouviu de longe, sem se intrometer. Vinícius simpatizava com esse tipo de mãe que vinha para pagar mas deixava o filho escolher sozinho e resolver por conta própria. O garoto tinha todo o figurino de skate, a bermuda larga, o tênis old school, o blusão com capuz. Mas todas as peças eram novas e caras, estavam limpas e passadas. Vinícius perguntou pra confirmar se o garoto queria montar o skate inteiro ou só queria substituir algumas peças. Era um skate inteiro; o garoto não disse, estava tentando passar por experiente, mas visivelmente seria seu primeiro skate. Vinícius simpatizou com isso também e se manteve muito sério e profissional, para não estragar o momento do moleque."
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
Trilha sonora de Império dos Sonhos
"Vinícius morava com o pai divorciado numa casa de três quartos, comprada quando este ainda estava casado com a segunda esposa. A casa já não tinha as cerâmicas decorativas e as telas florais daquela época. Sobrou da decoração antiga um grande sofá bordô e uma mesa oval de oito lugares. As estantes novas, que substituíam as que foram levadas na divisão dos móveis, eram prateleiras metálicas de escritório. Nelas estavam amontoadas revistas, DVDs, bonés esportivos e traquitanas eletrônicas. Os poucos objetos coloridos eram um cabideiro rosa na entrada e almofadinhas bordadas na poltrona, deixados pela última namorada que durou alguns meses.
Heitor, o pai de Vinícius, coordenava a transmissão de campeonatos esportivos em um canal de TV a cabo. Era responsável pelas equipes técnicas que cobriam eventos nacionais e internacionais de futebol, basquete, rugby, poker, ciciclismo e judô. Ele não tinha horário fixo e passava muitas horas na emissora, principalmente aos sábados e domingos. Quando os amigos de Vinícius apareciam no fim de semana, a casa ficava inteira para eles até duas ou três da manhã.
Olívia frequentava esses encontros havia alguns meses, desde que Naomi se aproximara de Vinícius. Ele era um ano mais velho que as duas e começara a estudar no Rio Branco da Granja quando a mãe se casou com um holandês e foi morar na Europa. Ele tinha quinze anos e estava no primeiro colegial. No início teve alguns problemas com o coordenador porque se recusava a usar a camiseta branca do uniforme. Ele só vestia roupas pretas. Depois de algumas advertências conformou-se em usar a camiseta, com uma camisa preta aberta por cima.
Naomi e Olívia eram melhores amigas desde os treze anos, quando houve uma redivisão das turmas e as duas ficaram na mesma classe. Nenhuma delas tinha amigas muito próximas antes disso. Naomi não tinha paciência para rodinhas e trocava de amigas constantemente. Olívia passava os intervalos com algumas garotas fanáticas por Harry Potter, mas não gostava especialmente delas. Num trabalho em grupo para a aula de inglês, Naomi descobriu que Olívia estava lendo 1984, de George Orwell, na língua original. Então mostrou-se interessada, puxou conversa para saber o que Olívia gostava de ler, assistir e ouvir, e logo a afastou definitivamente das outras. Naomi gostava de grupos pequenos. Expressando seu desdém pela banalidade das colegas, garantia para si a atenção integral de Olívia.
Foi numa festinha de algum aniversário que Vinícius e Naomi conversaram pela primeira vez. Ele se apresentou no meio da noite, quando boa parte dos garotos e garotas já estavam bêbados. Quase todas as luzes estavam apagadas, um grupo gritava em torno do videogame na sala, outros assistiam TV chapados num quarto. Olívia e Naomi estavam perto da caixa de som, ouvindo a trilha sonora do filme "Império dos sonhos". Vinícius disse oi e pegou uma latinha de coca-cola que estava entre as duas. "Vocês não bebem?", ele perguntou. Naomi respondeu que não. Ele disse: "Nem eu.""
Heitor, o pai de Vinícius, coordenava a transmissão de campeonatos esportivos em um canal de TV a cabo. Era responsável pelas equipes técnicas que cobriam eventos nacionais e internacionais de futebol, basquete, rugby, poker, ciciclismo e judô. Ele não tinha horário fixo e passava muitas horas na emissora, principalmente aos sábados e domingos. Quando os amigos de Vinícius apareciam no fim de semana, a casa ficava inteira para eles até duas ou três da manhã.
Olívia frequentava esses encontros havia alguns meses, desde que Naomi se aproximara de Vinícius. Ele era um ano mais velho que as duas e começara a estudar no Rio Branco da Granja quando a mãe se casou com um holandês e foi morar na Europa. Ele tinha quinze anos e estava no primeiro colegial. No início teve alguns problemas com o coordenador porque se recusava a usar a camiseta branca do uniforme. Ele só vestia roupas pretas. Depois de algumas advertências conformou-se em usar a camiseta, com uma camisa preta aberta por cima.
Naomi e Olívia eram melhores amigas desde os treze anos, quando houve uma redivisão das turmas e as duas ficaram na mesma classe. Nenhuma delas tinha amigas muito próximas antes disso. Naomi não tinha paciência para rodinhas e trocava de amigas constantemente. Olívia passava os intervalos com algumas garotas fanáticas por Harry Potter, mas não gostava especialmente delas. Num trabalho em grupo para a aula de inglês, Naomi descobriu que Olívia estava lendo 1984, de George Orwell, na língua original. Então mostrou-se interessada, puxou conversa para saber o que Olívia gostava de ler, assistir e ouvir, e logo a afastou definitivamente das outras. Naomi gostava de grupos pequenos. Expressando seu desdém pela banalidade das colegas, garantia para si a atenção integral de Olívia.
Foi numa festinha de algum aniversário que Vinícius e Naomi conversaram pela primeira vez. Ele se apresentou no meio da noite, quando boa parte dos garotos e garotas já estavam bêbados. Quase todas as luzes estavam apagadas, um grupo gritava em torno do videogame na sala, outros assistiam TV chapados num quarto. Olívia e Naomi estavam perto da caixa de som, ouvindo a trilha sonora do filme "Império dos sonhos". Vinícius disse oi e pegou uma latinha de coca-cola que estava entre as duas. "Vocês não bebem?", ele perguntou. Naomi respondeu que não. Ele disse: "Nem eu.""
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Naomi Wolf
"Pegaram dois ônibus para chegar à rua 24 de Maio, no centro. O primeiro ônibus foi mais demorado, uma linha intermunicipal pois a Granja infelizmente não era em São Paulo mas em Cotia. No longo caminho Olívia falou animada do episódio de "Arquivo X" que ela assistiu na noite anterior, "A Guerra das Baratas", muito nojento. Não foi tão bom quanto o episódio dos freaks, mas foi quase, Naomi precisava assistir.
- Já te falei que me recuso a assistir esse seriado. Eu odeio ficção científica.
- Não é ficção científica. É muito mais do que isso.
- É muito tosco você baixando séries antigas. Eu não quero mais ver séries. Só vou ver filmes agoras. Séries são idiotas.
- Eu curto coisas idiotas.
- Eu sei.
Olívia constantemente precisava defender seu gosto pelo mundo trash, os filmes de horror, os efeitos especiais defeituosos. Naomi se recusava a compartilhar certas preferências, detestava que confundissem seu gosto por rock gótico e filmes antigos de vampiro com algumas modas deprimentes, como os emos. Seu nome foi inspirado em Naomi Wolf, escritora feminista, autora do livro "O mito da beleza", que impressionou sua mãe quando estava grávida.
Chegaram na galeria do rock, passaram pelas lojas de tênis de skate no térreo, os cabeleireiros afro, as lojas de reggae, as camisetas e canecas temáticas no primeiro andar.
- Só tem reggae aqui?
- A loja de tintas é no terceiro andar.
Olívia tinha lido sobre tintas num blog chamado "Cherry Bomb", sobre moda e estilo punk lolita. Um dos textos explicava em detalhes todas as marcas de tintas coloridas, como aplicar e onde comprar. Azul Roxfluor, Blue Rox, Ice Metalic, Coral Salmon. Ela e Naomi escolheram o preto azulado para começar. Naomi porque gostava de preto. Olívia porque era mais fácil de manter. Foi uma decisão cuidadosa, porque elas sabiam que o preto era difícil de tirar do cabelo, na prática só raspando ou deixando crescer. Olívia sugeriu pintar o cabelo em casa, era mais barato. Ela viu no blog que a melhor tinta preto azulado era a Koleston, e tinha na Droga Raia, ela procurou quando foi às compras com a avó. Mas Naomi não queria o cabelo manchado de jeito nenhum, pintar em casa só faz sujeira e não fica bom, ela não confiava.
Mariana já tinha sido avisada e não protestou quando Olívia chegou em casa no fim da tarde com a nuca raspada e a franja desigual, com uma mecha bem mais longa que o resto.
- Ficou bonita a cor - ela disse."
- Já te falei que me recuso a assistir esse seriado. Eu odeio ficção científica.
- Não é ficção científica. É muito mais do que isso.
- É muito tosco você baixando séries antigas. Eu não quero mais ver séries. Só vou ver filmes agoras. Séries são idiotas.
- Eu curto coisas idiotas.
- Eu sei.
Olívia constantemente precisava defender seu gosto pelo mundo trash, os filmes de horror, os efeitos especiais defeituosos. Naomi se recusava a compartilhar certas preferências, detestava que confundissem seu gosto por rock gótico e filmes antigos de vampiro com algumas modas deprimentes, como os emos. Seu nome foi inspirado em Naomi Wolf, escritora feminista, autora do livro "O mito da beleza", que impressionou sua mãe quando estava grávida.
Chegaram na galeria do rock, passaram pelas lojas de tênis de skate no térreo, os cabeleireiros afro, as lojas de reggae, as camisetas e canecas temáticas no primeiro andar.
- Só tem reggae aqui?
- A loja de tintas é no terceiro andar.
Olívia tinha lido sobre tintas num blog chamado "Cherry Bomb", sobre moda e estilo punk lolita. Um dos textos explicava em detalhes todas as marcas de tintas coloridas, como aplicar e onde comprar. Azul Roxfluor, Blue Rox, Ice Metalic, Coral Salmon. Ela e Naomi escolheram o preto azulado para começar. Naomi porque gostava de preto. Olívia porque era mais fácil de manter. Foi uma decisão cuidadosa, porque elas sabiam que o preto era difícil de tirar do cabelo, na prática só raspando ou deixando crescer. Olívia sugeriu pintar o cabelo em casa, era mais barato. Ela viu no blog que a melhor tinta preto azulado era a Koleston, e tinha na Droga Raia, ela procurou quando foi às compras com a avó. Mas Naomi não queria o cabelo manchado de jeito nenhum, pintar em casa só faz sujeira e não fica bom, ela não confiava.
Mariana já tinha sido avisada e não protestou quando Olívia chegou em casa no fim da tarde com a nuca raspada e a franja desigual, com uma mecha bem mais longa que o resto.
- Ficou bonita a cor - ela disse."
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Mallu e a galeria do rock
"Olívia acordou entediada. Levantou, trancou a porta do quarto sem fazer barulho, deitou novamente e se cobriu com o lençol. Ficou de barriga para baixo, de olhos fechados, mexendo-se o mínimo possível por alguns minutos com os braços entre as pernas levemente abertas. Depois sua expressão se acalmou. Ela levantou de novo, foi até o banheiro, lavou o rosto e escovou os dentes.
Naomi tocou o interfone do portão às nove e meia. Olívia saiu com sua mochila e as duas caminharam até o cruzamento da rodovia Raposo Tavares.
- Vamos esperar o 297 ou quer ir até o terminal?
- Não quero andar hoje. Vamos esperar.
Elas atravessaram a passarela e desceram até o ponto de ônibus. Era sábado, havia menos carros passando e menos gente no ponto. Normalmente Mariana ou Carol, a mãe de Naomi, levariam as duas de carro quando queriam passear fora da Granja. Mas neste sábado ela preferiram ir sozinhas.
Era março de 2008 e ela começavam o segundo ano do ensino médio. O assunto no início das aulas, em fevereiro, tinha sido a adolescente de 15 anos que fez sucesso na internet, Mallu Magalhães e sua música Tchubaruba. Quase todas as garotas da classe achavam Mallu muito fofa, cantando em inglês com sua voz fininha "she was just crying / under my favorite tree" e o refrão meigo "If you are down / yes I will say tchubaruba". Mallu deu entrevistas na TV e contou que ao completar 15 anos queria fazer uma coisa legal, por isso cortou os cabelos, que estavam abaixo dos ombros, e doou para uma instituição de apoio a pacientes com câncer. Também recebeu da avó algum dinheiro como presente de aniversário, e gravou num estúdio quatro músicas que ela mesma compôs. A meiguice de Mallu despertou nas garotas da classe uma nova mania por músicas fofas, especialmente Belle e Sebastian e baladinha de amor frustrado "Another Sunny Day". Olívia e Naomi decidiram raspar uma parte do cabelo e pintar tudo de preto.
Pegaram dois ônibus para chegar à galeria do rock na rua 24 de Maio, no centro. "
Naomi tocou o interfone do portão às nove e meia. Olívia saiu com sua mochila e as duas caminharam até o cruzamento da rodovia Raposo Tavares.
- Vamos esperar o 297 ou quer ir até o terminal?
- Não quero andar hoje. Vamos esperar.
Elas atravessaram a passarela e desceram até o ponto de ônibus. Era sábado, havia menos carros passando e menos gente no ponto. Normalmente Mariana ou Carol, a mãe de Naomi, levariam as duas de carro quando queriam passear fora da Granja. Mas neste sábado ela preferiram ir sozinhas.
Era março de 2008 e ela começavam o segundo ano do ensino médio. O assunto no início das aulas, em fevereiro, tinha sido a adolescente de 15 anos que fez sucesso na internet, Mallu Magalhães e sua música Tchubaruba. Quase todas as garotas da classe achavam Mallu muito fofa, cantando em inglês com sua voz fininha "she was just crying / under my favorite tree" e o refrão meigo "If you are down / yes I will say tchubaruba". Mallu deu entrevistas na TV e contou que ao completar 15 anos queria fazer uma coisa legal, por isso cortou os cabelos, que estavam abaixo dos ombros, e doou para uma instituição de apoio a pacientes com câncer. Também recebeu da avó algum dinheiro como presente de aniversário, e gravou num estúdio quatro músicas que ela mesma compôs. A meiguice de Mallu despertou nas garotas da classe uma nova mania por músicas fofas, especialmente Belle e Sebastian e baladinha de amor frustrado "Another Sunny Day". Olívia e Naomi decidiram raspar uma parte do cabelo e pintar tudo de preto.
Pegaram dois ônibus para chegar à galeria do rock na rua 24 de Maio, no centro. "
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
Pelas barbas de Merlin
"Sala de aula do colégio em que Olívia estuda desde criança. Uma sala limpa, em que tudo é novo e tudo é plástico. As paredes são feitas de placas pré-fabricadas, o chão é coberto de um revestimento sintético cor gelo. Um branco acinzentado que nunca lembraria gelo, nenhum brilho, nenhuma transparência, nenhum reflexo azul. A sala cheia, vinte e oito adolescentes bem criados da Granja Viana. Um grupo tenro e pálido de garotos e garotas de dezesseis anos, limpos, saudáveis, as camisetas brancas e bem lavadas do uniforme. A professora de química certinha, arrumadinha, segura o pincel atômico com a ponta dos dedos para não se sujar. Ainda não tem trinta anos, cabelos clareados e alisados com escova, estudou no Rio Branco desde criança e agora é professora. Uma vida inteira no Rio Branco. A vida inteira na Granja.
Aquele ano para Olívia se arrastava sofrido desde o começo. Evitar a primeira fila de carteiras, seu lugar preferido desde o ensino fundamental, recuar para a quinta carteira na fileira do canto não ajudou. Ela estava mais escondida mas não melhor. Suzana a acompanhou meio contrariada para a quarta carteira, à sua frente. Olívia observava durante a aula seu cabelo liso, comprido e bem penteado. Sentia um pouco de raiva, um pouco de desprezo, um pouco de inveja. Por que os cabelos eram o centro da vida de todas as garotas em sua classe? Como conseguiam fazer escova todos os dias? Olívia nunca teria aquela paciência. Ela não conseguia conceber que cabelos merecessem tanta importância, cabelos são só cabelos, pelas barbas de Merlin. Ela não podia mais dizer pelas barbas de Merlin. Ela não gostava mais de Harry Potter."
Aquele ano para Olívia se arrastava sofrido desde o começo. Evitar a primeira fila de carteiras, seu lugar preferido desde o ensino fundamental, recuar para a quinta carteira na fileira do canto não ajudou. Ela estava mais escondida mas não melhor. Suzana a acompanhou meio contrariada para a quarta carteira, à sua frente. Olívia observava durante a aula seu cabelo liso, comprido e bem penteado. Sentia um pouco de raiva, um pouco de desprezo, um pouco de inveja. Por que os cabelos eram o centro da vida de todas as garotas em sua classe? Como conseguiam fazer escova todos os dias? Olívia nunca teria aquela paciência. Ela não conseguia conceber que cabelos merecessem tanta importância, cabelos são só cabelos, pelas barbas de Merlin. Ela não podia mais dizer pelas barbas de Merlin. Ela não gostava mais de Harry Potter."
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
A casa de Vinícius
"Olívia parou de responder. Pegou o celular e escreveu uma mensagem:
"Oi, Fava. Queria conversar uma coisa contigo. Posso te ligar?"
Fava era o apelido de Vinícius, abreviação do sobrenome materno, Favero. Enquanto esperava a resposta, ela desceu até a cozinha. Estava vazia. Pela porta dos fundos aberta viu a avó no jardim. O celular vibrou com a resposta de Vinícius: "ok".
Olívia gritou avisando:
- Vó, vou sair!
Inês mal a vira, e ela já estava saindo.
- Vai aonde?
- No Vinícius. Não demoro. Tchau!
Vinícius não morava longe. A casa ficava num condomínio fechado, na Estrada Zurique. Olívia subiu a Avenida São Camilo até a Estrada Bucarest, onde havia um portão secundário. Ela apertou o interfone e esperou apoiada na grade, logo a empregada respondeu e abriu a portinha de pedestres. Olívia seguiu pelas ruas cheias de árvores e palmeiras, as casas esparsas escondidas pelos altos e baixos do terreno e as folhagens vigorosas do verão. Finalmente, depois de subir um tanto, chegou à rampa de entrada, que descia até a casa no declive do terreno. A sala aparecia pela ampla porta de vidro, que estava aberta. Vinícius jogava videogame no sofá. Pausou o jogo quando ela sentou na outra poltrona e disse oi.
- Oi, ele respondeu. - E aí?
- Tranquilo. E você?
- Normal. Na calma.
Os dois não se viam desde o fim das aulas em dezembro. Olívia foi na festa de despedida mas não participou da viagem de formatura. Ele ainda estava com o controle do videogame na mão.
- Se importa se eu continuar jogando?
- Okei.
Ele tirou o som da TV. O jogo era Fallout 3, que ele já tinha fechado, estava só completando algumas missões secundárias. Olívia assistiu um pouco, a imagem estava mais bonito do que ela lembrava.
- TV nova?
- É Led. Meu pai comprou no fim do ano.
- Foda.
- É.
Seguiram acompanhando o jogo mais um tempo, e então ela disse:
- Então, preciso te contar um negócio. Tipo, é uma coisa que eu queria te contar, pra você não ficar puto se descobrir depois.
- Fala
- Aff... não sei como começar.
- Você tá saindo com outro cara ou algo assim?
- Não. É outra coisa. É... Bem, eu fiz uns vídeos pro youtube. É uma coisa que eu inventei, é tipo um projeto feminista. Mas tem uns lances sobre sexo e tal. Eu não queria que você olhasse e pensasse que estou falando de você.
- Você faz sexo nos vídeos?
- Não, é só falado. É tipo umas ideias e opiniões. Eu comecei escrevendo num blog e depois eu fiz uns vídeos.
- Tá, e daí?
- Daí que tem umas histórias de namoro e transas, e eu não quero que você ache que é sobre você.
- Só isso?
- Só isso.
- Eu não vou ver os seus vídeos. Tá viajando.
- Uma jornalista disse que vai fazer uma matéria. Talvez você veja.
- Pode ficar tranquila porque eu não vou ver."
"Oi, Fava. Queria conversar uma coisa contigo. Posso te ligar?"
Fava era o apelido de Vinícius, abreviação do sobrenome materno, Favero. Enquanto esperava a resposta, ela desceu até a cozinha. Estava vazia. Pela porta dos fundos aberta viu a avó no jardim. O celular vibrou com a resposta de Vinícius: "ok".
Olívia gritou avisando:
- Vó, vou sair!
Inês mal a vira, e ela já estava saindo.
- Vai aonde?
- No Vinícius. Não demoro. Tchau!
- Oi, ele respondeu. - E aí?
- Tranquilo. E você?
- Normal. Na calma.
Os dois não se viam desde o fim das aulas em dezembro. Olívia foi na festa de despedida mas não participou da viagem de formatura. Ele ainda estava com o controle do videogame na mão.
- Se importa se eu continuar jogando?
- Okei.
Ele tirou o som da TV. O jogo era Fallout 3, que ele já tinha fechado, estava só completando algumas missões secundárias. Olívia assistiu um pouco, a imagem estava mais bonito do que ela lembrava.
- TV nova?
- É Led. Meu pai comprou no fim do ano.
- Foda.
- É.
Seguiram acompanhando o jogo mais um tempo, e então ela disse:
- Então, preciso te contar um negócio. Tipo, é uma coisa que eu queria te contar, pra você não ficar puto se descobrir depois.
- Fala
- Aff... não sei como começar.
- Você tá saindo com outro cara ou algo assim?
- Não. É outra coisa. É... Bem, eu fiz uns vídeos pro youtube. É uma coisa que eu inventei, é tipo um projeto feminista. Mas tem uns lances sobre sexo e tal. Eu não queria que você olhasse e pensasse que estou falando de você.
- Você faz sexo nos vídeos?
- Não, é só falado. É tipo umas ideias e opiniões. Eu comecei escrevendo num blog e depois eu fiz uns vídeos.
- Tá, e daí?
- Daí que tem umas histórias de namoro e transas, e eu não quero que você ache que é sobre você.
- Só isso?
- Só isso.
- Eu não vou ver os seus vídeos. Tá viajando.
- Uma jornalista disse que vai fazer uma matéria. Talvez você veja.
- Pode ficar tranquila porque eu não vou ver."
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
A jornalista Bianca Yasmin
"Em catorze de janeiro de 2010, Olívia recebeu o email de uma jornalista do portal Planeta, que escrevia uma matéria sobre jovens blogueiras. A matéria sairia no dia seguinte, a jornalista tinha uma lista de perguntas e seria muito legal se Olívia pudesse responder naquela mesma tarde.
Olívia estava em casa. Eram férias e ela tinha acordado ao meio-dia. A avó já almoçara e cuidava das plantas no jardim. Olívia tomou seu café-da-manhã na cozinha, pão com requeijão, leite e nescau, depois voltou para o quarto e ligou o computador. Olhou as novidades em seu perfil familiar, onde estavam seus colegas e conhecidos reais, distraiu-se um pouco, e em seguida abriu as contas de email, twitter e facebook de Caroline Cólera. Checou os comentários e mensagens, respondeu rapidamente o que podia ser respondido sem atenção, e finalmente leu o email da jornalista.
"Olá, Caroline
Sou redatora de entretenimento do Planeta e estou entrevistando blogueiras para uma matéria. Minha prima mais nova é fã dos seus vídeos, foi ela quem te indicou. A matéria é sobre as novas blogueiras de moda e estilo, mas eu também quero inserir um box sobre blogs alternativos e feministas. Meu prazo é amanhã, se você se interessar te mando as perguntas ainda hoje. Espero que você queira e possa participar!"
A jornalista se chamava Bianca Yasmin. Olívia pesquisou seu nome mas não havia muita coisa. Viu duas fotos, parecia jovem e delicada. Era redatora do portal, no perfil do linkedin havia três empregos e dois estágios, estava formada havia três anos. Olívia gostou da moça, respondeu que poderia sim participar e logo recebeu outro email com as perguntas:
"Obrigada por aceitar o convite! Assisti alguns de seus vídeos, achei muito legal. Seguem as perguntas. Depois mando o link quando a matéria sair. Um beijo!
- Quando surgiu seu blog? De onde veio a ideia?
- Caroline Cólera é um pseudônimo? Qual seu nome verdadeiro?
- Qual sua idade e profissão (ou atividade principal)?
- Seu blog tem uma linha editorial, ou seja, há um tema central e uma abordagem definida?
- Qual seu objetivo para o blog? O que você sonha conseguir?
- Quais seus hobbies ou atividades favoritas?
- Como você descreveria a si mesma em duas linhas?"
Era sua primeira entrevista. O primeiro contato de uma profissional da mídia, alguém que trabalhava contratada por um portal importante e se interessava por ela. Seu entusiasmo foi mais intenso do que toda satisfação que sentira pelas mensagens de suas seguidoras até aquele dia. Era uma jornalista de verdade. Um portal de verdade. Uma entrevista de verdade. Olívia leu e releu as perguntas, pensou em frases bonitas, sua "linha editorial", seus sonhos e objetivos, seus hobbies e atividades. Foi atingida por uma ventania de ideias e queria dizer muitas coisas. Mas como lidar com a segunda pergunta? Ela já havia pensado algumas vezes, quando seus vídeos ultrapassaram as centenas de visualizações, que a popularidade aumentava a chance de ser identificada por algum conhecido. Por mais maquiada que estivesse, mesmo simulando um tom de voz diferente, um amigo poderia reconhecê-la, se olhasse com atenção. Até aquele momento ela havia adiado qualquer decisão a respeito disso. Ela não tinha vergonha do que publicara, a fantasia de Caroline Cólera era principalmente um efeito estético, a incorporação da atitude e da imagem de uma personagem que ela admirava. Mas as palavras que ela escreveu e gravou eram as suas próprias. O sigilo sobre seu nome tinha a intenção principal de evitar amolações. Agora, se o blog aparecesse no portal Planeta, era provável (e ela desejava) que mais pessoas o descobrissem. A chance de ser reconhecida aumentava. Então não seria melhor simplificar tudo e já assumir seu nome verdadeiro, como a jornalista pediu? Não era melhor ser direta, se afinal ela seria descoberta mais cedo ou mais tarde?
Inês bateu à porta do quarto (ela checava frequentemente se Olívia estava acordada, percebia pelo barulho do teclado). Olívia fechou seus emails antes de responder:
- Oi, vó.
Inês entrou, deu um beijo de bom dia nos cabelos da neta. Era seu beijo habitual nas manhãs das férias, Olívia sentada ao computador desde que acordava.
- Já tomou café?
- Já.
- Vamos no mercado comigo?
- Pode ser daqui a pouco? Tipo uma meia hora?
- Tá ótimo. Te esperando lá embaixo.
Olívia queria responder a jornalista antes de sair com a avó, e precisava decidir rápido. Diria seu nome ou não? Não adiantava ruminar todos as possíveis consequências, era mais honesto escolher uma postura que ela se orgulhasse de defender, em qualquer circunstância. E então ela percebeu que não queria dizer o seu nome, não por vergonha ou medo das consequências, mas porque isso a tornaria novamente uma garota comum - aquela Olívia de dezessete anos, que morava desde criança na Granja Viana com sua avó, e terminara o ensino médio em dezembro, e esperava o início das aulas em fevereiro como qualquer outra garota de classe média da sua idade. Ela era essa Olívia, mas isso era tão insuficiente. Sua vida tinha mais importância como Caroline Cólera."
Olívia estava em casa. Eram férias e ela tinha acordado ao meio-dia. A avó já almoçara e cuidava das plantas no jardim. Olívia tomou seu café-da-manhã na cozinha, pão com requeijão, leite e nescau, depois voltou para o quarto e ligou o computador. Olhou as novidades em seu perfil familiar, onde estavam seus colegas e conhecidos reais, distraiu-se um pouco, e em seguida abriu as contas de email, twitter e facebook de Caroline Cólera. Checou os comentários e mensagens, respondeu rapidamente o que podia ser respondido sem atenção, e finalmente leu o email da jornalista.
"Olá, Caroline
Sou redatora de entretenimento do Planeta e estou entrevistando blogueiras para uma matéria. Minha prima mais nova é fã dos seus vídeos, foi ela quem te indicou. A matéria é sobre as novas blogueiras de moda e estilo, mas eu também quero inserir um box sobre blogs alternativos e feministas. Meu prazo é amanhã, se você se interessar te mando as perguntas ainda hoje. Espero que você queira e possa participar!"
A jornalista se chamava Bianca Yasmin. Olívia pesquisou seu nome mas não havia muita coisa. Viu duas fotos, parecia jovem e delicada. Era redatora do portal, no perfil do linkedin havia três empregos e dois estágios, estava formada havia três anos. Olívia gostou da moça, respondeu que poderia sim participar e logo recebeu outro email com as perguntas:
"Obrigada por aceitar o convite! Assisti alguns de seus vídeos, achei muito legal. Seguem as perguntas. Depois mando o link quando a matéria sair. Um beijo!
- Quando surgiu seu blog? De onde veio a ideia?
- Caroline Cólera é um pseudônimo? Qual seu nome verdadeiro?
- Qual sua idade e profissão (ou atividade principal)?
- Seu blog tem uma linha editorial, ou seja, há um tema central e uma abordagem definida?
- Qual seu objetivo para o blog? O que você sonha conseguir?
- Quais seus hobbies ou atividades favoritas?
- Como você descreveria a si mesma em duas linhas?"
Era sua primeira entrevista. O primeiro contato de uma profissional da mídia, alguém que trabalhava contratada por um portal importante e se interessava por ela. Seu entusiasmo foi mais intenso do que toda satisfação que sentira pelas mensagens de suas seguidoras até aquele dia. Era uma jornalista de verdade. Um portal de verdade. Uma entrevista de verdade. Olívia leu e releu as perguntas, pensou em frases bonitas, sua "linha editorial", seus sonhos e objetivos, seus hobbies e atividades. Foi atingida por uma ventania de ideias e queria dizer muitas coisas. Mas como lidar com a segunda pergunta? Ela já havia pensado algumas vezes, quando seus vídeos ultrapassaram as centenas de visualizações, que a popularidade aumentava a chance de ser identificada por algum conhecido. Por mais maquiada que estivesse, mesmo simulando um tom de voz diferente, um amigo poderia reconhecê-la, se olhasse com atenção. Até aquele momento ela havia adiado qualquer decisão a respeito disso. Ela não tinha vergonha do que publicara, a fantasia de Caroline Cólera era principalmente um efeito estético, a incorporação da atitude e da imagem de uma personagem que ela admirava. Mas as palavras que ela escreveu e gravou eram as suas próprias. O sigilo sobre seu nome tinha a intenção principal de evitar amolações. Agora, se o blog aparecesse no portal Planeta, era provável (e ela desejava) que mais pessoas o descobrissem. A chance de ser reconhecida aumentava. Então não seria melhor simplificar tudo e já assumir seu nome verdadeiro, como a jornalista pediu? Não era melhor ser direta, se afinal ela seria descoberta mais cedo ou mais tarde?
Inês bateu à porta do quarto (ela checava frequentemente se Olívia estava acordada, percebia pelo barulho do teclado). Olívia fechou seus emails antes de responder:
- Oi, vó.
Inês entrou, deu um beijo de bom dia nos cabelos da neta. Era seu beijo habitual nas manhãs das férias, Olívia sentada ao computador desde que acordava.
- Já tomou café?
- Já.
- Vamos no mercado comigo?
- Pode ser daqui a pouco? Tipo uma meia hora?
- Tá ótimo. Te esperando lá embaixo.
Olívia queria responder a jornalista antes de sair com a avó, e precisava decidir rápido. Diria seu nome ou não? Não adiantava ruminar todos as possíveis consequências, era mais honesto escolher uma postura que ela se orgulhasse de defender, em qualquer circunstância. E então ela percebeu que não queria dizer o seu nome, não por vergonha ou medo das consequências, mas porque isso a tornaria novamente uma garota comum - aquela Olívia de dezessete anos, que morava desde criança na Granja Viana com sua avó, e terminara o ensino médio em dezembro, e esperava o início das aulas em fevereiro como qualquer outra garota de classe média da sua idade. Ela era essa Olívia, mas isso era tão insuficiente. Sua vida tinha mais importância como Caroline Cólera."
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
Por que Olívia escrevia
"As primeiras experiências de discreto sucesso no youtube deixaram Olívia dividida. Era bom ver o interesse dos outros pelo que ela dizia. Seu humor melhorava imediatamente ao ler os comentários, as estatísticas mostrando que o número de visualizações crescia e os acessos a seu blog aumentavam. Seu tédio cotidiano e a sensação de desimportância desapareciam momentaneamente. Ela ficava alerta e ativa, com a sensação emergente de que sua vida tinha um propósito. Porém havia um descompasso entre os vídeos que faziam mais sucesso e os que Olívia considerava melhores e mais autênticos. Seus três primeiros sucessos foram respostas a alguém, reações inflamadas a conflitos de outras pessoas, não temas originais que ela escolheu a partir de suas motivações mais internas. Foi até mesmo fácil para ela se manifestar sobre o vídeo do chip ou a história de Bruna. Olívia teve tantos tormentos íntimos e familiares em sua própria vida, tinha gastado tanta energia emocional remoendo suas angústias, que opinar sobre as relações alheias era simples. Ela tinha mais orgulho dos textos que foram difíceis de escrever, mas nenhum desses despertou tanto interesse.
Olívia escrevia por muitos impulsos e motivos, alguns deles contraditórios. O começo de sua adolescência foi assombrado por fantasias de abuso, manipulação e vingança. Eram seus fantasmas noturnos, seus cenários eróticos, quando estava sozinha e trancada no quarto antes de dormir. Mas durante o dia, nas aulas e em casa com a avó, ela se comportava conforme as regras, raramente brigava ou se rebelava contra alguém. Suas atitudes mais correntes eram o desânimo e o desprezo; não criava conflito porque preferia ignorar o que detestava, convencer a si mesma de que estava imune a tudo. A situação mudou nas férias entre o primeiro e o segundo colegial, no verão de 2008, quando ela e Vinícius começaram a namorar. Os dois não eram apaixonados e a decisão consciente de se unir, falar a verdade e acolher as indignações um do outro ampliou a compreensão de Olívia sobre muitas coisas. Sua raiva interna se dissolveu um pouco, deixou de ser tão secreta. Quando o namoro acabou, ela tinha outras ideias e outra necessidade de expressão. Seu blog absorveu tudo isso.
O blog canalizava toda inquietação de Olívia sobre o mundo e sobre si mesma. Entre os dezesseis e os dezessete anos Olivia questionava tudo, desconfiava de tudo, queria redefinir do zero o que era viver, encontrar um caminho próprio e verdadeiro para uma existência livre da mentira e da banalidade. Ela achava que poderia fazer isso sozinha, observando e pensando, pois somente pessoas muito atormentadas e francas poderiam compreendê-la, e essas pessoas quase não existiam. Quem a compreendia em seu colégio? Ninguém. Quem a compreendeu verdadeiramente entre todas as pessoas que ela conheceu na vida? Ninguém. Vinícius foi quem talvez chegou mais perto. Agora ela precisava se virar sozinha.
Olívia não queria fazer terapia, embora sua avó perguntasse sobre isso a cada tantos meses. Mas depois de quatro anos de sessões semanais, dos 9 aos 13 anos, essa era a última de suas vontades. Na última vez que Inês tocou no assunto, ela explodiu:
- Pára com isso, vó! Eu não quero! De jeito nenhum. Nunca mais. Nem agora nem daqui a um mês nem daqui a seis meses. Não fica me perguntando porque a resposta vai ser sempre não.
Escrever era difícil, mas transformava seu tumulto interno em algo concreto. As frases, uma depois da outra, se articulavam melhor do que suas ideias, e se um rumo aparecia conforme as palavras se ordenavam, esse rumo ficava gravado e não se perdia nas flutuações de ânimo de seu dia a dia."
Olívia escrevia por muitos impulsos e motivos, alguns deles contraditórios. O começo de sua adolescência foi assombrado por fantasias de abuso, manipulação e vingança. Eram seus fantasmas noturnos, seus cenários eróticos, quando estava sozinha e trancada no quarto antes de dormir. Mas durante o dia, nas aulas e em casa com a avó, ela se comportava conforme as regras, raramente brigava ou se rebelava contra alguém. Suas atitudes mais correntes eram o desânimo e o desprezo; não criava conflito porque preferia ignorar o que detestava, convencer a si mesma de que estava imune a tudo. A situação mudou nas férias entre o primeiro e o segundo colegial, no verão de 2008, quando ela e Vinícius começaram a namorar. Os dois não eram apaixonados e a decisão consciente de se unir, falar a verdade e acolher as indignações um do outro ampliou a compreensão de Olívia sobre muitas coisas. Sua raiva interna se dissolveu um pouco, deixou de ser tão secreta. Quando o namoro acabou, ela tinha outras ideias e outra necessidade de expressão. Seu blog absorveu tudo isso.
O blog canalizava toda inquietação de Olívia sobre o mundo e sobre si mesma. Entre os dezesseis e os dezessete anos Olivia questionava tudo, desconfiava de tudo, queria redefinir do zero o que era viver, encontrar um caminho próprio e verdadeiro para uma existência livre da mentira e da banalidade. Ela achava que poderia fazer isso sozinha, observando e pensando, pois somente pessoas muito atormentadas e francas poderiam compreendê-la, e essas pessoas quase não existiam. Quem a compreendia em seu colégio? Ninguém. Quem a compreendeu verdadeiramente entre todas as pessoas que ela conheceu na vida? Ninguém. Vinícius foi quem talvez chegou mais perto. Agora ela precisava se virar sozinha.
Olívia não queria fazer terapia, embora sua avó perguntasse sobre isso a cada tantos meses. Mas depois de quatro anos de sessões semanais, dos 9 aos 13 anos, essa era a última de suas vontades. Na última vez que Inês tocou no assunto, ela explodiu:
- Pára com isso, vó! Eu não quero! De jeito nenhum. Nunca mais. Nem agora nem daqui a um mês nem daqui a seis meses. Não fica me perguntando porque a resposta vai ser sempre não.
Escrever era difícil, mas transformava seu tumulto interno em algo concreto. As frases, uma depois da outra, se articulavam melhor do que suas ideias, e se um rumo aparecia conforme as palavras se ordenavam, esse rumo ficava gravado e não se perdia nas flutuações de ânimo de seu dia a dia."
terça-feira, 17 de novembro de 2015
"Sexo anal dói menos / que ficar solteira"
"Olívia escreveu o texto com a história de Bruna na quinta-feira 29 de outubro, antes de almoço. Naquela manhã ela tivera prova de matemática e acabou rápido. Voltou cedo para casa, caminhando sozinha e organizando as ideias.
Na quinta-feira a avó cozinhava algum tipo de carne. Era o único dia em que comiam carne vermelha em casa, para manterem o nível de ferro. Inês cozinhava e Olívia lavava a louça, era esse o combinado. Olívia deu um beijo na avó e seguiu para o seu quarto, para descansar um pouco antes do almoço. No quarto de portas fechadas, ela ligou o computador e começou a escrever. Falava as frases em voz alta enquanto digitava, para encontrar o ritmo, os pontos de ênfase. Deixou o texto quase pronto, salvou em seu email e desceu para almoçar.
Ela publicou o vídeo na segunda-feira 2 de novembro, feriado de finados. Colocou o link em suas contas no facebook e twitter com uma pequena sinopse: "Conheçam a comovente história do namorado bonzinho que só quer fazer sexo anal, para preservar a virgindade de uma garota de 15 anos." Para ilustrar a abertura do vídeo, Olívia organizou uma seleção de memes sobre o tema: "Sexo anal dói menos / que ficar solteira." "Não há prova de amor maior / que sexo anal." "Aniversários: é quando você sonha com sexo anal, espera por sexo oral, se contentaria com sexo vaginal, e ganha uma punheta preguiçosa enquanto assiste a novela." Nos memes, o sexo anal quase sempre aparecia como prêmio, se o homem ia penetrar a mulher, e como castigo ou zombaria, se fosse o homem a ser penetrado.
A primeira parte da história de Bruna foi muito bem recebida. Dezenas de garotas agradeceram por ela abordar aquele assunto e pediram ansiosamente a continuação, sua opinião, o fim da história. Nos comentários as seguidoras de Caroline interagiam entre si, opinando e discutindo umas com as outras sobre virgindade, namorados sacanas, dificuldades sobre quando transar ou não. Olívia aproveitou a fase inspirada e publicou, na quinta-feira da mesma semana, a segunda parte da história. O segundo vídeo teve alcance dobrado e atingiu 4.000 visualizações em dez dias.
Esse era o primeiro vídeo em que Olívia se colocava com conselheira de suas seguidoras. Nas primeiras gravações, em agosto, ela se expressava isoladamente, como a adolescente desconhecida que era, tentando expor sua opinião minoritária e desvalorizada. Mas ela adquiriu uma nova segurança depois que seu canal ganhou centenas de assinantes, e se sentiu confortável para aconselhar as garotas que pediam sua ajuda. Era apenas por pudor que ela dizia, no primeiro vídeo, que talvez fosse muito jovem para orientar alguém. Na verdade ela se sentia capaz e cada vez mais confiante conforme aumentavam os emails e comentários de fãs com problemas íntimos e sentimentais.
Em três meses, do final de setembro a meados de dezembro, Olívia deixou de ser uma adolescente isolada que escrevia sozinha em seu quarto, e transformou-se numa formadora de opinião, numa jovem estrela nascente da web. Na virada do ano de 2010, seu canal tinha 1.632 seguidores e a soma das visualizações de todos os seus vídeos chegou a 98 mil. Ela permanecia anônima. Sua avó, sua ex-melhor amiga, seu ex-namorado e os colegas da escola ainda não tinham notícias do que acontecia."
Na quinta-feira a avó cozinhava algum tipo de carne. Era o único dia em que comiam carne vermelha em casa, para manterem o nível de ferro. Inês cozinhava e Olívia lavava a louça, era esse o combinado. Olívia deu um beijo na avó e seguiu para o seu quarto, para descansar um pouco antes do almoço. No quarto de portas fechadas, ela ligou o computador e começou a escrever. Falava as frases em voz alta enquanto digitava, para encontrar o ritmo, os pontos de ênfase. Deixou o texto quase pronto, salvou em seu email e desceu para almoçar.
Ela publicou o vídeo na segunda-feira 2 de novembro, feriado de finados. Colocou o link em suas contas no facebook e twitter com uma pequena sinopse: "Conheçam a comovente história do namorado bonzinho que só quer fazer sexo anal, para preservar a virgindade de uma garota de 15 anos." Para ilustrar a abertura do vídeo, Olívia organizou uma seleção de memes sobre o tema: "Sexo anal dói menos / que ficar solteira." "Não há prova de amor maior / que sexo anal." "Aniversários: é quando você sonha com sexo anal, espera por sexo oral, se contentaria com sexo vaginal, e ganha uma punheta preguiçosa enquanto assiste a novela." Nos memes, o sexo anal quase sempre aparecia como prêmio, se o homem ia penetrar a mulher, e como castigo ou zombaria, se fosse o homem a ser penetrado.
A primeira parte da história de Bruna foi muito bem recebida. Dezenas de garotas agradeceram por ela abordar aquele assunto e pediram ansiosamente a continuação, sua opinião, o fim da história. Nos comentários as seguidoras de Caroline interagiam entre si, opinando e discutindo umas com as outras sobre virgindade, namorados sacanas, dificuldades sobre quando transar ou não. Olívia aproveitou a fase inspirada e publicou, na quinta-feira da mesma semana, a segunda parte da história. O segundo vídeo teve alcance dobrado e atingiu 4.000 visualizações em dez dias.
Esse era o primeiro vídeo em que Olívia se colocava com conselheira de suas seguidoras. Nas primeiras gravações, em agosto, ela se expressava isoladamente, como a adolescente desconhecida que era, tentando expor sua opinião minoritária e desvalorizada. Mas ela adquiriu uma nova segurança depois que seu canal ganhou centenas de assinantes, e se sentiu confortável para aconselhar as garotas que pediam sua ajuda. Era apenas por pudor que ela dizia, no primeiro vídeo, que talvez fosse muito jovem para orientar alguém. Na verdade ela se sentia capaz e cada vez mais confiante conforme aumentavam os emails e comentários de fãs com problemas íntimos e sentimentais.
Em três meses, do final de setembro a meados de dezembro, Olívia deixou de ser uma adolescente isolada que escrevia sozinha em seu quarto, e transformou-se numa formadora de opinião, numa jovem estrela nascente da web. Na virada do ano de 2010, seu canal tinha 1.632 seguidores e a soma das visualizações de todos os seus vídeos chegou a 98 mil. Ela permanecia anônima. Sua avó, sua ex-melhor amiga, seu ex-namorado e os colegas da escola ainda não tinham notícias do que acontecia."
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
"Garotas gostam de sexo anal?", por Caroline Cólera
29 de outubro de 2009
"Eu recebi um email com uma história chocante e eu fiquei o dia inteiro com isso na cabeça pensando no que dizer. É de uma garota que mora em Rio Claro e gostou dos meus vídeos, por isso ela me mandou a história dela achando que eu poderia ajudar. Ela tem quinze anos. Na verdade ela não mora em Rio Claro, é uma outra cidade do interior de São Paulo, mas eu troquei os nomes porque essa é uma história muito íntima e eu prefiro que ninguém possa desconfiar da identidade dela.
Eu tenho dezessete anos. Eu nem sei se eu posso ajudar uma garota de quinze. Quer dizer, eu tinha quinze anos ontem, o que eu sei mais do que ela? Mas eu vou tentar dizer alguma coisa porque às vezes só de uma pessoa te ouvir e tentar te entender já ajuda um pouco.
Então. Vou inventar um nome pra essa garota. Eu vou chamar ela de Bruna. Mas só inventei o nome e a cidade, toda a história é verdadeira, foi a Bruna que escreveu e me contou.
A Bruna tem um namorado desde os catorze anos. Eu vou chamar ele de Lucas. Ele tem vinte anos e é o segundo namorado dela. Antes ela namorou um garoto da escola, mas depois ela conheceu o Lucas, que é amigo dos primos dela. Ela diz que eles são tipo Agroboy, têm uma boa vida, fazendas, carrão tipo pick-up, gostam de rodeio, essas coisas. E ela disse que na escola dela é muito comum as meninas namorarem um cara mais velho. É tipo um orgulho ter um namorado de 20, 25 anos.
Então a Bruna começou a namorar o Lucas, ela tava super feliz. Ela disse que era semi-virgem. Quer dizer, tinha feito umas brincadeiras mas nunca penetração de fato. E no começo com o Lucas também foi assim, ele disse que respeitava muito ela, que era uma menina de família e tal.
Depois que o namoro foi esquentando, eles foram fazendo cada vez mais coisas. A Bruna não disse exatamente o quê, mas eles começaram a ir num drive in e ficavam se pegando no carro do Lucas. Até aí tecnicamente ela ainda era virgem, quer dizer, ainda não tinha penetração. Tudo isso ela fazia escondido dos pais dela. Ela dizia que ia pra um barzinho, alguma balada, mas eles ficavam um tempo no bar e depois antes de voltar pra casa eles paravam no drive in.
Um dia o Lucas disse que queria fazer uma noite romântica. Ele deu um presente pra ela e eles foram num motel de verdade, no sábado à noite. Como sempre, com aquela história de dizer para os pais que iam num barzinho, e iriam voltar lá pela meia-noite. A Bruna nunca tinha ido num motel, mas ele disse que era só usar bastante maquiagem, que ninguém ia desconfiar que ela era menor de idade. Ela fez isso e ninguém pediu documento mesmo.
No quarto o Lucas fez uma super declaração de amor, disse que ele sempre sonhou em conhecer uma garota como ela, que ela era a mulher da vida dele, e ela estava super feliz e apaixonada. Ela achou que nesse dia ela ia perder a virgindade. Que ele tinha feito tudo aquilo pra ser um momento especial pra ela. Eles começaram a se beijar e tal e quando ela achou que ia acontecer, ele disse que queria proteger ela, que queria proteger a virgindade dela, então ele ia fazer de um jeito que ela continuaria virgem.
Ela não entendeu direito o que estava acontecendo. Ela achou que ele estava só se esfregando na bunda dela, que ele ia gozar daquele jeito meio por fora. Ela foi deixando porque ela estava apaixonada e só se deu conta quando começou a doer. Mesmo nessa hora ela não entendeu direito, ela achou que entendeu, mas não acreditava que ele pudesse fazer isso, então ao mesmo tempo ela tentava achar que era outra coisa, que não era aquilo.
Depois dessa noite ela disse que não queria mais ir pro motel com ele. Mas ele respondeu que se ela não fosse ele ia terminar o namoro. E ele ia contar para os primos e os irmãos dela tudo o que ela tinha feito. Depois ele pediu desculpas, chorou, disse que estava arrependido. Que só disse aquilo porque ficou desesperado e achou que ela queria terminar com ele. Então eles continuaram indo para o motel e transando daquele jeito. Já faz dois meses que isso está acontecendo.
Ela diz que não consegue contar essa história pra ninguém que ela conheça. Que as amigas dela acham que o Lucas é o namorado perfeito. Ela tem vergonha de contar e elas digam que é culpa dela.
Ela não sabe o que fazer, porque ela gosta dele. Ele é carinhoso, elogia ela, dá presentes. Todos os amigos dela gostam dele, e as amigas dela namoram o caras da mesma turma, eles são todos amigos. Ela não quer terminar o namoro.
Ela acha que seria melhor eles transarem normal, mas ele diz que é muito perigoso. Que ela pode engravidar. Que a camisinha pode estourar. Que se ela tomar pílula ela vai engordar e a mãe dela vai descobrir. Então eles continuam fazendo daquele jeito e ela já se acostumou. Dói um pouco mas ela pediu pra ele ir devagar, então ela já sabe como é. Ela às vezes até gosta um pouco.
Mas ela acha que é errado e queria saber a minha opinião.
Eu respondi pra ela por email.
Eu contei essa história toda aqui porque talvez isso aconteça com outras garotas.
Na semana que vem vou fazer outro vídeo, contando uma história que aconteceu comigo.
A minha opinião é muito simples. Esse Lucas é um sacana. A conversa dele é um papo furado. Bruna, termina com esse cara. E se ele contar pra todo mundo, sai dessa cidade horrorosa e vai morar em outro lugar. Nem que seja um colégio interno.
Você tem quinze anos. Você vai encontrar mil pessoas na sua vida. Esse cara é um mentiroso e tá te enganando pra você fazer o que ele quer.
Talvez você goste dele, mas não vale a pena gostar de uma pessoa assim.
Na próxima semana eu vou tentar explicar melhor o que eu penso.
Em teoria eu não sou contra sexo anal.
Mas não com essa chantagem e esse papo furado e esse monte de mentira que esse cara tá contando."
"Eu recebi um email com uma história chocante e eu fiquei o dia inteiro com isso na cabeça pensando no que dizer. É de uma garota que mora em Rio Claro e gostou dos meus vídeos, por isso ela me mandou a história dela achando que eu poderia ajudar. Ela tem quinze anos. Na verdade ela não mora em Rio Claro, é uma outra cidade do interior de São Paulo, mas eu troquei os nomes porque essa é uma história muito íntima e eu prefiro que ninguém possa desconfiar da identidade dela.
Eu tenho dezessete anos. Eu nem sei se eu posso ajudar uma garota de quinze. Quer dizer, eu tinha quinze anos ontem, o que eu sei mais do que ela? Mas eu vou tentar dizer alguma coisa porque às vezes só de uma pessoa te ouvir e tentar te entender já ajuda um pouco.
Então. Vou inventar um nome pra essa garota. Eu vou chamar ela de Bruna. Mas só inventei o nome e a cidade, toda a história é verdadeira, foi a Bruna que escreveu e me contou.
A Bruna tem um namorado desde os catorze anos. Eu vou chamar ele de Lucas. Ele tem vinte anos e é o segundo namorado dela. Antes ela namorou um garoto da escola, mas depois ela conheceu o Lucas, que é amigo dos primos dela. Ela diz que eles são tipo Agroboy, têm uma boa vida, fazendas, carrão tipo pick-up, gostam de rodeio, essas coisas. E ela disse que na escola dela é muito comum as meninas namorarem um cara mais velho. É tipo um orgulho ter um namorado de 20, 25 anos.
Então a Bruna começou a namorar o Lucas, ela tava super feliz. Ela disse que era semi-virgem. Quer dizer, tinha feito umas brincadeiras mas nunca penetração de fato. E no começo com o Lucas também foi assim, ele disse que respeitava muito ela, que era uma menina de família e tal.
Depois que o namoro foi esquentando, eles foram fazendo cada vez mais coisas. A Bruna não disse exatamente o quê, mas eles começaram a ir num drive in e ficavam se pegando no carro do Lucas. Até aí tecnicamente ela ainda era virgem, quer dizer, ainda não tinha penetração. Tudo isso ela fazia escondido dos pais dela. Ela dizia que ia pra um barzinho, alguma balada, mas eles ficavam um tempo no bar e depois antes de voltar pra casa eles paravam no drive in.
Um dia o Lucas disse que queria fazer uma noite romântica. Ele deu um presente pra ela e eles foram num motel de verdade, no sábado à noite. Como sempre, com aquela história de dizer para os pais que iam num barzinho, e iriam voltar lá pela meia-noite. A Bruna nunca tinha ido num motel, mas ele disse que era só usar bastante maquiagem, que ninguém ia desconfiar que ela era menor de idade. Ela fez isso e ninguém pediu documento mesmo.
No quarto o Lucas fez uma super declaração de amor, disse que ele sempre sonhou em conhecer uma garota como ela, que ela era a mulher da vida dele, e ela estava super feliz e apaixonada. Ela achou que nesse dia ela ia perder a virgindade. Que ele tinha feito tudo aquilo pra ser um momento especial pra ela. Eles começaram a se beijar e tal e quando ela achou que ia acontecer, ele disse que queria proteger ela, que queria proteger a virgindade dela, então ele ia fazer de um jeito que ela continuaria virgem.
Ela não entendeu direito o que estava acontecendo. Ela achou que ele estava só se esfregando na bunda dela, que ele ia gozar daquele jeito meio por fora. Ela foi deixando porque ela estava apaixonada e só se deu conta quando começou a doer. Mesmo nessa hora ela não entendeu direito, ela achou que entendeu, mas não acreditava que ele pudesse fazer isso, então ao mesmo tempo ela tentava achar que era outra coisa, que não era aquilo.
Depois dessa noite ela disse que não queria mais ir pro motel com ele. Mas ele respondeu que se ela não fosse ele ia terminar o namoro. E ele ia contar para os primos e os irmãos dela tudo o que ela tinha feito. Depois ele pediu desculpas, chorou, disse que estava arrependido. Que só disse aquilo porque ficou desesperado e achou que ela queria terminar com ele. Então eles continuaram indo para o motel e transando daquele jeito. Já faz dois meses que isso está acontecendo.
Ela diz que não consegue contar essa história pra ninguém que ela conheça. Que as amigas dela acham que o Lucas é o namorado perfeito. Ela tem vergonha de contar e elas digam que é culpa dela.
Ela não sabe o que fazer, porque ela gosta dele. Ele é carinhoso, elogia ela, dá presentes. Todos os amigos dela gostam dele, e as amigas dela namoram o caras da mesma turma, eles são todos amigos. Ela não quer terminar o namoro.
Ela acha que seria melhor eles transarem normal, mas ele diz que é muito perigoso. Que ela pode engravidar. Que a camisinha pode estourar. Que se ela tomar pílula ela vai engordar e a mãe dela vai descobrir. Então eles continuam fazendo daquele jeito e ela já se acostumou. Dói um pouco mas ela pediu pra ele ir devagar, então ela já sabe como é. Ela às vezes até gosta um pouco.
Mas ela acha que é errado e queria saber a minha opinião.
Eu respondi pra ela por email.
Eu contei essa história toda aqui porque talvez isso aconteça com outras garotas.
Na semana que vem vou fazer outro vídeo, contando uma história que aconteceu comigo.
A minha opinião é muito simples. Esse Lucas é um sacana. A conversa dele é um papo furado. Bruna, termina com esse cara. E se ele contar pra todo mundo, sai dessa cidade horrorosa e vai morar em outro lugar. Nem que seja um colégio interno.
Você tem quinze anos. Você vai encontrar mil pessoas na sua vida. Esse cara é um mentiroso e tá te enganando pra você fazer o que ele quer.
Talvez você goste dele, mas não vale a pena gostar de uma pessoa assim.
Na próxima semana eu vou tentar explicar melhor o que eu penso.
Em teoria eu não sou contra sexo anal.
Mas não com essa chantagem e esse papo furado e esse monte de mentira que esse cara tá contando."
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
Caroline em segredo
"A versão feminista do escândalo do chip, por ter no título os termos de pesquisa do original viralizado, teve quase duas mil visualizações em uma semana, e centenas de comentários. Os comentários se dividiam em deboches, manifestações de ódio e declarações de apoio. A cabeça de Olívia disparou, ela queria rebater as acusações, agradecer os elogios, responder todas as perguntas, dizer mais coisas que agora lhe ocorriam. Durante duas semanas ela teve dificuldade para pegar no sono, mesmo depois que Inês vinha ao seu quarto exigir que ela desligasse o computador e deitasse. Ficava na cama alerta, com o pensamento disparado, articulando como e o quê devia escrever e responder. Finalmente apagava por exaustão, mas acordava de repente no meio da madrugada e a agitação recomeçava. Duas vezes levantou e ligou o computador às três da manhã para escrever e mandar alguma resposta que lhe parecia urgente. Mas na terceira noite a avó ouviu a vibração baixa do computador, quando levantou para ir ao banheiro, e bateu na porta para saber o que estava acontecendo. Inês deu uma bronca, no dia seguinte fez muitas perguntas, por que ela estava tão agitada, por que tanto tempo na internet, o que fazia no computador de madrugada, e para evitar mais suspeitas Olívia decidiu se controlar.
Desse momento em diante ela tentou criar uma ordem para suas publicações, apesar da dificuldade enorme para domar seus impulsos. Decidiu criar uma regularidade e se manter fiel a ela, para que sua cabeça não pirasse e, principalmente, sua avó não descobrisse. Era importante que ela se acalmasse e reservasse um horário para escrever, sem atrapalhar a escola e as notas, porque Inês não deveria perceber nada. Os textos e vídeos eram seus, ela queria fazer aquilo livremente sem explicar nada a ninguém.
A partir dessa primeira repercussão, o número de espectadores frequentes dos vídeos de Caroline Cólera passou de algumas dezenas para várias centenas. Antes o número de inscrições no seu canal estava em 54. Depois subiu para 903. As novas inscrições, na maioria jovens e adolescentes, formaram um público fiel e simpático aos relatos de Olivia.
Olivia tinha um conjunto coerente de perfis em várias redes sociais para divulgar seus textos e vídeos e interagir como Caroline. Tinha email, facebook, twitter, blog e canal do youtube, todos conectados com as mesmas informações. Era nesses perfis que ela gastava suas horas livres, e não em seu perfil familiar com seu nome verdadeiro. Para os colegas da escola que reclamavam que ela nunca estava conectada, Olívia dizia que "não gostava de internet". No computador em seu quarto ela não deixava nenhuma senha gravada. Sempre apagava o histórico de navegação antes de desligar o computador. Não salvava nenhum texto ou imagem no HD, ficavam todos no email e no arquivo do blog. Sua avó nunca ameaçara vasculhar seu computador, mas ela imaginava que era eventualmente possível e preferia se precaver.
Havia muitas fotos no perfil de Caroline no facebook, mas sempre recortes e detalhes, nunca seu rosto inteiro. Ela percebera que fotos sensuais atraíam curtidas e seguidores, por isso produzia imagens de seu corpo - o encontro dos seios, o pescoço, pernas estendidas e dobradas em várias posições, os pés nus."
Desse momento em diante ela tentou criar uma ordem para suas publicações, apesar da dificuldade enorme para domar seus impulsos. Decidiu criar uma regularidade e se manter fiel a ela, para que sua cabeça não pirasse e, principalmente, sua avó não descobrisse. Era importante que ela se acalmasse e reservasse um horário para escrever, sem atrapalhar a escola e as notas, porque Inês não deveria perceber nada. Os textos e vídeos eram seus, ela queria fazer aquilo livremente sem explicar nada a ninguém.
A partir dessa primeira repercussão, o número de espectadores frequentes dos vídeos de Caroline Cólera passou de algumas dezenas para várias centenas. Antes o número de inscrições no seu canal estava em 54. Depois subiu para 903. As novas inscrições, na maioria jovens e adolescentes, formaram um público fiel e simpático aos relatos de Olivia.
Olivia tinha um conjunto coerente de perfis em várias redes sociais para divulgar seus textos e vídeos e interagir como Caroline. Tinha email, facebook, twitter, blog e canal do youtube, todos conectados com as mesmas informações. Era nesses perfis que ela gastava suas horas livres, e não em seu perfil familiar com seu nome verdadeiro. Para os colegas da escola que reclamavam que ela nunca estava conectada, Olívia dizia que "não gostava de internet". No computador em seu quarto ela não deixava nenhuma senha gravada. Sempre apagava o histórico de navegação antes de desligar o computador. Não salvava nenhum texto ou imagem no HD, ficavam todos no email e no arquivo do blog. Sua avó nunca ameaçara vasculhar seu computador, mas ela imaginava que era eventualmente possível e preferia se precaver.
Havia muitas fotos no perfil de Caroline no facebook, mas sempre recortes e detalhes, nunca seu rosto inteiro. Ela percebera que fotos sensuais atraíam curtidas e seguidores, por isso produzia imagens de seu corpo - o encontro dos seios, o pescoço, pernas estendidas e dobradas em várias posições, os pés nus."
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
O público de Caroline Cólera no YouTube
O vídeo "Me dá meu chip - Visão Feminista", por ter no título os termos de pesquisa do original viralizado, teve quase duas mil visualizações em uma semana, e centenas de comentários. O número de inscrições no seu canal, que estava em 54, subiu para 903. Os comentário se dividiam em deboches, manifestações de ódio e declarações de apoio. A partir dessa repercussão, o número de espectadores frequentes dos vídeos de Caroline Cólera passou de algumas dezenas para várias centenas.
As novas inscrições em seu canal, na maioria garotas adolescentes, formaram um público fiel e simpático aos relatos de Olivia. Desse momento em diante ela assumiu um projeto regular de publicações. Toda segunda-feira ela postava um vídeo de conteúdo inédito (séries e temas que escolhia por motivação própria) e às quintas-feiras publicava vídeos mais curtos, respondendo a perguntas e sugestões de suas seguidoras. Para todos os vídeos, ela escrevia e revisava o texto antes de gravar. Depois decorava e ensaiava algumas vezes. Em geral ela pensava e desenvolvia os textos mentalmente, em casa, nos intervalos das aulas, caminhando para o colégio ou outros lugares. Os temas ficavam girando em sua cabeça até ela encontrar uma forma que a agradasse. Ela gravava o material bruto na sexta-feira, quando sua avó ia para a aula de yoga. Era sua tarde mais livre, pois nos outros dias da semana tinha aulas de inglês e preparação para o vestibular. Olívia editava as imagens no sábado ou domingo, conforme encontrava algumas horas livres, e esperava os horários escolhidos para postar (porque percebeu, nas primeiras experiências, que a regularidade era boa para cativar seu público)."
As novas inscrições em seu canal, na maioria garotas adolescentes, formaram um público fiel e simpático aos relatos de Olivia. Desse momento em diante ela assumiu um projeto regular de publicações. Toda segunda-feira ela postava um vídeo de conteúdo inédito (séries e temas que escolhia por motivação própria) e às quintas-feiras publicava vídeos mais curtos, respondendo a perguntas e sugestões de suas seguidoras. Para todos os vídeos, ela escrevia e revisava o texto antes de gravar. Depois decorava e ensaiava algumas vezes. Em geral ela pensava e desenvolvia os textos mentalmente, em casa, nos intervalos das aulas, caminhando para o colégio ou outros lugares. Os temas ficavam girando em sua cabeça até ela encontrar uma forma que a agradasse. Ela gravava o material bruto na sexta-feira, quando sua avó ia para a aula de yoga. Era sua tarde mais livre, pois nos outros dias da semana tinha aulas de inglês e preparação para o vestibular. Olívia editava as imagens no sábado ou domingo, conforme encontrava algumas horas livres, e esperava os horários escolhidos para postar (porque percebeu, nas primeiras experiências, que a regularidade era boa para cativar seu público)."
terça-feira, 3 de novembro de 2015
"Me dá meu chip - Visão Feminista"
"No início o blog de Olívia tinha poucas visitas, trinta ou quarenta leitores que ela conquistou comentando e colaborando com outros blogs de contos e poesia, escritos por jovens e adolescentes. Seus vídeos talvez seguissem o mesmo rumo, permanecendo restritos às poucas amizades virtuais com quem ela trocava ideias regularmente, se não fosse o acaso de Olivia se manifestar sobre um tema de repercussão viral.
Em setembro de 2009, alguém gravou de uma janela, de madrugada, uma mulher raivosa diante do muro de um prédio gritando para um tal Pedro que devolvesse seu chip de celular. Em uma semana, o vídeo teve mais de dois milhões de acessos e ficou conhecido como "Me dá meu chip, Pedro". O original gerou montagens cômicas, paródias musicais e fãs. Alguns blogueiros de Vitória, no Espírito Santo, localizaram Pedro em seu edifício. Ele foi tema de reportagens e deu entrevistas em programas de televisão. A história despertou tanto encanto que até o taxista que conduziu a mulher raivosa apareceu na TV.
Olívia não conseguiu rir, desde a primeira vez que assistiu a cena. Ela tinha ouvido o assunto na escola, todos os garotos riam à beça, mas ela só conseguiu ver em casa, depois do almoço. A imagem noturna, a mulher sozinha na calçada escura, a voz transtornada gritando "Abre essa porta. Eu vou gritar a noite inteira aqui. Você roubou o que é meu. Me dá o que é meu." Ela pensou, por que ele não desce e devolve o chip para ela? Todos vão rir enquanto essa mulher agoniza em vexame público? Olívia assistiu os outros vídeos relacionados, os blogueiros que localizaram Pedro, os programas de televisão, a entrevista com o taxista. Todos achavam a história divertidíssima. Somente três pessoas manifestavam alguma compaixão: a apresentadora de um programa sensacionalista vespertino, o taxista e um velho psicanalista. O psicanalista tentou defender a exposição da dor, lembrando uma parábola contada por um padre num romance de Kafka e falando das "portas fechadas" que todos encontramos.
Mas Olivia não queria defender a mulher. Ela queria contestar quem ria. Queria reclamar da crueldade de todos os seus colegas que elegiam como herói um homem que não fez nada, que simplesmente ficou trancado em casa ignorando a mulher que se debatia à sua porta. Naquela mesma tarde ela se vestiu como Caroline Cólera e gravou um vídeo que chamou "Me dá meu chip - Visão Feminista". E esse vídeo se tornou uma piada involuntária quase tão famosa quanto o barraco do chip."
Em setembro de 2009, alguém gravou de uma janela, de madrugada, uma mulher raivosa diante do muro de um prédio gritando para um tal Pedro que devolvesse seu chip de celular. Em uma semana, o vídeo teve mais de dois milhões de acessos e ficou conhecido como "Me dá meu chip, Pedro". O original gerou montagens cômicas, paródias musicais e fãs. Alguns blogueiros de Vitória, no Espírito Santo, localizaram Pedro em seu edifício. Ele foi tema de reportagens e deu entrevistas em programas de televisão. A história despertou tanto encanto que até o taxista que conduziu a mulher raivosa apareceu na TV.
Olívia não conseguiu rir, desde a primeira vez que assistiu a cena. Ela tinha ouvido o assunto na escola, todos os garotos riam à beça, mas ela só conseguiu ver em casa, depois do almoço. A imagem noturna, a mulher sozinha na calçada escura, a voz transtornada gritando "Abre essa porta. Eu vou gritar a noite inteira aqui. Você roubou o que é meu. Me dá o que é meu." Ela pensou, por que ele não desce e devolve o chip para ela? Todos vão rir enquanto essa mulher agoniza em vexame público? Olívia assistiu os outros vídeos relacionados, os blogueiros que localizaram Pedro, os programas de televisão, a entrevista com o taxista. Todos achavam a história divertidíssima. Somente três pessoas manifestavam alguma compaixão: a apresentadora de um programa sensacionalista vespertino, o taxista e um velho psicanalista. O psicanalista tentou defender a exposição da dor, lembrando uma parábola contada por um padre num romance de Kafka e falando das "portas fechadas" que todos encontramos.
Mas Olivia não queria defender a mulher. Ela queria contestar quem ria. Queria reclamar da crueldade de todos os seus colegas que elegiam como herói um homem que não fez nada, que simplesmente ficou trancado em casa ignorando a mulher que se debatia à sua porta. Naquela mesma tarde ela se vestiu como Caroline Cólera e gravou um vídeo que chamou "Me dá meu chip - Visão Feminista". E esse vídeo se tornou uma piada involuntária quase tão famosa quanto o barraco do chip."
terça-feira, 27 de outubro de 2015
Eles merecem castigo - 1
"Além dos textos no blog, Olivia também fazia vídeos vestida e maquiada como Caroline Cólera. Base clara no rosto, delineador escuro, lentes de contato azul, batom vermelho e uma peruca de cabelos negros, repicados e cheios. Ela procurou na internet instruções de maquiagem para suas maçãs do rosto parecerem mais altas. Treinou sua voz para soar um pouco mais grave e rouca. Visitou brechós e sites até encontrar uma malha justa e negra com bolinhas brancas, de decote cavado, e costurou uma gola branca para ficar igual ao figurino da personagem.
Seu canal começou com uma série chamada "Eles merecem castigo". Foram dez vídeos em que ela contou em capítulos um desentendimento que teve com sua melhor amiga, depois que começou a namorar. No início de cada vídeo, como introdução, ela narrava alguma notícia estranha de punição a adolescentes, que encontrava na internet. Olivia não era uma garota violenta. No dia a dia, era tímida e estudiosa.
"Eles merecem castigo - 1", por Caroline Cólera, em 17 de agosto de 2009
"No dia 13 de março, na cidade de Boynton Beach, na Flórida, o pai de um garoto chamado Michael Thomas obrigou ele a ficar três horas em pé, na esquina da avenida principal da cidade, segurando um cartaz que dizia: 'Eu sou o idiota da escola. Estou na sétima série e reprovei em quatro matérias'.
A notícia saiu no jornal e na televisão. A mãe de uma garota em outra cidade da Flórida achou a ideia legal, e fez a filha dela ficar na calçada segurando um outro cartaz, que dizia: 'Fui expulsa da escola pela segunda vez.'
Eu também acho essa ideia muito legal. Eu acho que eu mesma vou ficar parada numa esquina segurando um cartaz. Eu vou escrever: 'Minha melhor amiga é uma invejosa e traidora'. Na verdade, eu acho que eu vou ficar bem na frente da casa dela. Ou melhor: eu vou ficar na frente da escola de inglês dela, bem na hora em que ela estiver saindo, pra todos os amigos dela verem.
Talvez eu escreva o nome dela bem grande no cartaz.
Talvez eu faça um folheto, explicando em detalhes tudo o que ela fez comigo, pra distribuir pra todos os amigos dela que estiverem saindo daquela escola de inglês.
Eu não vou dizer agora o que ela fez comigo. Ela sabe muito bem o que ela fez.
Na verdade é uma história comprida, e não adianta contar de uma vez só. Eu não quero dizer que eu estou certa e pronto, eu quero explicar todos os detalhes, porque são os detalhes que mostram, os fatos são fatos. Isso não é uma questão de opinião. A inveja é uma coisa muito concreta. Às vezes a gente demora pra perceber, mas depois dá pra ver direitinho quem tá sacaneando contigo."
Seu canal começou com uma série chamada "Eles merecem castigo". Foram dez vídeos em que ela contou em capítulos um desentendimento que teve com sua melhor amiga, depois que começou a namorar. No início de cada vídeo, como introdução, ela narrava alguma notícia estranha de punição a adolescentes, que encontrava na internet. Olivia não era uma garota violenta. No dia a dia, era tímida e estudiosa.
"Eles merecem castigo - 1", por Caroline Cólera, em 17 de agosto de 2009
"No dia 13 de março, na cidade de Boynton Beach, na Flórida, o pai de um garoto chamado Michael Thomas obrigou ele a ficar três horas em pé, na esquina da avenida principal da cidade, segurando um cartaz que dizia: 'Eu sou o idiota da escola. Estou na sétima série e reprovei em quatro matérias'.
A notícia saiu no jornal e na televisão. A mãe de uma garota em outra cidade da Flórida achou a ideia legal, e fez a filha dela ficar na calçada segurando um outro cartaz, que dizia: 'Fui expulsa da escola pela segunda vez.'
Eu também acho essa ideia muito legal. Eu acho que eu mesma vou ficar parada numa esquina segurando um cartaz. Eu vou escrever: 'Minha melhor amiga é uma invejosa e traidora'. Na verdade, eu acho que eu vou ficar bem na frente da casa dela. Ou melhor: eu vou ficar na frente da escola de inglês dela, bem na hora em que ela estiver saindo, pra todos os amigos dela verem.
Talvez eu escreva o nome dela bem grande no cartaz.
Talvez eu faça um folheto, explicando em detalhes tudo o que ela fez comigo, pra distribuir pra todos os amigos dela que estiverem saindo daquela escola de inglês.
Eu não vou dizer agora o que ela fez comigo. Ela sabe muito bem o que ela fez.
Na verdade é uma história comprida, e não adianta contar de uma vez só. Eu não quero dizer que eu estou certa e pronto, eu quero explicar todos os detalhes, porque são os detalhes que mostram, os fatos são fatos. Isso não é uma questão de opinião. A inveja é uma coisa muito concreta. Às vezes a gente demora pra perceber, mas depois dá pra ver direitinho quem tá sacaneando contigo."
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
Caroline Cólera
"Na casa da rua Perdigão havia um jardim de inverno desde 1997, ano em que morreu Rafaela, filha de Inês e mãe da pequena Olivia, de quatro anos de idade. Inês tinha quarenta e sete anos e Rafaela, aos vinte e dois, afogou-se enquanto surfava com amigos em Maresias. O mar estava agitado, ela tombou numa onda de um metro, a praia estava sem salva-vidas. Um amigo viu e correu para resgatá-la, mas a ambulância demorou demais e ela não sobreviveu. O pai de Olivia era australiano e seguia sua vida em algum lugar do mundo. Depois do afogamento, Inês assumiu a neta e fez o possível para criá-la sem a sombra dessa tragédia. Doou as roupas da filha e esvaziou a edícula no fundo de sua casa na Granja Viana, onde Rafaela e Olivia moravam (pois quando engravidou, aos dezoito anos, Rafaela ainda estava no primeiro ano da faculdade). Sem mudar de escolinha, com mínimas alterações em sua rotina, Olívia voltou para a casa principal, e Inês transformou a edícula num jardim de inverno.
A casa tinha 248 m2 de área construída e valia 850 mil reais no início de 2010, quando Inês decidiu vendê-la e mudar-se para um apartamento na zona oeste de São Paulo. Olivia começaria em fevereiro a faculdade na Avenida Paulista e Inês pensou que as duas seriam mais felizes morando na cidade, num bairro agradável, perto do metrô. Olivia iria para a aula e Inês ao cinema e exposições. As duas começariam uma vida nova, mais leve, mais móvel e mais urbana. Inês sentiu-se aliviada de poder finalmente deixar para trás a vida afastada e silenciosa na natureza, que idealizara quando Rafaela era pequena, e que trouxera tantas dificuldades e tristezas.
Em janeiro, depois do ano novo, Inês e Olivia passaram alguns dias numa praia perto de Florianópolis. Depois voltaram para a Granja Viana, Inês começou os contatos com imobiliárias para vender o imóvel e comprar o novo apartamento. Olivia ficava em seu quarto aguardando o início das aulas, assistindo seriados de TV, lendo quadrinhos e escrevendo em seu blog. No último ano do colégio, ela havia rompido com seu namorado e sua melhor amiga. Ela não queria mais se apegar a ninguém na Granja e esperava ansiosa conhecer os novos colegas na faculdade de Comunicação. Embora, nessa fase de sua vida, andasse resistente e desdenhosa com os jovens de sua idade. Suas melhores relações eram virtuais, três garotas de outras cidades que escreviam e comentavam seus textos no blog e também odiavam a sociedade e as pessoas comuns.
Olivia escrevia com pseudônimo para que sua avó e colegas da escola não a identificassem. Usava o nome Caroline Cólera, uma personagem de quadrinhos adultos franceses da década de 1970, escrita por Danie Dubos e ilustrada por George Pichard. Ela se identificava com os corpos sinuosos desenhados por Pichard e acreditava que as imagens justificavam seu próprio corpo, que não era magro como ambicionavam para si mesmas as garotas da escola. Olivia escolheu o nome de Caroline porque lhe soava melhor em português, mas suas personagens preferidas de Pichard eram Blanche Épiphanie, que tentava defender sua virtude num mundo de vilões sádicos, e Paulette, que herdou uma fortuna, tornou-se comunista e foi raptada por sujos capitalistas. Olívia também seria herdeira (do patrimônio de sua avó) e, enquanto esse tempo não chegava, tentava defender sua virtude espiritual, ignorando a culpa que talvez devesse sentir quando à noite se masturbava deitada em sua cama, no escuro, visualizando de olhos fechados as cenas de tortura sexual e imaginando-se no papel do velho sádico dos quadrinhos."
A casa tinha 248 m2 de área construída e valia 850 mil reais no início de 2010, quando Inês decidiu vendê-la e mudar-se para um apartamento na zona oeste de São Paulo. Olivia começaria em fevereiro a faculdade na Avenida Paulista e Inês pensou que as duas seriam mais felizes morando na cidade, num bairro agradável, perto do metrô. Olivia iria para a aula e Inês ao cinema e exposições. As duas começariam uma vida nova, mais leve, mais móvel e mais urbana. Inês sentiu-se aliviada de poder finalmente deixar para trás a vida afastada e silenciosa na natureza, que idealizara quando Rafaela era pequena, e que trouxera tantas dificuldades e tristezas.
Em janeiro, depois do ano novo, Inês e Olivia passaram alguns dias numa praia perto de Florianópolis. Depois voltaram para a Granja Viana, Inês começou os contatos com imobiliárias para vender o imóvel e comprar o novo apartamento. Olivia ficava em seu quarto aguardando o início das aulas, assistindo seriados de TV, lendo quadrinhos e escrevendo em seu blog. No último ano do colégio, ela havia rompido com seu namorado e sua melhor amiga. Ela não queria mais se apegar a ninguém na Granja e esperava ansiosa conhecer os novos colegas na faculdade de Comunicação. Embora, nessa fase de sua vida, andasse resistente e desdenhosa com os jovens de sua idade. Suas melhores relações eram virtuais, três garotas de outras cidades que escreviam e comentavam seus textos no blog e também odiavam a sociedade e as pessoas comuns.
Olivia escrevia com pseudônimo para que sua avó e colegas da escola não a identificassem. Usava o nome Caroline Cólera, uma personagem de quadrinhos adultos franceses da década de 1970, escrita por Danie Dubos e ilustrada por George Pichard. Ela se identificava com os corpos sinuosos desenhados por Pichard e acreditava que as imagens justificavam seu próprio corpo, que não era magro como ambicionavam para si mesmas as garotas da escola. Olivia escolheu o nome de Caroline porque lhe soava melhor em português, mas suas personagens preferidas de Pichard eram Blanche Épiphanie, que tentava defender sua virtude num mundo de vilões sádicos, e Paulette, que herdou uma fortuna, tornou-se comunista e foi raptada por sujos capitalistas. Olívia também seria herdeira (do patrimônio de sua avó) e, enquanto esse tempo não chegava, tentava defender sua virtude espiritual, ignorando a culpa que talvez devesse sentir quando à noite se masturbava deitada em sua cama, no escuro, visualizando de olhos fechados as cenas de tortura sexual e imaginando-se no papel do velho sádico dos quadrinhos."
quarta-feira, 29 de julho de 2015
Queen size
"Abril de 2004
Eu tenho 26 anos, duas quitinetes, um apartamento de dois quartos e uma namorada que mora numa quitinete alugada. Minha avó me deu os imóveis como presente de formatura da faculdade e também como encerramento oficial de sua responsabilidade. Foi simples e direta: "- Você é maior de idade, tem um diploma e uma renda pra sobreviver. Daqui pra frente você toma conta da sua própria vida." Na hora levei um susto, depois, quando assinamos os documentos, virei a nova dona do mundo. Os aluguéis caíram na minha conta, mandei pintar a quitinete mais bonita para eu mesma morar, comprei uns móveis na Tok Stok e uma cama queen size com lençóis coloridos. Depois de estreada e utilizada irresponsavelmente com uma meia dúzia de mulheres esquisitas de várias maneiras, essa cama ficou oito meses esperando Diandra tirar a roupa e se aconchegar peladinha.
Diandra, euforia do meu coração. Hoje a moça da imobiliária telefonou para avisar que o inquilino do apartamento grande vai encerrar o aluguel em maio. Tudo o que eu quero é levar nossas coisas para lá e passar todo o resto da minha vida com você."
Eu tenho 26 anos, duas quitinetes, um apartamento de dois quartos e uma namorada que mora numa quitinete alugada. Minha avó me deu os imóveis como presente de formatura da faculdade e também como encerramento oficial de sua responsabilidade. Foi simples e direta: "- Você é maior de idade, tem um diploma e uma renda pra sobreviver. Daqui pra frente você toma conta da sua própria vida." Na hora levei um susto, depois, quando assinamos os documentos, virei a nova dona do mundo. Os aluguéis caíram na minha conta, mandei pintar a quitinete mais bonita para eu mesma morar, comprei uns móveis na Tok Stok e uma cama queen size com lençóis coloridos. Depois de estreada e utilizada irresponsavelmente com uma meia dúzia de mulheres esquisitas de várias maneiras, essa cama ficou oito meses esperando Diandra tirar a roupa e se aconchegar peladinha.
Diandra, euforia do meu coração. Hoje a moça da imobiliária telefonou para avisar que o inquilino do apartamento grande vai encerrar o aluguel em maio. Tudo o que eu quero é levar nossas coisas para lá e passar todo o resto da minha vida com você."
segunda-feira, 13 de julho de 2015
Diandra
"Diandra está viajando. Está no Rio de Janeiro para o curso de um software de edição de som. Ela viajou domingo à tarde, eu a levei de carro até o aeroporto de Congonhas, depois passei no supermercado e voltei pra casa. Na segunda-feira conversamos pelo telefone às nove da noite, depois assisti um documentário que me interessava e que provavelmente a ela não.
Na terça senti dor de estômago, pensei que era gastrite, mas continuei sentindo náusea ontem, deve ser uma virose ou alguma comida que me fez mal. Talvez um hamburguer mal passado que comi no almoço de segunda. Não me sinto mal a ponto de vomitar, mas meu estômago dói e sinto enjôo ao pensar em comida, e muito cansaço. Trabalhei como foi possível mas à noite senti muita falta de Diandra. É o quarto dia que ela está longe, quatro dias voltando para casa sozinha, no domingo gostei de ter a noite livre para ficar em silêncio e gastar as horas do meu jeito, mas a casa vazia hoje me pesou.
A decisão de ficar sozinha quando Diandra viaja, não fugir disso telefonando ou marcando algo com alguém, não é fácil para mim. Tomei algumas decisões sobre o uso do meu tempo, e também sobre como quero me comportar, ler e estudar mais, pensar, me concentrar, e depender menos da satisfação rápida por estímulo imediato. Desde talvez os treze ou catorze anos, nos momentos de cansaço, depois de um dia ou semana de atividades, minha reação para relaxar era telefonar para alguém. O prazer - a distração - o descanso - dependiam de outras pessoas. Agora decidi verificar se é possível ter prazer, distração e descanso apenas sozinha comigo.
Talvez eu tenha decidido isso, o que necessitou coragem (e necessita um esforço constante, conforme se apresentam as situações específicas), apenas porque agora tenho a companhia de Diandra. Porque não estou sozinha, em condição mais ampla. Tenho certa vergonha disso."
Na terça senti dor de estômago, pensei que era gastrite, mas continuei sentindo náusea ontem, deve ser uma virose ou alguma comida que me fez mal. Talvez um hamburguer mal passado que comi no almoço de segunda. Não me sinto mal a ponto de vomitar, mas meu estômago dói e sinto enjôo ao pensar em comida, e muito cansaço. Trabalhei como foi possível mas à noite senti muita falta de Diandra. É o quarto dia que ela está longe, quatro dias voltando para casa sozinha, no domingo gostei de ter a noite livre para ficar em silêncio e gastar as horas do meu jeito, mas a casa vazia hoje me pesou.
A decisão de ficar sozinha quando Diandra viaja, não fugir disso telefonando ou marcando algo com alguém, não é fácil para mim. Tomei algumas decisões sobre o uso do meu tempo, e também sobre como quero me comportar, ler e estudar mais, pensar, me concentrar, e depender menos da satisfação rápida por estímulo imediato. Desde talvez os treze ou catorze anos, nos momentos de cansaço, depois de um dia ou semana de atividades, minha reação para relaxar era telefonar para alguém. O prazer - a distração - o descanso - dependiam de outras pessoas. Agora decidi verificar se é possível ter prazer, distração e descanso apenas sozinha comigo.
Talvez eu tenha decidido isso, o que necessitou coragem (e necessita um esforço constante, conforme se apresentam as situações específicas), apenas porque agora tenho a companhia de Diandra. Porque não estou sozinha, em condição mais ampla. Tenho certa vergonha disso."
domingo, 5 de julho de 2015
Isadora Ullman
"Minha melhor amiga no colégio, Suzana, me desprezou quando comecei a namorar o Vinícius.
- Você não gosta dele. Você só está fazendo isso para não ficar sozinha.
Era verdade que eu não era apaixonada por ele. Vinícius tinha sido nosso amigo nos últimos dois anos, o terceiro componente do nosso grupo pequeno e secundário na classe, em que Suzana era a líder. Suzana tinha personalidade para dominar as conversas e decisões entre nós, mas não o bastante para se destacar na classe toda. A líder da nossa turma era uma garota alta e valente que jogava vôlei, Isadora Ullman. Eu a admirava, embora ela talvez nem soubesse meu nome - para as meninas bonitas da turma, eu era apenas a amiga de óculos da Suzana.
Isadora Ullman e as bonitas da classe tinham namorados e transavam. Mas as garotas comuns nem sempre. Havia duas comuns e avulsas que namoravam, eram adventistas, magrinhas com roupas de adultas, os namorados eram provavelmente seus futuros noivos. As outras, como eu e Suzana, não sabiam conversar com os garotos bonitos, não iam a festas nem bebiam, não tinham a menor ideia de como trocar olhares ou paquerar. Havia uma turma grande dessas garotas comuns, quatro ou cinco, que andavam sempre juntas. Elas não criticavam Isadora Ullman - provavelmente para elas, como para mim, Isadora era tão bonita e gente boa que não havia o que criticar. Estava num estágio mais avançado que nós, namorava e transava porque isso fazia parte do mundo dela, que nós desconhecíamos.
Mas Suzana não gostava de Isadora. Dizia que ela era arrogante e convencida. Que era interesseira e só a procurava quando precisava de ajuda com a matéria e as provas. Pensava que era adulta, mas era só uma garota mediana que não ia passar em nenhum vestibular importante porque não era suficientemente inteligente.
Suzana dizia:
- Eu não vejo nenhuma vantagem em transar com um namorado que você conhece aos dezesseis anos. Isso vai durar quanto? Vai correr o risco de ficar grávida por um cara que daqui a dois anos você já esqueceu?
Eu não via motivo para tanta restrição ao sexo. Vinícius era um pouco gordo e tinha vergonha de ficar sem camiseta, por causa da barriga. Mas queria muito transar. Depois de algumas vezes, percebemos que era melhor eu ficar por cima."
- Você não gosta dele. Você só está fazendo isso para não ficar sozinha.
Era verdade que eu não era apaixonada por ele. Vinícius tinha sido nosso amigo nos últimos dois anos, o terceiro componente do nosso grupo pequeno e secundário na classe, em que Suzana era a líder. Suzana tinha personalidade para dominar as conversas e decisões entre nós, mas não o bastante para se destacar na classe toda. A líder da nossa turma era uma garota alta e valente que jogava vôlei, Isadora Ullman. Eu a admirava, embora ela talvez nem soubesse meu nome - para as meninas bonitas da turma, eu era apenas a amiga de óculos da Suzana.
Isadora Ullman e as bonitas da classe tinham namorados e transavam. Mas as garotas comuns nem sempre. Havia duas comuns e avulsas que namoravam, eram adventistas, magrinhas com roupas de adultas, os namorados eram provavelmente seus futuros noivos. As outras, como eu e Suzana, não sabiam conversar com os garotos bonitos, não iam a festas nem bebiam, não tinham a menor ideia de como trocar olhares ou paquerar. Havia uma turma grande dessas garotas comuns, quatro ou cinco, que andavam sempre juntas. Elas não criticavam Isadora Ullman - provavelmente para elas, como para mim, Isadora era tão bonita e gente boa que não havia o que criticar. Estava num estágio mais avançado que nós, namorava e transava porque isso fazia parte do mundo dela, que nós desconhecíamos.
Mas Suzana não gostava de Isadora. Dizia que ela era arrogante e convencida. Que era interesseira e só a procurava quando precisava de ajuda com a matéria e as provas. Pensava que era adulta, mas era só uma garota mediana que não ia passar em nenhum vestibular importante porque não era suficientemente inteligente.
Suzana dizia:
- Eu não vejo nenhuma vantagem em transar com um namorado que você conhece aos dezesseis anos. Isso vai durar quanto? Vai correr o risco de ficar grávida por um cara que daqui a dois anos você já esqueceu?
Eu não via motivo para tanta restrição ao sexo. Vinícius era um pouco gordo e tinha vergonha de ficar sem camiseta, por causa da barriga. Mas queria muito transar. Depois de algumas vezes, percebemos que era melhor eu ficar por cima."
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