segunda-feira, 29 de março de 2010

O grito, foto

Segunda-feira é o dia ideal para aprender a fazer screenshots.

Esta é uma imagem de O grito. A morte do menino doente, que comentei há alguns dias.

Creio que estou sendo... snif... antiamericano

Eles botam ovos por qualquer motivo!

Eternamente maravilhada com a internet, encontrei o gibi digitalizado, a partir de uma ótima resenha no blog Quadrinhólatra.

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Ferdinando e os Shmoos
Desenho e roteiro: Al Capp
RGE / Gibi Especial n° 3/ PeB / 1975 / 66 pág.

“Eles botam ovos por qualquer motivo! Também dão leite! E assados no espeto, são a melhor carne de vaca que existe. Fritos, se transformam em apetitosas galinhas ou em qualquer carne branca que desejar! E não dão despesa, pois não comem absolutamente nada! (...) Quando se olha para um Shmoo e se pensa em comê-lo, ele morre de felicidade incontida. Não há desperdício. A pele dá o coro mais resistente... ou roupas, dependendo da grossura que cortar! Os olhos servem de ótimos botões para suspensórios. (...) Os Shmoos não comem nada e se multiplicam rapidamente.”

Porcos capitalistas

Meu pai tinha um gibi do Ferdinando, que eu adorava quando criança.

Na história, os caipiras famintos encontravam um shmoo - animalzinho estranho que se suicidava de amor, transformando-se em comida, quando alguém o olhava com fome.

Os empresários da cidade percebem que os shmoos estão estragando os negócios. Então mandam uns capangas, que metralham os bichinhos na frente dos caipiras. As crianças e os velhos choram.

Na época, claro, eu não percebia a mensagem política. Me parecia natural que os capitalistas fossem gananciosos e assassinos.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Deviam ter me chamado antes

O artigo de Elio Gaspari, na FSP de hoje, conta curiosidades sobre o matemático que recusou US$ 1 milhão. Não compartilho de algumas premissas, como a comparação algo banal com Lady Gaga (a fantasia de pureza existencial não é exclusiva à nossa época). Cortei as frases sobre a cantora, mas coloquei abaixo o texto quase completo. Gosto das respostas do russo às universidades americanas.

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"Num mundo que consome celebridades, a história de Perelman merece cinco minutos de atenção.

Ele é um matemático russo, de 43 anos, já passou meses sem trocar de roupa, raramente corta as unhas, a barba ou o cabelo. Vive com a mãe em São Petersburgo, tem horror a jornalistas e viveu sete anos praticamente recluso. Nem e-mails respondia. Quando esteve nos Estados Unidos, a base de sua alimentação era pão preto e iogurte.

Recusou cátedras nas universidades de Princeton, Berkeley, Stanford e no MIT. É um excêntrico, mas é um excêntrico que tem bastante a ensinar. Até que ponto vive-se melhor parecendo maluco do que deixando-se bafejar pela celebridade?

Superando ciúmes, intrigas e rivalidades, Perelman acaba de conquistar o prêmio dos "Problemas do Milênio", com direito a um cheque de US$ 1 milhão, concedido por uma fundação americana, por ter decifrado um dos sete grandes mistérios da matemática. Em 2006, ofereceram-lhe um honraria considerada equivalente a um Nobel de matemática. Recusou-a.

Perelman resolveu a conjectura de Poincaré em 2002. Em vez de mandar seu trabalho para uma revista científica, onde um painel de estudiosos estudaria a consistência dos argumentos, simplesmente jogou os textos na internet, num arquivo público de trabalhos acadêmicos. O trabalho não dizia que a conjectura havia sido resolvida, essa tarefa cabia a quem o lesse. (Um matemático gastou três meses para entendê-lo.) A comunidade dos sábios consumiu dois anos estudando, invejando e, em alguns casos, buscando uma falha na explicação. Perda de tempo.

Quando Perelman foi convidado por Princeton, pediram-lhe um currículo. Respondeu que, se não sabiam quem ele era, não deveriam convidá-lo. Como o MIT chamou-o depois que resolveu a Conjectura de Poincaré, recusou porque deveriam tê-lo chamado antes. Num último convite podia ganhar quanto quisesse e fazer o que quisesse durante o tempo que bem entendesse. Respondeu que estava comprometido com seus alunos do ensino médio de São Petersburgo, o que nem era verdade.

Perelman ofendeu-se quando o "New York Times" disse que ele sustentava que resolvera a conjectura para ganhar US$ 1 milhão. Afinal, estudava o problema muito antes de o prêmio surgir e não sustentava coisa alguma. Decifrara a Conjectura de Poincaré, ponto.

O mundo fica mais interessante quando se sabe que o negócio de Perelman é outro. Os matemáticos podem viver num mundo de liberdade e rigor absolutos. Ele escolheu uma vida de total integridade, sem concessões a coisa alguma. Ninguém manda nele, só a matemática, num diálogo que dispensa outras vozes."

Elio Gaspari, FSP - 24/03/2010.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Ice laskamo

Escrevi um artigo sobre o programa Big Brother para o Estadão. O tema foi sugerido pelo jornal, que preparava algumas matérias sobre a delinquência juvenil (por causa da morte do Glauco).

É um artigo austero, digamos.

Seguem alguns trechos. O texto completo está aqui.

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"Que bebida os BBBs tomam naquela garrafinha? Há algum tempo acompanho as notícias sobre o programa Big Brother Brasil, produzido pela TV Globo. Não me interessam especialmente os participantes e suas inter-relações variadas, mas os dados sobre audiência e faturamento.

Segundo as notas da imprensa, a décima edição do Big Brother começou com audiência menor que as versões anteriores. Entretanto, o desempenho comercial continua se destacando. Ele atrai anunciantes pelas possibilidades de merchandising, pois o tempo de exposição do produto é mais longo, e o envolvimento, maior.

(...)

Entre todos os produtos espalhados pela casa, uma garrafinha de rótulo verde chama atenção. Nas festas e nos momentos de tédio, os participantes recebem ice para se animar. A bebida desperta euforia nos jogadores. Em trechos disponíveis no YouTube os participantes gritam e se abraçam ao ver as garrafinhas. Seguindo a lição de Madonna, simulam sexo oral no produto. Ficam bêbados, caem, dão vexame.

Embora o assunto "regulamentação publicitária" seja terreno minado, não me parece apropriado exibir livremente o consumo de bebida alcoólica num programa liberado para o público de 14 anos. À primeira vista, não consegui identificar se as garrafas eram merchandising. A diferença é sutil, mas importante: a bebida surge para que os participantes fiquem mais expansivos (aumentando o interesse do "conteúdo" exibido), ou porque a emissora é paga para isso?

Os participantes se referem à bebida apenas como ice. Nenhuma marca é mencionada. A garrafa tem tampa vermelha e rótulo verde. Não vi nenhum produto parecido no supermercado. Procurei no site de uma distribuidora de bebidas: nada. Na internet, encontrei perguntas semelhantes em vários fóruns e debates. "Qual a marca de ice que os BBBs tomam?" O assunto parece interessar à juventude. Talvez seja a mesma juventude que ouve a canção Red Label ou Ice, sucesso em forró ou funk. Diz a letra: "Elas gostam mais de ice porque whisky elas caem".

(...)

Assistindo atentamente aos vídeos disponíveis no YouTube consegui finalmente ler o rótulo da garrafa: diz apenas "Big Brother Brasil". Trata-se de um ice genérico, como é chamado na rede. Assim, em teoria, a exibição não é patrocinada. Os jogadores bebem porque a produção considera interessante. O melhor comentário vem de um certo Rocky. "Qual a bebida que os BBBs tomam?" Diz ele: "ICE LASKAMO".

terça-feira, 16 de março de 2010

Vestido azul, II

Novo trecho do conto em construção.

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"Tenho pouca familiaridade com a moda, é verdade. Mas acho agradável visitar lojas e escolher peças bonitas quando meus cabides se mostram deprimidos pelo excesso de tecido desbotado. Minhas roupas novas costumam ser versões revisadas de modelos antigos: gosto sinceramente dos tons castanhos. Nos dias mais alegres me bastam o amarelo claro, um pouco de azul ou rosa. As coleções passam mas consigo manter meu estilo - deve existir uma parcela constante de mulheres tímidas, que movimenta o modesto mercado das roupas inofensivas.

Minha prima, entretanto, marcou seu casamento numa época desconfortável para mim. Eu decidira comprar o pequeno apartamento em que morava, por isso trabalhava muito e sobrava pouco: as parcelas do financiamento custavam metade do meu salário. Pensei então em procurar algo barato numa loja popular. Os pobres quando casam também convidam seus parentes, existem bairros inteiros dedicados a tal comércio. Eu poderia me contentar com algo meio vagabundo: era suficiente para usar entre tias e tios e a mãe do cunhado do meu irmão. Fazia quatro anos que não via essa prima. Só precisava acompanhar minha mãe, que adora rever a família em batizados, formaturas e missas de sétimo dia.

Mas não sei que espírito demoníaco inventou o poliéster, nem por que resolveu martirizar os pobres. Fui a uma loja em Santo Amaro, e percebi aterrorizada que nem um cão farejador encontraria um mísero retalho de algodão. Se havia alguma cor discreta, estava escondida debaixo das lantejoulas. O criador dos modelos parecia ignorar que duas partes de tecido pudessem se unir sem a interferência de um babado. O pavor criou uma falência súbita nos meus nervos óticos e desnorteadamente, entre ondas de angústia, procurei meu caminho até a porta de saída."