quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Salmodiando os versos

"A pequena casa editora de antes tornara-se grande e importante. Agora, muita gente trabalhava lá. Tinha uma nova sede, na avenida rei Humberto, depois que a sede antiga desmoronou num bombardeio. Pavese agora tinha uma sala só para si, e na porta havia uma placa com a inscrição "Direção editorial". Pavese ficava à mesa, com o cachimbo, revisando as provas com a rapidez de um raio. Lia a Ilíada em grego, nas horas de folga, salmodiando os versos em voz alta; numa triste cantilena. Ou então, riscando com rapidez e violência, escrevia seus romances. Tornara-se um escritor famoso."

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Natália Ginzburg, "Léxico familiar".

Gosto do ponto-e-vírgula deslocado na frase da Ilíada.

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Saiu na Folha, neste sábado, uma estrevista com Luís Augusto Fischer, prof. da UFRGS. Não saberia dizer se concordo com ele, pois o título da matéria me assustou e não li inteira. De todo modo esse parágrafo marcou:

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"Uma de suas idéias é a de que a forma privilegiada do romance brasileiro, narrativas de feição memorialística (como em "Dom Casmurro" e "Grande Sertão: Veredas"), se relaciona com a imagem de ausência de memória histórica que os brasileiros fazem de si mesmos.
A contradição se explicaria pelo fato de o país não construir uma memória autorizada e comum, porque quem deveria fazê-lo, a elite, não pode falar do que ela realmente faz (como da escravidão, por exemplo). A memória vai ser assim um problema, a ser "resolvido" caso a caso nos grandes romances."

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Honestamente não sei se a questão é exclusiva do Brasil. Mas gosto dessa ausência da memória "autorizada e comum".

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Mais barata e igual

Tive pouco tempo livre nesta semana e não escrevi nada fresco. Segue mais um trecho do livro, para criar ainda maior confusão nesse mosaico mental:

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"Lílian Maia era a menina mais exibida do Colibri e tinha amigas que imitavam tudo que ela fazia. Não era exatamente chata, mas não me animava. Me irritava um pouco sua mania de mostrar as roupas e falar de maquiagem a toda hora. Diziam que sua mãe era modelo quando jovem, mas eu nunca soube direito. Agora aparentemente estava interessada em estudar: contou animada sobre sua escola nova, um colégio grande, “o melhor do Paraná”, segundo seus pais, porque era “exigente”. Minha mãe não gostava desse tipo de colégio “decoreba”. A turma de Lílian na quinta-série tinha quarenta e cinco alunos (a nossa, vinte e dois). Na semana anterior ela teve semana de provas: recebiam uma folha de questões e anotavam as respostas num cartão separado, como no vestibular. Tudo o que eles faziam já era uma preparação para o vestibular, Lílian disse: "foi meu professor de matemática quem falou."

Lílian sempre falava de suas coisas novas: as roupas, os brinquedos, o carro conversível de seu pai, e agora o colégio. Quando conversávamos, eu tentava elogiar as coisas da minha família, nem novas nem caras, mas originais (eu acreditava). “Meu pai não quer um carro novo, porque está economizando para viajarmos para o Chile”. “Minha mãe fez fantoches de pano e sabe fazer origami”. As meninas do condomínio se dividiam entre aquelas que concordavam com Lílian e outras, poucas, que concordavam comigo. Eu falava empolgada sobre os fantoches da minha mãe mas sentia, sem dizer, que seria bom ter brinquedos modernos e um carro novo e todas as coisas que Lílian Maia tinha. Quando estava em casa, pedia para minha mãe comprar certas coisas. Mas ela sempre respondia do mesmo modo: “Por que você quer a boneca da Estrela? Esta aqui é mais barata e igual.” Eu dizia “não é igual, mãe”, mas ela não se convencia. Para ela eram mesmo iguais."

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Escoar o invendável

Um trecho de "A história de Vidal, meu pai", de Edgar Morin. Li este livro com carinho, porque o pai do cabrito também tinha uma loja no bairro do Sentier, em Paris, desde a segunda guerra. Pensei que minha amiga Si poderia se interessar.

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"Em contraste com a rue des Rosiers, então colonizada pelos asquenasitas da Polônia e da Rússia, nenhum exotismo, nenhuma moda ou estilo de vida, nenhum sinal - salvo os nomes dos lojistas e o empilhamento sem graça das mercadorias entrepostas atrás das vitrines - indica ao olhar exterior a presença de uma comunidade estrangeira. A população é, de fato, muito mesclada; restam ainda as camadas populares parisienses, nos quartos de último andar e nos cubículos dos zeladores; os representantes comerciais que visitam o bairro são franceses, os lojistas são majoritariamente sefaraditas, os clientes se compõem de uma minoria de franceses, muitos metecos, feirantes e pequenos lojistas do interior ou da periferia, norte-africanos, armênios, asquenazitas.

(...)

A loja era, a bem dizer, uma lojinha bem estreita. Nos mostradores da vitrine, misturadas, empilhadas e desorganizadas, meias e meias-calças amarradas em dúzias. Uma longa mesa central retangular divide a loja em duas passagens simétricas estreitas. Vidal costuma ficar do lado esquerdo, os clientes do lado direito, mas eles vêm ao lado esquerdo para observar, manusear, estender as meias e meias-calças que, às dúzias, se empilham em escaninhos de um lado e do outro, até o teto.

(...)

Na verdade, Vidal não se interessa por meias ou meias-calças, interessa-se por seu negócio. É aí que coloca toda a sua energia, mas não adquiriu o senso das texturas, dos materiais, das cores; deixa-se guiar pelos pedidos dos compradores, pelas indicações dos fornecedores: "isto agrada muito, no momento". Sua incompetência condena-o aos fins de séries, às escolhas de segunda, às liquidações, e esses fins de série, essas escolhas de segunda, essas liquidações alimentam sua incompetência. Aliás, guardará em estoque, durante mais de dez anos, meias-calças de cores horríveis, meias pavorosas: só a ocupação alemã de 1940, com suas restrições e sua escassez de mercadorias, permite-lhe escoar, a bom preço, o invendável."

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Enjoada do silêncio

Aos poucos fui me acostumando à casa de Juliana. O silêncio tão incômodo nos primeiros dias foi aos poucos se desfazendo. Talvez, enjoada do silêncio, eu tenha sido forçada a procurar os sons próprios daquela casa, em que se falava pouco, devagar, onde se pedia licença para entrar, e sempre, no meio da tarde, a mãe de Juliana perguntava se eu estava com fome, se queria bolachas ou suco. Uma vez ela bateu à porta e disse “Vou fazer um pouco de barulho. Preciso secar o cabelo”. Fechou a porta e logo em seguida ouvi o ruído de um secador. Num outro dia avisou: “preciso passar o aspirador”. Os ruídos eram sempre anunciados, e isso me parecia estranhamente inútil e bem-educado. Tudo naquele apartamento era estranho: a disposição das paredes era igual à de nossa casa, mas invertida. A cor tediosa dos móveis, os livros descorados na estante, a completa ausência de quadros e enfeites transformavam o conjunto numa versão diferente do que éramos nós; era como o nosso apartamento, e era oposto.

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Em homenagem ao início de "O medo do goleiro diante do pênalti".

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Nathalie Sarraute

Li "Infância" por indicação do meu professor Jean-Claude, que falava dos livros que o influenciaram nos anos 60 (era mesmo essa década?). No blog Sete Linhas coloquei um trecho que me emociona muito, sobre a escola primária. Uma frase dela e algumas linhas do meu livro "O afeto", que comecei a escrever inspirada por seu trabalho.

Na coletânea organizada por Betty Milan, "A força da palavra", há uma entrevista comovente.

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"BM - Colette dizia que a frase bonita, o belo, é perigoso para um escritor. A senhora diz a mesma coisa. Poderia explicar por quê?

NS - Escrevi sobre isso um texto enorme: Entre a vida e a morte. Quando o autor trabalha e retrabalha a frase e ela se torna bela demais, perde o contato com a sensação que lhe deu origem. A frase se torna morta, ela responde a um cânone de beleza. É perigoso. É preciso então recomeçar tudo de novo, voltar à sensação para que a frase viva. O que é a beleza? A beleza responde a algo de muito acadêmico. Trata-se antes de procurar uma determinada sensação, de ficar o mais perto possível dela e depois exprimi-la, fazê-la viver, transmiti-la por meio da escrita."

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Interferência

Enquanto estava ao telefone ouvi um barulho estranho perto do armário. Não podia desligar e continuei falando com medo que um rato surgisse debaixo da gaveta.

Que o rato roesse a madeira e mostrasse o focinho e os dentes selvagens para mim.

Desliguei e então percebi: um ruído de interferência na caixa de som do computador.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Miranda July

O título em português é péssimo. Parece buscar o público do filme "Eu sei o que vocês fizeram no ano passado".

Em inglês é mais melancólico e carinhoso, além de irônico, se levarmos em conta o desamparo das personagens: "No one belongs here more than you".

Um parágrafo do conto "Fazendo amor em 2003":

"Ela estava com uma almofada de tapeçaria em que se lia: FAZENDO AMOR EM 2002. Do outro lado do sofá havia FAZENDO AMOR EM 1997, em azul, com um babado em volta. Imagino que houvesse outras, mas tentei não procurar por elas. Eu não queria ver a que traria o ano em corrente. Ou, se não houvesse uma, eu não queria saber por quê. Ela me fez perguntas educadas e esperamos por seu marido."