Tese, tese.
Passei os últimos dias coletando frases de matérias antigas de jornal, tentando encontrar eixos nas opiniões sobre qualidades e defeitos de variadas novelas.
Sobre a questão do luxo:
- - -
JB, 29 nov. 1969 (sobre Beto Rockfeller)
“Os espectadores são levados a crer que o acesso às mulheres, ao dinheiro e ao sucesso social não é assim tão difícil.”
O Globo, 10 jul. 1977
“[sobre Espelho mágico] Do ponto de vista do comportamento do mercado, pode ser que este, numa autodefesa da própria necessidade de ilusão, prefira ver os seus ídolos sempre inatingíveis, perfeitos, olimpianos, intocáveis, belos, fortes, poderosos. Alienação ou não, a verdade é que as idealizações fazem parte do cortejo de necessidades psicológicas do ser humano e pode ser que algo se quebre dentro do público, quando ele perceba que está desvendando o mundo dos seus ídolos e esse mundo é igual ao seu em insegurança, medo e até mediocridade, feiura e até pobreza...”
JB, 25 jul. 1977
“[Em Locomotivas] Lá o sonho já foi realizado, não há mais pobres e nem se luta mais pela vida. Eles só querem, só pensam em namorar. (...) Belamente confeitada, segundo todas as receitas da Metro dos anos 50 e das Panteras atuais, a novela é um eterno desfile de modas, penteados, adereços e calçados.”
- - -
Há algum tempo me irritavam as novelas em que a única questão era isso: namorar. Da infância à velhice, parecia o único objetivo de todos os personagens.
Agora o tema da ascensão da classe C volta à moda (como nos anos 1970).
E os personagens voltam a se debater entre pobreza e riqueza.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Água e comida
Dizem que existe uma "culpa da sobrevivência" nas pessoas que perdem alguém próximo. Morre um filho, os pais, um amor... o tempo passa e a pessoa realimenta a dor da perda num círculo vicioso, por culpa de esquecer. Esquecer seria uma traição ao vínculo passado.
A culpa, dizem os psicanalistas, é uma defesa contra acasos dolorosos. Ao assumir a responsabilidade que não teve, a pessoa sente o conforto do controle. Eu sofri, mas foi minha culpa. Ninguém fez isso: fui eu mesmo.
A teoria é ótima, mas o sentimento difuso da culpa nem sempre tem o carimbo: "sinto culpa".
A pessoa fica se perguntando: o que fiz de errado, o que poderia ter sido evitado... Parece uma racionalização das possibilidades perdidas, não culpa.
Mas é.
Sendo uma defesa contra a fragilidade passada, a culpa também age contra a felicidade futura.
Como posso ser feliz, depois de ter sofrido? Como esquecer meu pequeno eu, frágil e choroso, e substituí-lo por um outro eu feliz? Que ingratidão pelo passado, de que sou fruto e filho.
Abandonar o ninho.
É impossível crescer sem ferir os pais, dizem.
Há gente que se arrasta pela vida sem nunca dizer: não sou mais seu filho. Esqueça aquela criança que você amava e protegia, porque ela não existe mais: sou outro agora, se quiser me amar ou não, é sua escolha.
Mas os pais são pessoas reais: feri-los pode ser uma ingratidão real.
Nada disso ocorre com nossas fantasias de sofrimento. Elas podem ser decapitadas, empurradas de um precipício, jogadas aos tubarões. Assassinadas com frieza, sem consequências legais ou morais.
Abandonar num deserto, sem água ou comida, a memória dolorida que amamos e protegemos: pobrezinha, seu tempo acabou.
A culpa, dizem os psicanalistas, é uma defesa contra acasos dolorosos. Ao assumir a responsabilidade que não teve, a pessoa sente o conforto do controle. Eu sofri, mas foi minha culpa. Ninguém fez isso: fui eu mesmo.
A teoria é ótima, mas o sentimento difuso da culpa nem sempre tem o carimbo: "sinto culpa".
A pessoa fica se perguntando: o que fiz de errado, o que poderia ter sido evitado... Parece uma racionalização das possibilidades perdidas, não culpa.
Mas é.
Sendo uma defesa contra a fragilidade passada, a culpa também age contra a felicidade futura.
Como posso ser feliz, depois de ter sofrido? Como esquecer meu pequeno eu, frágil e choroso, e substituí-lo por um outro eu feliz? Que ingratidão pelo passado, de que sou fruto e filho.
Abandonar o ninho.
É impossível crescer sem ferir os pais, dizem.
Há gente que se arrasta pela vida sem nunca dizer: não sou mais seu filho. Esqueça aquela criança que você amava e protegia, porque ela não existe mais: sou outro agora, se quiser me amar ou não, é sua escolha.
Mas os pais são pessoas reais: feri-los pode ser uma ingratidão real.
Nada disso ocorre com nossas fantasias de sofrimento. Elas podem ser decapitadas, empurradas de um precipício, jogadas aos tubarões. Assassinadas com frieza, sem consequências legais ou morais.
Abandonar num deserto, sem água ou comida, a memória dolorida que amamos e protegemos: pobrezinha, seu tempo acabou.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Leituras da adolescência
Por acaso, hoje lembrei da epígrafe de Admirável mundo novo (versos de A Tempestade):
"Ó, maravilha!
Que adoráveis criaturas temos aqui!
Como é bela a espécie humana!
Ó, admirável mundo novo
que possui gente assim!"
- - -
No original:
"MIRANDA
O, wonder!
How many goodly creatures are there here!
How beauteous mankind is! O brave new world,
That has such people in't!"
"Ó, maravilha!
Que adoráveis criaturas temos aqui!
Como é bela a espécie humana!
Ó, admirável mundo novo
que possui gente assim!"
- - -
No original:
"MIRANDA
O, wonder!
How many goodly creatures are there here!
How beauteous mankind is! O brave new world,
That has such people in't!"
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Soy como el junco que se dobla pero siempre sigue en pie
Houve uma época em que eu lia biografias e procurava reportagens sobre os artistas que admirava.
E como admirava Almodóvar... esse tropicalismo ríspido em espanhol. Seu primeiros filmes, feitos entre amigos, nos fins de semana, movida madrileña, eram o modelo que eu sugeria nos corredores da faculdade, aos dezoito anos.
Mas faltavam provavelmente os jovens desocupados, as bandas de rock e os travestis: alunos deprimidos, de pele embraquecida por falta de sol depois de enfrentar a Fuvest, não eram matéria-prima pra a movida no Butantã.
E como admirava Almodóvar... esse tropicalismo ríspido em espanhol. Seu primeiros filmes, feitos entre amigos, nos fins de semana, movida madrileña, eram o modelo que eu sugeria nos corredores da faculdade, aos dezoito anos.
Mas faltavam provavelmente os jovens desocupados, as bandas de rock e os travestis: alunos deprimidos, de pele embraquecida por falta de sol depois de enfrentar a Fuvest, não eram matéria-prima pra a movida no Butantã.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Papel, sabão e calças sujas
Talvez a preocupação com o lixo esteja me causando resfriados.
Há algum tempo parei de secar as mãos com toalhas de papel, na faculdade. Pensei: pra que gastar papel só para isso? Posso secar as mãos na calça. Não é muito elegante (aliás, NADA elegante), mas evita o desperdício de celulose.
Mas, paralelamente, tive uns quatro resfriados neste ano. Algo errado. Pensei em tomar vitaminas, rever minha alimentação... mas não houve nenhuma mudança tão radical nos meus hábitos alimentares que explicasse uma fragilidade de nutrientes.
Procurando na internet, entre várias dicas para evitar resfriados, uma delas me surpreende: lavar as mãos com sabonete, e usar toalhas descartáveis.
Penso: vou para a faculdade de metrô, expondo minhas calças a todos os tipos de germes. Depois lavo as mãos e enxugo... nas calças! Meu deus.
A consciência ecológica pode ser perigosa.
Há algum tempo parei de secar as mãos com toalhas de papel, na faculdade. Pensei: pra que gastar papel só para isso? Posso secar as mãos na calça. Não é muito elegante (aliás, NADA elegante), mas evita o desperdício de celulose.
Mas, paralelamente, tive uns quatro resfriados neste ano. Algo errado. Pensei em tomar vitaminas, rever minha alimentação... mas não houve nenhuma mudança tão radical nos meus hábitos alimentares que explicasse uma fragilidade de nutrientes.
Procurando na internet, entre várias dicas para evitar resfriados, uma delas me surpreende: lavar as mãos com sabonete, e usar toalhas descartáveis.
Penso: vou para a faculdade de metrô, expondo minhas calças a todos os tipos de germes. Depois lavo as mãos e enxugo... nas calças! Meu deus.
A consciência ecológica pode ser perigosa.
domingo, 18 de setembro de 2011
Janela miserável
Pelo blog de Antonio Cícero, lembrei de algumas canções napolitanas.
Fenesta vascia
Finestra bassa (o misera)
Fenesta vascia 'e padrona crudele,
quanta suspire mm'haje fatto jettare!...
Mm'arde stu core, comm'a na cannela,
bella, quanno te sento annommenare!
Oje piglia la 'sperienza de la neve!
La neve è fredda e se fa maniare...
e tu comme si' tanta aspra e crudele?!
Muorto mme vide e nun mme vuó' ajutare!?...
Vorría addeventare no picciuotto,
co na langella a ghire vennenn'acqua,
Pe' mme ne jí da’ chisti palazzuotte:
Belli ffemmene meje, ah! Chi vó' acqua...
Se vota na nennella da llá 'ncoppa:
Chi è 'sto ninno ca va vennenn'acqua?
E io responno, co parole accorte:
Só' lacreme d'ammore e non è acqua!...
Tradução a partir do italiano, segundo este link.
Janela baixa (ou miserável)
Janela baixa de uma dona cruel,
quantos suspiros me fez jogar fora.
Me arde o coração como uma vela,
bela, quando ouço teu nome.
Pois veja o exemplo da neve,
A neve é fria mas se deixa tocar.
Mas você, como é tão dura e cruel,
morto me vê e não quer me ajudar.
Queria virar um menino,
que com o jarro vende água,
e poder gritar entre essas casas:
"Ah, lindas senhoras, quem quer água?"
E aparece uma garota no alto:
"Quem é esse lindo rapaz que vende água?"
E respondo com poucas palavras:
"São lágrimas de amor, não é água".
Fenesta vascia
Finestra bassa (o misera)
Fenesta vascia 'e padrona crudele,
quanta suspire mm'haje fatto jettare!...
Mm'arde stu core, comm'a na cannela,
bella, quanno te sento annommenare!
Oje piglia la 'sperienza de la neve!
La neve è fredda e se fa maniare...
e tu comme si' tanta aspra e crudele?!
Muorto mme vide e nun mme vuó' ajutare!?...
Vorría addeventare no picciuotto,
co na langella a ghire vennenn'acqua,
Pe' mme ne jí da’ chisti palazzuotte:
Belli ffemmene meje, ah! Chi vó' acqua...
Se vota na nennella da llá 'ncoppa:
Chi è 'sto ninno ca va vennenn'acqua?
E io responno, co parole accorte:
Só' lacreme d'ammore e non è acqua!...
Tradução a partir do italiano, segundo este link.
Janela baixa (ou miserável)
Janela baixa de uma dona cruel,
quantos suspiros me fez jogar fora.
Me arde o coração como uma vela,
bela, quando ouço teu nome.
Pois veja o exemplo da neve,
A neve é fria mas se deixa tocar.
Mas você, como é tão dura e cruel,
morto me vê e não quer me ajudar.
Queria virar um menino,
que com o jarro vende água,
e poder gritar entre essas casas:
"Ah, lindas senhoras, quem quer água?"
E aparece uma garota no alto:
"Quem é esse lindo rapaz que vende água?"
E respondo com poucas palavras:
"São lágrimas de amor, não é água".
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Oh, mother dear, we're not the fortunate ones
Desde minha separação, no começo do ano, tenho pensado muito em relações conjugais.
Quando eu era nova, minha preocupação era apenas "ter alguém". Eram as prioridades: (a) encontrar alguém que gostasse de mim; (b) que esse alguém fosse interessante. Eu nem mesmo precisava "gostar" realmente, desde que me sentisse segura (amada) por alguém aceitável conforme meus critérios flutuantes.
Depois de um primeiro namoro - por sugestão da minha avó materna, e pela experiência de conviver com alguém absolutamente caótico na vida prática - atualizei minhas prioridades, incluindo no item (b) o gosto pelo trabalho. Estavam riscados da minha lista quaisquer pretendentes irresponsáveis, preguiçosos, infantis na vida profissional.
Depois de alguns anos de análise - diante da insistência dos analistas no tema "desejo" - me dei conta da falha surpreendente: por que mesmo eu queria "ser gostada" em vez de "gostar"?
Era a essência da passividade sentimental, que eu suspeitava mas não podia detectar.
Para me defender frente aos analistas, eu argumentava que, sim, eu desejava alguma coisa: mas isso se manifestava nas entrelinhas das minhas escolhas.
Lembro claramente dos momentos em que me apaixonei pelos homens com quem convivi. Os cenários, as situações, os gestos marcantes.
No primeiro namorado, me comoveu a liberdade de se emocionar. O sentimento visível, profundo, exposto. Para uma mente matemática (a minha), foi encantador.
No segundo, a coragem mundana. A agressividade diante das coisas do mundo: relações, viagens, negócios. Para meu temperamento contemplativo, estimulante.
As fantasias sociais se esvaziam ao passar dos anos.
Lar, filhos, família? Hoje prefiro um índice muito baixo desses ingredientes. Um bafo de vermute no dry martini.
Uma amiga me diz: namorar é passear.
Tenho pensado nisso: o que é uma relação conjugal, pra quem não se interessa pelos principais acessórios da instituição casamento?
Compartilhar o tempo livre. Fazer coisas agradáveis nos intervalos que dispomos para escolher.
Tão anos 80. Cindy Lauper, Madonna, new wave, besteirol, la movida madrileña.
Quando eu era nova, minha preocupação era apenas "ter alguém". Eram as prioridades: (a) encontrar alguém que gostasse de mim; (b) que esse alguém fosse interessante. Eu nem mesmo precisava "gostar" realmente, desde que me sentisse segura (amada) por alguém aceitável conforme meus critérios flutuantes.
Depois de um primeiro namoro - por sugestão da minha avó materna, e pela experiência de conviver com alguém absolutamente caótico na vida prática - atualizei minhas prioridades, incluindo no item (b) o gosto pelo trabalho. Estavam riscados da minha lista quaisquer pretendentes irresponsáveis, preguiçosos, infantis na vida profissional.
Depois de alguns anos de análise - diante da insistência dos analistas no tema "desejo" - me dei conta da falha surpreendente: por que mesmo eu queria "ser gostada" em vez de "gostar"?
Era a essência da passividade sentimental, que eu suspeitava mas não podia detectar.
Para me defender frente aos analistas, eu argumentava que, sim, eu desejava alguma coisa: mas isso se manifestava nas entrelinhas das minhas escolhas.
Lembro claramente dos momentos em que me apaixonei pelos homens com quem convivi. Os cenários, as situações, os gestos marcantes.
No primeiro namorado, me comoveu a liberdade de se emocionar. O sentimento visível, profundo, exposto. Para uma mente matemática (a minha), foi encantador.
No segundo, a coragem mundana. A agressividade diante das coisas do mundo: relações, viagens, negócios. Para meu temperamento contemplativo, estimulante.
As fantasias sociais se esvaziam ao passar dos anos.
Lar, filhos, família? Hoje prefiro um índice muito baixo desses ingredientes. Um bafo de vermute no dry martini.
Uma amiga me diz: namorar é passear.
Tenho pensado nisso: o que é uma relação conjugal, pra quem não se interessa pelos principais acessórios da instituição casamento?
Compartilhar o tempo livre. Fazer coisas agradáveis nos intervalos que dispomos para escolher.
Tão anos 80. Cindy Lauper, Madonna, new wave, besteirol, la movida madrileña.
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