terça-feira, 15 de setembro de 2009

Os postes de Curitiba

Não me conformo com a substituição dos postes no centro de Curitiba. Ficou até difícil encontrar, na internet, fotos dos antigos com bolas de acrílico. Bonitos exatamente não eram, mas eu gostava do modernismo desajeitado. Trocá-lo por um simulacro de século XIX... cafonice institucionalizada. A cidade acreditando demais em seu primeiromundismo fantasioso.



segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce

Procurei algum trecho de Je tu il elle no YouTube, mas não encontrei.

Desconfio que Chantal Akerman, assim como Almodovar, ficou bem-comportada depois dos filmes da juventude.

Segue um resumo razoável que encontrei, no site Jonathan Rosenbaum.com.

"Chantal Akerman directed and plays the lead in this early (1974) black-and-white feature that charts three successive stages of its heroine’s love life. In the first part she lives like a hermit, eating only sugar, compulsively rearranging the furniture in her one-room flat, and apparently writing and rewriting a love letter; in part two she hitches a ride with a truck driver and eventually gives him a hand job; in part three she arrives at the home of her female lover, and they proceed to make frantic love. This is every bit as obsessive and as eerie as Akerman’s later Jeanne Dielman and Toute une nuit, though not as striking on a visual level; as in all her best work, however, the minimalist structure is both potent and haunting." (JR)



Jeanne Dielman está completo no YouTube.

Vale a pena assistir ao menos um trecho.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Limas da Pérsia, 3

"Eu não queria desiludir essa pobre gente. Evitava sequer chamá-los de essa pobre gente, mas não podia negar às palavras seu sentido literal. Havia crescido perto demais desse buraco; sabia quanto esforço racional, emocional e corporal era necessário para o peixe pequeno escapar do sorvedouro. Nos momentos frágeis me parecia tênue a diferença entre a pobre gente e o povo miserável. Colecionava apenas o vocabulário: população de baixa renda, classes C e D, excluídos. Pobre de marré, pobre mas limpinho, pobre de doer. Plebe ignara. Massa sebenta."

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Limas da Pérsia, 2

Estes foram os últimos parágrafos que consegui escrever, na semana passada. Desde então carrego a sensação de que estão essencialmente errados.

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"As salas amplas, construídas com evidente desleixo burocrático. As funcionárias, gordas e cansadas, tomando o café doce da garrafa térmica e reclamando preguiçosamente porque precisavam trazer seu papel higiênico de casa. Sentada diante de meus trinta alunos, duas vezes por semana, eu tentava demostrar entusiasmo pela literatura e sua importância em nossas vidas.

Homens e mulheres de origens e idades variadas. Eu não queria julgá-los, mas não conseguia evitar que meu olhar os classificasse em dois grandes grupos: os jovens de esperanças ilusórias, e os adultos envelhecidos tentando recuperá-las. Todos sonhando envergonhados, esperando da arte alguma verdade comovente, a revelação do sentido que não enxergavam, em cuja existência desejavam tanto acreditar."

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O narrador deveria apresentar as idéias - aparentemente elitistas e arrogantes - com sofrimento compartilhado. Apenas um grau maior de compreensão, mas não o suficiente para escapar da miséria. Como o ciclope do filme Krull, que pode ver o futuro, o que só lhe serviu pra saber o dia da própria morte.

Talvez a solução seja quebrar o tom no parágrafo seguinte; o narrador reconhecendo sua própria fraqueza.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Chantal Akerman

Finalmente consigo assistir aos filmes de Chantal Akerman. Comprei a caixa há alguns meses, mas andava dispersa.

Me idenfiquei tanto com a personagem de Les rendez-vous d'Anna.



Sinto vontade de ficar sozinha.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Idéia vagamente articulada

Um pensamento sobre livros: existem narradores fáceis e difíceis, e isso não está diretamente vinculado à qualidade.

Graciliano Ramos é assustadoramente bom. Num sentido literal: você precisa de energia para ler. Mesmo querendo, mesmo gostando, a leitura é tensa. (penso especialmente em Angústia, Memórias do cárcere)

Peter Handke é difícil mas não me assusta. Entendo suas angústias de maneira próxima e familiar; sua sintaxe complicada me encanta.

Outros narradores são simplesmente fáceis, simpáticos. Orgulho e preconceito, de Jane Austen. Todo o Machado (fácil de ler; não necessariamente de interpretar).

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Muitas vezes, quando começo a escrever, sinto um impulso de Graciliano. Mas não quero criar medo aos meus livros.

Então abaixo o tom, buscando por tentativa e erro uma facilidade sem idiotice.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Poema

O algodão nunca acaba.

Mas acabou e destruí um OB pra limpar o esmalte de três semanas nas unhas do pé.