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"No entanto, penso que em certos aspectos a comparação de suas primeiras pinturas com a de outros artistas brasileiros com preocupações semelhantes pode ser esclarecedora... Mira conhecia a obra de Giorgio Morandi já na Itália. Além disso, pôde vê-la outras vezes no país, sobretudo nas Bienais de São Paulo. Estou convecido de que nenhum outro país - talvez nem mesmo a Itália - foi tão profundamente influenciado pela pintura de Morandi quanto o Brasil... poucos foram os grandes artistas brasileiros que não viram em sua obra algo que nos dissesse respeito.
Por certo, não é fácil identificar as razões desse interesse. Contudo, acredito que não estaríamos longe da verdade se víssemos nessa atração pelo sábio tonalismo morandiano um vínculo muito profundo com certos aspectos decisivos de nossa sociabilidade. Da ausência de grandes rupturas sociais à busca de uma convivência fraterna e pessoal, muitos traços decisivos da sociabilidade e da cultura brasileiras parecem depositar suas esperanças em vínculos mais pessais, nos quais relações afetivas e alheias às normais universais garantiriam uma defesa contra a impessoalidade das instituições, cuja história em geral contribuiu para um processo de cristalização de desigualdades e privilégios.
A cultura brasileira, em várias de suas manifestações, procurou superar a violência de nossa convivência social por um retorno à sabedoria, a situações em que uma sensiblidade muito sutil se mostrava como condição de um relacionamento baseado em vínculos afetivos e ancestrais, totalmente alheios à crueza das trocas baseadas no lucro e às normas institucionais. Basta pensar em Guimarães Rosa, para se ter uma noção mais clara disso: uma literatura na qual a descontinuidade da dicção moderna convive quase sem trauma com uma linguagem coloquial, apoiada fortemente na informalidade da língua falada em certas regiões rurais do Brasil.
Os limites e grandezas do legado morandiano no Brasil estão além das possibilidades desse ensaio. No entanto, vale a pena investigar um pouco mais detidamente as possíveis razões de a arte de Mira Schendel se afastar progressivamente dessa vertente estética que tanto a interessou no início. O tonalismo morandiano possibilitava uma aproximação amorosa e íntima entre coisas distintas..."

