segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Prólogo

Meu pai gostava de encerrar conversas com algum ditado e um de seus preferidos era "O hábito não faz o monge". Passei anos acreditando num grande mistério por causa de meu vocabulário de colegial. Eu sabia apenas que hábito eram as ações cotidianas e ficava intrigada de imaginar que, se a prática virtuosa não faz o monge, então o que faria? Costumes corretos podiam esconder vícios e maldades? Foi decepcionante descobrir que hábito era também o nome da roupa dos padres. A frase perdeu seu enigma e se reduziu a um ensinamento banal.

Quando eu estava com onze ou doze anos, minha mãe quis me ensinar alguma coisa sobre os homens e contou a história dos seus namorados antes de casar com meu pai. O primeiro era forte e bonito, ela se arrumava para encontrá-lo e se sentia orgulhosa de andar ao lado dele na rua. Mas ele não gostava de obedecer, brigava com os chefes e perdia os empregos. Também era mulherengo, as moças viviam atrás dele e ele retribuía a simpatia. Depois de várias crises de ciúme, minha mãe decidiu terminar. Ela concluiu que precisava de um homem confiável e trabalhador. Um vizinho baixo e já meio gordo, quase dez anos mais velho, gostava muito dela. Ele era sério, já tinha a própria casa, e ela aceitou o pedido de namoro. Começou a prender o cabelo, vestir roupas mais discretas, e quis também trabalhar, para que os dois pudessem formar um casal honesto e bem-sucedido. Mas o vizinho não gostou das novas roupas. Ele queria que ela continuasse se arrumando como fazia para o namorado anterior. Minha mãe se sentiu ofendida e terminou esse namoro também.

Finalmente ela conheceu meu pai, que era quieto e não fazia elogios. Ele não a tratava diferente por ser mulher, falava diretamente e ela se surpreendia com o excesso de franqueza. Ele disse gostava de mulheres sérias e ela aceitou se casar.

- Mas mesmo assim - ela disse - o casamento não termina com os problemas. Eu achava que uma mulher tem que casar, então quando eu casasse o problema estava resolvido. Mas a vida continua igual e tudo dá trabalho.

Sua conclusão não era muito animadora:

- Você se preocupe apenas com os grandes problemas. Porque os problemas do dia a dia, isso não dá pra evitar.

A história teve um efeito poderoso na minha vida sentimental. Quando comecei a namorar, no cursinho, eu achei que sabia tudo o que precisava. Essa ilusão me fez aguentar muita coisa: esperando os grandes problemas, demorei para perceber que alguns problemas parecem pequenos mas não são. As histórias ensinam mas a lição muitas vezes é incerta.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O pântano

"Eu estava ideologicamente determinada a me readaptar ao mundo dos estudantes que andavam de ônibus, mas no primeiro dia senti falta do ambiente dos ricos alternativos que frequentavam a Escola da Fonte. As salas e áreas abertas da escola eram sutilmente sofisticadas. Muitas plantas, detalhes em madeira, pedra e cerâmica no revestimento. Os materiais eram caros e preservavam os espaços naturais. As crianças e os adolescentes eram bonitos. Os pais se vestiam discretamente bem.

Eu aprendi a me vestir e agir como eles, embora nunca tenha esquecido a distância de origem. Minha presença nesse conjunto dependia do meu emprego. Sem um salário, eu não tinha respaldo. Eles eram naturais e viviam ali mesmo sem esforço, entre amigos e família. Minha família estava em Osasco e as outras relações eram circunstanciais.

Ao se aproximar da universidade, o ônibus atravessava viadutos sobre as avenidas marginais. Ainda na graduação eu havia lido um artigo sobre a história do campus, expandido principalmente no período do governo militar. Os cursos nobres, Medicina e Direito, não aceitaram a transferência para a região que chamavam de pântano. Para mim, aos dezoito anos, o pântano era uma ascensão, Osasco ficava ainda mais longe que o campus. Agora chegando aos quarenta era uma parada de descanso num momento em que eu precisava de conforto emocional. Ainda assim, eu tinha um pouco de vergonha de minha estratégia ao propor o projeto de mestrado sobre a educação privada nas classes A e B. Eu sabia que era um projeto fácil de ser aceito. Eu vinha da periferia e minha orientadora não. Minha história de vida legitimava um discurso crítico que ela faria, em sua própria classe, de sua posição distinta de intelectual. Eu acompanhava os debates acadêmicos e identificava os lugares onde poderia me encaixar. Talvez fosse mais nobre encontrar um caminho independente, mas eu não tinha energia para contestar o sistema educacional do país e me sustentar ao mesmo tempo."