quinta-feira, 31 de julho de 2014

Aspectos socioafetivos

"Minha orientadora sugeriu que eu participasse de alguns seminários e começasse a frequentar as reuniões mensais de seu grupo de pós-graduação.

Embora eu nunca tivesse estudado num departamento de ciências humanas, lembrava bem do funcionamento de um grupo de pesquisa. Manter o planejamento, cumprir os prazos, seguir as indicações do orientador. Essa prática garantia o andamento básico do trabalho, independente do conteúdo.

O primeiro seminário em que me inscrevi aconteceria na Escola Superior de Administração Pública. O tema era economia da educação, especificamente a aplicação de "accountability" no sistema público de ensino. Minha orientadora explicou que havia um esforço de aproximação com esse grupo, embora historicamente tivessem visões opostas sobre a gestão da educação pública. Ela não se estendeu em detalhes. Apenas aconselhou que eu assistisse à sessão em que ela se apresentaria, para entender as questões envolvidas.

Eu li a programação do seminário, com os resumos de todas as palestras e mesas temáticas. Em linhas gerais, eu podia perceber o que estava em jogo. "Accountability" era um termo relativo a prestação de contas e responsabilidade civil, e implicava em monitoramento de desempenho. Eu acompanhava nos jornais as polêmicas sobre incentivos e resultados na educação. O governo estadual havia alguns anos condicionava o aumento de investimentos nas escolas públicas à demonstração de resultados, alegando indiretamente que o problema não era o valor investido (sua responsabilidade), mas o trabalho mal realizado (responsabilidade de diretores e professores). Grande parte da imprensa elogiava a cobrança de mais eficiência dos funcionários públicos, invertendo as demandas dos sindicatos por maiores salários. Por história pessoal, minha inclinação era concordar com os sindicatos. Embora eu soubesse que mais eficiência fosse desejável. A discussão era cansativa pois os argumentos dos dois lados mascaravam a tendência a responsabilizar sempre o outro.

Na  programação, havia uma sessão sobre "Aspectos socioafetivos no processo de aprendizagem". Uma das palestrantes era Laura. Senti um frio no peito ao reconhecer o nome."

terça-feira, 22 de julho de 2014

Teoria

"A rua Augusta era meu ponto preferido da noite gay, os quarteirões raros de São Paulo em que se pode andar pelas calçadas, entre as pessoas. Certa noite, caminhando com Melissa, ela perguntou:

- Quantas paixões você teve na vida?

Foi repentino e demorei a articular uma resposta.

- Só as reais, não as platônicas - ela completou.
- Você quer um número ou uma lista com nomes?
- Eu tenho uma teoria sobre o assunto.
- Então me explica.
- Se a gente está solteira, a média de paixão é uma por ano. Para as pessoas casadas, é uma a cada cinco anos.
- Como você concluiu isso?
- Foi uma média que percebi por observação."