terça-feira, 8 de abril de 2014

Uma casa linda na serra

"Um dia Melissa disse cheia de cuidados:

- Vou te falar uma coisa, mas não quero que você fique brava.

Era novembro, o dia da Proclamação da República emendaria com o fim de semana, seriam cinco dias de folga.

- Laura ofereceu a casa dela em Atibaia para passarmos o feriado. É uma casa linda, num condomínio na serra. Ela comprou algumas árvores para replantar e precisa transportar, mas tem um congresso e não pode ir. Então ofereceu a casa se a gente levar as plantas.
- Você está falando sério?
- Estou.
- Agora você conhece até a casa de campo da mulher.
- Eu não conheço. Ela mostrou uma foto.
- Em vez de estudar, você olha as fotos particulares da sua professora.
- Fernanda, sem drama. É uma chance legal para a gente viajar sem gastar muito.
- Eu posso pagar uma pousada. Não preciso carregar plantas para passar o fim de semana em Atibaia.

Pensei que o assunto estaria encerrado, mas Melissa continuou:

- Se você não for, eu vou com a Camila.
- Se você for com a Camila, pode levar tuas coisas e não precisa voltar.

Então o barraco armou. Melissa levantou a voz em cólera:

- Eu não acredito que você me disse isso!
- Cai na real, Melissa. Não vou entrar nesse jogo infantil. Se você gosta da professora, fica com ela! Eu não amarrei uma coleira em você.
- Isso tá tudo na tua cabeça! É uma história velha e você fica desenterrando!
- Eu conheço essa conversa mole. Eu não sou confessionário de tesão encruado. Não sei o que você tá fazendo aqui comigo. Não sou intelectual e descolada como essa turminha.
- Não, você é a gostosa pegadora e come quieto!
- Cada um com suas prioridades, Melissa."

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Em termos puramente intelectuais

"- Então vocês conversam bastante, muito mais que apenas a matéria.
- Você insistiu para eu voltar. Estou tentando. Não posso apagar o que aconteceu.
- Isso quer dizer o quê?
- Isso o quê?
- Você sabe o quê.
- Fernanda, ela tem cinquenta anos. É quase a idade da minha mãe.

Esse tipo de conversa se repetiu algumas vezes mas nos interrompemos antes que virasse uma discussão mais agressiva. Eu não acreditava que fosse possível retomar a convivência com uma antiga paixão em termos puramente intelectuais, mas Melissa sempre repetia que sim, era possível, e nossos argumentos emperravam porque era apenas minha palavra contra a dela. Então, por algumas semanas, decidi apenas monitorar internamente as situações em que Melissa mencionava Laura, para avaliar se havia um padrão a partir do qual eu pudesse deduzir o que acontecia quando eu não estava presente. Mas, justamente quando tomei essa decisão, Melissa parou de falar sobre a professora. Referia-se à faculdade apenas quando era minimamente necessário para nossa convivência, se combinávamos algum horário para sair ou fazer algum programa no fim de semana.

Um dia comentei:

- E sua professora Laura? Sumiu?
- Não, ela continua lá.
- Você não fala mais dela.
- Quando eu falo você tem um acesso de ciúme.
- Não é ciúme se não acontecer nada.
- E vai acontecer o quê? Vou transar com ela escondido no banheiro da faculdade?
- Pelo jeito você já pensou no assunto.
- Pelo amor de deus, Fernanda. Olha o que você está falando. Eu estou morando contigo, você é minha namorada. Quero fazer tudo certo desta vez. Não piore as coisas sem motivo.

Eu fiquei quieta e o assunto Laura morreu por algum tempo. Talvez querendo me distrair, Melissa agora contava histórias de sua carreira lésbica e insistia pedindo que eu contasse as velhas histórias de amantes loucas e encontros desastrados.

- Me conta: qual a mulher mais linda que você já ficou?
- Eu já não contei isso?
- Conta de novo.
- Eu já rodei muito, Melissa. Nem lembro mais.
- Você nunca me conta nada.
- O que passou passou.
- Camila disse que você namorou a Giulia Coelho um tempo atrás.
- Por que ela te contou isso?
- Ela disse que foi uma história famosa, que todo mundo sabia.

Giulia Coelho era uma atriz de teatro experimental..."

(continua)