terça-feira, 18 de março de 2014

Amiga de uma colega de yoga

"- Quando tranquei a matrícula no ano passado, não achei que voltaria tão rápido.
- Pois é. Não foi tão difícil.
- Nunca imaginei que a faculdade pudesse me deixar tão feliz.
- Você merece, pequena. Parabéns.

Enquanto dirigia, eu me sentia bem por ter iniciado os procedimentos para resolver aquele problema. Era um passo importante para Melissa: enfrentar a inércia, fazer algo construtivo para sua vida e seu futuro. Para mim era nova a sensação de manter uma casa e prover por alguém. Se os próximos meses evoluíssem bem e ela finalmente se formasse, nossa relação teria uma finalidade positiva, um propósito para justificá-la mesmo que depois nos afastássemos ou esquecêssemos.

Mas, na semana seguinte, meus sentimentos por Melissa oscilaram. Ela fez a matrícula, estava animada e orgulhosa, mas suas aulas só começariam em agosto. Havia ainda dois meses em casa sem fazer nada, apenas esperando. Eu sugeri que Melissa procurasse alguns livros e recomeçasse a estudar por conta própria, mas ela preferiu trabalhar em eventos e juntar algum dinheiro. Telefonou para a amiga que era garçonete em casamentos e se ofereceu. Logo tinha uma agenda razoavelmente cheia nas noites de sextas e sábados e nos almoços de domingo. Tirou da mala suas roupas de trabalho: duas camisas brancas, uma calça e um avental pretos. Era o uniforme do serviço de buffet que a contratava. Seu turno básico era de seis horas, porém podia durar mais caso a festa atrasasse. Nos fins de semana, ela agora saía no fim da tarde, chegava de madrugada, e dormia durante o dia. Depois de algumas referências à amiga que lhe arranjava os trabalhos, entendi que era a mesma amiga lésbica que Melissa conhecia desde a faculdade. Ela se chamava Camila, era sobrinha da dona do serviço de buffet.

Numa tarde de domingo Melissa telefonou, ela e Camila estavam num bar com outras amigas, depois de trabalhar num casamento pela manhã.

- Vem pra cá. Você vai gostar das meninas.
- Quem são as meninas? - perguntei.
- São amigas da Camila. Está legal. Venha.

O bar ficava na Barra Funda. Era um boteco com mesas de plástico, havia seis mulheres e várias garrafas de cerveja já vazias, um resto de porção de batata frita e umas tigelinhas de amendoim.

Melissa me apresentou Camila, uma moça magra a alta, mestiça de oriental, cabelo curto e andrógino, olhar inteligente.

- Finalmente. A famosa Fernanda - ela disse para mim.

Melissa me abraçou e beijou mais dengosa do que habitualmente. Eu reconheci, na mesa, uma conhecida de outras épocas, a mais velha do grupo, que parecia ser namorada de uma das garotas.

- Olha só  - ela disse - O mundo dá voltas.

Seu nome era Maura. Nós nos conhecíamos desde a época do bar da Cida e do Brubeck, mas perdemos contato depois que os bares fecharam e eu fui morar com Agnes.

- Como anda a vida? - Maura perguntou.
- Continuo por aí.
- Continuamos todas. - ela sorriu. - Ouvi dizer que você tinha se separado.
- Ah, é? Quem te contou?
- Lembra da Govinda, que namorava a Diana Constantino? Ela é amiga de uma colega de yoga da tua ex-mulher.
- Ah. Foi no ano passado, em novembro. Aquela história de sempre."

sexta-feira, 14 de março de 2014

Resumo e conclusão

"Quando dirigia para a Escola, de manhã, eu pensava na minha vida e tentava organizar as coisas. O que havia de concreto e definido? Eu repassava mentalmente uma lista de fatos fixos para o momento. Meu casamento com Agnes tinha acabado. Voltar era impossível, por mais que a ideia ainda às vezes me ocorresse, convivemos em crise durante dois anos desde que Bruno foi para o Canadá, tentamos no acertar mais foi impossível, eu estava triste, a situação era muito ruim. Mas não começou quando Bruno foi para o Canadá, foi antes. Quando melhorei da depressão, no fim de 2001, eu já estava estranha. E provavelmente fiquei deprimida por causa da insatisfação que não percebia antes. Então começou antes de 2001. E nossa crise durou quatro anos. Como eu pude viver quatro anos num casamento em crise? Qual foi o último período em que estive plenamente feliz com Agnes? Foi em 1999, quando levamos Bruno à Disneylândia? Talvez. Eu 2000 reformamos o apartamento e não tiramos férias.

Repassei essa sequência retrospectiva durante muitos dias. Às vezes chegava na Escola e não tinha completado a lista, precisava trabalhar com as ideias sem conclusão. Dirigindo de volta para a casa retomava a lista tentando lembrar onde tinha parado, mas apareciam mais detalhes e o processo de resumo e a conclusão, a que eu queria chegar, se complicavam ainda mais.

Nosso último período de felicidade aconteceu em 1999 depois das férias na Disneylândia. Começamos a morar juntas em novembro de 1997 e nos conhecemos em fevereiro daquele ano. Fomos felizes por dois anos. Dois. Ficamos juntas por oito anos e fomos felizes em dois."