segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Dois estados de espírito

"Melissa mencionava Laura com frequência, quando contava notícias das aulas e de seu projeto de conclusão. Fiquei incomodada no início, imaginando Melissa nos corredores da faculdade, nas salas de atendimento, conversando com Laura nos intervalos. Enquanto eu a ajudava a retomar a matrícula, ela revisitava o cenário de suas antigas paixões.

- Se você sentir algo novamente, por favor me avise. Eu aguento qualquer coisa, mas não quero fazer papel de boba.

Melissa garantiu que não havia motivo para preocupações.

- Ela não faz referência ao que aconteceu antes? - perguntei.
- Diretamente não.
- E indiretamente?
- Ela repetiu algumas vezes como era importante eu retomar o curso. Como tinha sido triste eu desistir. Não sei se estou exagerando a minha importância, mas achei que ela se sentia responsável. Então eu disse que estava deprimida naquela época, que às vezes a gente constroi ideias estranhas quando é jovem. Ela disse: "Felizmente é possível recuperar". Foi o que falamos do assunto.
- Então vocês conversam bastante, muito mais que apenas a matéria.
- Era uma conversa de passagem.
- Não gostei de saber disso, Melissa.
- Você que insistiu para eu voltar. Estou tentando. Não posso apagar o que aconteceu.

Eu quis interromper o assunto, mesmo sem digerir bem a história, e Melissa ficou preocupada com meu ciúme.

- Fernanda, ela tem cinquenta anos. É quase a idade da minha mãe.
- Isso quer dizer o quê?
- Não piore as coisas pra mim. Quero fazer tudo certo desta vez. Foi muito confuso, a primeira vez que me apaixonei conscientemente por uma mulher. Muitas vezes eu pensei que saí da faculdade por causa disso. Mas agora eu estou morando contigo, você é minha namorada de verdade. Isso é importante.

A reavaliação da história gay de Melissa desviou o foco do meu ciúme. Eu resisti um pouco a retomar essas conversas, era cansativo falar novamente das mesmas descobertas da vida lésbica. Era engraçado quando eu tinha dezessete anos e estava começando, horas e horas de militância e piadas temáticas nas mesas de bar com velhas ou novas amigas. Mas eu não tinha mais energia para falar de descobertas. Isso tinha passado para mim, e Melissa queria ouvir essas velhas histórias, amantes loucas, encontros desastrados.

Eu já não me importava com o momento da descoberta. Eu era gay desde que nasci, outra percebeu aos vinte anos, outra aos trinta. Coisas importantes acontecem conforme as circunstâncias, dependendo de quem você encontra na vida, depois seguimos em frente e pronto. Melissa agora lembrava paixões inconscientes por amigas no colegial, e classificava os trios com Guilherme como as primeiras experiências de sua história lésbica. Contava histórias de sua carreira recente, que afinal se revelou mais longa do que parecia a princípio. Contou inclusive uma nova versão sobre o momento em que nos conhecemos na internet.

- Não sei por que disse que não era lésbica. Eu tinha um rolo com uma garota meio hetero que ia e voltava. Às vezes aparecia um cara e eu imaginava se tudo iria voltar ao normal, mas nunca durava. Do ponto de vista puramente sexual eu não teria preferência entre homens ou mulheres. Se não houvesse outras questões.
- Sempre existem outras questões.
- Pois é.

Houve fins de semana em que precisamos descansar, e ficamos no apartamento ouvindo música no colchão da sala, dormindo e acordando alternadamente. Em outubro, na primavera, apareceu um feixe de luz diferente pela diagonal da janela, no fim da tarde. O semestre passou rápido, numa harmonia razoável entre meus horários de trabalho e o ritmo de estudo de Melissa. Ela parou de falar sobre Laura, comentava menos sobre os livros e seu projeto de graduação. Eu a via estudando, textos e cadernos sobre a mesa da sala, livros no banheiro e empilhados no quarto. Apenas em novembro, quando houve um feriado de cinco dias, Melissa mencionou um convite de Laura para sua casa de campo em Atibaia.

- Ela tem medo de ir sozinha. Ainda lembra do ex-marido.
- Não mesmo. Nem conheço a mulher. Que preguiça.

Melissa não insistiu e passamos o feriado entre cinemas e apartamento. Ela andava excitada e transamos bastante. Na maior parte das vezes ela tomou a iniciativa e ficava muito tempo sobre mim. Eu a tocava por baixo, sem conseguir me mexer direito, apenas esticando os dedos enquanto ela se movia. Depois ela perguntou:

- Você prefere sexo de comunhão, ou sexo de caça e presa?
- São duas categorias?
- Dois estados de espírito, dominar ou ser dominada.
- Não acredito muito nisso, Melissa.
- Mas existe, você sabe. Eu vou e volto entre os dois."

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Questões de classe

"- Como vocês se conheceram?

- Guilherme era amigo de colégio do irmão mais velho da Heloísa. No verão algumas vezes eu ia com meus pais para a casa da Heloísa em Ilhabela. Eles também tinham uma casa perto. Nós ficamos algumas vezes na praia, depois em São Paulo começamos a sair. Passaram uns seis meses e ele apareceu com uma japonesa e queria que ficássemos os três juntos. Disse que se eu o amava, também amaria outras pessoas que ele ama.

- Bem cara de pau.

- Ficamos um tempo transando os três. Eu achava que nosso amor era eterno. Que nosso encontro era uma força do destino.

- Quantos namorados você teve?

- Mais casos que namorados. Não é tudo meio igual, namorados e casos? As pessoas vão aparecendo. Eu fiquei muito tempo enrolada com o Guilherme, a gente teve várias recaídas depois da primeira fase. Ele desaparecia e voltava com umas garotas diferentes. Era meio um pacto  secreto entre a gente. Ele sabia que eu topava o lance, então ligava quando aparecia um casinho novo. Acho que elas nem sabiam que era um sistema, eu não contava pra ninguém. Mas no fundo estava sempre esperando por isso, não namorava, estava sempre livre quando ele ligasse e trouxesse uma garota. Até que um dia ele se apaixonou por uma prima, a filha do irmão mais novo da Heloísa, que foi casado um tempo com a irmã do pai dele. Ele casou, teve um filhinho e desapareceu. 

Melissa tentou explicar a diferença entre os sentimentos de Guilherme por ela e pela prima com quem casou, mas ficou atrapalhada. 

- Guilherme dizia que eu era triste. Mas a vida é triste, não é? 

Conversamos um pouco sobre amor. Melissa contou do namoro de seus pais, dos sonhos de juventude de sua mãe. 

- Minha mãe queria tanto que eu me apaixonasse. Ela imaginava esse rapaz que eu conheceria, que gostaria muito muito de mim, ela dizia. Que me trataria com muito cuidado e com muito carinho. Ela sempre repetia: "Como é bonito descobrir o amor juntos". Mas o tempo foi passando e isso não aconteceu. 

- E você não queria se apaixonar? Sua mãe queria por você?

- É difícil querer o que alguém já quer. Mas eu também não conseguia esquecer. Ficava sempre esse rapaz imaginário no fundo da minha mente, como alguém que eu deveria me esforçar para encontrar, como se nada mais desse certo porque era isso que eu deveria fazer. 

- Você herdou um projeto.

- E você não?"