sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Graus de separação


"Em julho de 2004 encontrei Melissa numa festa junina em São Lourenço da Serra. Era o sítio da Heloísa, companheira da Patrícia, diretora da escola onde eu trabalhava. Melissa estava numa área pouco iluminada do gramado, entre um grupo que conversava baixo, sentados sobre pedras e no chão. Eu a percebi logo que entrei, enquanto atravessava o jardim em direção à casa principal, mas fiquei em dúvida se era mesmo ela. Deixei as garrafas que trouxera na cozinha, cumprimentei as donas da casa e outras amigas que já conhecia de outras festas. Conversei durante um tempo perto da mesa das comidas, com pessoas que chegavam e circulavam, e então Melissa entrou na sala, com uma taça vazia na mão, sozinha. Ela me reconheceu e sorriu meio tímida. Estava discreta, roupas claras, cabelo preso com grampos.

Eu saí para o jardim, e logo ela apareceu na varanda da casa, ainda sozinha, com a taça cheia de vinho. Eu sorri e ela se aproximou. Conversamos um pouco, ela estava surpresa de me encontrar ali.

- Eu trabalho com a Patrícia. Faz tempo.
- Heloísa é prima da minha mãe. É minha única família aqui em São Paulo.

Ela disse que ficou um pouco envergonhada de me encontrar ali, em sua vida real, e pediu que eu não comentasse com ninguém que havíamos nos conhecido na internet.

- Tudo bem.
- Posso dizer que conheço você do bairro? Da praça, por causa do cachorro?
- Mas eu não tenho cachorro.
- Tudo bem, não importa. Tem muita gente lá.

Depois trocamos informações recentes sobre como estavam as coisas e o que andávamos fazendo. Ela disse:

- No fim das contas, sou mais lésbica do que eu pensava. Depois que a gente se conheceu, só saí com mulheres. Perdi a vontade para o resto.
- Que ótimo.
- Você continua casada?
- Sim.
- Pena.

Ficamos ainda um tempo ali, falando de vez em quando, algumas vezes cruzamos o olhar, mas achei que não era o caso avançar muito.

- Você tá saindo com alguém?
- Nada muito sério.

Depois um amigo apareceu e ela me disse, antes de voltar para seu grupo:
- Me liga. Liga mesmo, tá?

Eu conheci algumas mulheres pela internet, e era comum encontrar amigas de amigas, ou conhecidas em algum grau. Os círculos das engajadas, praticantes de meditação, militantes do ciclismo, interessadas em cultura africana ou parto natural se cruzavam nos mesmos bairros, restaurantes vegetarianos, escolas e faculdades. Eu considerava os sites de relacionamento como espaço público, nunca um segredo ou vício perverso de que teria vergonha caso meus amigos reais descobrissem. Mas, de fato, era um vício perverso, sendo um recurso rápido para encontrar mulheres interessadas em sexo em compromisso, acessível à hora do almoço, enquanto dedicava minhas noites a um casamento em estágio terminal.

De todo modo, as lésbicas estão habituadas a poucos graus de separação.

No final de 2004 a situação com Agnes, que já estava ruim, piorou rapidamente. Em algumas semanas ela ficou mais fria, demonstrava má vontade para tudo, era quase ríspida ao falar. Num sábado, depois de algumas cortadas desde o café da manhã sobre qualquer coisa que eu comentasse, finalmente, saindo de casa para almoçar com amigos, eu perguntei se ela estava com as chaves do carro. Ela parou imóvel em frente ao elevador e nem olhou pra mim.

- Por que eu estaria? É você quem vai dirigir.

Eu devia ter percebido antes, mas foi só neste momento: as cortadas recentes não eram frases que escapavam de sua irritação incontida. Era uma lista sistemática de coisas que ela considerava erradas a meu respeito, e decidira recusar. Ela se incomodava quando eu esquecia o horário dos programas que combinávamos, e não me lembraria mais. Irritava-se quando eu deixava o carro na rua e esquecia de guardar na garagem, e não avisaria mais. Não gostava quando eu colocava roupas usadas no armário, e não ajeitaria. "Está marcado no horário que a gente marcou", "Está estacionado onde você deixou", "Está sujo desde que você usou". 

A clareza chega quando chega. Eu perguntei, razoavelmente calma:

- O que foi, Agnes? Você quer que eu vá embora?

Ela apenas me olhou em silêncio. Eu fiquei um instante parada, o elevador chegou, ela não abriu a porta, o elevador foi embora de novo.

Eu voltei para a sala, peguei a chave do carro e saí sozinha. Liguei no final do dia para avisar que só passaria no apartamento no dia seguinte, na hora do almoço, para pegar algumas roupas e coisas de necessidade imediata. O resto conversaríamos depois."